Nem Sexta-feira Santa, nem "Sexta-feira 13" – Por Luiz Antônio Araujo
Não existe religião sem ritual.
Para os fiéis das mais variadas crenças, reencenar um acontecimento perdido no
tempo é uma forma de reforçar o vínculo com uma religião, uma comunidade, uma
nação ou uma cultura.
Para um muçulmano pouco informado sobre o cristianismo
(sim, um indivíduo de fé islâmica pode passar uma vida inteira sem encontrar
pessoalmente um único cristão, e o mesmo acontece com praticamente todas as
religiões), a tradicional procissão do Morro da Cruz, na Páscoa, em Porto
Alegre, pode parecer incompreensível. Esse mesmo muçulmano pode considerar
sangrento e gratuito o hábito dos católicos filipinos de se deixar pregar em
cruzes na Sexta-feira Santa.
Para nosso olhar brasileiro,
algumas cenas do feriado muçulmano da Ashura parecem ter saído de um filme de
horror. Seria um equívoco, porém, concluir que os muçulmanos xiitas, alguns dos
quais têm o costume de ferir severamente os próprios corpos nesse dia, sejam
neuróticos ou masoquistas.
Em primeiro lugar, o número de xiitas que se
autoflagelam na Ashura é quase tão insignificante quanto o de católicos que se
deixam crucificar na Páscoa. Em segundo, os que assim o fazem não estão
expressando ódio de si mesmos, mas lembrando um fato ao mesmo tempo histórico e
mítico: o Massacre de Kerbala.
No ano de 680, em meio a uma
disputa entre árabes muçulmanos pela sucessão do profeta Maomé, o neto
deste, Hussein, aspirante ao posto de califa, foi massacrado juntamente
com familiares e seguidores na localidade de Kerbala, hoje situada no Iraque.
O algoz de Hussein foi o califa Yazid,
e o fato marcou a divisão permanente do Islã entre dois ramos, o dos vencedores
e o dos vencidos em Kerbala. Os vencedores constituem o que se chama Suna (em
árabe, “costume”) e consideram que o comando da comunidade muçulmana cabe a
qualquer indivíduo devoto apontado pelos demais.
Os vencidos formam a Xia (de
“Xia t’Ali“, ou “partido de Ali“, em árabe, em referência ao imã Ali,
sobrinho e genro de Maomé e pai de Hussein), e consideram que o califado foi
usurpado de Hussein, a quem caberia o posto por ser neto de Maomé. Os sunitas
constituem a maioria dos muçulmanos no mundo inteiro.
Por razões históricas, os
xiitas estão concentrados principalmente no Iraque, no Irã, na Síria e
no Líbano, embora existam comunidades menores em todo o mundo islâmico, do Egito à Índia.
A Ashura não é tão bizarra quanto
parece. Ou, pelo menos, não tanto quanto qualquer outro tipo de comportamento
humano.
Fonte: http://wp.clicrbs.com.br
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