Padre expulso pela ditadura há 31 anos volta ao Brasil e quer reaver batina em Palmares (PE) - Por Aliny Gama


  • Padre italiano Vito Miracapillo --em foto de 2005-- que foi expulso do Brasil em 1980, época da ditadura
    Padre italiano Vito Miracapillo --em foto de 2005-- que foi expulso do Brasil em 1980, época da ditaduraO padre italiano Vito Miracapillo, 64, expulso do Brasil em setembro de 1980 pelos militares da ditadura, chega a Pernambuco na noite desta terça-feira (3). O religioso vem ao Brasil para assinar os papéis de revalidação do visto de permanência no país na sede da PF (Polícia Federal), em Recife.

Trinta e um anos depois de ser banido do Brasil, o padre obteve a decisão inédita do Ministério da Justiça, reavendo o visto de permanência, publicada no Diário Oficial da União no dia 18 de novembro de 2011.

O padre italiano foi pároco na cidade de Ribeirão (PE), ligado a Diocese de Palmares, entre os anos de 1975 a 1980. Durante o período que ele ficou à frente da paróquia de Ribeirão, desenvolveu trabalhos religiosos voltados para ajudar comunidades carentes e trabalhadores de cana de açúcar. Vito deverá participar das atividades religiosas em comemoração aos 50 anos da Diocese de Palmares, que começam no próximo dia 13.

Segundo o presidente da CNBB, região Nordeste 2, Dom Genival Saraiva de França, ao saber da decisão da Justiça, o padre Vito sinalizou o desejo de voltar a morar no Brasil. “Ele quer voltar para Ribeirão, mas vamos entrar em entendimento com a Diocese de Úmbria, no norte da Itália, porque o padre Vito desenvolve trabalhos religiosos há três décadas”, afirmou.


A expulsão

O padre Vito teve o visto cancelado em setembro de 1980 e foi expulso do Brasil depois que se recusou a celebrar duas missas impostas pela prefeitura na programação dos feriados de Sete de Setembro, independência do Brasil, e da Emancipação do Município de Ribeirão, no dia 11 de setembro.

O prefeito de Ribeirão à época, Salomão Correia Brasil, que pertencia ao antigo partido PDS, comunicou a recusa do padre ao então deputado estadual Severino Cavalcanti, também do PDS, que denunciou o pároco ao então ministro da Justiça Ibrahim Abi-Ackel, pela recusa ser um afronto à pátria. Dias depois os membros do STF (Superior Tribunal Federal) confirmaram a decisão por unanimidade, por 11 votos a zero.

Depois de ser expulso, o padre voltou para a Itália, onde permanece até hoje como pároco na região de Úmbria. Em um dos comunicados enviados a prefeitura e a Câmara de Vereadores de Ribeirão, o padre justificou a não realização das missas porque o país e o seu povo não viviam a independência por completo devido a ditadura militar.

“Faço cientes aos excelentíssimos senhores que não será celebrada a missa de ação e graças no dia 7 de setembro e no dia 11, na forma e no horário anunciados, isso por vários motivos, entre os quais a não efetiva independência do povo reduzido a condição de pedinte e desamparado em seus direitos”, informou o padre.

O presidente da CNBB, região Nordeste 2, Dom Genival Saraiva de França, afirmou que a Igreja Católica deu total apoio a decisão do padre e em uma das conversas que teve com ele “o padre destacou que a política jamais deveria ser misturada à religião”. “Sem consultarem, os políticos da região de Ribeirão colocaram a missa na programação alusiva ao dia Sete de Setembro. O padre recusou e isso foi apoiado pela Igreja”, disse França, destacando que tanto nos dias 7 e 11 de setembro o padre iria celebrar missas normalmente, mas “fora da programação política.”


Segundo Dom Genival, o padre “questionou aos governantes da época do município se existia mesmo liberdade para a tais missas”. “No dia Sete de Setembro daquele ano, o padre celebrou duas missas, uma na cidade e outra na zona rural. Não havia necessidade de celebrar nada mais em praça pública e isso não foi entendido pelo governo da ditadura”, explicou Dom Genival.

A decisão


A revalidação do visto de permanência do padre Vito Miracapillo, depois de uma ação ingressada pela Igreja Católica no Brasil, foi comemorada pela CNBB, região nordeste 2. Dom Genival destacou que a decisão foi vista como uma vitória. “Agora a Justiça foi feita. O padre já tinha obtido visto de turista e no governo de Itamar Franco foi lhe oferecido um outro novo visto, mas não era justo. O que queríamos era a invalidação da expulsão dele, pois foi uma injustiça. A revalidação do visto permanente é vista para nós como se ele nunca tivesse sido mandado embora do país.”

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Faleceu patriarca da Igreja Sagrada Espiritual em Angola

Líder da Igreja Sagrada Esperança Universal reitera apelo à paz