Difamação das religiões: os riscos à comunidade muçulmama e árabe residente no Brasil e os perigos de intolerância religiosa e de conflitos interreligiosos no País
Federação Árabe Palestina do Brasil, frente a eventos recentes
em que a comunidade árabe residente no Brasil é apresentada, por parte dos
grandes veículos de comunicação de massa, como vinculada ao “terrorismo”,
criminalizando-a por meio da demonização do islamismo, credo religioso de
grande parte desta comunidade e majoritário nos países árabes, manifesta sua
mais profunda preocupação, dada a gravidade dos mesmos e, mais, porque não são
atos isolados mas – e principalmente – integram um conjunto de táticas e
estratégias de agentes externos que buscam alcançar justamente este objetivo, à
semelhança do que já se dá nos EUA e em outros países, especialmente europeus.
Do que é mais recente, temos a reportagem da revista semanal
Veja, notória inimiga de políticas externas não alinhadas à dos EUA e visível
inimiga dos muçulmanos em geral e dos árabes em particular, mais
particularmente ainda dos palestinos. A reportagem que deu a chamada de capa: “A REDE DO TERROR NO BRASIL”, veiculada em sua edição de número 2211, de 6 de
abril de 2011, simplesmente criminaliza toda a comunidade árabe e muçulmana
residente no Brasil sem apresentar uma única prova, limitando-se, quando muito,
a citar algumas agências de segurança e inquéritos que jamais versaram acerca
do terrorismo e que, para muito além, até mesmo inocentaram os acusados daquilo
que exclusivamente foram acusados.
Não bastasse isso, a revista cita investigações já arquivadas e
personagens que vivem legalmente no Brasil, com seus negócios legais e abertos,
ao quais se refere como se estivessem escondidos em algum bunker, com ilações
tal qual o trecho do texto em que este veículo de comunicação afirma “…Ele
(Khaled Hussein Ali) foi flagrado
por Veja na porta de sua lan house”.
Mas isto partir da revista Veja, bem como de outros veículos de
comunicação de massa, dentre os quais se destacam os veículos do Grupo Globo,
não chega a ser novo ou assombroso, dado o papel negativo que cumprem no
Brasil, basicamente veiculando informações validando as políticas dos EUA para
o restante do mundo, o que tem implicado em ataque frontal à política externa
brasileira, à atuação do Brasil em organismos multilaterais, como a Organização
Mundial do Comércio (OMC) e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA),
ou no Conselho de Segurança da ONU e em suas comissões, dentre as quais a de
direitos humanos.
O que preocupa é que estas veiculações estão articuladas a um
plano de criminalizar a comunidade árabe-muçulmana residente no Brasil, do qual
participam diretamente o Governo dos EUA e sua agência de inteligência, a CIA.
E isto já não é assunto restrito aos afortunados pelas informações
privilegiadas, especialmente em decorrência de duas informações, de fontes
distintas, que desnudam esta ação direta dos EUA no Brasil.
Um exemplo paradigmático que oferece, no mínimo, indícios
válidos desta estratégia, é texto analítico recente de autoria de PETER BLAIR e KHATARINA GARCIA,
veiculado em 17 de fevereiro deste ano de 2011 (ANEXO 01),
no qual é desnudado que o Congresso dos EUA autorizou a Casa Branca a dobrar o
valor dos recursos destinados à compra de espaço na mídia de diversos países
com vistas à promoção de suas políticas e, claro, deslegitimação das políticas
destes países alvo, dentre eles o Brasil, cuja política externa independente
tem incomodado sobremaneira o governo estadunidense e os de alguns de seus
aliados. Tanto incomoda que somente para o Brasil a verba prevista para 2011 é
de gigantescos 120 milhões de dólares.
Um breve excerto deste texto assim expõe a questão:
“O Congresso dos Estados Unidos autorizou a
Casa Branca a dobrar os valores aprovados no orçamento de 2011 para gastos
relativos a propaganda e meios de comunicação contra líderes que contrariam os
interesses dos EUA no mundo, como é o caso de Muammar Khadafy, Mahmoud
Ahmednejad, Hugo Chavez, Evo Morales, Rafael Correa, Raul Castro, Daniel
Ortega, Cristina Krischner, Fernando Lugo, Kim Jo II. Os recursos devem ser
usados na compra de espaço na mídia dos países governados por estes líderes em
jornais, rádios, revistas e redes de televisão, que devem sempre se referir aos
mesmos como ditadores e receberem sempre orientação dos Adidos de Imprensa nos respectivos países ou senão houver relações
diplomática com estes, pelos agentes da CIA no país. O orçamento total do projeto é de hum bilhão
de dólares e só para o Brasil foram destinados 120 milhões para esse tipo de
ação.”.
Ou seja: trata-se de violação da soberania do Brasil, já de
plano, e um ataque inadmissível a suas instituições e interferência direta em
sua política interna, algo inconcebível pelo perigo que isso carrega. Basta ter
em conta que os EUA nunca atacaram militarmente um país soberano sem que antes
tenham interferido diretamente em sua política interna e o demonizado por meio
da propaganda mascarada de informação veiculada por veículos de comunicação de
massa que apresentam como notícia o que unilateralmente produzem as chamadas
“agências de notícias”, todas estadunidenses, francesas e inglesas.
Outra prova desta política é o recente vazamento do WikiLeaks
de correspondência diplomática (telegrama) da embaixada dos EUA no Brasil ao
Departamento de Estado, no
qual informa das medidas adotadas, bem como as que, a seu ver, devem ser
adotadas, com vistas a engajar o Brasil na difamação de religiões. Este texto
desvenda como os EUA pretendem instrumentalizar a relevante temática dos
direitos humanos para engajar o Brasil na difamação de religiões, bem como de
que forma isto se fará, tendo os grandes veículos de comunicação de massa como
instrumentos de proa. Aliás, sempre os mesmos veículos de comunicação que se
opuseram vigorosamente, por exemplo, ao Estatuto de Igualdade Racial e a toda
legislação de promoção da igualdade racial no Brasil, aí destacando-se a
política de cotas.
Novamente, um pequeno excerto da correspondência tornada pública pelo
Wikileaks ajuda a entender melhor como esta ação se dá: “Aumentar a atividade pela mídia e o alcance
das comunidades religiosas parceiras:
Até agora,
nenhum grupo religioso no Brasil assumiu a defesa da difamação de religiões.
Mas o Brasil é sociedade multirreligiosa e multiétnica, que valoriza a
liberdade de religião. Um esforço para difundir a consciência sobre os danos
que podem advir de se proibir a difamação das religiões pode render bons
dividendos. Grandes veículos de imprensa, como O Estado de S. Paulo
e O Globo, além da revista Veja, podem
dedicar-se a informar sobre os riscos que podem advir de punir-se quem difame
religiões, sobretudo entre a elite do país.
Essa embaixada tem obtido
significativo sucesso em implantar entrevistas encomendadas a jornalistas, com
altos funcionários do governo dos EUA e intelectuais respeitados. Visitas ao
Brasil, de altos funcionários do governo dos EUA seriam excelente oportunidade
para pautar a questão para a imprensa brasileira. Outra vez, especialistas e
funcionários de outros governos e países que apóiem nossa posição a favor de
não se punir quem difame religiões garantiriam importante ímpeto aos nossos
esforços.
Essa campanha também deve ser
orientada às comunidades religiosas que parecem ter influência sobre o governo
do Brasil, quando se opuseram à visita ao Brasil do presidente Ahmadinejad do
Irã, em novembro...”.
Mas é claro que estes textos e a análise que ensejam tem força
apenas relativa se não confrontados com os fatos, ou seja, com o que de fato se
dá no plano do terreno. E isto é facíl de aferir tomando como paradigmas dois
eventos recentes.
Destacando-se que a correspondência diplomática referida veio à
luz em 03 de abril deste ano de 2011,
a primeira grande pista que temos de esta estratégia já
estar em andamento é justamente a reportagem da revista semanal Veja – “A REDE
DO TERROR NO BRASIL” –, veiculada em sua edição de 6 de abril de 2011,
apenas três dias depois.
A segunda prova cabal de estar em andamento uma estratégia de
difamação do islamismo e de demonização da comunidade árabe residente no Brasil
são as injustificáveis ilações acerca do credo religioso de Wellington Menezes
de Oliveira, que às 8 horas da manhã do último dia 7, quinta-feira, matou 12 crianças
na Escola Municipal Tasso da Silveira, no Realengo, bairro da cidade do Rio de
Janeiro. Ainda que este tipo de crime seja marca registrada dos EUA, país no
qual estes episódios contam-se às dezenas e cujos autores dentre eles não há
nenhum muçulmano – aliás, nunca se informou o credo religioso seguido por estes
criminosos estadunidenses –, rapidamente repórteres, apresentadores e portais
de internet, sem nenhuma prova e baseando-se unicamente numa infamante
boataria, buscaram associar o criminoso ao Islã.
Este ímpeto de difamação do islamismo e de demonização da
comunidade muçulmana e árabe – esta, inclusive, não necessariamente apenas
muçulmana – residente no Brasil restou em parte freada diante da ausência
absoluta de menções a Maomé e Alá na carta deixada pelo criminoso. Mais curioso
é que na carta eram fartas menções de Deus e Jesus, assim como era pontuada de
não poucas citações e referências bíblicas. Misteriosamente, a partir desta
constatação, inclusive vindo à luz a igreja que frequentava, desapareceu o
interesse dos grandes veículos de comunicação pela fé do criminoso. As
insinuações, entretanto, permaneceram pontuando o faccioso noticiário de alguns
grandes veículos de comunicação.
Não menos perigoso é o ímpeto que estes mesmos veículos de comunicação,
obedecendo à mesma estratégia já mencionada, buscam colocar em campos opostos
os movimentos emancipatórios e de solidariedade das populações muçulmanas e
árabes residentes no Brasil, notadamente a de palestinos imigrados e seus
descendentes, e o movimento negro brasileiro. Na mesma reportagem da revista
Veja de 6 de abril de 2011, seu texto busca incriminar um dos objetos de sua
pretensa reportagem em crime de racismo, alegando que este teria disparado
spams direcionados a sites dos EUA incitando o ódio a judeus e negros.
O objetivo desta estratégia é claro: dividir e, talvez pior
ainda, colocar em campos opostos estes dois movimentos, que sempre foram
aliados sinceros contra adversários e inimigos comuns, táticos ou estratégicos,
verdade ainda vigente, especialmente frente ao papel cada vez mais agressivo
que estes mesmos adversários e inimigos desempenham no mundo atual. Caso
concreto e insofismável desta aliança sincera e desinteressada é o documento da
FEPAL de apoio ao ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL e às COTAS RACIAIS no Brasil.
Por fim, esta estratégia tem também outras agendas ocultas, das
quais uma é gravíssima: a aprovação pelo Brasil de legislação antiterrorista
nos moldes exigidos pelos EUA para moldar o país à cruzada estadunidense desde
os atentados de 11 de detembro de 2001 de intervenção armada mundo afora,
sempre sob o eufemismo da “guerra ao terror”.
No entendimento da FEPAL, esta legislação é impensável porque
visa única e exclusivamente criminalizar todos aqueles – pessoas ou movimentos
– que se opõem às políticas militaristas e intervencionistas dos EUA, bem como
criminalizar todos os movimentos sociais brasileiros que buscam afirmar seus
direitos sociais e humanos, dentre os quais poderíamos destacar o Movimento dos
Trabalhadores Sem Terra (MST), os movimentos de luta por moradia, os movimentos
negro e indígena, para citar poucos.
Com esta mesma legislação até mesmo a soberania do Brasil
restaria relativizada, visto que os EUA visam tornar, mesmo que
artificialmente, todas as fronteiras brasileiras palco de criminalidade
organizada e de tráfego de terroristas, plataforma discursiva já vigente para a tríplice fronteira objetivando prejudicar a consolidação do Mercosul e a
liderança natural do Brasil no continente.
Enfim, a FEPAL manifesta a este Conselho Nacional de Promoção da
Igualdade Racial (CNPIR) sua profunda preocupação frente a estes eventos, razão
pela qual requer seja o presente documento e seus anexos recebidos no mínimo
como RECOMENDAÇÃO, a ser encaminhada à Ouvidoria da Secretaria de Políticas de
Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), à Secretaria de Direitos Humanos, ao
Ministério da Justiça e ao Gabinete da Presidência da República, bem como aos
demais órgãos governamentais e organizações aos quais entender necessário
recebê-lo, para que tomem conhecimento desta manifestação e dos graves
elementos que a consubstanciam e ensejam e adotem as medidas cabíveis com
vistas à efetiva apuração destes e a adoção de medidas para coibi-los enquanto
isto é possível.
Brasília-DF, 14 de abril de 2011.
Fonte: http://www.megafone.inf.br
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