quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Convite


Devoção à Apple já se tornou um culto religioso, explica pesquisadora



O lançamento do iPhone 6s e iPhone 6s Plus na última sexta-feira (25/09) trouxe de volta uma realidade que já estamos acostumados a ver todos os anos: basta a Apple trazer um novo produto para que os fãs façam enormes filas em frente às lojas para ter a novidade em mãos o quanto antes.

E, se para muitos isso é apenas um fanatismo bobo, alguns especialistas vêem nesse comportamento o mesmo padrão de qualquer outro culto religioso.

Pode parecer exagero, mas é exatamente o que pensa a professora da Universidade de Nova York, Erica Robles-Anderson. Ela é historiadora cultural e percebeu algumas similaridades entre essa devoção do público e o que vemos em muitas religiões mundo afora. 

E o maior exemplo disso foi o entusiasmo das pessoas que esperavam o novo iPhone em frente à Apple Store em Manhattan. Fãs aguardavam ansiosos em frente ao símbolo da Maçã e muitos empunhavam ainda a biografia de Steve Jobs para deixar mais do que evidente sua paixão por aquilo tudo. Na verdade, não é preciso ser nenhum estudioso para fazer um paralelo com outras religiões, não é mesmo?

Para Robles-Anderson, esse tipo de coisa caracteriza de maneira óbvia essa paixão como um culto. E ela explica que a Apple sabe disso e usa essa ideia a cada lançamento de seus produtos, fazendo com que a comunidade se sinta parte daquilo, quase como se estivesse lutando contra algo.

O mesmo pode ser dito de suas lojas. A pesquisadora diz que as grandes e pesadas portas das Apple Store não fazem muito sentido em termos práticos, mas dão ao público a sensação de que aquilo tudo é importante. 

Em tese, é quase como pensar nas portas de uma catedral: aquela grandiosidade faz com que você se sinta pequeno. E, ao entrar no recinto, luzes e escadas conduzem você para algo acima.

Além disso, Robles-Anderson destaca a relação das pessoas nesses ambientes. Segundo ela, o ato de ver e ser visto por outros devotos faz parte dessa ideia do culto. E, como se não bastasse, o atendimento dos funcionários é voltado para ser algo pessoal, como se tudo ali girasse em torno do indivíduo.

Outro ponto que chama a atenção em sua comparação é o modo como ela enxerga os chamados Genius, funcionários das Apple Stores que demonstram a utilização de determinados dispositivos para grupos de consumidores. De acordo com a pesquisadora, esse é o típico padrão de qualquer líder religioso, como um padre ou pastor: é alguém que está ali para instruir e colocá-lo no caminho proposto pelo culto.

Isso tudo parece forçado? Um pouco, mas não há como negar que alguns pontos levantados por ela fazem muito sentido. Essa ideia de que tudo o que a Apple faz é bom e que motiva muita gente a correr atrás de cada produto é algo que a gente está acostumada a ver. E não se trata apenas de não questionar se aquela novidade é boa ou não, mas de desconsiderar o resto em prol daquilo que a empresa oferece.

Como o site CNET relembrou, muita gente simplesmente descartou o Spotify no exato instante em que o Apple Music chegou, isso sem ter a mínima certeza se o serviço seria tão bom quanto. Como a pesquisadora destaca, a ideia de que "a Apple nos traz tudo aquilo que há de bom" já é um forte sinal de que essa paixão está caminhando mesmo para se tornar um culto.

E o curioso é que isso não se repete com outras empresas. Robles-Anderson cita o exemplo da Samsung, que tentou replicar esse efeito Apple no lançamento de seus produtos ao preparar o espaço para receber enormes filas, mas não conseguiu o efeito esperado. 

Para ela, a diferença está no fato de que a fabricante sul-coreana não entendeu a filosofia adotada pela rival de realmente abraçar o seu fã. Não se trata apenas de oferecer uma estrada diferenciada, mas de fazê-lo se sentir especial e parte daquilo como um todo.






Andar com fé – Por Shirley Pacelli


http://app.divirta-se.uai.com.br/access/noticia_133890394703/172344/48/eq.gif Conheça as histórias da rapper evangélica, do ator católico, da cantora que saúda os orixás, do músico espiritualista e da coreógrafa espírita. 

"No cenário do rap gospel, eles se consideram adoradores e não artistas. Respeito, mas é diferente da minha proposta", Tamara Franklin, rapper evangélica. “Que o pão nosso de cada dia não seja só pros bacanas. Nos ensine a perdoar, porque o rancor engana”.

Os versos da canção: Oração, da rapper Tamara Franklin, de 24 anos, que foi criada desde pequena nos cultos da Igreja Batista, mostram o conflito interno que ela trava todos os dias: seguir os preceitos do cristianismo ou se dedicar de maneira mais “agressiva” às questões sociais inseparáveis do rap?

Diferentemente de Joelma, que anunciou recentemente a intenção de se tornar uma cantora gospel para se dedicar exclusivamente “à obra de Deus”, Tamara tenta se desvincular do rótulo gospel. Nome promissor no cenário do hip-hop mineiro, Tamara lançará o CD Anônima em Novembro. 

Seu primeiro contato com a cultura hip-hop se deu dentro de uma igreja em Ribeirão das Neves, quando tinha 8 anos. Ainda hoje, ela frequenta os cultos de uma congregação cuja líder é negra e desenvolve trabalhos voltados à periferia. A comunicação se torna ainda mais fácil quando até os pastores dançam break.

“Sou declaradamente evangélica. Mas acho que dizer que meu trabalho é em prol da religião limita minha arte. Minhas músicas têm essa influência, mas são voltadas, especialmente, para um discurso racial e social”, afirma. 

Conciliar um discurso crítico na arte com o cristianismo, para a rapper, é tarefa árdua. “No cenário do rap gospel, eles se consideram adoradores e não artistas. Respeito, mas é diferente da minha proposta”. Ela afirma que a igreja já colaborou muito na opressão do negro e da mulher.   

Questionando falas de lideranças religiosas, Tamara às vezes é vista como rebelde no meio evangélico. “Muitos gostam de abraçar tudo o que o pastor fala, mas não param para pensar no contexto. Eu convido para a reflexão”, diz. 

Apesar disso, seu público, formado tanto por cristãos quanto por fãs de rap, a recebe bem. “Nunca cheguei no palco com um discurso de querer converter todo mundo”, afirma.

“Católico, apostólico e romântico” que é, o ator Carlos Nunes não imagina como desvencilhar o papel de ator do cristão. O intérprete da popular peça Como sobreviver em festas com buffet escasso tem em Francisco, Do rio ao riso, sobre a trajetória de São Francisco de Assis, seu mais recente espetáculo. A ideia veio depois de uma viagem à Itália, país de origem do santo.

O ator frequenta a Igreja Nossa Senhora da Consolação e Correia, no Santo Agostinho (BH), onde se confessa anualmente. “O padre da paróquia fala italiano e até me ajudou com alguns trechos da encenação”, conta. Contudo, o espetáculo não é católico. “Vou mentir se disser que é. Privilegiamos o ecologista, e não a história da santidade”.

Carlos Nunes diz que, desde criança, “celebrava missas” no Serro, cidade mineira onde foi criado. A mãe achava que ele queria ser padre, quando, na verdade, ele já fazia teatro sem saber. 

“Eu cortava banana em tirinhas bem fininhas para fazer de hóstia. Subia no caixotinho e começava a missa”, relembra. Nunes diz que pauta sua vida pelos princípios cristãos da bondade, justiça e honestidade. “Nunca fui prejudicado ou protegido por declarar abertamente a minha religião”.

Orixás

Preconceito na pele já viveu a cantora Aline Calixto. Suas letras de samba, repletas de referência a orixás, já foram usadas como argumento para deixá-la de fora de um festival. 

“Não vou parar de cantar por isso. Todo esse aparato religioso faz parte da identidade do povo. Acho importante: é uma bandeira que levanto”, afirma.

Com formação católica, como grande parte dos brasileiros, Aline chegou também a se dedicar à umbanda e ao candomblé. Atualmente, não tem vínculo com nenhuma religião. “Faço muita meditação e frequento grupos de estudos filosóficos, como a Instituição Pró-Vida”, diz.

As religiões de matrizes africanas influenciam diretamente o trabalho da sambista. “É normal que eu cante as temáticas afro: é a história do samba. Isso sobrepassa a questão religiosa”.

Meu ziriguidum, terceiro e mais recente disco de Aline, traz duas músicas nessa linha: Ibamolê, que fala de Oxum, orixá de energia feminina, e Lendas da mata, com referências ao folclore brasileiro.

A cantora e compositora se diz grata a tudo que aprendeu e viveu dentro do candomblé e da umbanda. “É sempre encantador quando estou no palco contando a história de algum orixá. A energia que emana daquele momento é muito boa para mim e para o público. Canto com respeito, amor e carinho. As pessoas se sentem tocadas”.

Em tempos de intolerância às orientações religiosas, Aline acredita que os artistas deveriam se posicionar mais. “Acho importante propagar essa onda de respeito”.

Diferença

“O desafio hoje é conviver com a diferença”, avalia Júnia Bertolino, diretora e coreógrafa da Cia. Baobá Minas. O grupo de dança afro-brasileira está prestes a lançar um novo espetáculo sobre mulheres guerreiras, tendo o orixá Ogum, do candomblé, como inspiração. 

A artista, que já cantou em coral de igreja católica e foi do candomblé, hoje se declara uma espírita em busca de autoafirmação e equilíbrio. “Arte para mim é uma forma de comunicação entre Deus e os homens”.

Na preparação corporal do elenco da Baobá, elementos da cultura afro e indígena estão presentes, como a relação do céu e da terra, dos pés fincados no chão, em comunhão com a natureza e a necessidade de se posicionar em círculo. “Dançar é também uma forma de louvar. Dança-se para comemorar tudo: colheita, sol, chuva e até a morte”, diz a coreógrafa.

Fundador e um dos porta-vozes do bloco Pena de Pavão de Krishna, o músico Gustavito defende a espiritualidade universal. “Frequento comunidades ayahuasqueiras, templos hare krishna, casas de umbanda e de candomblé. Tenho influências filosóficas do budismo e adoro cantar a Oração de São Francisco”, diz.

Gustavito diz não pertencer a nenhuma vertente religiosa específica. “Em uma espécie de farra de carnaval, o bloco tem a ousadia de brincar com o sagrado, misturando todas as possíveis formas de espiritualidade”, diz ele. Para o músico, o único preceito a ser seguido é a paz. Suas músicas têm ritmo ijexá (próprio do candomblé), além do samba-reggae, e “entram na atmosfera de boas vibrações, sem preconceito”.


Gustavito afirma que o espiritualismo é algo novo que tem ganho força nas discussões sobre religião. “As pessoas seguem diversos movimentos espirituais, sem ser exatamente devotas de um específico. É uma forma de relação com a religião bem nova, que tem a ver com nosso mundo contemporâneo”.





A essência do cinema iraniano – Por Ana Elizabeth Diniz



O novo cinema iraniano é aquele produzido pós-Revolução Islâmica (1979), em que os diretores usam linguagem metafórica para abordar temas proibidos e como aparato político e de intervenção social.

“Se num primeiro momento, na década de 80, tais diretores realizavam um cinema mais ‘humanista’, depois passam a fazer um cinema com maiores implicações políticas. O maior mérito da cinematografia iraniana é produzir filmes que tocam a alma humana, com simplicidade, por meio de histórias do cotidiano. Os diretores se inspiram na milenar tradição da poesia persa. O cinema é um instrumento de transformação e crítica social”, comenta Graziela Cruz, 49, jornalista com mestrado em cinema pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais.

A fascinação pelo cinema iraniano foi arrebatadora na vida dessa professora de teoria da comunicação na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia e de cursos livres e de extensão na área de cinema. Graziela apresentou, ao lado do professor José Tavares de Barros, o programa “Sala de Cinema”, na TV Horizonte.

“No final dos anos 90, assisti pela primeira vez a um filme iraniano, “Filhos do Paraíso”, do diretor Majid Majidi, que fez muito sucesso no Brasil. Logo percebi que se tratava de uma proposta cinematográfica diferente daquela que nos chega em abundância, que lota a maioria das salas de cinema e que privilegia o ‘mainstream’. Tudo me atraiu: a estética, o ritmo lento do filme, a naturalidade dos diálogos, a ambientação natural, a história envolvente, a presença de crianças e a metáfora poética. Dali em diante, sempre que tinha oportunidade, buscava viajar para aquele outro lado do mundo por meio dos filmes”, relembra a jornalista. 

Segundo ela, “no Irã, a religião não é um aspecto separado de outros setores sociais, como acontece aqui, no Ocidente. Lá, o islamismo dita as normas culturais, morais e está intimamente ligado à condução política do estado. Tanto que o Irã é a única república islâmica do mundo, ou seja, tem um presidente eleito e um governo também religioso, dos aiatolás. Na Revolução Islâmica de 1979, quando o xá Reza Pahlev foi deposto, a grande figura política e religiosa foi o aiatolá Khomeini”.

Graziela ressalta que a religião nos filmes está presente o tempo todo. “O Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, e o islamismo ditam a forma como as mulheres devem se vestir e se comportar em público, os rituais familiares, fúnebres etc. A religião é muito presente, pois é um aspecto cultural. É a própria forma de viver do povo”.

A jornalista diz que o chamado “novo cinema iraniano”, surgido no período pós-Revolução Islâmica de 1979, “colocou em evidência diretores que conseguiram falar de temas universais de forma muito simples, driblando a censura existente no país e inspirados por uma tradição poética persa milenar. Eles produzem um cinema extremamente envolvente e comprometido com os ideais de justiça, paz e liberdade”.

Ela explica que esse cinema “não segue a fórmula hollywoodiana do “início, apresentação do conflito, ápice, solução do conflito, happy end”, mas apenas se ocupa de contar uma história, de forma linear, geralmente a partir de um argumento simples, sobre temas do cotidiano. Não há efeitos especiais, nem grandes astros e estrelas, o famoso star system”.

O respeito ao espectador é atraente. “Os filmes não ‘entregam’ tudo mastigado, com conclusões prontas. Há muitas lacunas, silêncios, vazios a serem preenchidos pelo próprio espectador. Em vários deles, o filme parece não ter fim, pelo menos o “fim” a que estamos acostumados. Simplesmente não há um desfecho conclusivo, é como se a história continuasse depois que o filme termina. Essa falta de conclusões é uma característica muito interessante, pois cabe ao espectador decidir o que acontecerá com a narrativa, com os personagens. É como a vida que segue e segue”, pondera Graziela.

Denúncia

“O Círculo”, do diretor Jafar Panahi, mostra a realidade de nove mulheres marginalizadas na sociedade iraniana, mas até hoje não teve autorização para ser exibido no Irã.

Obras da nova safra são voltadas para o ritmo do cotidiano

Os “filmes de autor”, de diretores como Abbas Kiarostami, Jafar Panahi, Bahman Gobadi, Mohsen Makhmalbaf, Majid Majidi e Samira Makhmalbaf, têm, segundo a jornalista Graziela Cruz, o grande mérito de ir na contramão do “cinema, espetáculo” de Hollywood.

“Trata-se de um cinema que se volta para o olhar que degusta o ritmo do cotidiano, buscando nele o sentido para a vida. Os filmes dessa safra de diretores trazem para a tela a poesia escondida nas trivialidades do cotidiano, o protagonismo do ser humano com suas angústias, buscas e descobertas, as metáforas como caminho para a denúncia das injustiças”, analisa ela.

“Alguns estudiosos chegam a ligar o novo cinema iraniano ao neorrealismo italiano dos anos 1940/50, por ambos compartilharem algumas características, como a ausência de filmagens dentro de estúdios, som direto, atores não profissionais, um tom de documentário em algumas produções e a não utilização de efeitos especiais. O cinema iraniano tem narrativa distinta e não utiliza o melodrama tal como o fazia o neorrealismo. E, sobretudo, as condições históricas e culturais são peculiares e fazem toda a diferença, se considerarmos o cinema como um produto cultural realizado dentro de um momento histórico”, observa.

Filmes revelam contradições e imposições morais

Os diretores do chamado “novo cinema iraniano” realizaram num primeiro momento, logo depois da Revolução Islâmica de 1979, e nas primeiras duas décadas, filmes mais humanistas, utilizando crianças como protagonistas de temas do cotidiano.

"Já no final dos anos 90 e depois de 2000, vários filmes passaram a apresentar um conteúdo de contestação política, crítica social e defesa dos direitos humanos, especialmente os das mulheres. É muito forte o recurso da metáfora para abordar a opressão social”, analisa a jornalista e professora Graziela Cruz.

Segundo ela, diretores como Kiarostami e Makhmalbaf deixaram o país para ter mais liberdade de criação e outro grande nome, que é Jafar Panahi, foi condenado a seis anos de prisão domiciliar e 20 anos de proibição para dirigir filmes. Ainda assim, ele conseguiu fazer “Isso Não é Um Filme” e “Taxi”, enviar clandestinamente para fora do país e ganhar prêmios importantes no Festival de Cannes.

“Os filmes retratam questões humanas que perpassam toda e qualquer civilização (justiça, solidariedade, sentido da vida e da morte, solidão, esperança, ética) e ainda revelam as contradições da sociedade iraniana e os problemas decorrentes das imposições morais”, finaliza Graziela.






Autoridades denunciam conflitos étnicos e religiosos em campos de refugiados na Alemanha – Por Michael Reichel


A União de Polícia da Alemanha (DPolG) chamou a atenção na terça-feira (29/09) para a ocorrência de uma série de conflitos religiosos e étnicos em diferentes campos de refugiados do país.

"Nós estamos experimentando essa violência por semanas e meses. Esses grupos se unem com base na etnia, na religião ou em estruturas de clã e se atacam com facas e armas caseiras", denunciou Rainer Wendt, representante da DPolG, em entrevista ao Passauer Neue Presse.

De acordo com Wendt, os principais confrontos nas instalações acontecem entre xiitas e sunitas, que tentam impor suas regras aos demais, enquanto os cristãos são oprimidos por ambos. Alertando sobre os riscos de certos grupos fazerem valer os seus valores e crenças nesses locais, ele também defendeu que aqueles que tiverem cometido crimes na Alemanha devem ser deportados imediatamente.

A Alemanha, assim como outros Estados da União Europeia, está buscando uma saída para a maior crise migratória que a Europa já viveu desde o final da Segunda Guerra Mundial, com milhares de refugiados chegando constantemente ao continente em busca de uma nova vida, longe dos sangrentos conflitos que atingem os seus países. 

A expectativa das autoridades alemãs é a de que até um milhão de estrangeiros entrem com pedido de asilo no país até o final de 2015. 







segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Presidente Putin inaugura a maior mesquita da Europa




Discurso de Vladimir Putin

Presidente Vladimir Putin: Caro presidente Erdogan, presidente Abbas, caros dignitários religiosos, convidados estrangeiros, amigos,

Permitam que os felicite, de todo o coração, nessa inauguração da mesquita-catedral reconstruída de Moscou. É grande acontecimento para todos os muçulmanos da Rússia.

Uma das mais antigas mesquitas de Moscou que já existia nesse local histórico e passou por reconstrução que faz dela, agora, a maior da Europa. A mesquita exibe magnífica arquitetura moderna e inovadora, digna da capital de nosso país unido, multiétnico e multiconfessional. Essa nova mesquita é digna da Rússia, onde, insisto em destacar, em virtude das leis de nosso país, o Islã é uma das religiões tradicionais russas, com milhões de nossos cidadãos incluídos entre os crentes.

Agradeço todos que contribuíram para os trabalhos que hoje nos dão esse prédio magnífico, e a todos os muçulmanos na Rússia e em todo o mundo, que contribuíram com doações para esse esforço de reconstrução. Agradecemos reconhecidos aos governos da Turquia e do Cazaquistão, pelas contribuições que deram à reconstrução da mesquita.

Tenho certeza de que a mesquita tornar-se-á importante centro espiritual para os muçulmanos em Moscou e em toda a Rússia, provendo educação e difundindo as ideias humanistas e os verdadeiros e autênticos valores do Islã. A mesquita difundirá conhecimento e espiritualidade e contribuirá para unir os esforços dos muçulmanos e de crentes de outras religiões, para nobres causas comuns. O Corão nos convoca a tentar nos superar uns os outros na prática do bem.

Desde o surgimento, a Rússia sempre foi país multiétnico e multiconfessional. Esse enriquecimento mútuo das culturas, tradições e religiões diferentes sempre constituiu a força distintiva e a especificidade de nosso país.

A comunidade muçulmana de Moscou, por exemplo, emergiu na época medieval, o que ainda se reflete até hoje também nas raízes tataras de tantos nomes de ruas da capital.

As tradições do Islã ilustrado desenvolveram-se ao longo de séculos na Rússia. O fato de que diferentes povos e religiões vivem lado a lado e em paz na Rússia é efeito, em grande medida, da ação da comunidade muçulmana, que faz contribuição notável à preservação da harmonia em nossa sociedade e sempre se dedicou a construir relações, dentro de cada religião e entre as religiões, fundadas na tolerância às crenças uns dos outros.

Hoje, o Islã tradicional é parte integrante da vida espiritual da Rússia. Os valores humanistas do Islã, como os valores de nossas outras religiões tradicionais, ensinam aos povos compaixão, justiça, afeto e a cuidar do próximo. Todos esses são valores aos quais damos enorme importância.

O número de mesquitas e de centros culturais islâmicos aumentou consideravelmente na Rússia, ao longo dos 20 últimos anos. Mesquitas maravilhosas foram erguidas no Tatarstão, no Bascortostão, na Chechênia e em outras regiões russas. Em 2003, nosso país recebeu lugar como Observador Permanente na Organização da Conferência Islâmica. Milhares de peregrinos viajam da Rússia para fazer o Hajj, e o número de madrasas e escolas associadas às mesquitas também aumentou consideravelmente.

É importante educar os jovens muçulmanos nos valores islâmicos tradicionais e impedir que avancem as tentativas para nos impor concepções de mundo que nos são estranhas e que nada têm a ver com o Islã autêntico. Permitam-me que declare aqui que as autoridades continuarão a ajudar no processo de relançar o sistema russo de escolas teológicas islâmicas e de educação religiosa.

Como os senhores sabem, defendi as autoridades do Tatarstão e os principais órgãos espirituais muçulmanos na questão da criação da Academia Islâmica Búlgara, relançando assim esse antigo centro muçulmano russo de religião e de aprendizado.

Sem dúvida, temos de continuar a desenvolver a rede de centros culturais e educativos muçulmanos. O objetivo deles é congregar muçulmanos, comunicar a eles o código espiritual, cultural e moral inerente ao Islã tradicional na Rússia, auxiliar na solução de problemas comuns e participar na educação dos jovens.

Destaco o papel importante que os muçulmanos e todos seus chefes espirituais desempenham para reforçar a harmonia interétnica e inter-religiosa. A rejeição clara de todas as formas de fundamentalismo e de radicalismo trouxe contribuição enorme à luta contra o nacionalismo e o extremismo religioso.

O trabalho nesse domínio e ainda mais importante hoje, quando se veem as cínicas tentativas de explorar sentimentos religiosos para finalidades políticas.

Vemos o que se passa no Oriente Médio (que já foi mencionado aqui), onde os terroristas de um suposto 'Estado islâmico' pervertem uma grande religião mundial, comprometendo o Islã, semeando o ódio, matando inocentes, inclusive religiosos, e destruindo em ataques bárbaros monumentos da cultura mundial. A ideologia deles é feita só de mentiras e de flagrantes distorções do Islã.

Aqueles terroristas também tentam recrutar adeptos aqui na Rússia. Os dirigentes muçulmanos na Rússia usam valentemente e sem medo a influência que têm para resistir contra aquela propaganda extremista. Mais uma vez, manifesto meu imenso respeito por essas pessoas que heroicamente levam adiante o próprio trabalho e que já perderam companheiros. Não duvido de que continuarão a educar os fiéis no espírito do humanismo, da compaixão e da justiça.

Caros amigos, essa nova mesquita é inaugurada no momento em que a comunidade muçulmana prepara-se para celebrar a grande festa de Aïd al-Adha. Permitam-me felicitar todos os muçulmanos da Rússia nessa festa de alegria, e desejar a todos boa sorte, felicidade e prosperidade.

Felicito todos, nessa inauguração da mesquita.

23/9/2019, Moscou, Kremlin



I Simpósio Família em diálogo com a Teologia e a Sociedade: Interfaces e Desafios



Este evento tratará das circunstâncias em que a família se encontra, com suas luzes e sombras, a fim de que se possam indicar, para as situações e os problemas da realidade, as respostas concretas e adequadas que destaquem o bem-estar humano relacionado à família, pois a centralidade da família para a pessoa dá-se no reconhecimento de sua integridade como primeira e fundamental estrutura a favor da “ecologia humana”.

Na família se experimenta a básica sociabilidade humana, a qual contribui com a sociedade de modo único e insubstituível; a família nasce da comunhão das pessoas e diz respeito à relação pessoal entre o “eu” e o “tu”. Contudo, a comunidade supera este esquema na direção de uma “sociedade”, de um “nós”. A família, comunidade de pessoas, é a primeira experiência desta sociabilidade.

Uma sociedade à medida da família é a melhor garantia contra toda a deriva de tipo individualista ou coletivista, porque nela a pessoa está sempre no centro da atenção, enquanto fim e nunca como meio. É de todo evidente que o bem das pessoas e o bom funcionamento da sociedade, portanto, estão estreitamente conexos.

O objetivo da socialização dos trabalhos investigativos de cada grupo de pesquisa visa identificar a correlação entre processos políticos, experiências religiosas e suas respectivas cosmovisões.

Local:
PUC-SP - Campus Santana
Rua Voluntários da Pátria, 1653 - Santana - São Paulo - SP
CEP: 02011-300

Contato:
Comissão Organizadora/Secretaria Geral

E-mails: 

Telefones: 
(11) 2065-4619 ou (11) 2226-6170

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O discurso anticapitalista do papa - Por Jean-Michel Dumay*


Após trabalhar pela reaproximação dos países, o chefe da Igreja Católica visita Cuba e Estados Unidos em Setembro. 

Nos últimos dois anos, Francisco, primeiro papa não europeu em treze séculos, descentralizou o olhar da Igreja no mundo. Defensor de uma ecologia “integral” socialmente responsável, desafia as consciências.

Diante de uma multidão reunida na Praça do Cristo Redentor, em Santa Cruz, a capital econômica da Bolívia, um homem vestido de branco repreende “a economia que mata”, o “capital transformado em ídolo”, “a ambição sem limites do dinheiro que comanda”

No dia 9 de Julho, o chefe da Igreja Católica não se dirigia apenas à América Latina, que o viu nascer, mas ao mundo todo, que ele procura mobilizar para colocar um fim na “ditadura sutil” que exala o mau cheiro do “esterco do diabo”.1

“Precisamos de uma mudança”, proclama o papa Francisco três dias antes de incitar os jovens paraguaios a “desafiar a ordem”. Em 2013 no Brasil, pediu às pessoas que atuassem como “revolucionárias” e se posicionassem “contra a corrente”.

Em suas viagens, o bispo de Roma profere um discurso cada vez mais virulento sobre o estado do mundo, sua degradação ambiental e social, e usa expressões fortes contra o neoliberalismo, o tecnocentrismo e um sistema econômico de efeitos nefastos: uniformização de culturas e “globalização da indiferença”.

Em Junho, nessa mesma linha, Francisco dirigiu à comunidade internacional um “convite urgente para um novo diálogo, o diálogo pelo qual construiremos o futuro do planeta”. Nessa encíclica sobre a ecologia, chamada Laudato si’ (“Louvado seja”), chama cada um, fiel ou não, para uma revolução de comportamentos e denuncia um “sistema de relações comerciais e de propriedade estruturalmente perverso”.

O pontífice assegura que outro mundo é possível, não no Juízo Final, mas aqui embaixo e agora. O papa celebridade, na linha midiática de João Paulo II (1978-2005), fragmenta e divide: por um lado é canonizado por figuras da ecologia e altermundialistas (Naomi Klein, Nicolas Hulot, Edgar Morin) por “sacralizar o desafio ecológico” em um “deserto do pensamento”;2 por outro, demonizado pelos ultraliberais e pelos céticos em relação à questão climática, capazes de descrevê-lo como “a pessoa mais perigosa do mundo”, como o caricaturou um polemista do canal ultraconservador norte-americano Fox News.

As direitas cristãs se inquietam ao ver um papa de discurso esquerdista e reticente sobre o aborto. E os editorialistas da esquerda laica se perguntam sobre a profundidade revolucionária desse homem do Sul, primeiro papa não europeu desde o sírio Gregório III (731-741), que se escandaliza diante do tráfico de imigrantes, pede apoio aos gregos e rejeita o plano de austeridade, nomeia um genocídio (dos armênios) de “genocídio”, assina um quase acordo com o Estado palestino, apoia sua testa em oração no Muro das Lamentações contra a separação que os israelenses impõem aos palestinos e se aproxima de Vladimir Putin sobre a questão síria quando a tendência, entre os ocidentais, é sancionar a Rússia pelo conflito ucraniano.

“Ele colocou a Igreja novamente no cenário internacional”, analisa Pierre de Charentenay, especialista em Relações Internacionais na revista jesuíta romana Civiltà Cattolica. “E mudou a aparência da instituição. Ele é o campeão do altermundialismo e questiona o conjunto do sistema.”

Precisamente, o que diz o primeiro papa jesuíta e sul-americano é o seguinte: a humanidade carrega a responsabilidade pela degradação planetária e deixa o sistema capitalista neoliberal destruir o planeta, “nossa casa comum”, semeando desigualdade. 

A humanidade precisa romper com uma economia, como diz o economista, e também jesuíta, Gaël Giraud, “que desde Adam Smith e David Ricardo exclui a questão ética, impondo a ficção da mão invisível” que deveria regular o mercado. Essa mão precisa, atualmente, de uma “autoridade mundial”, de normas restritivas e, sobretudo, da inteligência dos povos a serviço de quem é urgente redirecionar a economia. Porque a solução, política, está em suas mãos, e não nas mãos das elites, acometidas pela “miopia das lógicas de poder”.

Para o papa, a crise ambiental é, antes, moral, fruto de uma economia desligada do ser humano, na qual as dívidas se acumulam: entre ricos e pobres, Norte e Sul, jovens e velhos. E na qual “tudo está conectado”: pobreza-exclusão e cultura do desperdício, ditadura do curto prazo e alienação consumista, aquecimento global e congelamento de corações. Dessa forma, “uma abordagem ecológica verdadeira sempre se transformará em abordagem social”. 

Convocada a se repensar, a humanidade precisa buscar uma “nova ética nas relações internacionais” e uma “solidariedade universal”, é o que pedirá Francisco na Assembleia Geral da ONU no dia 25 de Setembro, no lançamento dos Objetivos do Milênio para o Desenvolvimento.

Sem dúvida, nada disso é novo. “Francisco se insere como uma bonita continuidade na linha do Concílio do Vaticano II [aquele ocorrido entre 1962 e 1965, cujo objetivo era abrir a Igreja ao mundo moderno]”, constata Michel Roy, secretário-geral da rede humanitária Caritas Internacional. 

Assim, o pontífice revisita a doutrina social da Igreja elaborada na era industrial e alinha suas convicções às de Paulo VI (1963-1978), primeiro papa das grandes viagens intercontinentais. 

Depois da reforma de João XXIII (1958-1963), foi ele quem fisicamente saiu primeiro do papado da Itália, internacionalizou o colégio dos cardeais, multiplicou as nunciaturas (embaixadas da Santa Sé) e as relações bilaterais com os Estados.3 

Também foi Paulo VI quem levou a Igreja para além de suas competências restritas de guardiã das liberdades religiosas e tornou-a “solidária com as angústias e penas de toda a humanidade”.4 Para ele, desenvolvimento era o novo nome da paz; uma paz entendida não como um estado, mas como o processo dinâmico de uma sociedade mais humana pelo compartilhamento da riqueza.

Contudo, se por um lado existe essa continuidade, para alguns, inclusive, ela representa o ápice da aposta católica empreendida nos anos 1960, por outro é difícil ignorar que o pontífice argentino vai além de seus predecessores. 

Apesar de o polonês João Paulo II e o alemão Bento XVI não economizarem no discurso antiliberal, eles ficaram marcados pelo rigor doutrinal. O último foi acometido também por alguns “contratempos” que a administração do Vaticano teve certa dificuldade em contornar, como o caso VatiLeaks: a difusão de documentos confidenciais que acusavam a Santa Sé de corrupção e favorecimento ilícito, notadamente em contratos assinados com empresas italianas.

Há duas opiniões sobre as razões da renovação atual: uma delas defende que se trata do contexto, e a outra, de que se devem a características inerentes ao homem. 

“No plano ético-político, Francisco preenche um vazio em nível internacional”, constata François Mabille, professor de Ciência Política na Federação Universitária e Politécnica de Lille e especialista em diplomacia pontifical. 

Ele é o papa pós-crise financeira de 2008, como João Paulo II foi o do fim do comunismo. “Ao realizar um aggiornamento da doutrina social, Francisco introduz o pensamento sistêmico na Igreja, segundo o qual todos os fatores sociais estão relacionados. Além disso, ocupa com sucesso o lugar da reivindicação de protesto”, analisa Mabille. 

E acrescenta: “Ele tem senso de urgência. O tempo da Igreja já não era o tempo do mundo. Tudo ia muito rápido para Bento XVI. Francisco sentiu a necessidade de a Igreja estar no passo da emancipação, e não mais da reação”.

Antes de ganhar o mundo, contudo, Francisco estremeceu a própria casa. Adepto de uma sobriedade que compartilha com Francisco de Assis, de quem emprestou o nome, instaurou um papado preocupado com o exemplo. 

Renunciou a atributos de vestimentas e hábitos honoríficos e foi viver em um quarto e sala de 70 m², em vez dos luxuosos apartamentos pontificais. O papa deseja atingir o campo simbólico e, para isso, não se restringe à palavra: empreende gestos concretos, o que tem seu peso em uma sociedade pautada pela imagem.

Dessa forma, como um bom samaritano, aparece sempre direto, espontâneo, cara a cara. Designado por seus pares para reformar em profundidade a Cúria, ou seja, o aparelho estatal da Santa Sé, Francisco fez uma lista de quinze males que acometem a instituição, marcada por um clientelismo à moda italiana. Entre os itens, o “Alzheimer espiritual” e, em primeiro lugar, o hábito de “acreditar-se indispensável”.5

Teologia da Libertação não marxista

Para governar, o papa se cercou de uma guarda próxima com oito cardeais. Criou comissões para reformar as finanças e a comunicação, multiplicou as instalações de especialistas laicos para aconselhar sua administração, criou um tribunal no Vaticano para julgar bispos que acobertaram padres pedófilos, nomeou um primeiro escalão com quinze novos cardeais, que serão os futuros eleitores de seu sucessor. 

O próximo papa será escolhido com o anterior ainda em vida, como quis Bento XVI para ele mesmo. Francisco repetiu essa premissa antes de partir em visita a Evo Morales na Bolívia e a Rafael Correa no Equador: ele é contra “líderes vitalícios”.

Seus novos conselheiros foram escolhidos entre aqueles que vivem questões sociais na pele, como em Agrigento, diocese de Lampedusa, a ilha de imigrações clandestinas. Francisco tem procurado seus prelados na Ásia, na Oceania, na África e na América Latina, estabelecendo regras sem escrevê-las: chega de arquidioceses que empurram mecanicamente seus titulares para a alta hierarquia romana, aumentando o peso da Europa no conclave e, em seu seio, o da Itália.6

“Esse papa enfrenta tabus e dá pontapés na fórmula estabelecida, sem tomar as devidas precauções”, constata um diplomata francês, analista da ação pontifical. “Ele entendeu que é um chefe de Estado. A função o tomou completamente. Ele é pragmático e muito político”, continua. Tudo isso repercute na Igreja, porque Francisco “é” a Igreja, como ele mesmo lembrou àqueles que se preocupavam se a instituição o seguiria.

“Ele está sendo muito procurado”, declara um conselheiro pontifical. Em dois anos, mais de cem chefes de Estado foram recebidos no Vaticano. Alguns buscavam mediação de conflitos: Estados Unidos e Cuba, aos quais facilitou a reaproximação; Bolívia e Chile, em função da reivindicação boliviana de acesso ao mar (ver artigo nas págs. 22 a 24). 

Essas abordagens convergem com os desejos do papa, que gostaria de reabrir em Roma um escritório de mediação pontifical, mesmo sem sucesso garantido: em Junho de 2014, reuniu, de forma midiática, o primeiro-ministro palestino, Mahmud Abbas, e o presidente israelense, Shimon Peres, nos jardins do Vaticano, o que não impediu os ataques mortíferos de Israel em Gaza um mês depois.

Nascido na Argentina como Jorge Mario Bergoglio, Francisco “é o primeiro papa que compreende verdadeiramente as mudanças Sul-Sul, seja em relação a bens materiais, simbólicos ou religiosos”, observa Sébastien Fath, membro do Grupo Sociedades, Religiões, Laicidades do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS, na sigla em francês). 

“Ele sabe que os pregadores africanos estão ligados às Igrejas brasileiras, que os jesuítas indianos partem em missões na África”, completa Fath. “É um latino perfeito... que não fala inglês”, completa Roy, da Caritas. Bergoglio foi garoto nos subúrbios de Buenos Aires e possui sua própria geografia do espaço: menos a do Sul oposto ao Norte que a de um centro antagonista das “periferias”, sejam elas espaciais (países pobres, periferias, favelas) ou existenciais (populações precarizadas, excluídas). Nessa visão, as periferias existem também no Norte, e olhares colonialistas estão espalhados por circuitos globalizados. É isso que Francisco quer que a Igreja trabalhe.

Bergoglio escolheu seu campo de batalha: o da “opção preferencial pelos pobres” e pelos “pequenos”, a quem nomeia claramente em seus discursos, como em Santa Cruz: “catadores de lixo”, “vendedores ambulantes”, “camponeses ameaçados”, “trabalhadores excluídos”, “indígenas oprimidos”, “imigrantes perseguidos”, “pecadores que não resistem às propagandas das grandes corporações”. 

Francisco é pastor com vínculos missionários fortes, poderia se dizer. Não um diplomata. Isso é um problema? Não, pois para isso existem os diplomatas da Santa Sé, coordenados pelo experiente secretário de estado do Vaticano, Pietro Parolin, antes responsável por missões delicadas na Venezuela, Coreia do Norte, Vietnã e Israel.

O sínodo sobre a família

“O papa está convencido de que o futuro repousa sobre aqueles que estão nos territórios, atuando”, reconhece Roy. Ele desconfia de organizações (a começar pela sua!) cujas distorções levam, segundo ele, à esterilidade dos discursos autorreferenciais distantes da realidade. Isso o torna um dirigente de abordagem humana e gerencial em ascendência, constatam os diplomatas, enquanto seus predecessores atuavam de forma vetorial, do topo em direção à base, pela transcendência. “Abençoem-me”, disse Francisco aos fiéis na Praça São Pedro no dia de sua eleição, invertendo os papéis.

Essa proximidade com as populações, que lhe confere traços populistas (na juventude, esteve próximo a um grupo da Juventude Peronista), está fundamentada conceitualmente na teologia do povo, um braço argentino não marxista da teologia da libertação.7 “Uma teologia para o povo, e não pelo povo”, resume Pierre de Charentenay, para marcar a diferença. “O papa opera um tipo de retomada popular e cultural da teologia da libertação.” 

Trata-se também de uma reabilitação. Oriunda da apropriação latino-americana do Vaticano II nos anos 1970, a teologia da libertação foi desprezada por Bento XVI e João Paulo II por sua abordagem marxista. Em Setembro de 2013, Francisco recebeu, em audiência privada em Roma, um de seus ilustres fundadores, o padre peruano Gustavo Gutierrez. 

Em maio de 2015, beatificou Oscar Romero, o arcebispo de San Salvador assassinado em 1980 por militantes de extrema direita. Seus predecessores nem sequer se deram ao trabalho de abrir uma investigação. De acordo com Leonardo Boff, um dos líderes brasileiros do movimento, a visão de Francisco se inscreve “na grande herança da teologia da libertação”. Seu papado poderia até abrir uma “dinastia de papas do Terceiro Mundo”.8

Bergoglio encarna também o papa administrador: o primeiro a exercer concretamente suas responsabilidades territoriais, extradiocese, em nível regional. De 2005 a 2011, foi presidente da Conferência Episcopal argentina.9 De repente, “as tropas [no Vaticano] estão mais bem organizadas, e sua personalidade e seu envolvimento pessoal dinamizaram a diplomacia da Santa Sé”, constata um observador romano.

Como dirigente, definiu um caminho para sua multinacional. Habilmente, articula o ataque em função de seu alvo. Mundo afora, faz seu projeto ser conhecido como “internacionalismo católico”,10 com objetivos como participar da pacificação das relações entre Estados, promover a democracia, insistir nas estruturas de diálogo internacional, zelar pela justiça entre os povos, estimular o desarmamento, o bem comum internacional, entre outros temas que às vezes conferem à Igreja um ar de ONG. Internamente, aos seus colegas cardeais, o jesuíta enfatizou o essencial: evangelizar. Mas também incentivar que a Igreja saia de si mesma, de seu “narcisismo teológico”, para se dirigir às “periferias”.11

Para evangelizar, porém, Francisco não levanta a cruz como João Paulo II, que, desde seu primeiro sermão, atuou na ofensiva: “Não tenham medo! Abram as portas ao Cristo, abram as fronteiras dos Estados, dos sistemas políticos e econômicos...”.12 

O papa argentino tem outro senso político. Não hesita em fazer a Igreja trabalhar junto aos movimentos populares, que estão longe de compartilhar de sua fé. Ele compreendeu que se por um lado a Igreja permanece universal, por outro não é o centro do mundo.

Essas novas inclinações, entretanto, não escondem as dificuldades. Um exemplo é o caso do Oriente Médio. Em 2013, Francisco lançou as atenções da diplomacia do Vaticano sobre a Síria, pedindo paz, enquanto França e Estados Unidos queriam derrubar o regime de Bashar al-Assad. 

Um ano depois, a Santa Sé precisou recuar e pediu à ONU que “fizesse de tudo” para conter as violências da Organização do Estado Islâmico (OEI), responsável por “uma espécie de genocídio” que obrigava os cristãos ao êxodo.

Da mesma forma, na Ásia, região entendida como uma fonte de desenvolvimento, a diplomacia do Vaticano patina. Se as relações com o Vietnã estão esfriando, na China uma corrente católica controlada pela Associação Patriótica dos Católicos Chineses, cuja estrutura é estatal, continua a escapar do bispado de Roma. 

Sem dúvida, Francisco se desdobrou para apaziguar o presidente Xi Jinping, notadamente evitando um encontro com o Dalai Lama, e reconheceu um bispado em Julho em Anyang (província de Henan), o que não acontecia havia três anos. Mas a realidade está longe dos sonhos missionários: desde o início deste ano, de acordo com os relatórios da agência Igrejas da Ásia, as autoridades chinesas destroem dezenas de cruzes nas igrejas, consideradas muito ostensivas, principalmente na província de Zhejiang. Finalmente, na Índia, a ínfima minoria católica (2,3% da população) é regularmente submetida a atentados.

Para Francisco, contudo, os obstáculos não estão apenas em terras longínquas não cristianizadas. Nos Estados Unidos, onde se apresentará no dia 24 de Setembro diante do Congresso, sua popularidade caiu consideravelmente. 

Em Fevereiro, 76% da população tinha opinião favorável em relação ao papa. Em Julho, após a publicação da encíclica e do discurso de Santa Cruz, o índice caiu para 59%. A queda foi ainda mais acentuada entre os republicanos (45%).13 O tom é ácido. Francisco é acusado de tropismo latino-americano, de ter pouca consideração com o que capitalismo trouxe aos países mais pobres e de proferir discursos que não propõem soluções.14

À esquerda, suspeita-se de uma ofensiva sedutora para abrir caminhos a pílulas mais amargas, observando, por exemplo, a manutenção da oposição doutrinal à contracepção e a ausência de estímulo ao uso do preservativo como forma de combater a transmissão do vírus HIV. Os conservadores, por sua vez, não aprovam suas atribuições teológicas e morais.

“Não sigo a política econômica dos meus bispos, cardeal ou papa”, declarou Jeb Bush, candidato republicano à Casa Branca convertido ao catolicismo há 20 anos.15 O papa não se intimidou: “Não espere deste papa uma receita. A Igreja não tem a pretensão de substituir a política”.

De forma geral, Francisco concentra esforços em questões sociais, pelas quais os órgãos do Vaticano trabalham há dois anos na surdina. Em 2014, abriu uma caixa de Pandora ao pedir aos bispos, reunidos no sínodo, que se dedicassem a uma pesquisa sobre a família. Os trabalhos serão finalizados em Outubro deste ano. Em diversas ocasiões, ele mencionou a necessidade de evolução no tema dos divorciados que se casaram novamente e foram privados da comunhão, ou ainda na questão da homossexualidade.

Internamente, Francisco quer romper com o centralismo romano, desenvolver o colegiado, levar às conferências episcopais sua parte de autoridade doutrinal, promover a enculturação da liturgia. Tais ações podem abalar a unidade de sua Igreja. Ora, ele já está com 78 anos. E a Cúria, universo que lhe era desconhecido, opõe grandes resistências. 

“Ele enfrenta obstáculos. O arado está preso em uma terra difícil”, observa Pierre de Charentenay. Em relação à família, Francisco pede “um milagre”. Quanto ao resto, por enquanto ninguém aposta que esse papa impertinente terá sucesso.

*Jean-Michel Dumay é jornalista

Notas:
1. O papa retoma aqui uma expressão de um dos pais da Igreja, Basílio de Cesareia, um ascético precursor do cristianismo social.
2. “Naomi Klein prend fait et cause pour l’encyclique du pape” [Naomi Klein apoia encíclica do papa], 2 jul. 2015. Disponível em: ; “Nicolas Hulot: ‘Le pape François sacralise l’enjeu écologique’” [Nicolas Hulot: “O papa Francisco sacraliza o desafio ecológico”], L’Obs, Paris, 25 jun. 2015; “Edgar Morin: ‘L’encyclique Laudato Si’ est peut-être l’acte 1 d’un appel pour une nouvelle civilisation’” [Edgard Morin: “A encíclica Laudato Si’ talvez seja o ato 1 de um chamado a uma nova civilização], La Croix, Paris, 22 jun. 2015.
3. O número de Estados com os quais a Santa Sé mantém relações passou de 49 em 1963 para 84 em 1978. Atualmente, é de 180. Afeganistão, Arábia Saudita, China, Coreia do Norte e Vietnã estão entre os quinze países com os quais o Vaticano não mantém relações.
4. Philippe Chenaux, Paul VI, Éditions du Cerf, Paris, 2015.
5. “Les quinze maux de la curie selon le pape François” [Os quinze males da Cúria de acordo com o papa Francisco], Le Monde, 23 dez. 2014.
6. Dos 114 cardeais eleitores que escolheram Francisco em março de 2013, 55 eram europeus, e 23, italianos.
7. Juan Carlos Scannone, Le Pape du peuple. Bergoglio raconté par son confrère théologien, jésuite et argentin [O papa do povo. Bergoglio contado por seu confrade teólogo, jesuíta e argentino], entrevistas com Bernadette Sauvaget, Éditions du Cerf, 2015.
8. “Mientras viva Ratzinger, no es bueno que Francisco me reciba en Roma” [Enquanto Ratzinger estiver vivo, não é bom que Francisco me receba em Roma], El País, Madri, 23 jul. 2013.
9.  Em meio aos jesuítas, foi – entre 1973 e 1978, sob a ditadura de Jorge Rafael Videla – jovem provincial (patrono) da Companhia de Jesus em seu país. Uma polêmica, mal sustentada, acusa-o de falta de firmeza diante do regime.
10. “L’internationalisme catholique”, Les Grands Dossiers de Diplomatie, n.4, Paris, ago.-set. 2011.
11. Intervenção de Jorge Mario Bergoglio diante das congregações gerais antes do conclave que o elegeu papa, no dia 13 de março de 2013. O texto, que deveria permanecer secreto, foi difundido alguns meses depois com o consentimento do sumo pontífice, pelo cardeal Jaime Ortega, arcebispo de Havana.
12. Ler Peter Hebblethwaite, “Le rêve polonais d’une chrétienté restaurée” [O sonho polonês de uma cristandade restaurada], Le Monde diplomatique, maio 1998.
13. Pesquisa Gallup, 22 jul. 2015.
14. “In fiery speeches, Pope renews critiques on excesses of global capitalism” [Em discursos ferozes, papa renova críticas aos excessos do capitalismo global], International New York Times, Paris, 13 jul. 2015.
15  “Jeb Bush joins Republican backlash against Pope on climate change” [Jeb Bush se junta à reação republicana contra o papa na questão da mudança climática], The Guardian, Londres, 17 jun. 2015.