quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Arábia Saudita e a proximidade com o "Estado Islâmico"



A ideologia do grupo terrorista não nasceu por acaso: sua inspiração veio sobretudo do wahabismo, uma vertente do islamismo sunita que tem status de religião oficial na Arábia Saudita. Mas existem ainda outras ligações.

O ódio contra pessoas de outra fé, uma visão bizarra de mundo, que vê ameaças de todas as formas contra o islã, e a desconfiança perante todos que creem e pensam de forma diferente: esses são elementos centrais da ideologia do "Estado Islâmico" (EI).

Não foi o grupo terrorista, no entanto, quem criou essa visão de mundo, ao menos não sozinho. Quando incita ao ódio contra xiitas, yazidis, cristãos e judeus, o "Estado Islâmico" mostra semelhanças estreitas com o wahabismo, uma vertente radical-conservadora do islamismo sunita que tem status de religião oficial na Arábia Saudita.

De fato, os paralelos entre o EI e o wahabismo são inconfundíveis. Isso fica claro com uma olhada nos livros didáticos que, ao menos até há poucos anos, moldavam a visão de mundo dos escolares sauditas.

"Qualquer outra religião exceto o islã é falsa", aprendiam eles no livro introdutório. Os alunos também tinham de solucionar pequenas tarefas, como completar a frase: "Quem morre fora da religião do islã vai...". De acordo com o livro didático, a resposta certa era: "para o inferno". Outro exercício era: "Dê exemplos de falsas religiões, como judaísmo, cristianismo, paganismo etc."

"Fé não é apenas uma palavra"

Para os alunos mais velhos, as tarefas eram mais difíceis: eles eram iniciados, segundo orientação do reino saudita, nos exercícios adequados para um muçulmano. Podia-se ler: "A fé não é apenas uma palavra dita por uma pessoa. A fé consiste de língua, convicção e ação."

Os alunos também eram esclarecidos sobre o significado da "verdadeira fé": "Que você odeie politeístas e infiéis, mas sem tratá-los de forma injusta." A questão do que seria "injusto" era deixada em aberto pelo livro didático.

Em vez disso, há instruções para o caso de um muçulmano se deparar com uma pessoa de outra fé: "É proibido a um muçulmano ser amigo leal de uma pessoa que não acredite em Deus e seus profetas ou que combata a religião islâmica."

Os exemplos citados provêm de livros didáticos sauditas do ano de 2005. O think tank Centro de Liberdade Religiosa, ligado à fundação americana Freedom House, examinou uma dúzia desses livros. 

No estudo divulgado em 2006, os pesquisadores chegaram a uma conclusão preocupante: a Arábia Saudita "semeia o ódio contra o Ocidente tanto no ensino público religioso como em outros materiais, como, por exemplo, pareceres religiosos (fatwas)."

Os pesquisadores responsabilizaram a Arábia Saudita por essa política, pois os livros são publicados pelo Estado e os imãs responsáveis pelo conteúdo recebem o seu salário do governo.

Reformas duvidosas

De acordo com a fundação Freedom House, um estudo encomendado pela própria Arábia Saudita chegou a um resultado semelhante. Apresentada em Dezembro de 2003, a pesquisa relatou as seguintes conclusões: o ensino de religião no reino saudita "incentiva à violência contra outras pessoas e induz os alunos à convicção de que eles, para proteger a própria religião, deveriam reprimir outros com violência ou até mesmo com a destruição física."

Oficialmente, a Arábia Saudita nunca reagiu ao relatório da Freedom House. Em 2006, porém, o então ministro do Exterior saudita, Saud al-Faisal, declarou que o sistema de ensino do país seria completamente revisto. Não se sabe até que ponto isso realmente aconteceu. Nos anos de 2012 e 2013, o Departamento de Estado dos EUA encomendou um novo estudo sobre os livros didáticos sauditas, mas os resultados não foram divulgados.

Dinheiro e fé

A Arábia Saudita exporta a sua interpretação do islã sunita de todas as formas. Nos últimos 25 anos, Riad investiu ao menos 87 bilhões de dólares em propaganda religiosa em todo o mundo, estima um ex-embaixador americano em estudo publicado em 2007. Depois disso, a soma deve ter sido ainda maior, afirmou, devido à duradoura alta no preço do petróleo. O dinheiro foi destinado à construção de mesquitas, madraçais (escolas muçulmanas) e instituições religiosas. Com esses recursos, imãs são formados, editoras são financiadas, textos wahabitas são publicados.

Grande parte do dinheiro vai para países islâmicos desfavorecidos, mas populosos, no Sul e no Sudeste Asiático: Paquistão, Indonésia, Filipinas, Malásia. O wahabismo também é promovido em partes da África. 

Para muitas das pessoas que vivem nessas regiões do planeta, essas instalações são a única possibilidade de uma formação escolar. Ali eles aprendem a ler e a escrever e, ao mesmo tempo, são familiarizados com a doutrina wahabista. Mas também no Ocidente existem instituições financiadas pela Arábia Saudita.

A proximidade ideológica com o "Estado Islâmico" também se reflete na ajuda econômica concreta. É difícil avaliar quanto dinheiro é destinado ao EI: ele é enviado por meio do chamado sistema Hawala, um sistema informal em que o dinheiro não é transferido através de contas bancárias oficiais, mas por meio de pessoas de confiança. Também não se sabe até que ponto o Estado saudita apoia direta ou indiretamente o EI.

Afastamento rápido

Nos últimos tempos, o governo em Riad se distanciou do terrorismo do EI. Em Agosto de 2014, o grande mufti da Arábia Saudita declarou, em alusão direta ao EI e à Al Qaeda, que ideias radicais, extremistas e terroristas não tinham nada que ver com a fé muçulmana. "E seus autores são os maiores inimigos do islã."

Em seu livro: Le piège Daech (A armadilha EI, em tradução livre), o estudioso islâmico francês Pierre-Jean Luizard afirma que, hoje, a Arábia Saudita classifica de terroristas fenômenos que até há poucos anos ou meses eram vistos como os pilares mais confiáveis do wahabismo na região.

"Parece que o regime saudita se separou em tempo recorde das ligações que podiam legitimar esse sistema político, um sistema que, por meio de sua exportação da ideologia wahabista, por um lado, e de sua submissão aos interesses americanos, pelo outro, apresentava paradoxos políticos encontrados em poucos regimes deste mundo."





O Antropólogo e sua Magia: Trabalho de Campo e Texto Etnográfico nas Pesquisas Antropológicas sobre Religiões Afro-Brasileiras


Vagner Gonçalves da Silva

Vagner Gonçalves da Silva é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo, onde é docente.

Na definição da antropologia como ciência da alteridade ou da crítica cultural, o trabalho de campo desempenha papel fundamental.

Determinados aspectos do trabalho de campo são analisados aqui, enfocando principalmente a relação observador-observado tal como se apresenta nos depoimentos de antropólogos e não especialistas entrevistados.

O autor investiga a produção dos textos etnográficos e sua recepção entre os grupos pesquisados, colocando em questão os limites entre observação e participação.

O destaque é dado especialmente às comunidades religiosas afro-brasileiras e às transformações ou legitimações das tradições religiosas decorrentes do contato entre o universo da academia e o dos terreiros.






Muçulmanos buscam vencer preconceitos – Por Lucas Meloni



“A Deus pertencem o levante e o poente. Para onde quer que vos tornardes, lá encontrarás o semblante de Deus”.

A frase, do escritor afegão Khaled Hosseini, presente no livro: “A Cidade do Sol”, contrapõe o que muitas religiões dizem: Deus pode ser buscado em qualquer lugar. Para membros da comunidade islâmica, que sofrem com certo receio por parte do mundo em decorrência dos ataques terroristas, a religião é agregadora e os extremistas são minoria que não merecem qualquer consideração. 

Em Mogi das Cruzes, o número cada vez maior de refugiados desperta a necessidade de se discutir que apoio essas pessoas podem receber, já que buscam novas chances de vida.

O jornalista Haisem Abaki (ex-O Diário, atualmente na Rádio Estadão) conta que este preconceito é fruto da desinformação. “O Estado Islâmico, por exemplo, faz uma associação à religião quando sabemos, na verdade, que seus atos objetivam mais a barbárie”, avaliou.

Em seu blog no portal do Estadão, Abaki publicou no último dia 20 o texto: “Tenho Nome de Terrorista” falando exatamente sobre o fato de seu nome ter referência aos muçulmanos. A família de Haisem é da Síria. “Não nos enganemos mais com os terroristas doidões. Muito mais do que religioso, o fanatismo deles é por poder, território, petróleo e armas. Resumindo: dinheiro”, trouxe o texto.

Mohamad Saad, presidente da Sociedade Cultural e Beneficente Islâmica de Mogi das Cruzes, conversou com a reportagem e falou sobre a visão negativa que a comunidade acaba enfrentando. “São atos violentos que acabam prejudicando o trabalho que desenvolvemos. Nós buscamos a paz, a comunhão e a cooperação. O extremismo não combina com o que acreditamos”, opinou.

O Diário revelou ontem, com exclusividade, que Mogi das Cruzes recebeu, desde Janeiro deste ano, 100 refugiados sírios que buscavam fugir do conflito armado no Oriente Médio. A informação foi revelada a O Diário pelo xeque Hosni Abdelhamid Mohamed Yousself. Eles estão recebendo assistência da comunidade islâmica, já que muitos chegam sem recursos e têm dificuldade na adaptação à nova cultura. 

Abaki já observou algumas dificuldades. “A minha família ajuda alguns dos refugiados. A principal dificuldade é com o idioma, a cultura e os costumes. Há todo um processo”, disse o jornalista.






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