quarta-feira, 2 de março de 2016

Rabino Jonathan Sacks vence o Prémio Templeton por promover entendimento inter-religioso – Por Filipe d'Avillez


O antigo rabino-mor do Reino Unido pretende usar o dinheiro do prémio para intensificar o combate ao extremismo religioso.

O rabino britânico Jonathan Sacks venceu a edição de 2016 do Prémio Templeton, que destaca contribuições excepcionais para a afirmação da dimensão espiritual da vida. A visão de Sacks para o diálogo inter-religioso, no sentido de promover o entendimento entre povos e culturas, foi a razão pela qual o júri o destacou, segundo uma declaração da organização.

“Depois do 11 de Setembro, o rabino Sacks identificou a necessidade de se responder ao desafio do radicalismo e do extremismo e fê-lo com dignidade e graça”, disse Jennifer Simpson, em nome da organização. 

Jonathan Sacks foi durante vários anos o rabino-mor do Reino Unido e é autor de vários livros, incluindo o recente: “Not in God’s Name, Confronting Religious Violence” [Não em nome de Deus, Confrontando a Violência Religiosa] em que faz uma reinterpretação de várias passagens do Antigo Testamento, nomeadamente histórias de conflito entre irmãos, que constam das tradições das três religiões abraâmicas e que podem, com uma leitura superficial, contribuir para o antagonismo entre muçulmanos, cristãos e judeus.

O Prémio Templeton foi instituído pelo já falecido John Templeton, através da Fundação Templeton, em 1972. O prémio tem o valor de 850 mil euros que o rabino diz que pode servir para intensificar os esforços de combate à violência e o extremismo religioso.

Vencendo o prémio, Sacks junta-se a outras figuras do mundo religioso como Jean Vanier, fundador das comunidades A Arca, a madre Teresa de Calcutá, o padre checo Tomas Halik, Desmond Tutu e o Dalai Lama.





Cuba e as religiões – Por Dom Demétrio Valentini



Por esta, nem Fidel Castro, nem Frei Betto, poderiam sequer ter imaginado: ver Cuba como sede do histórico encontro entre o Papa Francisco e o Patriarca Kirill, da Igreja Ortodoxa Russa.

Frei Betto se notabilizou com o livro publicado por ele, décadas atrás, quando ainda eram muito tensas as relações entre o governo cubano e a Igreja Católica. Com seu título chamativo, "Fidel e a Religião”, o livro de Frei Betto se tornou um "Best-seller”, e despertou enorme curiosidade. Mas, sobretudo, foi pavimentando o caminho para o desenho de outra imagem de Fidel Castro, e das surpreendentes coincidências entre as preocupações da revolução cubana e as motivações da religião.

A argúcia do entrevistador foi despertando as reações do famoso entrevistado. Mas Frei Betto soube muito bem colocar sua arte de escritor a serviço de uma causa na época muito arriscada: superar os preconceitos contra um personagem de inegável peso histórico, e ao mesmo tempo mostrar as possibilidades de interação positiva entre fé e política, entre Igreja e Estado, entre governo e religiões.

O surpreendente encontro em Cuba, entre o chefe da Igreja Católica, o Papa Francisco, e o chefe da Igreja Ortodoxa Russa, o Patriarca Kirill, de Moscou, vem consolidar o processo de abertura do regime cubano, e a progressiva aproximação dos outros países, que vão normalizando suas relações com este país latino-americano que carrega uma inegável contribuição política, e conta com um personagem extraordinário, que ainda está vivo, e que desmente pessoalmente as reiteradas versões de que ele iria permanecer no comando do governo cubano até sua morte. Ao contrário, ele teve a coragem política de renunciar ao cargo de Comandante, deixando sólidas esperanças de que a sucessão política em Cuba encontre sua maneira adequada de acontecer e de se normalizar. 

Quando João Paulo II realizou a primeira visita de um Papa a Cuba, ele lançou o desafio que parece ter captado bem o alcance da experiência cubana. Propôs que "Cuba se abra ao mundo, e o mundo se abra a Cuba”.

Para sugerir que a experiência cubana ainda precisava ser consolidada, e ao mesmo tempo precisava ser valorizada, num mundo que tem tanta necessidade de superar preconceitos que perturbam a convivência pacífica entre regimes políticos de diferentes visões de vida.

Em termos de relações entre países, o fato mais significativo foi, sem dúvida, o restabelecimento das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba, já formalizado oficialmente. Agora, para consolidar este novo relacionamento, o Presidente Barak Obama anunciou que visitará Cuba dentre de poucas semanas.

Com 50 anos de embargo econômico, tramado pelos Estados Unidos, não é de estranhar que exista agora um longo e penoso caminho de vivência política e de abertura econômica, que exige tempo para ser implementado.

Mas o fato de Cuba ter sediado o surpreendente e inesperado encontro religioso, entre o Papa e o Patriarca russo, confere a este país um peso simbólico muito importante. Cuba pode se apresentar ao Presidente Obama como o anfitrião privilegiado para hospedar os interlocutores da convivência pacífica entre mundos diferentes, e o diálogo construtivo para a superação de preconceitos históricos.

Em meio ao horizonte sombrio que tolda as esperanças de uma paz verdadeira, existem sinais positivos que precisam ser valorizados. Desta vez estes sinais foram protagonizados pela religião. Sob inegável patrocínio da experiência cubana.

Dom Demétrio Valentini - Bispo emérito de Jales (SP) e Presidente da Cáritas Brasileira até novembro de 2011.






Projeto Sintonia reúne líderes religiosos


O auditório do Centro de Educação Integral (CEI) Vieira da Silva foi palco da terceira edição do Projeto Sintonia, que visa capacitar os segmentos religiosos sobre prevenção às drogas. 

A ação foi idealizada pela Coordenadoria Municipal de Políticas Públicas sobre Drogas, da Secretaria de Ordem Pública. O encontro, realizado da manhã de ontem, reuniu representantes de igrejas católicas; das Secretarias de Assistência Social e Direitos Humanos e de Saúde; do Conselho Tutelar e do Centro Especializado de Atendimento a Mulher (Ceam).

O Projeto Sintonia é parte da Patrulha da Prevenção, cujo objetivo é debater sobre prevenção às drogas nos variados segmentos da sociedade. Segundo a coordenadora da Compod, Emília Nascimento, as igrejas têm um importante papel a ser cumprido no que diz respeito ao uso de drogas.

Neste mês de Março, o encontro será entre representantes de igrejas evangélicas e em Abril entre espíritas, budistas e umbandistas. “Queremos levantar a importância da religião nesse contexto”, afirmou Emília.

Durante o encontro, a coordenadora apresentou algumas ações desenvolvidas pela Compod, como o projeto Força Tarefa Escolar, que acontece mensalmente nas escolas. Este ano, a primeira unidade a receber o programa foi o Colégio Municipal Marcello Drable.

Um grupo de voluntários visitou a escola para conversar com os professores e alunos. O objetivo é ouvir a demanda dos profissionais e entender o contexto no qual a escola se encontra.

A partir daí a situação é encaminhada pelo setor responsável. A ação é realizada pelo Compod e pelos Centros de Referência de Assistência Social (Cras), o Programa Saúde Mental e pela Guarda Municipal.

A coordenadora do Ceam, Maria da Penha Silva, frisou que 70% das mulheres atendidas pelo Centro Especializado foram vítimas de violência por causa das drogas.

“É um fator que contribui para a violência doméstica. Nosso trabalho está mais complexo do que antes e, por isso, acredito ser importante estar juntos com o Compod e demais segmentos da sociedade”, completou. 





Santuário em Criciúma-SC incrementará turismo religioso em 2017 – Por Nei Manique




Obra com capacidade para 5 mil pessoas será inaugurada em Abril.

A fixação da estrutura metálica da cúpula assinalou nesta semana mais uma etapa na construção do Santuário Sagrado Coração de Jesus. Localizada na comunidade de Morro Bonito, Segunda Linha, a obra de 3.500 m2 de área construída vinculada à Paróquia São Donato abrigará até 5 mil pessoas em pé.

"Com 1.400 assentos, o santuário será a maior estrutura física da Diocese de Criciúma em todo o sul do estado", revela o padre Antonio Vander, mentor e coordenador do projeto. "Como estamos trabalhando por etapas, fica difícil quantificar o investimento, resultado de doações e colaborações."

O santuário e as dependências no entorno ocuparão 3,5 hectares. Mantido o cronograma, a inauguração está agendada para 23 de Abril de 2017. "No dia 3 de Abril próximo vamos inaugurar o centro administrativo com algumas lojas porque o local já recebe muitos visitantes", informa o religioso.

A estrutura toda contará com diversas unidades independentes. "Teremos a Igreja da Agonia, com 200 m2 e cercada por 33 oliveiras, a Casa do Peregrino e a Casa do Reitor, com 444 m2, além da Praça de Nossa Senhora", acrescenta.

Turismo Religioso

Uma vez inaugurado, o Santuário Sagrado Coração de Jesus terá "forte impacto no turismo religioso", admite o sacerdote. "Vamos ter com certeza um fluxo permanente de peregrinos desde o norte do Rio Grande do Sul até as várias regiões de Santa Catarina."

Atento à repercussão da obra, o Governo do Estado já assegurou recursos à pavimentação dos seus acessos. "Estaremos a apenas 1,5 km da Via Rápida, mas contaremos com quase 6 km asfaltados", sublinha padre Vander. "Este projeto executado com tanto sacrifício divulgará Içara no cenário nacional."






Jovens dominicanos aliam a mística da fé com dimensão da ação – Por Jilwesley Almeida


A Ordem Dominicana celebra seus 800 anos de fundação no mundo neste ano de 2016. Para falar sobre a teologia praticada pelos frades dominicanos, a Adital entrevistou o Movimento Juvenil Dominicano (MJD).

Aproveitamos a oportunidade para saber também a importância doe Frei Tito de Alencar para o fortalecimento dos princípios dominicanos no Brasil. Para o MJD, lembrar de Frei Tito faz com que se tenha consciência de que a ditadura militar ainda não acabou por completo no Brasil. E que a sociedade precisa estar atenta e agir contra os casos de violência praticados pela polícia militarizada.

Confira a entrevista:

Adital - Como a teologia praticada pelos frades dominicanos é trabalhada na juventude atual?

Todo dominicano é chamado a ser testemunho e pregador da "Verdade” no ambiente em que está inserido. Também nós, do Movimento Juvenil Dominicano, somos impulsionados por este carisma, tal qual os dons que cada um possui para uma melhor pregação na realidade que vivemos, familiar, acadêmica e profissional.

O que acontece, naturalmente, é uma adaptação de linguagem e metodologia, visando à integração e aproximação com o universo do público jovem. Entretanto, são preservados os elementos essenciais dessa fé que liberta, e que pode ser praticada pela Igreja. 

Adital - Qual o diferencial da teologia praticada pelos dominicanos em relação às demais?

A Igreja é muito ampla e muito diversa, portanto, existem muitas formas de ser cristão. A maneira dominicana de seguir Jesus Cristo está baseada em alguns pilares, que são: vida de oração, pois não podemos falar de Deus sem conhecê-lo; vida de estudo, pois a razão e a ciência também nos ajuda a conhecer Deus, além de nos capacitar para uma melhor pregação; a vida comunitária, pois encontramos Deus no próximo e a comunidade é um espaço privilegiado para isto; e a compaixão, tudo para que a pregação ocorra da melhor forma possível, sendo voltada para o mundo, e não para nós mesmos.

Adital - Qual foi a importância de Frei Tito para o fortalecimento desse carisma no MJD Brasil?

Respondendo à sua vocação, Frei Tito foi uma pessoa inserida no mundo e nos conflitos da sua época, engajado na luta pela verdade e pela justiça. Ao olhar para sua história, o MJD tem um exemplo de compromisso, tanto com as questões da atualidade, quanto com o seguimento de Jesus Cristo. Ele nos inspira para a continuidade dessa luta por um mundo mais fraterno, onde a opção pela verdade e justiça guie nossas ações.

Fazer a memória de Tito é tomar consciência de que a ditadura ainda não acabou por completo, em nosso país. É trabalhar para abrir os olhos da sociedade com relação aos inúmeros casos de violência da nossa polícia militarizada, no trato com as periferias, com as comunidades indígenas, camponesas e quilombolas, com os manifestantes que preenchem as ruas, clamando por direitos sociais e políticas públicas. Reconhecer que o Estado e o empresariado opressor, que regem com maestria essa violência, precisam mudar a maneira de governar.

Adital - Como se trabalha a formação política e de direitos humanos dentro do movimento da juventude dominicana?

Dentro da visão da doutrina social da Igreja, como um meio e não como um fim. Como cristãos, acreditamos que a vida humana é a prioridade absoluta, portanto, desejamos um mundo onde os direitos humanos sejam refletidos em ações concretas. A ação política é o único meio de concretizar esses valores, portanto, ela é muito importante para o MJD, pois é um meio de alcançar muitos dos nossos sonhos comuns. Nossa essência é o seguimento a Jesus Cristo e não a um partido político, como tem mostrado, de maneira muito inteligente, o Papa Francisco.

Adital - Como se trabalha essa teologia fora do movimento dominicano?

Queremos ser presença de Deus na sociedade, não para "converter os infiéis”, mas para mostrar à sociedade que é possível ser cristão, ser politizado, estudar ciências, sem ser contraditório e ainda sendo feliz com essas escolhas. Aos que se aproximam e desejam conhecer, as portas estão sempre abertas, aos que têm objetivos em comum, como questões ligadas aos direitos humanos ou outras, estamos dispostos a trabalhar juntos e dialogar, mesmo com diferenças em relação à fé.

Adital - Que experiências o contato com a sociedade proporciona aos jovens dominicanos?

Os jovens do MJD já estão na sociedade, somos um movimento de leigos, os jovens estudam, trabalham, como quaisquer outros jovens. Enquanto MJD, temos oportunidade de conhecer realidades diferentes e trocar experiências.

Adital - Quais os efeitos do exercer dessa teologia na juventude?

Exercer este carisma nos leva a ter um olhar mais misericordioso sobre as diversas situações que acontecem na nossa sociedade. Ter uma fé relacionada ao mundo concreto nos coloca exatamente onde somos chamados a pregar, para a sociedade, fica o testemunho de que ser cristão, para nós jovens, o rosto de Cristo em cada pessoa que sofre com as injustiças e desigualdades do nosso mundo.

Adital - Quais foram os maiores desafios para a família dominicana durante a ditadura militar? E que obstáculos são enfrentados hoje?

Não temos propriedade para discorrer sobre a experiência de toda a família. O que conhecemos, porém, são as histórias de luta pela liberdade de alguns dos nossos irmãos dominicanos, como Frei Tito, Frei Oswaldo Rezende, Frei Betto, etc. Pessoas que doaram a própria vida - no caso de Tito até as últimas consequências - pelo bem comum, pelas outras vidas.

Um dos principais desafios que o MJD vive é o de integrar a dimensão mística da vida com a dimensão da ação. Somos um grupo de Igreja, ligada a uma ordem religiosa, que tem uma vida de oração, mas não queremos estar apenas dentro das igrejas, queremos sair, mas sem deixar de ser cristãos.

Adital - Como o movimento de juventude dominicana avalia a sociedade atual, quando se trata da busca por espiritualidade, fé e contato com o ambiente religioso?

Na sociedade atual, vivemos, como diz Bauman, tempos líquidos, na sua grande maioria, as pessoas buscam coisas que passam rapidamente diante delas, aproveitam ao máximo e depois a descartam; infelizmente, a sociedade também encara a busca pela espiritualidade, fé e ambiente religioso desta forma, dificilmente, encontramos algo profundo e sólido na realidade em que vivemos, este é mais um dos desafios que temos ao assumirmos um carisma, que tem a pregação como estilo de vida.