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sábado, 18 de fevereiro de 2012

A intolerância democrática


Nos países da Comunidade Européia vem ganhando vulto um escândalo de cariz religioso. A comunidade muçulmana propôs aos habitantes da Europa reduzir ao mínimo a criação de cães. Depois disso, os europeus vieram com uma outra proposta. 

Por exemplo, uma escola de cozinha em Copenhaga anunciou que se recusava a ensinar estudantes muçulmanos e judeus. O principal argumento apresentado é a necessidade de provar no processo culinário certos produtos, cujo consumo é proibido categoricamente pelos cânones de ambas as religiões.

O muçulmano Ikram Kormaz, cidadão dinamarquês, tornou-se a primeira “vítima” desta nova decisão da escola. Ele começou a frequentar o curso de cozinheiro em princípios de janeiro, mas anteriormente ninguém se preocupava com a sua confissão religiosa e ninguém lhe exigia degustar carne suína ou provar vinho. Mas agora deram-lhe a entender claramente que o seu estudo da arte culinária nesta cidade está concluído e que a continuação de estudos não tem sentidos se ele não renunciar, é claro, à leis canônicas do Islã. 

O primeiro vice – presidente da Direção Espiritual Central dos Muçulmanos da Rússia Albir Krganov declarou em entrevista à “Voz da Rússia” que exigir a violação dos cânones religiosos é um “lance proibido”, que não corresponde à política de tolerância preconizada tanto na Europa de hoje.

"Os Estados democráticos, - uma vez que se chamam democráticos, - devem ser democráticos até o fim e não exercer pressão sobre os fiéis nas questões referentes à alimentação. Creio que a Europa de hoje que dá ao mundo inteiro um exemplo de pluralismo de opiniões e de princípios democráticos, deve observar, ela própria, as leis pelas quais pugna. Devem ser levados em consideração os direitos dos cidadãos de diversas religiões e de diversas opiniões."

No entanto, muitos europeus reputam que a exigência inesperada da escola de cozinha de provar os produtos com que os alunos trabalham, é perfeitamente justa, pois é disso que depende em grande parte tanto a qualidade dos pratos servidos, como a reputação de restaurantes e cafés. 

Resulta, porém, que doravante os adeptos da doutrina do profeta Maomé e das leis da Tora não terão direito de cursar escolas culinárias laicas e de trabalhar nelas e podem apenas fazê-lo nos estabelecimentos em cujas portas está o cartaz com a inscrição “halial” ou “kashrut”, isto é, nos locais em que a comida é feita de acordo com os cânones religiosos. Este é um problema criado artificialmente  e sempre se pode encontrar uma saída, opina o rabi de Moscou, Aleksandr Lakchin.

"Há cerca de vinte anos um precedente idêntico deu-se nos EUA. Em Boston existe uma academia culinária, - uma das mais famosas do mundo. Um dia matriculou-se nela um judeu que observava todas as prescrições da sua religião. Ao ingressar ele apresentou várias exigências. Por exemplo, pediu que não o fizessem misturar produtos de carne e de leite, comer carne suína, etc. A administração deste estabelecimento de ensino foi ao seu encontro e chegou a fazer pequenas emendas nas receitas de alguns pratos. Portanto, qualquer problema pode ser resolvido."

Os peritos estão convencidos de que esta decisão da escola de cozinha de Copenhaga pode provocar uma nova onda de confrontação entre os cristãos e representantes de outras religiões, em primeiro lugar, os muçulmanos. 

Já há vários anos os políticos europeus aprovam leis que restringem ou, inclusive, proíbem o uso de símbolos e vestes religiosos, a construção de minaretes e de mesquitas nos seus países, revistas publicam caricaturas do profeta Maomé e alguns sacerdotes cristãos propõem, inclusive, queimar publicamente o Alcorão e outros livros sagrados dos muçulmanos.

Agora a Comissão Dinamarquesa para a Igualdade de Direitos juntou-se à análise do incidente neste estabelecimento de ensino. É possível que os estudantes muçulmanos e judeus sejam equiparados aos alérgicos. 

É que a não proíbe aos alérgicos, que não podem consumir certos tipos de produtos, receber instrução culinária neste estabelecimento de ensino, nem lhes é exigido provar os pratos feitos.

Estudos Teológicos: A Bíblia e o diálogo entre religiões


O Centro de Reflexão Cristã (CRC) promove um ciclo de colóquios, de 28 de fevereiro a 19 de junho, sobre:

 «A Palavra de Deus: A Bíblia e o diálogo entre religiões» 

a realizar no Centro Nacional de Cultura, em Lisboa.

«Novas hermenêuticas e diálogo entre Cristãos, Judeus e Muçulmanos»; «O Apocalipse e os Milenarismos» e «Como ler as Bíblias (Judaica e Cristã) e o Alcorão» são alguns dos temas das conferências, revela um comunicado enviado à Agência ECCLESIA.

Programa:

Colóquio I

28 de fevereiro de 2012
«Novas hermenêuticas e diálogo entre Cristãos, Judeus e Muçulmanos» - pastor Dimas de Almeida e padre Joaquim Carreira das Neves, O.F.M.


Colóquio II

20 de março de 2012
«O Apocalipse e os Milenarismos» - padre Joaquim Carreira das Neves, O.F.M; José Augusto Ramos e pastor Timóteo Cavaco


Colóquio III

17 de abril de 2012
«Como ler as Bíblias (Judaica e Cristã) e o Alcorão» - rabino Eliezer di Martino; Faranaz Keshavjee e padre Joaquim Carreira das Neves, O.F.M.


Colóquio IV

19 de junho de 2012
«A Compaixão que nos une» - Abdool Karim Vakil; Joshua Ruah e padre Peter Stilwell


Encontro Regional fortalece as religiões de matrizes africanas


O 6º Encontro Regional das Águas, no último domingo (12), movimentou o Parque Pinheirinho. O evento, realizado pela Prefeitura de Araraquara/SP – por meio da Coordenadoria Executiva Especial de Promoção da Igualdade Racial – reuniu aproximadamente  500 pessoas entre religiosos e simpatizantes de Araraquara e região. 

 O Encontro que celebra Oxum, a orixá das águas doces, filha de Oxalá e Iemanjá tem como objetivo fortalecer as religiões de matrizes africanas e proporcionar uma maior integração entre os seus adeptos. Alessandra de Cássia Laurindo, coordenadora municipal de Promoção da Igualdade Racial, lembra que “Araraquara, mais uma vez, dá o exemplo da respeitabilidade a todas as religiões”.

 Os rituais e oferendas praticados nas religiões de matrizes africanas compuseram as atividades do evento, aberto a quaisquer interessados. “O encontro é uma forma de dar maior visibilidade as religiões de Matrizes Africanas, com o intuito de minimizar as discriminações sofridas por esse segmento”, disse a coordenadora, lembrando que é fundamental combater a intolerância religiosa, respeitando os cidadãos e promovendo a igualdade, independente de cor, raça e religião. “Só assim seguiremos seriamente em nosso propósito que é o de uma Araraquara sem preconceitos”.

 Durante a cerimônia, inicialmente, cada terreiro fez os seus trabalhos separadamente. Depois, todos se uniram para uma grande homenagem a Oxum. Neste momento, os filhos de fé cantaram pontos de Oxum e fizeram seus pedidos e oferendas, em balaios, à Rainha das Águas Doces. Entre os presentes, foram oferecidos: bonecas, doces, frutas, perfumes, pedidos, flores e bijuterias douradas. Aparecida Benedita Rodrigues entoou cantigas em homenagem a Oxum.

 Luiz Zacarelli, secretário municipal de Governo, representou o prefeito Marcelo Barbieri e ressaltou o objetivo do governo popular, que é o de estar voltado realmente para todos, independente de credos religiosos. O evento contou com a participação de Drº Marco Antonio Zito, presidente do Conselho de Participação de Desenvolvimento da Comunidade Negra do Estado de São Paulo

O presidente parabenizou a iniciativa e disse que o Conselho Estadual – do qual Alessandra é integrante – está à disposição de Araraquara e região, para impulsionar ações como essa, dando a respeitabilidade que a religião necessita. 

 O presidente da Câmara Municipal, Aluísio Braz, elogiou o evento “que simboliza o respeito às religiões de matrizes africanas” e valorizou a visita do Dr. Marco Zito, “no sentido de Araraquara – através das ações do Centro de Referência Afro – ter o reconhecimento que merece nas questões raciais”.

 O presidente da FECUMSOL (Federação Espírita de Umbanda e Candomblé do Estado de São Paulo “Morada do Sol”), José Francisco Tomé dos Santos, salientou a dificuldade de fazer um evento desse porte e da necessidade dos religiosos se assumirem como umbandistas.

 Alessandra finalizou dizendo que o governo municipal está a disposição, através do Centro de Referência Afro, para ouvir e encaminhar todas as demandas das comunidades de terreiros. Para ela, a união é de fundamental importância para a realização de ações que possam ajudá-los a desenvolver melhor os trabalhos. 

 Estiveram presentes ainda: Kiko Salvador, presidente do COMCEDIR; Drª Rita de Cássia Corrêa Ferreira, presidente da Comissão da Igualdade da OAB- Araraquara – entre outras autoridades.


Sou 100% francês, mas para eles continuo sendo um imigrante, diz tunisiano que mora na França - Por Le Monde


Pelo telefone, era possível sentir que ele estava muito nervoso. “Você ouviu o que ele disse? A respeito das civilizações? Mas não é possível, será que nunca vão parar com isso?” Havíamos marcado um encontro para entender sua raiva. 

E foi um homem jovial que desceu para nos receber nesta tarde, no andar de baixo de seu prédio localizado no conjunto habitacional Cité des 4000, desta vez do lado norte, logo abaixo de uma alça de acesso.

Aos 54 anos, Mohammed Aouichi, divorciado e pai de três filhos, é agente logístico da UPS no aeroporto de Roissy. “Você vai conhecer meu palácio”, ele brinca, entrando em sua quitinete “melhorada”.

Mas seu rosto se fecha quando falamos em Nicolas Sarkozy. “Não aguento mais ele. Nem ele, nem seus ministros Guéant, Hortefeux, Besson. Desta vez, foi Guéant nos dizendo que existem civilizações melhores que outras, antes foi Hortefeux, que dizia ‘quando tem um deles, tudo bem, é quando são vários deles que temos problemas’... E, toda vez, Nicolas Sarkozy os apoia. Eu não entendo; na condição de presidente, de ministro, tem certas frases que você não deve dizer. Você não pode incitar a discriminação e o ódio entre os povos...”

Nascido na Tunísia de pais argelinos, Mohamed Aouichi chegou à França em 1962. Assim como outros habitantes da comuna de La Courneuve que encontramos, ele passou seus primeiros anos na França em uma favela, em Pantin, antes que sua família se mudasse para um apartamento todo equipado do recém-terminado bloco Balzac. “Banheiro, gás e quartos de verdade! Para nós, que estávamos saindo da favela, era um luxo!”, ele lembra. “Era uma outra época: ainda havia grandes áreas verdes, e o leiteiro entregava seu leite com sua charrete!”. Ele viveu ali por 25 anos, e nunca mais deixou a cidade desde então.
 

“Estão cansados das misturas”
 

Ao considerar que “as civilizações não são todas iguais”, Claude Guéant afirmou não visar nenhuma civilização em particular. Mas ele citou, ao acaso, dois exemplos se referindo ao islamismo: o uso da burca e as orações de rua.

Mohamed Aouichi se apresenta como um “muçulmano moderado”. Ele é contra o uso do véu, não gosta de ver gente rezando na rua. Mas essas palavras o magoaram, pois se falou em uma civilização como um todo. 

E ele, então, francês, muçulmano, filho de argelinos criado na França, à qual civilização ele pertence, na visão de Claude Guéant? E na visão daqueles que o escutam? “Estão cansados de misturas. Toda eleição presidencial é a mesma coisa, querem assustar com os imigrantes, os muçulmanos, os subúrbios”.

Uma longa passagem da entrevista à “Figaro Magazine” de sábado (10), na qual Nicolas Sarkozy esboçou os contornos de seu futuro projeto presidencial, se dedicava à imigração. Ele falou especificamente em duas ondas: uma antiga, “de uma comunidade cultural e religiosa muito próxima de nossa história” que “pudemos integrar ao caldeirão republicano”, e uma outra “mais recente” que “é diferente”. 

Ao dizer que era contra os estrangeiros poderem votar nas eleições locais, ele alegou o risco de ver cantinas se tornando “halal” [que segue os preceitos islâmicos] e piscinas reservadas para mulheres.

“Os políticos misturam tudo para mexer com o medo das pessoas. E depois eu vejo no dia a dia esse medo nos olhos delas, olhares de reprovação para mim, pelo fato de que tenho um emprego, por exemplo...” ele explica. 

“Tenho nacionalidade francesa, servi o Exército, cantei a Marselhesa. Respiro e durmo  a França, sou 100% francês. Mas, para eles, continuo sendo um imigrante. Então o que devo fazer? Cheguei à França bem novinho, fiz todos meus estudos na França, sou um ardoroso defensor da laicidade, sou um homem honesto, então me diga: o que mais preciso fazer para que simplesmente me vejam como um francês?”, ele se revolta.

E diz ainda: “Estou cansado do fato de que sempre só olhem para o passado, inclusive que certos imigrantes ainda se refiram à colonização. Acabou, é preciso seguir em frente, foi isso que ensinei a meus filhos. Mas, toda vez, essas declarações estigmatizantes nos jogam para trás.”

Ele fala sobre seus três filhos: o mais velho trabalha com segurança, a segunda estuda administração e a última está prestando vestibular para literatura. “Não é por mim que isso me magoa. É por eles. Eles adoram a França e não quero que eles passem pelo que passamos, pela discriminação”. 

Em alguns minutos, ele listou os exemplos de jovens com Bac+5 [algo equivalente a um mestrado] que não conseguem encontrar emprego apesar de seus diplomas. “Hoje, meus filhos sonham em ir trabalhar no exterior. Um amigo foi morar na Austrália: lá, seu nome magrebino nunca causou problemas!”, ele conta.

Para a eleição presidencial, ele fez sua escolha: no primeiro turno, votará em François Bayrou. “Porque, ao contrário de François Hollande, ele não promete mundos e fundos. Aqui, desde Mitterrand, não se acreditam em belas promessas. Bayrou é sincero: ele nunca escondeu as dificuldades. E ele tem uma postura presidencial, ele nunca eleva o tom de voz. Ele não procura incitar o ódio entre as pessoas dizendo que umas são melhores que outras”.

“Liberdade, igualdade, fraternidade - acredito nisso. Mas seria bom que houvesse fraternidade também, para que a França reencontrasse seu prestígio”, ele conclui antes de acrescentar: “É um país que possui tantos belos valores, não podemos aceitar que uns poucos os sabotem, falando qualquer coisa.”

"Meus valores para a França” era o título da grande entrevista através da qual Nicolas Sarkozy esboçou sua campanha.

Lápides encontradas no México revelam mitos da cultura pré-hispânica - Por Agencia de Noticias El Pais


O centro da agitada capital do México ocultava um dos grandes segredos da cultura pré-hispânica. Um grupo de arqueólogos descobriu em frente ao Templo Mayor asteca 23 lápides de cerca de 550 anos de antiguidade, que mostram mitos da cultura mexicana como o nascimento do deus da guerra, Huitzilopochtli, e a origem da Guerra Sagrada.
As pedras gravadas, feitas de tezontle (rocha vulcânica) e localizadas no final de 2011 na Plaza Manuel Gamio, representam serpentes, prisioneiros, ornamentos e guerreiros que se referem à origem da antiga cultura mexica, segundo explicou em um comunicado o Instituto Nacional de Antropologia e História do México (Inah).
A descoberta ocorreu durante os trabalhos de supervisão arqueológica anteriores à criação de um novo acesso ao museu do Templo Mayor. Uma vez terminados os trabalhos de restauração e pesquisa para determinar a existência de alguma oferenda embaixo das lápides, será um piso de vidro para que os visitantes possam admirar as 23 lápides.
Possivelmente as gravações foram orientadas para o que foi o centro de adoração de Huitzilopochtli, o que presume que correspondam à quarta etapa da construção do Templo Mayor (1440-1469), segundo o pesquisador Raúl Barrera, responsável pelo programa de arqueologia urbana do Inah. O Templo Mayor, edificado no que é hoje o Zócalo da capital mexicana e áreas vizinhas, foi o centro mais importante da vida religiosa dos mexica.
Os vestígios pré-hispânicos têm grande valor arqueológico, já que é a primeira vez que se encontram dentro do que foi o recinto sagrado da antiga Tenochtitlan e podem ser mostrados "à maneira de documento iconográfico um discurso que narra certos mitos dessa antiga civilização", segundo o arqueólogo.
De acordo com o mito do nascimento de Huitzilopochtli, a deusa da terra e da fertilidade, Coatlicue, engravidou quando uma pluma entrou em seu ventre enquanto varria. Incomodados com isso, seus filhos, 400 guerreiros surianos (na língua náhuatle "centzonhuitznahua") e a deusa da lua, Coyolxauhqui, decidiram ir à montanha de Coatepec, onde morava a grávida, para matá-la. 
"Ao chegar lá", explica o arqueólogo Barrera, Coyolxauhqui e os guerreiros enfrentaram Coatlicue e a decapitaram. Nesse momento nasceu o deus da guerra Huitzilopochtli, que enfrentou os guerreiros e matou sua irmã, a qual desmembrou".
A lenda sobre a origem da Guerra Sagrada entre os mexica, descrita nos códigos Chimalpopoca e Boturini, estabelece que durante o percurso que realizaram de Aztlán até o lago de Texcoco, no vale do México, onde edificariam sua cidade, baixaram do céu os guerreiros estelares do norte, chamados em náhuatle mimixcoas, que foram enfrentados, derrotados e sacrificados pelos tenochcas.
"Os dois mitos se relacionam com o conceito de uma batalha estelar, na qual o deus da guerra e do sol, Huitzilopochtli, sai vitorioso do confronto com os 400 guerreiros do sul e Coyolxauhqui, o que deu origem às estrelas (combatentes mortos) e à lua (ao lançar a cabeça de sua irmã decapitada ao céu)", indicou Barrera.
As imagens representam oito serpentes com as bocas abertas, um escudo de guerra ou chimalli com figuras de caracóis e contas de pedra, e dardos em direção à parte inferior, e traços que talvez simbolizem jatos de sangue, segundo explicaram Lorena Vázquez e Rocío Morales, arqueólogas envolvidas na pesquisa.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012


A "Linha de Pesquisas Religião e Movimentos Sociais"(PPCIS/UERJ), o "Grupo de Estudos do Cristianismo" (PPCIS/UERJ), o "Núcleo Religião, Gênero, Ação Social e Política" (Projeto PCRI/UFRJ) e o  "Centro Latino-Americano de Estudos do Pentecostalismo" (Projeto PCIR/UERJ)
convidam para:
       7 de março - quarta-feira

        10 hs - Palestra “Globalização, Religiões e o Secular"
José Casanova (Georgetown University)

        14 hs - Mesa Redonda "Movimento Pentecostal-Carismático no Contexto da Laicização e Globalização"
Paul Freston (Wilfrid Laurier University, Canada)
Maria das Dores Campos Machado (UFRJ)
Cecília Loreto Mariz (UERJ)
Brenda Carranza (PUC Campinas)
Debatedor:
José Casanova (Georgetown University)


Local: Auditório PPCIS - sala 9037 - 9º andar - Bloco F
Pavilhão João Lyra Filho, UERJ

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Sem empregos e educação, milhões ficam à margem de crescimento brasileiro


Ao chegar de carro por uma estrada de terra arenosa, uma placa dá as boas-vindas a Assunção do Piauí, "a capital do feijão". Mas as letras desbotadas, quase apagadas, deixam claro que a principal atividade econômica local já viu melhores dias.

Na pequena cidade, a 270 km de Teresina, as colheitas fracas estão fazendo muitos desistirem de plantar feijão.

"Aqui é assim, a gente só trabalha no escuro. Num ano dá e no outro não dá", diz a dona de casa Francisca Pereira Moreno, mãe de cinco filhos.

Depois de conversar com alguns moradores de Assunção, perguntar onde cada um trabalha parece perder sentido. Os principais empregos da cidade são na prefeitura local, mas para adultos como Francisca, que não sabe ler nem escrever, a única opção está na roça ou nos serviços domésticos. Sem alternativas, a maioria sobrevive do Bolsa Família.

"Tem que ter o Bolsa Família. Porque a renda aqui do feijão não está dando dinheiro. Dá R$ 60, R$ 70", fiz Francisca.

A cidade é um dos retratos de um Brasil que ficou praticamente à margem do crescimento econômico nacional registrado nos últimos anos e que tem colocado o país próximo de economias consideradas de primeiro mundo como a Grã-Bretanha.

Apesar do recuo constante da pobreza desde o início do Plano Real, em 1994, e da emergência da classe C, na última década, o país ainda tem focos de pobreza extrema que se caracterizam por baixo rendimento domiciliar, acesso limitado a serviços como saúde e educação e poucas perspectivas de trabalho para os moradores locais.

Oportunidades insuficientes

"Com o crescimento e a geração de empregos, uma parte da população saiu da pobreza extrema. (Mas) as oportunidades não foram suficientes para todos - sobraram os com menos condições de aproveitar, como os que não tinham vínculos com o mercado de trabalho ou acesso à Previdência e a assistência social", explicou Rafael Osório, pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas).

Segundo o Censo 2010, em média 8,5% da população brasileira ainda vive com renda per capita mensal de até R$ 70. Isso equivale a cerca de 16,2 milhões de pessoas - praticamente a população do estado do Rio de Janeiro.

Com 7,5 mil habitantes, Assunção do Piauí, visitada pela BBC Brasil em janeiro, teve em 2010 o 10º pior rendimento per capita domiciliar do país - uma média de R$ 137 reais, contra R$ 1.180 de São Paulo.

A taxa de analfabetismo é de quase 40% entre pessoas com 15 anos ou mais. A cidade tem quase 1.500 famílias beneficiárias do Bolsa Família.

"Muitos ficam na fila de espera (do programa) porque a Assunção já extrapolou a cota que o Ministério do Desenvolvimento estipula para cada cidade", diz a assistente social Ana Alaídes Soares Câmara, que trabalha no Centro de Referência de Assistência Social da cidade.

'O terço mais difícil'

Desde o Plano Real, a pobreza caiu 67% no Brasil, algo inédito na série estatística, disse à BBC Brasil o pesquisador Marcelo Neri, do Centro de Políticas Sociais da FGV. "Falta o último terço, que é o mais difícil da jornada."

Para Neri, é possível que o número de extremamente pobres seja até menor do que o estimado pelo Censo, se for levada em conta a renda obtida em transações não monetárias, como trocas e agricultura familiar.

"Pelo Pnad (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios, também do IBGE), essas pessoas seriam 5,5% da população", disse o pesquisador da FGV.

A incerteza a respeito do tamanho dessa população revela, na verdade, uma boa notícia: como o grupo de extremamente pobres está cada vez menor, eles ficam pouco representados na amostra geral dos brasileiros, explicou Rafael Osório, do Ipea.

"As pessoas extremamente pobres são mais difíceis de se investigar. Algumas sequer são achadas, não interagem com o Estado, não têm documentos, e o acesso a elas é complicado", disse.

Além disso, a pobreza extrema não é apenas uma questão de renda: diz respeito também à falta de acesso a serviços básicos, como saneamento, moradia e educação de qualidade, e ao isolamento em relação ao mercado de trabalho.

Faltam atividades econômicas

Mas um relatório do Ipea tenta traçar um perfil desse Brasil que demora a crescer: em 2009, 41,8% das famílias extremamente pobres eram formadas por casais com uma a três crianças; 29% eram agricultores e 34% eram inativos (não trabalhavam nem procuravam emprego).

Dados do Censo 2010 indicam que muitos desses bolsões extremamente pobres se concentram em cidades de porte mediano, de entre 10 mil e 50 mil habitantes.

"São cidades onde faltam atividades econômicas", explicou Osório. "Muitas têm poucos atrativos para empresas e dependem cada vez mais de políticas sociais, e algumas têm um vácuo generacional (sua população economicamente ativa migra em busca de empregos)."

Mas o pesquisador ressalva que não se trata de uma população fixa e estagnada: "Uma parcela tem rendimento incerto e transita entre uma camada de renda e outra. É o caso, por exemplo, de um guardador de carro - se ele ficar doente, perde a renda (e passa a figurar entre os extremamente pobres)".

Estratégias

Como, então, combater essa pobreza extrema?

A presidente Dilma Rousseff lançou como uma das prioridades de seu governo o programa Brasil Sem Miséria, que tem a ambiciosa meta de erradicar a pobreza extrema até 2014 e que foca as pessoas com renda per capita mensal de até R$ 70.

Iniciado em junho do ano passado, o plano contém ações que complementam o Bolsa Família, com programas para fomentar o emprego, a capacitação profissional e atividades econômicas locais, bem como o aumento da oferta de serviços públicos como saúde, educação e saneamento.

Os especialistas ouvidos pela BBC Brasil elogiam o foco estabelecido pelo programa, mas o projeto tem óbvias dificuldades em levar serviços, renda e oportunidades para as pessoas mais excluídas.

"É preciso localizar (as populações empobrecidas), levar serviços públicos, com agentes sociais. É algo mais caro, mais artesanal", afirmou Neri, da FGV.

Para Osório, uma alternativa seria aumentar os valores pagos pelo Bolsa Família. "A maior parte dos extremamente pobres já faz parte do programa. Se aumentarem os valores, daremos um baque na pobreza."

Mas os pesquisadores concordam que o grande estímulo para a saída da pobreza é a geração de empregos - e o desafio do Brasil é conseguir gerar vagas em áreas mais pobres justamente num momento de desaceleração econômica.

"Gerar empregos depende, em última instância, da economia", disse Osório. "E o cenário é adverso, apesar de ser o melhor caminho. Isso pode não ocorrer com a mesma intensidade do que nos anos de crescimento."

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Não deixemos nos reduzir a véus, sotaques ou crenças - Por *Marguerite Abouet, Mehdi Thomas Allal, Sophia Aram, Yagoutha Belgacem, Frédéric Chau, Baya Kasmi, Karim Miské, Rosa Moussaoui, Yannick Noah*


Nós, que somos filhos herdeiros da imigração, perguntamos: quantas vezes será preciso gritar? Quantas vezes será preciso repetir? Somos franceses! Não podemos mais suportar que certos representantes desta República nos ataquem, nos constranjam, nos humilhem, nos acusem...

Como aceitar o fato de que os ministros desta República laica se recusam a entender que a religião é uma escolha, não um nascimento ou uma cor de pele, que a religião é um assunto particular, e não público.  Está na hora de certos representantes do povo francês pararem de dar lições a seus compatriotas, de semear confusão entre “civilização” e “política”, “cultura” e “cidadania”, indo além do sentido das palavras de nossa língua francesa, como a complexidade da história, e a diferença entre as ideias e os povos, e o mesmo tanto de aproximações que parecem haver lá para mascarar a indizível noção de “raça”...

A civilização francesa não pertence a nossos representantes atuais mais do que a nós todos! Nós, filhos da imigração, franceses entre os franceses, nos recusamos a continuar sendo acusados, usados, caricaturados para incutir medo e ódio. Ontem, foram os espanhóis, os portugueses, os italianos, os judeus. Hoje, a cada dia infunde-se mais medo do muçulmano, e já se começam a ver acusações aos chineses, aos romenos...

Apesar de nossas diferenças, apesar de sermos uma multidão e apesar de nossa diversidade, vamos lhes mostrar que somos unidos. Mostremos-lhes que somos como os outros. Somos cidadãos franceses.

Não temos intenção de invadir ou de dominar, estamos aqui do jeito que estamos. Estamos em casa. Não somos vítimas, apesar da discriminação na hora de procurar emprego, apesar das prisões só com base na aparência, apesar da violência das declarações repetidas continuamente pelos ministros da Imigração há cinco anos.

Não somos vítimas, não somos revanchistas. E embora uma minoria de franceses nos aponte como estrangeiros, sabemos que grande parte dos franceses há muito tempo nos considera como um deles. Devemos lutar para assumir nosso lugar. Nossos lugares na República, nossos lugares no centro da Assembleia Nacional, dos partidos políticos. Porque essas três palavras “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” devem ter o mesmo sentido para todos os franceses!

Não deixemos nos reduzir a véus, sotaques ou crenças! Eles nos rejeitam, não vamos nos afastar! Esse assédio moral em relação aos “muçulmanos”, à “gentalha”, aos “malandros” que somos, ataca o sistema nervoso. É preciso vivê-lo para entender! Ele penetra em todos os poros da pele, causa vontade de “você não gosta de mim? bem, também não gosto de você!”, vontade de assobiar o hino nacional, vontade de paranoia e de amargor, vontade de voltar às origens...Não vamos lhes dar esse prazer.
 

Nossos pais trilharam o caminho, vieram de todas as partes do mundo e se estabeleceram aqui. Somos daqui e aqui vamos ficar. Não nos esqueceremos de onde viemos, não precisamos renegar nossa história para entrar na história da França. Nós somos franceses. A bandeira francesa é nossa. O hino nacional é nosso! A laicidade é nossa! Vamos nos unir em toda a França, independentemente de nossas origens, todos juntos e igualmente franceses! Vamos agitar o azul, o branco e o vermelho acima de nossas cores e vamos lhes mostrar nossos títulos de eleitores. Estamos em casa!
* Marguerite Abouet é escritora; Mehdi Thomas Allal é conselheiro pedagógico; Sophia Aram é humorista; Yagoutha Belgacem é diretora da Plataforma Siwa, membro do Manifesto das Liberdades; Frédéric Chau é ator; Baya Kasmi é roteirista; Karim Miské é cineasta; Rosa Moussaoui é jornalista; Yannick Noah é cantor.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Alunos sentem orgulho de seus mestres e criam laços de afeto, diz pesquisa


De acordo com a pesquisa histórica realizada por Françoise Waquet, diretora de pesquisa do CNRS (Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França), mestres e discípulos criam um vínculo emotivo semelhante a de pais e filhos.


Produto desse estudo, e com um título condizente, "Os Filhos de Sócrates" percorre séculos de história e reúne exemplos das mais diversas áreas, apresentando a figura universal do mestre, cujo arquétipo é Sócrates.

O filósofo não ficou famoso apenas por ser o ideal de professor, mas também pela fama de seus alunos, como Platão. O volume demonstra a diversidade e a complexidade de uma relação fundada no poder e no afeto, desvelando "um laço da alma".
Essa relação pessoal passar a existir como o modo de transmissão do verdadeiro saber, em contraste com o conhecimento dos livros. Abaixo, leia um trecho do livro.
A honra de ser aluno
A notoriedade do mestre também atinge o discípulo, ela se incorpora a seu capital. Isso é particularmente nítido em diversos rituais universitários. Por espécie de efeito especular, a honra prestada ao mestre se reflete no discípulo.
As coletâneas são frequentemente organizadas por discípulos, muitas contendo bibliografia e biografia do homenageado, depoimentos, artigos. Seus nomes podem, portanto, aparecer várias vezes no volume, às vezes na folha de rosto, próximo ao do mestre. 
Ademais, o elogio do mestre a coletâneas explicitamente apresentadas como a melhor prova de fecundidade de um ensinamento - lembrando "do fruto se julga a árvore" das coletâneas Folena - reverte aos autores de boas contribuições. A mesma demonstração se poderia fazer para as cerimônias de jubileu, que são igualmente uma representação elogiosa dos discípulos. 
Aí também os discursos unem o mestre e os alunos na mesma celebração. Afirmar, como no jubileu do professor de Direito Paul-Frédéric Girard, que "o sucesso dos alunos atesta o mérito do mestre", aumenta a glória deste; o elogio continua valendo para os primeiros, que não deixaram de ter triunfado.
Uma dedicatória, um agradecimento podem igualmente ser lidos nos dois sentidos. Eles honram o homenageado, mesmo porque cumprimentos e elogios geralmente lá estão presentes. 
Eles também conduzem estrategicamente o autor a ter seu nome associado a alguém importante. Isso está claramente explicado no prefácio de obra de Pierre de La Coste Messelière, que agradou a seus dois mestres e lhes dedicou sua obra sobre Delfos. 
"Era justo seus nomes no frontispício; assim, para que se tolerassem, ao lado de nomes ilustres, obras menos ambiciosas, estas eram dedicadas antigamente ao deus de delfos; marcadas por seus signo, reivindicaram a honra de terem sido por ele suscitadas e aceitas, o que comprometia um pouco sua responsabilidade e lhe conferia algum prestígio".
Declarar-se aluno de mestre famoso causa a mesma reciprocidade: algo da homenagem prestada reverte ao aluno. Não faltam aqueles que expressam "a honra" e "o orgulho" de ter sido alunos de mestre eminente, apresentando tal condição como "título". 
Bastará o exemplo "Eu sou o aluno de Bufnoir" que os alunos do professor de direito afirmavam "com orgulho do cidadão romano reivindicando a nobreza de sua origem". 
O mesmo vale para as placas na Itália colocadas por alunos sobre o túmulo de seu mestre, declinando sua condição, e para aquelas sobre o túmulo de aluno mencionando mestre ilustre: a homenagem a um enaltece o orgulho do outro. 
Do mesmo modo, a notoriedade do mestre beneficia o discípulo, que recolhe suas últimas palavras, que é encarregado da publicação dos originais; todas essas circunstâncias pessoais o discípulo rememora em necrológio, biografia, prefácio, evocando distinção, honra e orgulho.
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serviço:

"Os Filhos de Sócrates"
Autor: Françoise Waquet
Editora: Bertrand Brasil



Imagem que retrata a Primavera Árabe ganha o World Press Photo - Por Sara Webb


O retrato de uma mulher com véu carregando um parente machucado em seus braços, tirada no Iêmen pelo fotógrafo espanhol Samuel Aranda para o "The New York Times", ganhou o prêmio de melhor fotografia do ano do World Press Photo.
A imagem capturou um momento do conflito no Iêmen, quando manifestantes que protestavam contra o presidente Ali Abdullah Saleh usaram uma mesquita na capital, Sanaa, como um hospital improvisado para tratar os feridos. 
World Press Photo of the Year 2011: © Samuel Aranda, Spain, for The New York Times. Sanaa, Yemen, 15 October. A woman holds a wounded relative during protests against president Saleh.
Os jurados, porém, disseram que a imagem representava de forma mais abrangente a Primavera Árabe.
"A fotografia vencedora mostra um momento pungente e compassivo, a consequência humana de um evento enorme, um evento que ainda continua", disse o chefe dos jurados, Aidan Sullivan, sobre a foto de Aranda, que venceu o World Press Photo na categoria Melhor Foto do Ano de 2011.
"Nós podemos nunca descobrir quem é esta mulher, segurando um parente ferido, mas juntos eles se transformam em uma imagem viva da coragem das pessoas comuns que ajudaram a criar um importante capítulo na história do Oriente Médio."
O fotógrafo da Reuters Damir Sagolj conquistou o primeiro lugar na categoria Cotidiano individual por uma fotografia do fundador da Coreia do Norte, Kim Il-Sung, retratado em uma parede em Pyongyang.