sexta-feira, 18 de setembro de 2015

XXI Assembleia Geral do Cimi – “Esquecemos que nós mesmos somos terra" - Por Patrícia Bonilha


Na manhã do terceiro dia da XXI Assembleia Geral do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), na quinta-feira,18/09, Paulo Suess, assessor teológico da organização, iniciou sua fala questionando o papel da assessoria teológica em uma entidade onde as batalhas e decisões acontecem no campo jurídico, legislativo e administrativo, como é o caso do universo vivido pelos povos indígenas.

Como contribuição ao seu próprio questionamento, ele apresentou três “pedras” fundamentais com as quais a teologia pode contribuir para o trabalho realizado pela instituição indigenista missionária: lembrar a memória (das batalhas passadas, dos indígenas e missionários que tombaram, dos anos de luta para garantir a demarcação de alguns territórios, do Bem Viver); animar a luta de hoje, bastante desafiadora; e alimentar a esperança diante das situações concretas da luta indígena. Paulo avaliou que a teologia é lugar de discernimento e crítica (interna e externa) e destruidora da unanimidade.

Em seguida, Paulo fez um paralelo entre a igreja e a lua. “O sol é Jesus. A igreja é a transmissora e irradia a luz de Jesus. Ela tem suas fases, a lua cheia, a lua nova... Com o Papa Francisco, tem irradiado muita luz”, considera ele.

Segundo Paulo, os povos indígenas viveram e muitos ainda vivem em um outro sistema, que é incompatível com o capitalismo, o Bem Viver. Todas as cosmologias têm seu valor e contribuem para a luta, o luto e a esperança do povo. No entanto, ao propagar o consumismo e o individualismo, o capitalismo contamina alguns povos indígenas, mas nele não há lugar para todos.

Nesse sentido, o teólogo apresenta algumas perguntas no sentido de fortalecer o debate sobre o Bem Viver.

“Como fazer uma crítica radical ao sistema capitalista, que mata pelos estímulos à desigualdade, à acumulação e à migração, ao crescimento, à aceleração e banalização da vida e das relações sociais pela precarização do trabalho?”, “Como desmascarar as soluções paliativas para mitigar os efeitos negativos do capitalismo sem tratamento das raízes causadoras?”, “Como convencer os 'beneficiados' dessa mitigação, de que eles vivem das sobras da exploração e não num Estado de bem estar social?” e “Como reeducar o mundo alienado pela mídia e pelo consumo, num mundo militante pelo Bem Viver de todos” são alguns destes questionamentos provocados por ele, que citou a entrega das cestas básicas em territórios indígenas não demarcados como um exemplo desse tipo de mitigação.

Povos indígenas na vanguarda, naturalmente

“A causa indígena não pediu carona à questão ecológica. Pelo contrário, os povos indígenas foram os primeiros que despertaram, a partir de suas culturas, religiões, mitos e do sofrimento que lhes foi imposto desde a conquista, para a interdependência entre natureza e cultura”, considera Paulo Suess.

Segundo ele, a ecologia integral faz parte das culturas indígenas e os povos indígenas oferecem à sociedade não indígena a herança de uma educação e espiritualidade integral. 

São justamente as tentativas sistêmicas de destruir essa herança, orientada para a vida de todos e não para o lucro de particulares, que constituem o conflito básico entre duas visões do mundo, causando violência, mortes e lutas.

O paralelismo entre a Encíclica da Ecologia, sistematizada pelo Papa Francisco, e o Plano Pastoral do Cimi foi ressaltado pelo assessor, especialmente em relação à concepção da terra como fonte de vida, direito inalienável dos povos indígenas, dom sagrado de Deus e dos antepassados que nela descansam, espaço sagrado com o qual precisam interagir para manter sua identidade, e não um bem econômico, objeto da exploração e do lucro. “Esquecemos que nós mesmos somos terra”, afirma o texto da Encíclica.


Desse modo, Paulo Suess afirmou a necessidade da urgente mudança de consciência e de hábitos, do abandono da cultura do descarte da sociedade não envolvente, do desenvolvimento de novas convicções, opções e estilos de vida, no sentido de superar o individualismo, a postura de segregação com as outras criaturas vivas, o apego material e regressar à simplicidade. “Os povos indígenas nos desafiam a realizar estas mudanças”, concluiu ele.




Convite


Vamos caminhar juntos pela liberdade religiosa – Por Walmyr Junior*


Cristãos, judeus, religiosos das matrizes africanas, muçulmanos, budistas, entre outros membros das mais variadas religiões presentes no Rio de Janeiro, se unem no próximo domingo, 20 de Setembro, às 11h, para realizar a Caminhada pela Liberdade Religiosa.

A liberdade religiosa é um direito garantido pela Constituição Federal, em seu artigo quinto, fruto de um movimento de redemocratização de nosso país, que entre tantas garantias nos dá o direito de culto religioso. Neste direito nos é proporcionada a valorização pessoal, a de nossos irmãos, a fraternidade e solidariedade, e de se colocar no lugar do outro.

São valores sagrados, que nos trazem a dignidade humana, e colocam as pessoas não como subalternas ou melhores que outras, mas como irmãs e irmãos. Todos nós sofremos os mesmos “ais”, violência e injustiça social, racismos, e que, por isso, também, nos é dada a possibilidades de enfrentamento com gestos concretos de solidariedade, trilhando o caminho por um mundo melhor.

No Concílio Vaticano II, momento importante para a perspectiva de uma Igreja mais missionária e com um olhar mais atencioso para o mundo, foi elaborado um documento chamado: Dignitatis Humanae, que tem como foco principal o sagrado direito pela liberdade religiosa e diz: ”ninguém seja obrigado a agir contra a própria consciência, nem se impeça de agir de acordo com ela, em particular ou em público”. 

Este princípio foi quebrado em Junho deste ano, quando uma menina de 11 anos, que se chama Kaylane, foi apedrejada numa rua da zona norte do Rio de Janeiro por estar vestida com as roupas do candomblé.

As religiões de matriz africana são as mais desrespeitadas e ultrajadas, inclusive, porque, historicamente, mesclado, tem o teor racista, em que tudo que se remetia ao povo negro era e é desvalorizado com o fim de melhor dominá-lo.

Atos fundamentalistas, infelizmente, acontecem todos os dias, mesmo que muitos os neguem e não os reconheçam. Estão camuflados, com argumentos falsamente evangélicos. 

Não podemos nos calar diante destas monstruosidades feitas a tantas Kaylanes que são apedrejadas ou de templos sagrados violados. A pedra que atingiu a menina candomblecista, atingiu Jesus, deve atingir a gente, e Ele jamais vai se calar: “Tudo o que fizestes a um destes pequeninos, a mim o fizestes” (Mateus 25).

Nós, membros da Pastoral Afro-Brasileira, Círculos Bíblicos, CEB’s, Pastoral da Juventude, outras pastorais e grupos, da Arquidiocese do Rio de Janeiro, esta é membro integrante da Comissão contra a Intolerância Religiosa, todos que colaboram com a Caminhada, convidamos para que todos as mulheres e homens de boa vontade venham participar desta linda Caminhada.

* Walmyr Júnior é morador de Marcílio Dias, no conjunto de favelas da Maré, é professor e representante do Coletivo Enegrecer como Conselheiro Nacional de Juventude (Conjuve). Integra a Pastoral Universitária da PUC-Rio. Representou a sociedade civil no encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ. 






Miranda do Corvo/PT vai ter pirâmide

O primeiro Templo Ecuménico, edifício que irá receber pessoas de todas as religiões do mundo, vai ser português e localizar-se em Miranda do Corvo, no distrito de Coimbra.

A primeira pedra para a construção do templo foi lançada na sexta-feira, mas o edifício já está a chamar a atenção por, de acordo com o projeto da obra, ser em forma de pirâmide, tal como as famosas pirâmides egípcias.

Cem crianças de todo o País juntaram-se na sexta-feira, dia 11 de Setembro, no local onde será erguido o Templo Ecuménico, para lançar a primeira pedra. 

Numa altura em que a crise dos refugiados sírios tem gerado polémica, este espaço surge com o objetivo de estimular a paz e tolerância.

Os responsáveis pelo projeto escolheram o dia 11 de Setembro para se lançar a primeira pedra do Templo Ecuménico como forma de homenagear as vítimas de intolerância e fundamentalismo.