Recomendações da APT e Pastoral Carcerária sobre o Sistema Penitenciário Maranhense

Uma análise dos dados do sistema carcerário no MA, caracterizado pela superlotação, alto índice de presos provisórios e centralização dos estabelecimentos carcerários na capital, sinaliza uma situação de risco permanente que precisa ser debatida e abordada para que se possa conseguir uma mudança real e de longo prazo que vise a não repetição de trágicos acontecimentos.

Da APT e Pastoral Carcerária

As atrocidades ocorridas no Maranhão de violência extrema e brutal entre pessoas presas retratam o mais profundo descaso pelo princípio da dignidade humana por parte daqueles que detêm a responsabilidade de salvaguardar a integridade física e psíquica das pessoas sob sua custódia e velar pela segurança de seus cidadãos, dentro e fora dos presídios.

A Associação para a Prevenção da Tortura (APT) e a Pastoral Carcerária do Brasil vêm a público manifestar seu repúdio às gravíssimas violações de direitos humanos ocorridas no sistema carcerário maranhense e sua grande preocupação pela ausência de medidas concretas por parte das autoridades estaduais das três esferas de Poder, inclusive do Ministério Público, e do governo federal, para evitá-las.

Além disso, uma análise dos dados do sistema carcerário no MA, caracterizado pela superlotação, alto índice de presos provisórios e centralização dos estabelecimentos carcerários na capital, sinaliza uma situação de risco permanente que precisa ser debatida e abordada para que se possa conseguir uma mudança real e de longo prazo que vise a não repetição de trágicos acontecimentos.

Tanto a violência no interior do sistema penitenciário como nas ruas encontram suas raízes em fatores muito mais amplos e complexos, que vão além do sistema prisional, pautados num sistema político-social que alimenta a desigualdade social e econômica extrema, a corrupção endêmica, e a debilidade das instituições democráticas, o que, consequentemente, contribui para perpetuar uma situação de pobreza e vulnerabilização de grande parte de sua população. O Maranhão é hoje o Estado brasileiro com o segundo pior índice de desenvolvimento humano no país.

Recordamos que o Estado, ao privar uma pessoa de sua liberdade, assume a posição de garantidor dos seus direitos fundamentais e tem o dever de adotar todas as medidas que se façam necessárias para assegurar a observância de tais direitos, principalmente o direito à vida e a integridade física e psíquica. É simplesmente inadmissível que o Estado deixe as pessoas presas à mercê de sua própria sorte, mantendo-os em uma situação permanente de risco expostos à violência carcerária e abusos por parte de outras pessoas detidas.

A responsabilidade das autoridades do Maranhão é ainda maior porque essas mortes poderiam ter sido evitadas, vez que muitos relatórios e audiências públicas promovidos pela sociedade civil local denunciaram o agravamento da situação.

Desta forma, a APT e a Pastoral Carcerária instam as autoridades estaduais e federais que pautem sua gestão prisional pelo princípio da prevalência absoluta da dignidade humana e que tomem ações efetivas que proporcionem mudanças sistêmicas na gestão prisional e no sistema de justiça criminal, convocando a participação ativa da sociedade civil nacional e local na discussão e no processo de tomada de decisão. Dentre tais medidas, enfatizamos a necessidade de:

·       Federalização da apuração dos fatos, com a investigação imediata, imparcial e efetiva pelas mortes ocorridas e a devida responsabilização de seus autores imediatos e mediatos, ou seja, aqueles com posição de garantes da integridades física das pessoas privadas de liberdade, mas que  se omitiram em seu dever de agir.
·       Instituição do Mecanismo Nacional de Prevenção à Tortura e do Mecanismo Estadual de Prevenção à Tortura no Maranhão, em consonância com a lei federal 12.847 de 2013.
·       Efetiva participação das organizações da sociedade civil e movimentos sociais, de âmbito nacional e local, nas instâncias de controle das instituições penitenciárias, de segurança pública e judiciárias.
·       Superação do modelo atual baseado na construção de presídios para investir em alternativas penais e formas pacíficas de solução de conflitos.
·       Reestruturação da administração da justiça criminal no Maranhão, com especial atenção para a execução penal
·       Urgente ampliação do número de defensores públicos no estado




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Faleceu patriarca da Igreja Sagrada Espiritual em Angola

Líder da Igreja Sagrada Esperança Universal reitera apelo à paz