segunda-feira, 21 de setembro de 2015

"Qualquer intervenção militar ocidental deverá ser consequente e considerar o statebuilding" - Por Leonídio Paulo Ferreira



Entrevista a Felipe Pathé Duarte, cientista político e vice-presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT)

No livro Jihadismo Global fala de competição entre o Estado Islâmico, ou DAESH como diz, e a Al-Qaeda. Competição em vez de cooperação, porquê?

Competição profunda. Veja-se que o DAESH começa como a ramificação da Al-Qaeda [AQ] no Iraque. Em 2013 tentam aumentar o seu espaço tomando de assalto a Jabhat Al-Nusra, a filiação qaedista na Síria. Desta fusão, deveria nascer um "Estado Islâmico da Síria e do Iraque". A intenção foi tomada como hostil e prontamente limitada pela AQ. Mas al-Baghdadi permaneceu na sua intenção, pondo em causa a legitimidade de al-Zawahiri. Em 2014 o DAESH separa-se formalmente da AQ e entram em disputa e confronto.

Quando distingue islão e jihadismo não está a ser politicamente correto? Não porque todo o islão seja jihadista, mas porque este tipo de terror com inspiração religiosa vem sobretudo do campo muçulmano?

De todo. É uma questão de interpretação e análise do pensamento estratégico jihadista que, na sua essência, é secular e geopolítico. Basta ler os textos fundadores. Veja que o ódio antiocidental não é uma característica religiosa nem étnica - é política, social...e ocidental. As motivações que levam um jovem que viva nos subúrbios de Londres a entrar para o DAESH têm mais que ver com contexto social do que com a religião. Basta ver o perfil dos jihadistas portugueses, por exemplo. O jihadismo não deixa de ser uma machadada secular no islão, tal como foi, de formas diferentes, a laicização de Atatürk ou a teocracia constitucional de Khomeini. Note que esta posição não se trata de uma defesa do islão, cuja passividade em relação ao que se passa até sugere uma certa anuência. O que é preciso é separar as águas e dizer que não há guerras religiosas ou civilizacionais.

Existe uma vontade de revanche do mundo árabo-muçulmano contra o Ocidente que explica o sucesso da mensagem jihadista?

Não creio. Isso é uma leitura que sugere que houve uma falha da outrora grande civilização islâmica, pré-iluminista, perante o confronto com a modernidade ocidental, a partir do século XVIII. Nesta linha, há também quem veja esta situação como uma espécie de terceira fase da luta anticolonial: houve a política, a económica, agora é a identitária e cultural - uma espécie de produto e revanche da globalização. Cai-se muitas vezes no erro da generalização. Tanto o islão como o mundo árabe não são monolíticos. Por isso, não vejo o fenómeno como uma especificidade religiosa ou étnica que reage. É o resultado de um movimento social, em contextos específicos, com uma ideologia comum. É importante não cair no estereótipo - isso convém à narrativa jihadista, que justifica a ação violenta perante o suposto ataque do Ocidente ao islão.






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