segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Em lua de mel com papa, Cuba vê renascimento de fés afro-cubanas - Por João Fellet


Reformas econômicas e abertura religiosa fortalecem a santeria, prática que mescla tradições católicas e culto a orixás.

Turbante à cabeça e vestida de branco, Rosaida Tavio apresenta o salão nos arredores de Havana onde cultua Xangô, seu orixá protetor. No canto, uma estátua da divindade repousa sobre um recipiente de madeira, ladeado por cabaças. No alto, Jesus Cristo e seus apóstolos se sentam à mesa da Santa Ceia.

Tavio é sacerdotisa da santeria, principal religião afro-cubana, mas isso não a impede de também se definir como "100% católica". "Somos mais seguidores de Cristo que qualquer outro grupo", ela diz à BBC Brasil enquanto abana um leque azul.

Tavio e vários de seus filhos espirituais assistiram no domingo à missa em Havana do papa Francisco, louvado por muitos cubanos por seu papel na reconciliação entre Cuba e os Estados Unidos.

Alguns dos pontos brancos na multidão que encheu a Praça da Revolução sinalizavam santeiros recém-iniciados. Pela tradição, quem "faz o santo" (consagração a um orixá) deve se vestir todo de branco por um ano. Outros usavam colares e pulseiras de contas com as cores de seu "orixá de cabeça", guia espiritual de um santeiro.

Após passar várias décadas nas sombras, a santeria e outras religiões surgidas da mescla entre o Cristianismo e tradições africanas, fenômeno também ocorrido no Brasil, vivem hoje um reflorescimento na ilha. O processo ocorre simultaneamente à reaproximação entre o Estado cubano e a Igreja Católica.

Ateísmo de Estado

Ficaram para trás os dias em que, guiado pelo espírito socialista, o governo de Fidel Castro mudou a Constituição para definir Cuba como um Estado ateu, em 1976. 
Na época, conta a católica e sacerdotisa santeira Alina Garcia, de 67 anos, "tínhamos que fazer todos os rituais escondidos."

Ela diz que a santeria, também conhecida como Regla de Ocha, era vista com desprezo pela classe dirigente e sofria uma espécie de "racismo religioso", tida como a crença "dos negros, delinquentes, prostitutas".

Foi naqueles anos, afirma Garcia, que um padre se recusou a abençoá-la porque vestia colares e pulseiras de contas vermelhas e brancas, as cores de Xangô. Nesse dia ela percebeu que nem todos viam o catolicismo e a santeria como faces de uma mesma religião.

Para Garcia, a adoração dos orixás foi um desdobramento natural de sua evolução como católica. Como a maioria dos santeiros, ela só pôde se iniciar na tradição afro-cubana porque já havia sido batizada por um padre e feito a primeira comunhão.

E tal qual no Brasil, em Cuba santos católicos têm correspondentes no mundo dos orixás. A Virgem da Caridade é Oxum; a Virgem de Regla, Iemanjá; Santa Bárbara, Xangô. As três divindades também são cultuadas no Brasil, onde se sincretizaram com outros santos, e foram levadas aos dois países por escravos iorubás, oriundos da atual Nigéria e países vizinhos.

Na santeria praticada por Garcia, todos os rituais começam com um Pai Nosso e a semana de reclusão iniciatória termina com uma visita à igreja.

Abertura e laicização

A sacerdotisa conta que os santeiros começaram a sair à luz conforme o Estado cubano reviu sua postura sobre religiões. Em 1992, mudou-se a Constituição e Cuba se tornou um Estado laico.

As visitas de João Paulo 2°, em 1998, e de Bento 16, em 2012, reforçaram a abertura. Garcia diz que mais um passo será dado com a passagem de Francisco pelo país. "A vinda dele fortalece a igreja, e precisamos da igreja para expressar nossa fé."

Segundo ela, a santeria já superou muitos estigmas e hoje tem praticantes entre todos os grupos sociais cubanos. Um exemplo é seu filho, "um engenheiro branco de olhos claros" que se tornou babalaô (adivinho). Estado e Igreja católica se tornaram mais tolerantes com santeiros nos últimos anos, segundo sacerdotisa.

A sacerdotisa afirma que a Igreja Católica cubana também se tornou mais tolerante com os santeiros e que nunca mais foi censurada por um padre. Não há dados oficiais sobre o número de adeptos de religiões afro-cubanas na ilha. Um estudo do Departamento do Estado americano estimou que 80% dos cubanos tenham algum vínculo com as práticas.

Dinheiro e religião

O renascimento das práticas afro-cubanas também se deve às reformas econômicas promovidas em Cuba nos últimos anos, diz à BBC Brasil a socióloga Daymeé Novo.

Novo estudou em seu trabalho de conclusão de curso na Universidade de Havana o impacto da abertura econômica no mercado religioso cubano. Ela diz que, ao diminuir as restrições à existência de pequenos negócios, as reformas favoreceram o surgimento de lojas de artigos religiosos. Segundo a historiadora, muitos donos dessas lojas são santeiros que passaram a "viver de religião" e a se dedicar integralmente a trabalhos espirituais.

Também graduada em história, a sacerdotisa Rosada Tavio integra o grupo. Em seu apartamento no andar térreo de um edifício de três pisos em Vedado, distrito vizinho a Havana, ela vende itens religiosos e conduz rituais.

Na última quarta-feira, Tavio hospedava um homem e uma mulher panamenhos que foram a Cuba atrás de seus serviços: ele se iniciara no terreiro há alguns anos e dessa vez levou uma amiga, que passaria uma semana em reclusão.

Reafricanização no Brasil

Estudioso da cultura afro-brasileira, o escritor e historiador carioca Luiz Antonio Simas diz que a religião nacional mais próxima da santeria é a umbanda. 
Segundo Simas, que visitou Cuba quatro vezes, a interpretação de que escravos adotaram práticas e santos católicos como um disfarce para continuar cultuando os orixás tem perdido espaço entre os pesquisadores.

Cada vez mais, diz ele, reconhece-se o sincretismo como uma manifestação original de fé. "Existe uma visão deturpada de que o sincretismo embranqueceu religiões negras, mas foi o inverso: ele 'empreteceu' o catolicismo". Simas diz que a santeria e a umbanda vivem hoje momentos distintos: enquanto a religião afro-cubana se fortalece em Cuba, a brasileira tem sido a mais prejudicada pela acirrada competição com as igrejas neopentecostais.

Paralelamente, afirma Simas, a partir dos anos 90 os terreiros brasileiros passam a viver uma "reafricanização, a busca de uma África imaginada", que beneficiou linhagens de candomblé tidas como mais puras e livres de influências cristãs.

Antes, diz o historiador, mesmo ícones do candomblé acenavam abertamente ao catolicismo. Ele conta que, indagada certa vez sobre sua religião, a célebre ialorixá (mãe de santo) baiana Mãe Menininha do Gantois (1894-1986) se declarou católica.

Para ela, como para os santeiros, não havia qualquer incoerência. "Essa contradição que detectamos num exercício de análise intelectual, na prática religiosa ela não existe", diz Simas.






Prefeitura oferece qualificação para atendimento a adeptos das religiões de matrizes africanas


O curso será ministrado pelo Consultor Técnico do Instituto Joana Darc, Luiz Eduardo dos Santos. 

A Prefeitura de Guarujá oferece o curso de qualificação para atendimento à população adepta das religiões de matrizes africanas. A atividade acontece na Escola de Governo e Gestão Pública da Prefeitura, nesta terça-feira (22), das 9 às 12 horas.

O equipamento fica na Rua Washington, 227 – Centro. O palestrante que ministrará o curso será o consultor técnico do Instituto Joana Darc, Luiz Eduardo dos Santos. São 40 vagas disponíveis e as inscrições podem ser feitas no local e hora do curso. Segundo a diretora de Proteção Básica da Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Assistência Social, Maria Angélica de Araújo Cruz, o curso é essencial para que haja igualdade e aceitação.

“A atividade terá ênfase no respeito pela diversidade. Cada um tem sua escolha, e deve ter a chamada ‘tolerância religiosa’. É preciso que as pessoas tenham uma visão humana de qualquer diversidade”, explica

Qualquer dúvida, os interessados podem entrar em contato com a Escola de Governo por meio do telefone 3386-4160, ou da Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Assistência Social (Sedeas) pelo telefone 3308-7780.








Convite


Francisco com Fidel e Che Guevara – Por Darío Pignotti



A missa na Praça da Revolução, sob a imagem de Che, e o encontro com Fidel são gestos históricos de uma viagem com repercussão diplomática extraordinária.

Sob o olhar do retrato do Che Guevara, em plena Praça da Revolução, o papa Francisco celebrou hoje uma missa que provavelmente estampará as capas da maioria dos jornais do mundo na segunda-feira (21/09).

Mais que isso: após concluído o evento litúrgico, o sumo pontífice foi recebido pelo comandante Fidel Castro, que lhe entregou uma edição do livro: “Fidel e a Religião” escrito em 1985 por Frei Betto, um obséquio que resume a história da aproximação entre a Revolução Cubana e o cristianismo progressista.

Uma jornada que confirma a vitalidade renovada da Teologia da Libertação, vertente a qual Francisco abriu os braços, como demonstrou quando recebeu no Vaticano a figuras como o próprio Frei Betto e o padre peruano Gutiérrez, duas importantes referências dessa corrente de pensamento.

Na noite de sábado, ao falar com os jornalistas em Havana, Frei Betto afirmou que o encontro entre o cristianismo e o marxismo é uma síntese virtuosa, indispensável para a compreensão do mundo atual.

“Não se pode interpretar a sociedade e seus conflitos sem utilizar a luta de classes como um dos instrumento da análise”, sustentou Betto. Ao mesmo tempo, o frade dominicano disse que o Estado não pode ser ateu, que deve ser laico, mantendo uma interface criativa com as religiões, entre elas a católica.

O fato de que Fidel Castro tenha entregado a Francisco um exemplar de: “Fidel e a Religião” indica o fim de várias décadas de ostracismo da Teologia da Libertação dentro da Igreja Católica, esta linha filosófica religiosa, essencialmente latino-americana, sofreu a indiferença e a hostilidade dos papas João Paulo II e Bento XVI.

O sermão na Praça da Revolução e a conversa com Fidel serão as notícias mais importantes desta semana, e certamente ficarão registradas nos livros de história como dois fatos marcantes para o rumo que a América Latina deve tomar na segunda década do Século XXI.

A Missa

Às 8h52 horas (uma hora depois, pelo horário brasileiro), oito minutos antes do previsto pelo programa oficial, Francisco começou a celebrar a cerimônia, diante de milhares de fiéis, um público talvez menos numeroso do que o esperado, mas que havia começado a chegar desde as 5h, com suas bandeiras de Cuba e do Vaticano.

Durante a missa, o papa afirmou que “o povo cubano tem feridas, como todo povo, mas sabe estar com os braços abertos, e marchar com a esperança, porque a grandeza de espírito é sua vocação”.

O sumo pontífice argentino fez um chamado aos cristãos, para que vivam respeitando os preceitos bíblicos e que cuidem e sirvam ao próximo, especialmente os mais frágeis e necessitados. “Quem não vive para servir, não serve para viver”, disse o chefe da Igreja Católica.

Ademais, instou os fiéis a que não se deixem levar por “projetos que podem ser sedutores, mas que não representam o rosto de quem está ao seu lado”.

Diplomacia de símbolos

Cubanos, norte-americanos e observadores em geral compartilham a mesma opinião a respeito de Francisco: o Papa conhece a arte da diplomacia, e a exerce através de conversas secretas, combinadas com os grandes gestos simbólicos.

“O papa tem feito muito a favor da aproximação entre Cuba e os Estados Unidos, demostrou ser um homem que sabe atuar com habilidade e discrição” comentou Frei Betto, no sábado. O sermão de hoje foi um evento monumental, perante a sociedade cubana, a opinião pública internacional e o governo dos Estados Unidos.

É pertinente ver os movimentos do Papa como degraus que levam a um caminho lógico: esta missa na Praça da Revolução é o primeiro grande momento de uma viagem que continuará na Filadélfia e Nova York, durante esta semana.

Alguns comentaristas de jornais conservadores europeus destacaram que o pontífice não fez nenhuma menção ao bloqueio norte-americano que asfixia a ilha há mais de meio século. Uma leitura menos ideologizada do que foi dito hoje por Bergoglio indica que falar explicitamente do bloqueio era desnecessário, ou mesmo a respeito do descongelamento das relações entre Havana e Washington e a ocupação norte-americana em Guantánamo.

Nas palavras do Papa, neste domingo, predominaram as referências pastorais dirigidas a um público diversificado como é o cubano, onde os católicos são uma minoria que não chega a 30% da população.

Colômbia e Miami

Há meses, Havana vem sendo a sede dos diálogos de paz entre os rebeldes das Forças Revolucionárias Armadas da Colômbia (as FARC) e o governo desse país. Antes da chegada de Francisco, no sábado, se especulou sobre uma possível reunião com os delegados colombianos, o que foi descartado pelas fontes do Vaticano.

Ainda assim, o tema foi abordado na missa de hoje. Durante o Angelus, o Papa Jorge Mario Bergoglio afirmou que não pode haver “outro fracasso” nas negociações para levar ao fim da guerra civil colombiana, a mais prolongada da América Latina.

Francisco disse que o país caribenho é “consciente da importância crucial do momento presente” e apoiou “todos os esforços, inclusive os feitos nesta bela ilha, para uma definitiva reconciliação” entre as partes em conflito.

Não houve, no discurso papal, referências diretas aos dissidentes cubanos nos Estados Unidos, especialmente os de Miami, os que militam contra a Revolução há meio século e são os principais defensores do bloqueio.

Essa omissão representa uma derrota política para essas agrupações dirigidas por líderes extremistas, alguns dos quais realizam greve de fome, em protesto contra a viagem do chefe de Estado do Vaticano à ilha.






Convite


"Qualquer intervenção militar ocidental deverá ser consequente e considerar o statebuilding" - Por Leonídio Paulo Ferreira



Entrevista a Felipe Pathé Duarte, cientista político e vice-presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT)

No livro Jihadismo Global fala de competição entre o Estado Islâmico, ou DAESH como diz, e a Al-Qaeda. Competição em vez de cooperação, porquê?

Competição profunda. Veja-se que o DAESH começa como a ramificação da Al-Qaeda [AQ] no Iraque. Em 2013 tentam aumentar o seu espaço tomando de assalto a Jabhat Al-Nusra, a filiação qaedista na Síria. Desta fusão, deveria nascer um "Estado Islâmico da Síria e do Iraque". A intenção foi tomada como hostil e prontamente limitada pela AQ. Mas al-Baghdadi permaneceu na sua intenção, pondo em causa a legitimidade de al-Zawahiri. Em 2014 o DAESH separa-se formalmente da AQ e entram em disputa e confronto.

Quando distingue islão e jihadismo não está a ser politicamente correto? Não porque todo o islão seja jihadista, mas porque este tipo de terror com inspiração religiosa vem sobretudo do campo muçulmano?

De todo. É uma questão de interpretação e análise do pensamento estratégico jihadista que, na sua essência, é secular e geopolítico. Basta ler os textos fundadores. Veja que o ódio antiocidental não é uma característica religiosa nem étnica - é política, social...e ocidental. As motivações que levam um jovem que viva nos subúrbios de Londres a entrar para o DAESH têm mais que ver com contexto social do que com a religião. Basta ver o perfil dos jihadistas portugueses, por exemplo. O jihadismo não deixa de ser uma machadada secular no islão, tal como foi, de formas diferentes, a laicização de Atatürk ou a teocracia constitucional de Khomeini. Note que esta posição não se trata de uma defesa do islão, cuja passividade em relação ao que se passa até sugere uma certa anuência. O que é preciso é separar as águas e dizer que não há guerras religiosas ou civilizacionais.

Existe uma vontade de revanche do mundo árabo-muçulmano contra o Ocidente que explica o sucesso da mensagem jihadista?

Não creio. Isso é uma leitura que sugere que houve uma falha da outrora grande civilização islâmica, pré-iluminista, perante o confronto com a modernidade ocidental, a partir do século XVIII. Nesta linha, há também quem veja esta situação como uma espécie de terceira fase da luta anticolonial: houve a política, a económica, agora é a identitária e cultural - uma espécie de produto e revanche da globalização. Cai-se muitas vezes no erro da generalização. Tanto o islão como o mundo árabe não são monolíticos. Por isso, não vejo o fenómeno como uma especificidade religiosa ou étnica que reage. É o resultado de um movimento social, em contextos específicos, com uma ideologia comum. É importante não cair no estereótipo - isso convém à narrativa jihadista, que justifica a ação violenta perante o suposto ataque do Ocidente ao islão.