domingo, 6 de dezembro de 2015

Livro traça ligação entre espiritismo e psiquiatria no antigo Hospital Bom Retiro – Por José Carlos Fernandes



“Sanatório” que marcou a capital na primeira metade do século ainda mexe com a imaginário da população. Local acaba de ganhar espaço em um livro que resgata a ligação entre espiritismo e psiquiatria.

Até pouco tempo, quando alguém queria se safar de um enrosco, soltava o infalível bordão “doutor Alô mandou não contrariar”. A frase tinha o efeito de um “sossega-leão”.

Não só existiu um médico chamado Alô, Alô Guimarães, como a simples menção de seu nome invocava o “sanatório” do Bom Retiro, em Curitiba, do qual foi diretor, e, de troco, os métodos ali aplicados para aplacar a fúria de quem perdeu o juízo. Nenhum local mexia tanto com a imaginação dos curitibanos e moradores da redondeza. Assim permanece.

Do rodapé ao cabeçalho

O médico Alô Guimarães, um dos marcos da história do Hospital Bom Retiro, “não cabe numa caixinha”, como se diz no popular. Na mocidade, foi jornalista, tirando dos eixos uma carrancuda Gazeta do Povo. 

Deu-se na década de 1940, a mesma em que assumiu com honras de estado o setor de psiquiatria do Paraná. O nome de Alô era menos divertido e solene quando saía da boca do escritor Austregésilo Carrano, autor de O Canto dos Malditos, livro que deu origem ao longa: Bicho de sete cabeças, da qual o médico saiu chamuscado. A obra chegou a ser retirada das livrarias pela família.

Pois quem gosta de histórias, e das melhores, não deve esquecer que Alô não é o único personagem impagável dessa saga relegada à descrição dos rodapés, mesmo merecendo os cabeçalhos. Segundo a pesquisadora Andrea de Alvarenga Lima, Alô não era espírita, era maçom. Entrava nas igrejas católicas, nas não ajoelhava. E tinha livre trânsito na rica e culta federação que mantinha o Bom Retiro.

Exótico, estava sempre em boa companhia. Sobrenomes capazes de fazer abrir as melhores cristaleiras, como Leprevost, Ferreira da Costa e Tourinho, também participavam desse núcleo seleto pelo qual transitavam ervateiros, poetas, intelectuais, não raro casados com Filhas de Maria. 

Sentadas nos bancos de catedral, elas ouviam que as piores condenações estavam reservadas àqueles com quem dormiam e a quem seus filhos pediam bênção. O surpreendente é que esses acordos dignos da ONU tenham demorado tanto a chamar atenção e a serem estudados. A tragédia que se abateu sobre o prédio histórico do Bom Retiro em 2013, por ironia, acordou a Curitiba que ignorava sua veia kardecista e o que isso possa significar.

Campo minado

O antigo Hospital Bom Retiro permanece “em estado de demolição”. É campo de guerra para ambientalistas, que não engolem seu desaparecimento. Tem 20 mil metros quadrados de mata em 50 mil metros de terreno; nascentes de rio e; quando em funcionamento, 700 pinheiros-do-paraná. 

A construção, que não recebeu proteção do patrimônio municipal ou estadual, seguia o modelo dos sanatórios do início do século passado. Poderia ter parte de sua fachada preservada, ao menos. Paralelo à arquitetura, era, marco de uma certa mentalidade psiquiátrica,

Em maio de 2013, a demolição do Hospital Bom Retiro, plantado desde 1945 no bairro ao qual emprestou seu nome, não provocou um protesto, à moda do que fazem agora os estudantes paulistas. Mas causou impressão. Fez-se luto nas redes sociais. Trocas de farpas entre autoridades e ativistas do patrimônio. Pichações nos muros pediam que o alvará de demolição fosse queimado em praça pública. A grita foi sem sucesso.

“hospital dos espíritas”, como também era chamado, virou uma montanha de entulhos e no seu lugar deve nascer mais um empreendimento de arranhar os céus. Em outras instâncias, que não a imobiliária, contudo, o ocaso do Bom Retiro virou um gatilho para revisar uma página da história até então escrita a lápis: a influência dos seguidores de Allan Kardec no Paraná.

Há matéria-prima o bastante para doutor Alô nenhum ficar amuado. A começar que não se passa nem pelo simbolismo, nem pelo fausto da erva-mate, ou tampouco pela fundação da UFPR sem roçar no espiritismo, uma evidência que os novos pesquisadores deixaram de ignorar. Ainda que não forme uma Biblioteca de Alexandria, o assunto extrapola os muros da Federação Espírita do Paraná, fundada em 1902, e ganha cada vez mais território na academia. 

Passa pelas pesquisas pioneiras dos historiadores Flamarion Laba da Costa e Cleusa Fuckner, para citar dois, chegando à mais recente, Psiquiatria e espiritismo, a história do Hospital Bom Retiro, da Editora Factum. A assinatura é dos psicólogos Andrea de Alvarenga Lima e Adriano Furtado de Holanda.

O estudo de Andrea e Adriano tende a ter vida longa, por uma razão prática: em vez de servir uma única especialidade, bem a gosto da pesquisa acadêmica, serve um banquete completo, em que história, psiquiatria, religião e imaginário trançam as pernas e andam de braço dado. É saboroso como, a despeito dos incrédulos, o assunto pede. Parte dessa proeza se deve ao percurso de linhas tortas palmilhado pela autora.

Historiadora de primeira formação, Andrea de Alvarenga Lima tentou pesquisar outro templo da psiquiatria no Paraná, o Hospital Nossa Senhora da Luz, para a monografia de conclusão de curso. Sua descrição do que aconteceu é desafiar o mais evoluído dos médiuns. “Eu queria escrever a ‘História da loucura em Curitiba’. Me achava o Michel Foucault, mas fiz dois dias de pesquisa e abri a boca chorar. Desabei”, conta. Desistiu, mas o assunto não desistiu dela.

Nos anos 2000, graduada em Psicologia e membro de um grupo de pesquisa liderado por Adriano Furtado de Holanda, da UFPR, deparou-se com pelo menos duas emergências, para as quais não tinha mais desculpas:

1) estudar as relações entre psicopatia e religião;
2) e o lugar onde tudo se condensa. 

Em vez do Nossa Senhora da Luz, o Bom Retiro, cujos membros do corpo técnico, numa conspiração, não só dividiam com ela a sala de aula como lhe tilintavam as chaves dos arquivos do hospital.

“Ver tudo aquilo te esperando é enlouquecedor. O TOC foi lá em cima”, brinca, sobre o que sentiu ao ver aquela fileira de arquivos de ferro forrados de atas, fichas e prontuários, ali acumulados ao longo de mais de 60 anos. 

Dessa vez, manteve-se firme, investigando temas caros à historiografia e à crônica da psiquiatria brasileira. O resultado não poderia ser mais surpreendente: os altos da cidade onde funcionava o hospital era o epicentro dos debates sobre ciência, religião e até literatura. 

A psiquiatria aplicada era a clássica, mas não se pode dizer o mesmo da ousadia intelectual dos espíritas, que faziam do Bom Retiro um endereço de caridade, mas também de pensamento. “Eles enchiam prateleiras de escritos. E eram muitos, de muitas tendências, os da elite e os da periferia. Pouco se fala disso”.

Coincidência ou não, um ano depois do término da pesquisa o hospital financiado pelo mítico capitalista e espírita Lins de Vasconcelos virou poeira. Psiquiatria e espiritismo não nasceram para ser testamento do espaço perdido, mas é inevitável que sejam lidos como.







Primeira pesquisa mundial sobre religião e ciência tem resultados surpreendentes



Será que todos os cientistas são ateus? Eles acreditam que religião e ciência podem coexistir? Ou acham que as duas coisas são conflitantes?

Enquanto existem muitas assunções e sensos comuns sobre o tema, uma nova pesquisa resolveu tirar esse assunto a limpo, e seus resultados foram surpreendentes. 

O método 

Esse foi o primeiro estudo mundial e o maior, sobre como os cientistas veem a religião, conduzido pela Universidade Rice, dos Estados Unidos. Os pesquisadores recolheram informações de 9.422 entrevistados em oito regiões do mundo: França, Hong Kong, Índia, Itália, Taiwan, Turquia, Reino Unido e EUA. Eles também viajaram a estas regiões para realizar entrevistas em profundidade com 609 cientistas.

Ao entrevistar cientistas em várias fases da carreira, nas aéreas de biologia e física, em instituições de elite e não de elite, os pesquisadores esperavam ter uma visão representante dos cientistas sobre religião, ética e como ambas se cruzam com seu trabalho científico.

Os resultados desafiam os pressupostos de longa data sobre a dupla ciência-fé. Enquanto é comumente assumido que a maioria dos cientistas são ateus, a perspectiva global do estudo mostra que esse simplesmente não é o caso.

Descobertas

“Mais da metade dos cientistas na Índia, Itália, Taiwan e Turquia se identificaram como religiosos”, disse a principal autora do estudo, Elaine Howard Ecklund, diretora do Programa de Religião e Vida Pública da Universidade Rice. “E é impressionante que existem aproximadamente o dobro de ‘ateus convictos’ na população geral de Hong Kong (55%), por exemplo, em comparação com a comunidade científica nesta região (26%)”.

Os pesquisadores descobriram que os cientistas geralmente são menos religiosos do que uma dada população em geral. No entanto, houveram exceções: 39% dos cientistas em Hong Kong se identificam como religiosos em comparação com 20% da população geral de Hong Kong. Além disso, 54% dos cientistas em Taiwan se identificam como religiosos em comparação com 44% da população geral de Taiwan.

Quando perguntados sobre os conflitos entre religião e ciência, apenas uma minoria dos cientistas em cada contexto regional disse acreditar que ciência e religião estejam em conflito.

No Reino Unido, um dos países mais seculares do estudo, apenas 32% dos cientistas caracterizaram a intersecção entre ciência e fé como conflituosa. Nos EUA, este número foi de apenas 29%.

Por fim, 25% dos cientistas de Hong Kong, 27% dos cientistas da Índia e 23% dos cientistas de Taiwan acreditam que ciência e religião podem coexistir e ser usadas para ajudar uma a outra.

Nuances

Além dos resultados quantitativos do estudo, os pesquisadores descobriram nuances nas respostas dos cientistas durante as entrevistas em profundidade. Por exemplo, numerosos cientistas expressaram que a religião pode fornecer uma “base” em áreas eticamente cinzentas. 

“Religião fornece uma base naquelas ocasiões em que você pode ficar tentado a tomar um atalho porque deseja ter algo publicado e pensa: ‘Oh, essa experiência não foi boa o suficiente, mas se eu retratá-la desta forma, vai parecer que sim’”, exemplifica um professor de biologia do Reino Unido.

Outro cientista disse que o ateísmo tem vertentes, algumas das quais incluem tradições religiosas. “Eu não tenho nenhum problema de ir à missa, é uma coisa cultural”, disse um físico do Reino Unido que por vezes frequenta a igreja porque sua filha canta no coral. “Não tenho fé religiosa, mas não me preocupa que a religião ainda exista”.

Finalmente, muitos cientistas mencionaram que convivem com visões religiosas de colegas ou alunos. “Questões religiosas são muito comuns aqui, todo mundo fala que templo frequenta, a qual igreja costuma ir. Portanto, não é realmente um problema que precisa ser escondido”, disse um professor de biologia de Taiwan.

Aplicações

Ecklund disse que o estudo tem muitas implicações importantes que podem ser aplicadas a processos de contratação de universidades, na estruturação de salas de aula e laboratórios e em políticas públicas gerais.

“A ciência é um empreendimento global”, afirma a pesquisadora. “E enquanto a ciência for global, então temos de reconhecer que as fronteiras entre ciência e religião são mais permeáveis do que a maioria das pessoas pensa”.





PUC de Goiás