segunda-feira, 18 de abril de 2016

Religiões na era high tech – Por Raquelle Wacemberg



A tradição tem interagido com a tecnologia em várias igrejas da Região Metropolitana.

Manter a fé de tradições milenares com a cara do século 21. Religiões que se curvam à era tecnológica, mas não deixam de lado a essência da doutrina.

Graças à Reforma Protestante, iniciada por Martinho Lutero, no século 16, estátuas, imagens e pinturas desaparecem para dar lugar à simplificação do culto. Sem expressões visuais da religiosidade, a adaptação ao mundo contemporâneo para os templos evangélicos é mais simples.

Não pelo mesmo motivo, mas para os mórmons, que surgiram no século 19, a chegada da tecnologia também não interfere nos dogmas da religião. Pelo contrário. Fazem questão de acompanhar a modernidade. Os católicos, embora de forma mais discreta, já têm se adequado ao uso da tecnologia.

Por conta do ritual pré-moderno, a Igreja Católica não consegue se render às exigências da modernidade. Os ritos "ainda são determinantes para a religião”, explica o professor do Departamento de História da UFPE, Severino Vicente da Silva.

Católicos

Apesar da resistência, alguns templos católicos no Estado já possuem conectividade diária com os fiéis. Na Nossa Senhora de Fátima, no bairro de San Martin, Zona Oeste do Recife, a comunidade pode interagir com o padre da paróquia por um aplicativo que tem o mesmo nome da igreja. É até possível pedir orações pela plataforma. 

“Preciso separar uma hora do dia para acompanhar tanto o aplicativo quanto o meu WhatsApp”, disse o pároco Laércio José de Lima. Os administradores do app, acrescentou, mandam mensagens para os usuários com o objetivo de incentivar a leitura bíblica.

Protestantes

Em vez de bíblias, tablets e smartphones. Os ternos e paletós foram substituídos por camisas básicas e calça jeans. Foi-se a época em que os cânticos eram encadernados ou colocados em lâminas para retroprojetores. 

A realidade digital pode ser vista na A Ponte, que fica no Bairro do Recife, área Central da Capital. A troca inusitada de trocar a bíblia por um tablet para pregar. Máquinas de cartão de crédito e débito para facilitar a vida dos membros. Com tantos recursos tecnológicos, o pastor da igreja, Guilherme Franco, destacou que a prioridade é a ortodoxia. “Hoje, temos muitos métodos que podem nos auxiliar, mas fazem parte do superficial, e não do essencial”, disse.

Mórmons

São 83 capelas e um templo no Estado. Todos eles com tendências tecnológicas. Rede Wi-fi para quem deseja acessar a internet. Nos cultos, bispos substituem a bíblia por tablets. Por meio de aplicativos específicos da igreja, os membros podem acompanhar os hinos tocados nas celebrações pelo celular. 

“A igreja tem a tendência de disponibilizar para as pessoas a forma que melhor convier para ter acesso às escrituras e palavras dos apóstolos e profetas da igreja”, afirmou Mozart Soares, diretor assistente de Assuntos Públicos da igreja em Pernambuco. A assistente de marketing Richelle Santos, 23 anos, não deixa de levar o smartphone para as aulas na capela do bairro de Piedade.







Explosão em templo da religião sikh deixa três feridos na Alemanha



Três pessoas ficaram feridas, uma delas em estado grave, após uma explosão em um templo sikh de Essen, na Alemanha.

Segundo a polícia local, o incidente aparenta ter sido causado de forma deliberada. A forte explosão ocorreu na noite deste sábado (16/04), depois da realização de um casamento no local.

O interior do tempo ficou parcialmente destruído, e janelas foram quebradas. Segundo um vídeo postado pelo Sikh Channel no Facebook, crianças estavam no templo ensaiando para uma celebração no momento da explosão.

Um porta-voz da polícia de Essen disse que uma pessoa mascarada foi vista fugindo do local momentos antes do incidente. Homens que seguem a religião monoteísta indiana sikh costumam usar turbantes e chegam a sofrer preconceito ao serem confundidos com muçulmanos.

Em 2012, um homem matou seis pessoas num ataque a um templo sikh em Wisconsin, nos EUA. O caso foi tratado como um crime de motivação racial segundo a polícia, entretanto, não há indícios de que tenha sido um ataque terrorista.



Jesus Cristo é um ‘ready-made’ – Por Juan Villoro



Se alguma coisa define o nosso tempo é o uso religioso do que consideramos laico.

“A religião é o ópio do povo”. A frase de Marx se tornou um dos grafites mais repetidos da história. Seu sucesso comprova a força do que critica. É difícil encontrar sociedades alheias à fé, à superstição ou ao consumo, forma moderna da teologia. Se alguma coisa define o nosso tempo é o uso religioso do que consideramos laico.

Acabo de ver a frase em Oaxaca. As letras de spray foram traçadas sobre um velho muro da pedra esverdeada. Em nome da razão, a pintura industrial tingia a pedra. O grafiteiro assumia uma postura ateia e ao mesmo tempo revelava uma concepção sagrada da escrita: a mensagem lhe parecia tão transcendente que poderia escrevê-la aonde fosse.

Enquanto a religião desaparece como tema de estudo nas escolas, as sociedades abraçam idolatrias que vão da política do espetáculo à técnica e ao comércio.

Dependemos de equipamentos cujo funcionamento ignoramos e ganhamos prestígio por meio de marcas. Tirar os mercadores do templo é inútil porque deles é o reino. O lançamento de um novo iPhone faz com que os peregrinos durmam às portas das capelas da Apple. 

Os aplicativos da telefonia substituíram os sinais de orientação do Espírito Santo? Tempos de fraudes e talismãs, supervisionados pela caneta óptica. Diante da supremacia absoluta do econômico, Marx falou do fetichismo da mercadoria, cuja força hipnótica é superior à do ópio.

Nessa fase sacralizada do capitalismo, em que o CEO de uma empresa é mais importante do que um presidente, o Papa Francisco ganhou relevância.

Enquanto a economia se mistifica, a Igreja atravessa um inesperado processo de normalização. Tem um Pontífice aposentado e seu sucessor tem o nome do santo padroeiro dos pobres, prepara sua própria comida, carrega sua pasta e chega de Fiat às reuniões nas quais os outros chefes de Estado chegam de limusine. Além desses gestos (num ofício em que tudo é gesto), Francisco aproxima a agenda do Vaticano dos hábitos mundanos: o divórcio, a homossexualidade, as incorporações das mulheres à hierarquia eclesiástica deixaram de ser temas tabus. Ainda não existem resoluções decisivas a respeito, mas o que antes era um anátema é discutido no sínodo da família.

Até que ponto as crenças ultraterrenas podem ser secularizadas? Curiosamente, na própria raiz do cristianismo existe um desejo de associar o divino com o cotidiano. Para Kierkegaard, a figura de Cristo despojou de aspecto sobrenatural a Deus ao mostrar que um homem pode sê-lo. Estendendo a comparação, o filósofo russo-alemão Boris Groys disse: “Jesus Cristo é um ready-made”. A frase faz alusão a Duchamp, que fez algo semelhante em estética. Ao escolher um urinol como obra de arte “já feita”, sugeriu que todo objeto pode ser arte.

Baseado no homem comum, o catolicismo se tornou ao longo dos séculos o império dos bispos cobertos de joias. Francisco procura voltar às palavras que Jesus disse aos pescadores. Mas o faz numa época dominada pela religiosidade difusa, em que os crentes mais fervorosos estão fora do templo, absortos na realidade virtual ou nos negócios, e nem sequer sabem que são crentes.

A propósito da corrupção no Banco do Vaticano, o Papa disse: “Se não sabemos cuidar do dinheiro, que se vê, como podemos cuidar das almas dos fiéis, que não se veem?”. A verdade é que o dinheiro se vê cada vez menos; aparece como crédito ou investimento offshore no Panamá.

A tecnologia e o consumo sacralizaram o profano. Do ópio dos povos passamos à cocaína que, em vez de adormecer, provoca a ilusão de dominar a realidade.