terça-feira, 21 de junho de 2016

Entidades ligadas à Igreja Católica em Manaus discutem reordenamento da saúde – Por Silane Souza



A Cáritas de Manaus e as Pastorais Sociais apresentam o motivo de serem contra o 'reordenamento' da Rede de Atenção em Saúde, em fase de implementação pelo Governo do Estado.

A Cáritas de Manaus e Pastorais Sociais, entidades ligadas à Igreja Católica, realizarão nesta quarta-feira (22/06), a partir das 9h, uma coletiva de imprensa para apresentar o porquê de serem contra o “reordenamento” da Rede de Atenção em Saúde, em fase de implementação pelo Governo do Estado

Na ocasião, também vão estar presentes representantes de comunidades que tem unidades que sofrerão alteração em seu perfil de atendimento, além de movimentos sociais e profissionais da saúde.

De acordo com o vice-presidente da Cáritas de Manaus, padre Orlando Gonçalves Barbosa, a igreja e as organizações envolvidas vêm travando lutas contra as injustiças que atingem toda a população, principalmente os menos favorecidos e esta será uma oportunidade de falar a respeito do reordenamento que prejudica a muitos que precisam de assistência à saúde. “Nós temos consciência que essas mudanças não estão sendo feitas da maneira correta”, comentou.

O padre afirmou que da forma como o reordenamento foi apresentado pelo governo é inconstitucional e fere os princípios da defesa de direitos da população usuária do sistema. Conforme ele, a lei determina que haja um amplo e participativo processo de discussão envolvendo os usuários afetados e não apenas o Conselho de Saúde, coisa que não aconteceu. 

“Tem que haver mudança na saúde, mas não ‘reordenamento’, que é uma estrutura própria a ser tomada em caso de guerra ou terremoto”, lembrou.

A igreja quer criar um diálogo mais profundo com a sociedade como um todo, de acordo com padre Orlando. 

“Parece que está tudo ok, tudo bonito, mas a realidade do Amazonas é diferente. Falta saneamento básico e as pessoas ainda morrem de doenças endêmicas. A saúde precisa ser vista com outro olha. Na coletiva vamos apresentar elementos concretos que mostram essa realidade e convocar a sociedade para um momento de audiência para que a população seja escutada”, frisou.

No dia 30 de maio, a Cáritas de Manaus e Pastorais Sociais realizaram uma caminhada contra o que chamou de “desajuste da saúde”. A concentração foi em frente à Susam, onde ocorria a primeira reunião do Conselho Estadual de Saúde sobre o assunto. O objetivo era fazer com que a entidade não autorizasse a implantação do reordenamento, que prejudica principalmente os mais pobres além de crianças, mulheres e idosos, na opinião da igreja.

Audiência

Na terça-feira (21/06), Cáritas de Manaus, Pastorais Sociais, sociedade civil, entre outros, participaram de uma audiência pública realizada pelos Ministérios Públicos Estadual e Federal (MP-AM e MPF, respectivamente) para discutir o reordenamento da rede estadual de saúde pública da capital. 

“O objetivo foi conhecer a fundo o plano de reestruturação da saúde e tirar dúvidas não apenas da população, mas também do Ministério Público”, disse a promotora de Justiça Cláudia Câmara.

Conforme ela, o MP-AM monitora o reordenamento desde o mês de maio, por meio de um inquérito civil. Várias unidades de saúde incluídas no plano da Secretaria Estadual de Saúde (Susam) já foram inspecionadas pelo MP-AM. 

“A audiência veio ajudar a direcionar o nosso trabalho dentro do inquérito já instaurado e poderá indicar as novas medidas a serem tomadas nessa investigação”, afirmou.

A audiência foi organizada pela 54ª Promotoria de Justiça de Defesa dos Direitos Humanos à Saúde Pública do MP-AM e a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão do MPF. A sessão foi realizada durante a tarde na sede da Procuradoria-Geral de Justiça, na Zona Oeste.






O Islã não pode ser reformado. Algo na teoria e na vivência dessa religião dificulta uma reforma - Por Tarek Abi Samra



O fundamentalismo islâmico estende o tapete vermelho ao terrorismo? Conseguirá o Islã abdicar das interpretações extremistas? 

Não há reconciliação possível entre o Islão e a modernidade ou o Ocidente, defende nesta entrevista o escritor e filósofo libanês Ali Harb.

Que relação tem o Islão com o terrorismo que grassa pelo mundo?

Desde os ataques do 11 de Setembro (as Torres Gêmeas do World Trade Center de Nova York) esta pergunta surge muitas vezes em destaque na imprensa e provoca polêmicas inflamadas, senão mesmo manifestações de ódio. Há quem argumente que o terrorismo é uma aberração, sem ligação ao Islã enquanto tal; a estes chamam-lhes cegos. Outros acreditam que se trata de uma religião intrinsecamente violenta; a estes costumamos apelidar de islamofóbicos.

Ambas as partes invocam este ou aquele versículo do Corão, procurando assim demonstrar ora a barbárie do Islão ora a sua natureza tolerante. Mas isso é esquecer que uma religião nunca pode ser reduzida a um livro fundador, uma vez que é sobretudo uma prática milenar que cristalizou num grande número de instituições e de formas culturais; seria como remeter todos os regimes comunistas apenas para O Capital, de Karl Marx.

Ali Harb recusa-se a fazer este tipo de regresso aos textos fundadores, para aí descobrir a essência da religião. Segundo este escritor e filósofo libanês, uma simples leitura do Corão mostra que esse livro sagrado tanto diz tudo como o seu oposto.  Será, pois, necessário adotar um método diferente, abordar o Islã de uma perspectiva: como doutrina de salvação, isto é, como um sistema de pensamento que se afirmar detentor da verdade absoluta, à semelhança do cristianismo e do judaísmo, bem como das “religiões políticas” do século 20, como o comunismo ou o fascismo.

Semelhante abordagem revela um potencial terrorista muito real, inerente ao Islã, ideia que Harb desenvolve no seu mais recente livro, Al-Irhab sunna’ihi wa Al-Murshed, Al –Taghiya, Al-Muthaka (O terrorismo e os seus criadores: o pregador, o tirano e o intelectual), Arab Scientific Publishers, 2015).

A definição implícita de terrorismo por trás das teses do seu livro parece bastante ampla e aplica-se tanto a atos de violência como a sistemas filosóficos...

É verdade. Considero que o terrorismo é essencialmente uma atitude intelectual, a do homem que acredita ser o único detentor de uma verdade absoluta, o único autorizado a emiti-la. Essa verdade pode ser no domínio social, religioso, político ou moral; pode ter que ver com Deus, a nação, o socialismo, a liberdade ou o humanismo.

O terrorismo é também uma forma de agir: quem acredita ser o único possuidor da verdade comporta -se em relação ao outro, ao diferente ou ao antagonista, segundo uma lógica de exclusão, seja a nível simbólico através do takfir(declaração de apostasia)  e da excomunhão, ou outras declarações de traição - seja ao nível físico - exílio ou assassínio. O lema do terrorismo é: pensa como eu, senão acusa-te e condeno-te. É neste sentido que o terrorismo é praticado pelo pregador que tem um projeto religioso, pelo tirano com um projeto político, ou pelo intelectual impulsionador de um projeto revolucionário para transformar a realidade. O pregador excomunga, o tirano condena e declara qualquer um traidor, o intelectual teoriza e o militante ou o jihadista atuam ou matam.

O terrorismo islâmico tem sido influenciado pelos regimes totalitários?

Os impulsionadores de novos projetos religiosos foram influenciados, sem dúvida, pelos exemplos de Franco, Hitler ou Mussolini, pela sua forma de governar e as suas técnicas para controlar os homens, através da mobilização e da sua reformatação, de modo a criar um rebanho que reproduza incansavelmente a mesma ideia feita. Esse dualismo do dirigente endeusado e da população que o adora é uma criação relativamente recente. Os regimes totalitários, independentemente da modernidade e secularismo dos seus projetos, são uma reminiscência do pensamento religioso, como evidencia a sacralização das respectivas doutrinas e a criação da figura do líder único.

Em que sentido você afirma que um muçulmano moderado e tolerante é coisa que não existe?

Qualquer religião monoteísta, por definição, é um reservatório inesgotável de práticas violentas. É uma das suas inesgotáveis potencialidades, uma espécie de vírus alojado no interior dos seus genes culturais. Sendo a religião baseada na exclusão do outro, leva ao dualismo entre o crente e o ímpio, o fiel e o apóstata. É impossível entender a questão de outra forma. No lslã, a violência é agravada por um dualismo adicional, o da pureza e da impureza. É o grande escândalo do pensamento religioso islâmico: o não muçulmano é um ser conspurcado, impuro; é uma das formas mais vis de violência simbólica. Daí a minha afirmação de que não há muçulmanos moderados ou tolerantes que sejam fiéis aos dogmas e às práticas da sua religião, a menos que sejam hipócritas, ignorantes da sua doutrina ou tenham vergonha desta.

O exemplo mais flagrante é a relação entre sunitas e xiitas. Após séculos de conflitos e de hostilidade, a coexistência pacífica destes dois grupos resulta, não de pretensos valores de moderação e de tolerância inerentes às suas doutrinas, mas devido à integração de uns e de outros em instituições da sociedade moderna: a escola, a universidade, o mercado, a empresa... Sempre que um dos lados regressa à doutrina original, o conflito eclode de novo, de uma maneira cada vez mais cruel e destrutiva. Isto leva-me a dizer que estamos na presença de duas “religiões” mais hostis entre si do que em relação ao Ocidente ou a Israel.

Você defende que as religiões só se tomam tolerantes depois de derrotadas. A única solução para as nossas sociedades seria derrotar o lslã, como a Europa derrotou o cristianismo durante o Século das Luzes? Ou pode o lslã ser reformado?

O lslão não pode ser reformado. As tentativas de reforma que se sucederam ao longo de um século, no Paquistão, no Egito ou noutros lugares, falharam todas e só geraram modelos terroristas. É por isso que não confio na renovação do discurso religioso, propalada por alguns muçulmanos e até mesmo por alguns leigos. A única saída é a derrota do projeto religioso tal como é encarnado pelas instituições e poderes islâmicos, com as suas ideias mumificadas e métodos estéreis. Além disso, sou muito crítico em relação ao conceito de tolerância, um dos escândalos do pensamento religioso em geral, uma vez que implica uma espécie de indulgência por parte do crente para com o outro diferente dele. O primeiro acredita piamente que o outro é um pecador, um ímpio e um renegado, senão mesmo uma vergonha para a Humanidade. A tolerância anula, assim, qualquer possibilidade de diálogo; só o pleno reconhecimento do outro permite que alguém quebre o seu narcisismo e entre em diálogo com ele.

O atual incremento do terrorismo poderá ser entendido como um sinal de dinamismo e vitalidade do Islã?

Falar de vitalidade do fenômeno religioso recorda uma frase famosa atribuída a André Malraux sobre o “regresso da religiosidade”. A religião está, manifestamente, ressurgindo. Mas é um retorno assustador, que transformou o jihadista num monstro e num carrasco. Não convém deixar-se enfeitiçar por palavras como “regresso” ou "vitalidade".

Qualquer fenômeno ou atividade tem dois aspetos: uma coisa que começou por ser benéfica, pode degenerar e produzir efeitos nocivos, se não conseguirmos modificá-la e fazê-la evoluir. É o que está acontecendo na França: o seu modelo social e econômico, o melhor da Europa, desgastou-se e precisa ser renovado, coisa que a França parece incapaz de fazer. Assim, considero que o projeto religioso do lslã, tal como foi reformulado há mais de um século, não exibe nem vitalidade nem criatividade; está reduzido a uma simples regressão ao passado, a uma reação motivada pelo desejo de vingança contra o Ocidente que acordou a civilização islâmica da sua letargia.

Defendo igualmente que o projeto do Islã contemporâneo falhou em toda a parte onde os islâmicos tomaram o poder, e em que organizações terroristas, como o Estado Islâmico e outras semelhantes, trabalham na sua própria destruição e na do projeto religioso em geral. Quero dizer com isso que as sociedades árabes necessitam de atravessar todas as calamidades, desastres, massacres e guerras civis para se convencerem de que o lslã já não é válido para construir uma civilização desenvolvida e moderna. Não há reconciliação possível entre o lslã e a modernidade ou o Ocidente.

Por que você diz que as elites intelectuais contribuíram para a ascensão do fundamentalismo religioso?

Contribuíram de duas maneiras. Em primeiro lugar, através do fracasso dos seus projetos de modernização e reforma. A sua atitude era utópica. Comportaram-se de uma forma simplista em relação às ideias que propunham, tomando-as por verdades absolutas, modelos preestabelecidos, sem necessidade de qualquer modificação para poderem ser aplicadas à realidade. Ora, uma ideia, ao transitar de uma sociedade para a outra, deve passar por uma espécie de transformação criativa, a fim de ser eficazmente posta em prática em qualquer domínio. Em segundo lugar, alguns intelectuais apoiaram regimes despóticos, nas versões secular ou teocrática, a pretexto de que lutavam contra a hegemonia dos Estados Unidos. O mais famoso dos que defenderam essa posição é provavelmente Chomsky, que considera que a credibilidade do intelectual se mede em função da sua oposição à política norte americana.

Assim fazendo, eles iluminaram o caminho para muitos intelectuais árabes, que assim se atiraram nos braços dos tiranos.