terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Harvard lança curso online e gratuito sobre religião - Por Filipa Barbosa



Com o novo curso, Harvard pretende lutar contra desentendimentos e preconceitos, contribuindo para uma maior literatura religiosa.

Desconhecimento ou mal-entendidos sobre religiões é um problema que afecta o mundo inteiro e tem estado na origem de vários conflitos nos últimos anos.

Harvard, uma das mais prestigiadas universidades dos Estados Unidos, quer diminuir estes problemas e decidiu, com o apoio de Diane Moore, directora do Religious Literacy Project da Harvard Divinity School e outros cinco professores, criar um curso online e de acesso gratuito para promover uma maior compreensão sobre as várias religiões existentes. 

O curso é composto por seis disciplinas diferentes, leccionadas por um período de quatro semanas. Moore é a professora da cadeira: “Alfabetização religiosa: Tradições e Escrituras” que começa já no próximo mês. As restantes cinco disciplinas vão abordar crenças mais específicas como cristianismo, budismo, islamismo, hinduísmo e judaísmo.

Os alunos vão ter a oportunidade de conhecer a história de cada religião e dos textos religiosos, muitas vezes considerados como “sagrados”As aulas vão ser transmitidas através de uma plataforma online denominada EDX, desenvolvida, em 2012, pela universidade em parceria com o Instituto de Tecnologia de Massachusett. 

Para Diana Moore, com este projecto prentende-se chegar a um entendimento que as religiões e suas tradições são bastante “diversificadas” e em “constante evolução”, desempenhando papeis “complexos” na vida das pessoas.


Estima-se que cerca de 50 mil pessoas se inscrevam no curso. Apesar de ser, maioritariamente, dedicado a educadores e membros de comunidades religiosas, o projeto encontra-se aberto a toda a comunidade.



Por que civilizações antigas não reconheciam a cor azul?


Nenhum dos textos sagrados gregos, hindus, islandeses, judaicos ou islâmicos menciona o azul, apesar da descrição do céu ser um dos seus temas favoritos.

Em sua investigação sobre como a linguagem afeta a maneira como vemos o mundo, o linguista Guy Deutscher dedicou-se a um tema específico: a ausência de referências à cor azul nos textos de diversas civilizações antigas.

O primeiro intelectual a notar essa curiosidade foi o britânico William Ewart Gladstone (1809-1898), que não apenas foi quatro vezes primeiro-ministro como também um apaixonado pela obra do poeta Homero.

Apesar das maravilhosas descrições feitas por ele nos relatos A Ilíada e A Odisseia, que incluíam frases como "a aurora com seus dedos rosados", em nenhum momento o autor pintava algo de celeste, índigo ou anil.

Gladstone repassou todo os dois textos, prestando atenção às cores mencionadas. Descobriu que, enquanto o branco era mencionado cem vezes e o preto, quase 200, as outras cores não tinham tanto destaque. O vermelho era citado menos de 15 vezes e o verde e o amarelo, menos de dez.

Ele leu, então, outros escritos gregos e confirmou que o azul nunca aparecia. Concluiu que a civilização grega não tinha à época um senso de cor desenvolvido e vivia em um mundo preto e branco, com algumas pinceladas de vermelho e de brilhos metálicos.

"Eles entendiam o azul com a mente, mas não com a alma", afirma o pesquisador. Em parte alguma Como descrever esta cena sem usar a palavra 'azul'? A pesquisa de Gladstone inspirou o filósofo e linguista alemão Lazarus Geiger, que se perguntou se o fenômeno se repetia em outras culturas.

Ele descobriu que sim: no Alcorão, em antigas histórias chinesas, em versões antigas da Bíblia em hebraico, nas sagas islandesas e até nas escrituras hindus, as Vedas. "Esses hinos de mais de dez mil linhas estão cheios de descrições do céu. Quase nenhum tema é tratado com tanta frequência. O sol e o início da madrugada, o dia e a noite, as nuvens e os relâmpagos, o ar e o éter, tudo isso é contado", afirma Geiger. "Mas uma coisa que ninguém poderia sabia por meio dessas canções é que o céu é azul."

Geiger também notou que houve uma sequência comum para o surgimento da descrição de cores nas línguas antigas. Primeiro, aparecem as palavras para preto e branco ou escuro e claro, do dia e da noite; logo, vem o vermelho, do sangue; depois, é a vez do amarelo e do verde e, só ao final, surge o azul.

Mas por que o azul não apareceu antes?

"E por que deveria?", questiona o psicólogo Jules Davidoff, diretor do Centro para Cognição, Computação e Cultura da Universidade de Londres. "Por que precisariam do azul para descrever algo? Quem disse que o mar e o céu são azuis? Por acaso, eles têm a mesma cor?"

Cognição

Além de não ser um objeto, o mar não é sempre azul, apesar de ser tradicionalmente representado assim. Davidoff dedica-se à neuropsicologia cognitiva e a investigar a forma como reconhecemos objetos, cores e nomes. Ele fez experimentos com uma tribo da Namíbia, na África, cuja linguagem não tem uma palavra para o azul, mas possui várias para diferentes tipos de verde.

Quando mostrou a integrantes da tribo 11 quadrados verdes e um azul, não puderam achar qual era diferente, mas, se em vez de azul, o quadrado fosse de um tom de verde levemente diferente e dificilmente notado pela maioria das pessoas, era destacado imediatamente.

Na verdade, poucas coisas na natureza são azuis: uma ou outra flor de orquídea, as asas de algumas borboleta, as plumas de certas aves, a safira e a pedra luz. No entanto, Homero estava na Grécia, um lugar que para muitos é mercado pelo azul do céu e do mar. Como podiam ignorar essa cor?

Em seus estudos, Deutscher recorreu à filha, Alma, que estava aprendendo a falar na época. Como qualquer outro pai, ele brincava com ela e a ensinava o nome de diferentes cores. Teve, então, uma ideia para verificar o quão natural é o azul na linguagem e entender como as civilizações antigas, especialmente as que viviam no Mar Mediterrâneo, não deram um nome para a cor do céu.

Ele ensinou a Alma todas as cores, inclusive azul, mas fez com que ninguém lhe dissesse de que cor era o céu. "Quando tive certeza de que sabia usar a palavra 'azul' para os objetos, sai com elas em dias de céu azul e perguntei qual era sua cor."

Por muito tempo, Alma não respondeu. "Ela respondia imediatamente a tudo mais, mas, com o céu, olhava e parecia não entender do que eu estava falando", conta Deutscher.

"Certa vez, quando já estava muito segura e confortável com todas as cores, ela me respondeu, dizendo primeiro 'branco'. Foi só depois de muito tempo e após ver cartões-postais em que o céu aparecia azul que usou essa cor para descrevê-lo."

Necessidade

Foi assim que sua filha ensinou a ele que nada é tão óbvio quanto pensamos. "Entendi com meu coração, observando uma pessoa, não lendo livros ou pensando em povos de um passado remoto", afirma o pesquisador.

"E Alma nem sequer estava na mesma situação dos povos antigos: ela conhecia a palavra azul e, no entanto, não a usou para o céu. Compreendi que não é uma necessidade de primeira ordem dar um nome para a cor do céu. Não se trata de um objeto."

O mesmo ocorre com o mar: assim como o céu, não tem sempre a mesma cor e, acima de tudo, não é um objeto, por isso não há motivo para "pintá-lo" com uma palavra.

"Nada mudou em nossa visão. Há séculos, somos capazes de ver diferentes tons, mas não temos as mesmas necessidades", afirma o especialista. "Era perfeitamente normal dizer que o mar era preto, porque, quando está azul escuro, parece preto, e isso é suficiente nesta época. Uma sociedade funciona bem com o preto, o branco e um pouco de vermelho."

Então, por que começamos a dizer que determinadas coisas são azuis?

"Conforme as sociedades avançam tecnologicamente, mais se desenvolve a gama de nomes para cores. Com uma maior capacidade de manipulá-las e com a disponibilidade de novos pigmentos, surge a necessidade de uma terminologia mais refinada", afirma Deutscher.

"A cor azul é a última, porque, além de não ser encontrada tão comumente na natureza, levou muito tempo para fazer este pigmento."

Os egípcios antigos tinham o pigmento azul e uma palavra para nomeá-lo, por exemplo, pois se tratava de uma "sociedade sofisticada". "O que importa não é tanto a época em que viveram, mas seu nível de progresso tecnológico. É aí que está a correlação com o volume do vocabulário para cores."

Mas não há no hebraico bíblico a palavra "kajol", que significa azul? "Sim, mas essa palavra significava 'preto'. Tem a mesma raiz da palavra álcool, e o 'kohol' era um cosmético em pó feito com antimônio que as mulheres usavam para pintar os olhos e era preto."

Pouco a pouco, o termo foi mudando até assumir o significado que tem hoje no hebraico moderno. E este não é único caso, segundo o especialista. "O mesmo aconteceu com a palavra 'kuanos' em grego. Homero a usa, mas significa preto ou escuro. Foi só depois que passou a significar 'azul'."






Trump, o Papa e o Cristianismo na Política - Por Rodrigo Franklin de Sousa




O Papa Francisco chamou a atenção mais uma vez nessa semana, ao sugerir que Donald Trump não seria verdadeiramente cristão. 

Como era de se esperar, Trump não ficou calado: sua reação foi dar uma das mais fortes declarações de um aspirante a Presidente dos EUA contra um Papa. Ao mesmo tempo, a resposta foi excepcionalmente comedida para os padrões que esperamos do polêmico político.

Como a imprensa norte-americana já aponta, sua reação foi cuidadosamente pensada, com o intuito de alcançar o maior ganho político possível junto à base eleitoral conservadora, tanto evangélica quanto católica. Muitos segmentos evangélicos já se opõem à igreja católica em princípio, e os católicos mais conservadores são incomodados com o Papa Francisco por sua postura considerada progressista, em muitos tópicos.

Com cuidado na análise, a discussão nos revela pontos importantes sobre a relação entre religião e política. Um dos argumentos de Trump apontou que Francisco não deveria se posicionar contra ele, diante da possibilidade de um ataque do Estado Islâmico ao Vaticano. Trump insistiu na afirmação que, sendo presidente dos EUA, ele eliminará completamente o EI.

Embora qualquer pessoa, com mínima boa vontade, sonhe com a eliminação do EI, as aspirações messiânicas e ufanistas da declaração só podem ser levadas a sério pelas mentes mais ingênuas ou megalomaníacas. Além disso, não está claro como ela serve de resposta ao desafio do Papa, a menos que alguém siga a lógica, que parece ser a de muitos conservadores americanos, de que combater o EI é um sinal ou prerrogativa do cristianismo.

Outro argumento foi o de que o Papa teria sido levado a crer em comentários maldosos que apresentam Trump em uma luz negativa quando, na realidade, ele é um cara muito legal (“a very nice guy”) e um Cristão muito bom (e orgulhoso disso, em suas próprias palavras). 

Trump aproveitou para afirmar que, como o bom cristão que é, ele não permitirá, em seu mandato, que o cristianismo seja atacado e enfraquecido, “como acontece sob o atual governo”. Mais uma vez, ele utilizou habilmente do discurso religioso para fortalecer seu discurso político.

Antes de mais nada, concordemos ou não, é bom lembrar que uma das prerrogativas de um líder religioso é, justamente, a de se pronunciar sobre o que é ou não ser cristão. Mas, o que nos interessa mesmo, é ver como nessa discussão estão em jogo diferentes noções de cristianismo.

Ao se declarar cristão, Trump tem alcançado grande popularidade entre católicos e evangélicos conservadores nos EUA. Mas é preciso compreender a que ele se refere quando faz esta afirmação. A religião que Trump tem em mente, parte de uma associação, marcante tanto nos EUA quanto no Brasil, entre cristianismo e simples conservadorismo político.

Nessa concepção, o que define a religiosidade é o compromisso com certos valores econômicos, com o militarismo e com um tipo específico de ordem social. Ainda, se pensarmos em termos dos elementos religiosos mais fundamentais da doutrina e fé cristã propriamente dita, a identificação de Trump com o cristianismo se torna mais problemática.

Não me refiro simplesmente a sua atitude arrogante e preconceituosa contra mulheres, minorias e estrangeiros, nem mesmo ao fato de, entre seus muitos empreendimentos, ele ser dono de uma boate de Strip-Tease, mas, acima de tudo, suas declarações recentes que sugerem um bom mocismo e que, por isso, nunca precisa pedir perdão a Deus! Entre todas as suas afirmações, talvez esta seja a que mais revele sua incompreensão do que significa ser cristão.

A discussão entre Trump e o Papa nos mostra que existe um abismo entre o conteúdo de fé e prática de uma religião (no caso o Cristianismo) e a forma como o discurso político se apropria de seus símbolos e termos para seus próprios fins. Acima de tudo, ela mostra que a religião é, e continuará sendo, um fator significativo e poderoso na discussão política.

Rodrigo Franklin - Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie em São Paulo.