domingo, 11 de outubro de 2015

Rubem Alves: a vida de um subversivo – Por Elemara Duarte


O jornalista Gonçalo Junior não conheceu o escritor e educador Rubem Alves (1933-2014) pessoalmente. 

Porém, a imersão na vida e obra deste mineiro de Boa Esperança, por cerca de nove meses, em um trabalho diário de 14 horas, de segunda a domingo, deu a ele o aval para tentar decifrar este que é um dos mais importantes pensadores brasileiros. 

O resultado desta amizade pelo legado “rubeniano” pode ser conhecido por meio de “É Uma Pena Não Viver: Uma Biografia de Rubem Alves” (Editora Planeta).

Estima-se que o escritor já tenha vendido mais de 3 milhões de livros, dos 138 títulos publicados. Os títulos estão em pelo menos 12 países, conforme dados recentes, informados ao Hoje em Dia, pelo Instituto Rubem Alves. Mas além de ser um best-seller, há outro termo para definir Rubem Alves?

“É alguém que passou pela vida como um subversivo. E que tinha uma capacidade fora do normal para escrever. Rubem transforma as pessoas, sem ser autoajuda”, resume.

Parece um contrassenso pensar em um homem, que passou a vida falando de ostras, pérolas e felicidade, possa ter sido considerado um “subversivo”. Mas, sim, isso aconteceu. E nas raias oficiais. Nas pesquisas para o livro, Gonçalo levantou aproximadamente 40 ocorrências sobre Rubem Alves, no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), de SP. No Dops de BH, outras 20.

“Rubem Alves foi ostensivamente vigiado, monitorado”, diz o biógrafo, citando especialmente os anos 1970, quando ele ingressa na Unicamp, e atua como presidente da Associação dos Professores.

“Subversivo”, “autoajuda à toa”... Para quem não leu ou não sabe da vida do mineiro, estas expressões saem fácil da boca. Mas Alves falou da busca pela felicidade como um educador. 

“Ele não era um picareta messiânico. Era um filósofo da religião. Era um humanista. Educação para ele era uma forma de libertar as pessoas, para que elas vissem o mundo e a vida de uma outra forma. Ele queria que usassem esta educação como sobrevivência dentro daquele meio. Tem uma base teórica em tudo”, indica.

Pela libertação

Em 1968, Alves rompe com a igreja Presbiteriana e se demite como pastor. Ele vai fazer doutorado nos Estados Unidos. “E lá ele é o primeiro no mundo a teorizar a Teologia da Libertação. Isso fez dele um palestrante importante em todo planeta. “Um editor chamou o doutorado dele de ‘Por Uma Teologia da Esperança’. Mas o título original é ‘Por Uma Teologia da Libertação’”, lembra Gonçalo.

Entrevista com Gonçalo Junior

O que há de inédito neste livro?

Um dos trechos que destacaria são os cinco capítulos finais, que falam muito da relação dele com a segunda mulher (Thais Couto) e nos conflitos familiares intensos que aconteceram por causa disso. O mais interessante é que a própria Raquel (Raquel Alves, filha de Rubem Alves) disse que eu precisava falar com Thais. E eu fui. Ela estava um pouco abalada pela morte dele. Mas abriu os arquivos e os e-mails que eles trocaram.

Será que o leitor não imaginava este lado de Rubem Alves?

Acredito que não fizesse a menor ideia, porque Rubem sempre foi muito reservado. Ele jamais falou de sua vida sentimental em livros e crônicas.

A família não achou ruim de divulgar isso na biografia?

Não achou. Pelo contrário, Raquel, a filha dele, foi exemplar no sentido de dar total liberdade para escrever tudo. Ela mesma disse que gostaria de ver Thais no livro porque ela era importante para o pai. Eu brincava: Não estou fazendo um livro para a família, quero agradar Rubem Alves no sentido de ser o mais honesto possível em relação às suas memórias.

Do que falam estes cinco capítulos?

Do casamento, dos conflitos familiares, do restaurante que ele abriu para o filho, da primeira separação, da segunda separação, do câncer no estômago, do infarto, da cirurgia no coração, do Parkinson, o definhamento dele no final, da falta de tesão em viver em contraposição com o desejo de continuar a viver, daquela coisa de aceitar que ele estava indo para um caminho irremediável - o fim. Isso se percebe nos e-mails que ele mandava para Thais. Ele simplesmente abriu mão de tê-la, conformou-se resignou-se. Ele continuou dizendo que a amava, mas que sabia que seria um estorvo para ela (devido às doenças). Foi doloroso. Eu desafio o leitor a não chorar nas últimas páginas.

Por que ele abriu mão deste amor?

Ele estava achando que era um velho imprestável e o Parkinson foi fatal nesse sentido. Por isso, ele só iria dar trabalho para Thais. E que ele não poderia dar mais para ela o que ele achava que ela esperava.

E ela aceitou isso?

Aceitou no final, parece ter perdido as forças. Ela chegou a colocar Rubem na parede duas vezes. Ou casava com ela e adotava a filha deles, que é uma menina filha de uma moradora de rua, ou se separariam. Então, eles se separaram. Rubem voltou para ela um ano depois, após ter câncer e prometeu que ia casar. E não casou. Talvez por causa de pressão da família. Mas ele continuou a prometer o casamento para ela.

E a evolução das doenças dele?

Rubem foi percebendo que o Parkinson estava aumentando muito rápido, apesar do melhor tratamento e dos medicamentos de ponta. Tremendo demais, magro demais, triste, deprimido. Mas ele continuou amando Thais até o fim, os e-mails mostram isso, mas dentro deste tormento de ter pago um preço muito alto em não querer magoar os filhos.

Como surgiu a ideia para fazer esta biografia?

Fui indicado para a editora. Depois, achei a receptividade do Instituto Rubem Alves muito boa. Confiaram cegamente em mim. Tanto que só viram o livro pronto quando receberam um exemplar da editora. Nunca me pediram para ler nada antes. Eu sempre disse que não estava fazendo um livro para Raquel, nem para Thais, nem para ninguém da família. Só para Rubem.

Como é a história do roteiro que Rubem deixou com os principais tópicos da vida dele?

Ele deixou seis páginas de computador com tópicos do que achava que deveria entrar em um documentário sobre ele. E essa cópia veio no primeiro e-mail que recebi do Instituto com textos e entrevistas, depois, o que tinha dentro do computador de Rubem. No meio, tinha este arquivo. Nestes tópicos, ele atendia ao pedido de um produtor. Só que estes tópicos iam somente até 1964 e pulava para os anos 1990. Nesta lacuna de quase 30 anos, ele falava apenas que se tornou professor da Unicamp, que tinha se tornado psicanalista e que vivia fazendo palestras pelo Brasil sobre educação. Pensei que até pelo menos até 1964 seguiria exatamente o roteiro que ele traçou. Mas eu tinha apenas palavras-chave. “Infância pobre”, “morte do meu pai”... Então, fui desvendando este roteiro. Estava pensando muito no leitor, naquela pessoa que mais lê Rubem Alves.

Mas, como você disse, o livro era para Rubem Alves, não para o leitor...

Mas na hora que fui construir o texto, fiquei pensando nas dúvidas, nos enigmas e nas histórias fragmentadas que Rubem contava nas crônicas dele, mas que talvez não tivessem muita clareza para o leitor. Ele falava de uma coisa e não situava no tempo, no máximo no espaço. Ele poderia dizer, por exemplo: “É na casa da minha avó”. Mas dava para entender que ele tinha 8 ou 9 anos de idade, quando aquilo aconteceu.

Ao longo de sua carreira de jornalista, você entrevistou Rubem Alves alguma vez?

Nunca. Mas cheguei a assistir a algumas entrevistas dele por até dez vezes. Fui imergindo naquele universo. Rubem era um cara muito repetitivo, mas ele sempre dava uma trabalhada nas ideias e histórias. Acho que a intenção dele era fixar isso na cabeça das pessoas.

…Como um educador.

Exato. Ele queria mostrar para as pessoas que muitas vezes, o que ele dizia, parecia óbvio, mas era o que as pessoas não enxergavam. O grande equívoco que se tem hoje é acharem que Rubem Alves é um escritor de “autoajuda”. Ele não era um picareta messiânico de vender autoajuda à toa. Era um filósofo da religião. Era um humanista. Essa longa estrada da vida que ele atravessa é o que eu procurei destacar no livro. Rubem Alves não apareceu da noite para o dia. Não é à toa que ele resolveu escrever livros que falam sobre respeito e sobre como aproveitar a vida olhando para as coisas simples. Tem uma base teórica em tudo. Ele foi um subversivo até o fim.

Por que algumas pessoas ainda conservam este preconceito com a literatura dele?

Quem fala assim é porque não o lê. Quem o lê, vai ver um filósofo, um teólogo, um pregador. Rubem passou a vida inteira como pastor. Tiraram o pastorado dele, mas ele nunca se libertou de fato. Ele queria pregar. Mas a percepção com a religião foi cristalizando nele um desapontamento com o Deus que a própria religião criou. Mas ele era muito cuidadoso nas relações com a igreja (Presbiteriana). Em 1968, ele rompe com ela e se demite como pastor. Daí, vai fazer doutorado em Priscenton (Universidade nos Estados Unidos). Lá ele é o primeiro no mundo a teorizar a “Teologia da Libertação”. Isso fez dele um palestrante importante em todo planeta, o que pouca gente sabe. Tem livro dele publicado na Itália, França, Espanha, Estados Unidos. Mas como havia uma corrente progressista por lá, que se chamava “Teologia da Esperança”, o editor chamou o doutorado dele de “Por Uma Teologia da Esperança”. Mas o título original é “Por Uma Teologia da Libertação”.

E o período da ditadura?

Existem 40 ocorrências sobre ele, somente no Departamento de Ordem Política e Social (Dops) de São Paulo. E tem mais umas 20 ocorrências no Dops de Belo Horizonte. Rubem Alves foi ostensivamente vigiado, monitorado. Especialmente quando ele passa a fazer parte ativamente da Unicamp, como presidente da Associação dos Professores. Mas ele não falava da época da ditadura, ele não falava da época que foi oprimido. No fim da vida, é que ele vai falar disso.

O que ele conservou da mineiridade?

Absolutamente tudo. Ele falou pouquíssimo da vida dele no Rio de Janeiro, onde chegou aos 12 anos. Ele foi o único dos quatro irmãos que seguiu com os pais, que foram em busca de uma melhor situação de vida para a família. Noventa por cento das memórias de Rubem Alves são exclusivas de Minas, da infância. De 1933 a 45 ele vive em Minas, passa por quatro cidades. Depois, vai para o Rio. Ele resolve ser pastor e o pai queria que ele fosse médico. Rubem era teimoso, mas tinha aquele jeitinho mineiro.

O que Rubem Alves lhe ensinou?

Rubem mudou muito a minha visão de mundo. Foi uma coisa intensa demais. Trabalhei 14 horas por dia, de segunda-feira a domingo. Ele reafirmou para mim um monte de ideias com as quais eu já me identificava. Eu venho lá do sertão (o autor nasceu em Guananbi, no interior da Bahia), quase na divisa da Bahia com Minas. Com 11 anos, fui para Salvador, mas a gente continua carregando muito essa coisa da infância. Quem vem do Norte de Minas e do restante do Nordeste, sabe que há coisas na vida que têm um grande valor pra gente: a chuva, a água, o verde. Ele usava muito a natureza como metáfora.

Poderia explicar o título “É Uma Pena Não Viver”?

Significa que é uma pena não aproveitar a vida.

Mas parece algo melancólico…

Parece um lamento dele, não é? Essa frase é mesclada. É uma síntese da ideia dele de que as pessoas deveriam aproveitar muito a vida, brincar de balanço, montar quebra-cabeça, observar a chuva, plantar, fazer da vida um jardim, para poder se relacionar melhor. Vivemos em um mundo tão bizarro em relação à internet e às redes sociais, com pessoas detonando umas às outras, e em relação à questão ética e moral. Há pessoas defendendo a tortura e a volta da ditadura. Mas Rubem consolidou em mim uma série de princípios e valores que a gente aprende em casa e isso me deu tranquilidade para seguir. Porque há momentos na vida que a gente entra em crise. O idiota sou eu? O implicante sou eu?

Qual o melhor termo para definir Rubem Alves?

Alguém que passou pela vida como um subversivo. E os subversivos quase sempre são do bem, quase sempre vivem de idealismo e sonhos. Eles se alimentam e buscam energia que a maioria das pessoas perderam ao longo da vida. E ele tinha uma capacidade fora do normal para escrever. Rubem transforma as pessoas, sem ser autoajuda.