domingo, 29 de novembro de 2015

Religião na Cidade - Por Paulo Mendes Pinto


Sendo das liberdades de que menos temos consciência, a liberdade de não ser identificado com religião alguma é dos avanços legais mais marcantes na nossa sociedade. 

Depois de séculos e séculos onde a pertença religiosa podia significar quase imediata pena de morte, a liberdade que temos de não sermos questionados, sequer, sobre religião, é a mais directa marca dos traumas que as perseguições religiosas nos deixaram.

De facto, é hoje uma garantia constitucional para o cidadão português a impossibilidade que o próprio Estado tem de obrigar alguém a responder sobre as suas convicções religiosas. Mais que uma liberdade de consciência, este direito que nos assiste é imagem da inviolabilidade de uma dimensão individual onde nada mais que o próprio tem o direito a se imiscuir.

E se a liberdade de não ser catalogado em termos religiosos se pauta constitucionalmente por esta inviolabilidade, no quotidiano ela transporta-nos para vários campos muito interessantes, desde o da segurança de cada um que poderia ser quebrada com a aposição de uma pertença, até ao do recolhimento potencialmente próprio da espiritualidade, que implica tantas vezes um afastamento ao que é material, passando pelo lado ainda mais fundamental de, ao se estar a inibir, ou a dar a liberdade da não catalogação, se estar a criar um patamar de igualdade que é fundante de uma postura em que todos somos iguais perante a Lei e o Estado.

E hoje em dia, somos postos à prova no que diz respeito à aplicação deste princípio constitucional, através dos desafios que se colocam aos cidadãos europeus que são muçulmanos. De facto, é possível a um europeu muçulmano manter serenamente o seu direito à não rotulagem? 

E não me estou a referir a uma rotulagem criminosa, assente em generalizações desonestas, em que a cada muçulmano o senso-comum muitas vezes faz corresponder um terrorista; refiro-me à aplicabilidade desse princípio cristalino: um muçulmano, tal como um cristão, ou um ateu, entre todos os outros, tem o direito a não ser importunado devido à sua pertença e prática religiosa. Isto é, a noção de cidadania, ao colocar acima de todas as outras pertenças a relação com o Estado, torna-as diminuídas de qualquer valor que ensombre a ideia de cidadão.

E nesta declaração simples e linear do lugar íntimo da crença, o Estado e o respectivo legislador esqueceram uma das dimensões mais importantes da prática religiosa: a comunitária. E ao esquecer este lado fundante das grandes religiões, especialmente dos monoteísmos, o Estado centra a dimensão religiosa no indivíduo e na sua esfera privada, criando uma enorme lacuna à noção de pertença e a tudo o que ela implica.

Sendo que a noção de pertença é imensamente complexa, vou-me apenas centrar no dilema que hoje se coloca a muitos religiosos na Europa, mas que se reveste de grande acuidade no caso dos europeus muçulmanos: como gerir publicamente a sua identidade religiosa?

Ser muçulmano é pertencer à Umma, à comunidade de crentes; tal como ser cristão é pertencer a uma Igreja, a uma assembleia. Em ambos os casos, “ser-se” é apenas uma dimensão possível na relação, na comunhão, na partilha e no reconhecimento. Não se é cristão fora da comunidade cristã, tal como não se é muçulmano sem uma ligação àqueles a quem religiosamente se é Irmão.

Portanto, se ser cidadão permite “esconder” a pertença religiosa, ser religioso implica uma dimensão de visibilidade, de orgulho, até, que tem na afirmação pública da sua fé uma das componentes mais importantes dessa pertença, mesmo de honesta perante a divindade em que se acredita: não se pode repudiar ou negar por omissão, qual Pedro ao cantar do galo na noite da prisão de Jesus.

Ora, em situações limite como a que vivemos hoje, em que as generalizações invadiram os meios de comunicação, em que o medo parece ter tomado conta do discernimento de largos sectores da nossa sociedade, o dilema que se coloca a um muçulmano é tremendo. Dissimular a fé ou, pelo menos, não a tornar pública, como meio de segurança, de defesa em relação a todo um clima de uma certa hostilização? Ou, ao contrário, afirmar bem alto a sua pertença, mostrando que se é algo de muito diferente dos terroristas, tentando ajudar a desfazer essas visões preconceituosas?

Se em relação aos indivíduos a questão se coloca nesta esfera da afirmação pública de um direito privado, em relação às comunidades a questão ganha outros contornos ainda mais interessantes. Deve uma comunidade religiosa tomar uma atitude de visibilidade num momento como este? Mais concretamente, mesmo sem ter nada a ver com os actos terroristas, deve uma comunidade islâmica gritar bem alto que não se identifica, que repudia, que, para si, isso não é Islão?

Ora, são várias as dimensões em causa. Por um lado, poderão ser vários os cidadãos, muçulmanos ou não, a dizer que a comunidade nada deve fazer. Não se identificando com esse suposto “islão” que mata e aterroriza, a sua postura em nade deve reflectir como que um assumir de culpas que não são suas. E, obviamente, tem toda a razão quem assim argumentar, tanto mais que é direito individual de cada membro dessa comunidade a não exposição.

Contudo, os mesmos cidadãos também serão os primeiros a concordar com o valor didáctico de uma tomada de posição, de um assumir público de repúdio, ajudando a combater o preconceito e criando uma visão menos marcada pelas generalizações. A mole dos nossos concidadãos não só merece esclarecimentos, como muitas vezes exige tomadas de posição que definam posições.

E, felizmente, esta tem sido a posição das comunidades islâmicas portuguesas. Muito pouco tempo depois dos atentados de 13 de Novembro em Paris, vários foram os comunicados que as comunidades islâmicas fizeram circular repudiando esses actos cruéis. Infelizmente, muito pouco foi o “tempo de antena” que os media lhes deram, mas as comunidades islâmicas multiplicaram-se em entrevistas, em orações conjuntas, em acções que contribuem para o esclarecimento e não para a consolidação do clima de terror.

Também acarreta riscos. Mas é uma postura cívica e religiosa do maior valor aquela que temos visto nas comunidades muçulmanas portuguesas. No passado dia 24/11, no âmbito de uma parceria entre a Comunidade Islâmica e a Universidade Lusófona, na Mesquita Central de Lisboa, debatemos, muçulmanos e não muçulmanos, “O autoproclamado Estado Islâmico, os refugiados e os desafios que se colocam à Europa”. Num ambiente sereno, mas com um debate sério e sem fugir a nenhuma questão, muçulmanos, cristãos, ateus, todos cidadãos, debatemos um tema que nos marca a todos.

Desfazendo dúvidas, matando preconceitos e saindo mais esclarecidos, mais uma vez, fez-se cidadania.




sábado, 28 de novembro de 2015

"Aqueles que usam a religião contra a paz são pseudorreligiosos"


Entrevista concedida pelo pacifista Yitzhak Frankenthal, à jornalista Leila Sterenberg, para o programa Milênio, um programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura GloboNews às 23h30 de segunda-feira com repetições às terças-feiras (17h30), quartas-feiras (15h30), quintas-feiras (6h30) e domingos (14h05).

O ano judaico de 5.776 começou tenso. Difícil dizer quem deu o primeiro passo na direção errada, quem atirou a primeira pedra ou disparou o primeiro tiro, mas desde Setembro embates entre palestinos e o exército de Israel e casos de civis israelenses atacados em situações cotidianas se tornaram rotina.

O que está em xeque não é novo, o direito de ir e vir em locais sagrados para ambos os povos, ambas as religiões. No meio do sofrimento e do tiroteio de acusações e ideias, há quem tenha opiniões singulares e que mesmo professando o judaísmo não veja problema se os palestinos tiverem a soberania sobre o monte em Jerusalém onde se ergueram e foram destruídos os dois grandes templos que marcam a história judaica.

A perda do primogênito, morto pelo Hamas aos dezenove anos, foi um trauma e fez com que Yitzhak Frankenthal, em vez de vingança, buscasse o diálogo. Para esse ex-empresário transformado em pacifista, se existe um inimigo, é com ele que se deve negociar.

O caminho para chegar lá pode ser o menos óbvio. As mensagens em hebraico dizem que a disputa com os palestinos é necessária para a união nacional e que sem ele Israel não teria o exército mais forte do mundo, nem justiça, nem heróis.

São vídeos de uma campanha publicitária diferente, que faz parte de um estudo comportamental apoiado pelo fundo para reconciliação e tolerância dirigido por Frankenthal. 

Para que jovens dos dois lados da barreira de controle não tenham o mesmo destino do filho que ele perdeu, Yitzhak Frankenthal aposta em uma mudança coletiva de postura. Ele acredita que os israelenses precisam reconhecer e então repudiar o apego que têm ao conflito.

Leila Sterenberg — Seu filho, Arik, teria agora 40 anos, mas 21 anos atrás ele foi morto pelo Hamas. Por que, apesar de toda a dor, o senhor escolheu o caminho do que chama de “reconciliação”?

Yitzhak Frankenthal — Eu perdi meu filho não por causa dos palestinos. Eu perdi meu filho só porque não há paz entre israelenses e palestinos. Então, para conseguir a paz, entre israelenses e palestinos, precisamos fazer uma reconciliação. Precisamos assumir compromissos. E desde então estou tentando achar um caminho de fazer isso.

Leila Sterenberg — O senhor é judeu religioso, sionista. E o senhor morava numa comunidade de direita, ortodoxa. É verdade que alguns dos seus vizinhos e amigos pararam de lhe dirigir a palavra quando o senhor começou a defender diálogo e paz?

Yitzhak Frankenthal — A maioria deles.

Leila Sterenberg — E daí? Foi duro?

Yitzhak Frankenthal — A única coisa dura é ficar na frente do túmulo do meu filho. Nenhuma outra é dura.

Leila Sterenberg — Dez anos atrás, o senhor fundou o Instituto Arik, em homenagem ao seu filho, para mostrar ao público israelense e vou citar um texto seu aqui, “os atos errôneos praticados contra os palestinos”. Quais são os maiores erros que Israel vem cometendo, na sua opinião?

Yitzhak Frankenthal — Não está selando a paz, não está fazendo o que tem que ser feito: voltar a fronteiras que sejam aceitas pelos dois lados, israelenses e palestinos, e estabelecer um estado palestino. Você vê: há pessoas que acham que a solução de um estado único é uma ideia possível. Isso é nonsense, é ridículo. Porque a solução do estado único só vai levar à continuidade do derramamento de sangue. Além disso, a solução do estado único vai acabar com Israel enquanto Estado Judeu. Porque a maioria da população vai ser árabe. Então é ridículo. O maior erro de Israel é continuar a ocupação.

Leila Sterenberg — De acordo com o senhor, eu li algumas entrevistas, por conta da ocupação israelense, “palestinos vivem em estado ultrajante de pobreza”, o que aumenta o ódio em relação a Israel. Ódio, extremismo, fanatismo. Israel está empurrando os palestinos em direção ao desespero?

Yitzhak Frankenthal — Acho que os israelenses empurram os próprios israelenses para esse comportamento. Você tem que entender: eu me importo com Israel. Israel é minha pátria, Israel é minha casa. Eu me importo com Israel, eu amo Israel e eu quero ver paz entre israelenses e palestinos. E isso só vai acontecer com a solução de dois estados, não há outra forma. Se estamos construindo um novo assentamento, e mais casas, mais casas, deixamos os palestinos loucos! E aí eles reagem contra isso. O que estamos pensando? Vamos continuar nos comportando em relação aos palestinos como quem quer tomar a terra, e eles vão se portar bem? Não é assim que funciona.

Leila Sterenberg — É interessante porque “shalom”, que quer dizer “paz”, é a saudação mais comum do hebraico. E quando queremos perguntar “como vai”, dizemos “ma shlomcha” ou “ma shlomech”. E literalmente estamos perguntando: “Como vai a tua paz?” Mas o senhor e seus colaboradores chegaram à conclusão de que existe uma barreira psicológica impedindo que os israelenses consigam a paz?

Yitzhak Frankenthal — Veja, a maior parte dos israelenses, se você for perguntar, quer paz. Todas as pesquisas mostram que a maior parte dos israelenses quer paz. Mas quando se passa à ação, os líderes não estão nos conduzindo para a paz. Por quê? Nós fomos checar, fizemos uma pesquisa muito profunda sobre essa questão. E concluímos que a maioria dos israelenses é apegada ao conflito. O conflito é parte do DNA da sociedade israelense. Quando nos unimos? Quando há um ataque terrorista, quando há uma guerra, quando sequestram três rapazes. Muitas situações de conflito nos uniram. Mas podemos ser unidos como uma nação em paz. Podemos nos unir de uma forma boa, não só numa situação terrível. Então descobrimos que ao transformarmos o conflito numa marca, que mostre à sociedade israelense como ela é apegada ao conflito, as pessoas conseguem sair da situação que as aproxima do conflito, não querem estar ligadas ao conflito. Então, nós testamos isso na universidade de Herzliya e tivemos resultados maravilhosos. Com 59% das pessoas se dizendo de extrema-direita e estamos falando de um universo de pesquisa de algumas centenas, algo como 30% a 31% se deram conta de que eram apegadas ao conflito e que não queriam isso.

Leila Sterenberg — O que exatamente vocês estão fazendo nesse momento em termos de campanha? É mídia social? Ou vocês vão exibir vídeos na televisão também? Quais são os próximos passos?

Yitzhak Frankenthal — Ainda não decidimos. Depois de termos sucesso na universidade, e foram resultados impressionantes, concluímos que temos que levar esse projeto a Israel. Mas para levar esse projeto a Israel, vamos começar com uma cidade pequena em Israel. Com outdoors, TV, anúncios no jornal, folhetos... Onde exatamente em Israel? Ainda não estamos dizendo, porque estamos no processo. Não queremos deixar as pessoas preparadas. E estamos agora fazendo uma pesquisa profunda, algo como 350 pessoas, da mesma cidade, para avaliar as ideias delas agora, durante o processo, e depois. Então vamos ter o quadro exato. Se tivermos sucesso ou se falharmos, vamos entender por que falhamos. Por quê? Deve funcionar. E, se não funcionar, temos que entender por que não funcionou. Estamos empenhando muito esforço e muito dinheiro para acompanhar todo o processo: para ver se estamos indo no caminho certo ou no errado. Se for o caminho errado, para entender o que faltou, o que fizemos de errado. E na próxima vez faremos melhor.

Leila Sterenberg — É isso o que estão chamando de intervenção paradoxal, certo?

Yitzhak Frankenthal — Exatamente. Você vê, uma das coisas mais paradoxais é o que acabei de dizer: não quero que dê certo, quero falhar. Porque se transformarmos o conflito numa marca e as pessoas não quiserem o conflito, quer dizer que falhamos, porque as pessoas não querem a nossa marca. Mas é maravilhoso: queremos que as pessoas rejeitem o conflito. Na medida em que rejeitarem o conflito, teremos sucesso.

Leila Sterenberg — Vocês esperam ganhar escala nacional?

Yitzhak Frankenthal — Claro! Depois que tivermos atuado na cidade pequena e soubermos o que estava OK e o que estava errado, aí vamos para o nível nacional.

Leila Sterenberg — O que o governo vai achar disso?

Yitzhak Frankenthal — Olha, eu espero realmente que este governo faça a paz. Eu não ligo para que governo seja. Eu não ligo se será com Fatah ou Hamas. Eu não ligo se será Netanyahu ou Herzog ou Tzipi Livni ou quem quer que seja. Eu não ligo. Eu só quero que façam a paz. Chega de falação.

Leila Sterenberg — O senhor tem argumentos interessantes e um tanto controversos. A forma como o senhor vê a questão do Monte do Templo. O senhor acha que a soberania palestina não o faz menos sagrado para o povo judeu.

Yitzhak Frankenthal — Claro!

Leila Sterenberg — Porque a soberania seria irrelevante para a santidade. Entendi certo?

Yitzhak Frankenthal — Claro! Você sabe? Por 2 mil anos não estivemos lá. E é um lugar sagrado. Aliás, aqui no Midrash, no Rio de Janeiro, vocês reverenciam Deus. Você não precisa reverenciar Deus num lugar especial. Transformar locais em lugares santos é ridículo. Você tem que respeitar. Mas não o transforme num lugar sagrado! Um lugar sagrado é o nosso coração. É o ser humano. E não uma pedra, não uma casa ou seja o que for. Você vê: em Hebron você tem os túmulos de Abraão, Isaac e Jacó. Ninguém sabe exatamente se estão mesmo lá, mas digamos que estejam. Então é um lugar sagrado? Não é um lugar sagrado. Então queremos nossos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó, e matamos nossos filhos por isso. É ridículo! Isso não é o judaísmo. Judaísmo é paz. O Islã é paz. E as pessoas que estão usando a religião contra a paz são pseudojudeus ou pseudomuçulmanos. Não judeus, não muçulmanos.

Leila Sterenberg — Caetano Veloso e Gilberto Gil, músicos brasileiros famosos, fizeram um show em Tel Aviv em julho. Mas eles tinham sido muito criticados por outros artistas, sobretudo pelo ex-músico do Pink Floyd Roger Waters. Ele pressionou para que eles não fossem. Existe um movimento chamado BDS: Boicote, Desinvestimento e Sanções. Qual a sua visão disso?

Yitzhak Frankenthal — Eu uma vez recebi um telefonema do empresário do Leonard Cohen. Em 2009 Leonard Cohen viria a Israel para um show e iria dar para mim o dinheiro do show. Dois dias depois eu encontrei com eles em Nova York e perguntei ao Leonard Cohen se ele toparia ir à Palestina para fazer um show lá. Ele respondeu: se você arranjar como, maravilha. Aí eu arranjei. Vieram equipes de Nova York e de Londres, para ver onde seria. Foi publicado no jornal palestino. Mas o pessoal do boicote em Londres fez pressão maciça sobre os palestinos para que boicotassem Leonard Cohen. E eles conseguiram: ele não foi a Ramalah. Porque o boicotaram. A pergunta que tem que ser feita: o boicote ajuda na reconciliação e na obtenção da paz? Se o Roger Waters fosse a Israel fazer um show e falasse sobre como os israelenses estão ligados ao conflito, isso iria ajudar cem vezes mais do que boicotar os israelenses. É ridículo o que está acontecendo. Realmente ridículo.

Leila Sterenberg — Eu li numa entrevista que o senhor disse que desde a morte de Arafat, o Hamas é o único ente capaz de conduzir o povo palestino à paz, porque não há nenhum outro. O senhor acha possível negociar com o Hamas apesar do fato de que ele se recusa a reconhecer Israel?

Yitzhak Frankenthal — Você vê: eu encontrei líderes do Hamas muitas e muitas vezes. Apesar de terem assassinado meu filho. Porque eu não vou selar a paz com meus amigos, vou selar a paz com meus inimigos. E o Hamas que assassinou meu filho é meu inimigo, mas eu tenho que fazer a paz com meu inimigo. Então eu encontrei várias vezes integrantes, líderes do Hamas. E eu perguntei aos líderes e as pessoas comuns a mesma coisa: qual é a sua filosofia? Você quer destruir Israel? Você não vai conseguir. O que você quer? Continuar a luta entre Israel e vocês? Os dois lados vão sofrer, mas vocês vão sofrer dez vezes mais que os israelenses. Então qual é o alvo? E eles me disseram: o Fatah reconheceu Israel em 1992, 1993, e o que aconteceu desde então? A situação na Cisjordânia e em Gaza ficou muito pior do que era antes de o Fatah reconhecer Israel. Dizem que não fizemos nada, que jogamos com Arafat, que não fizemos a paz com Arafat. Nós, eles dizem, o Hamas, não queremos jogar o mesmo jogo. Primeiro nos reconheçam como Estado Palestino. Depois de nos reconhecerem, aí vamos conversar. Não vai ser automático. Temos que atuar nos dois lados, dar os passos para estabelecer a paz real entre os dois povos. Mas eles me disseram: nós, o Hamas, queremos paz, mas não queremos por partes. Não queremos que de um lado vocês construam assentamentos e do outro vocês falem de paz. Não é assim. Não queremos que vocês joguem conosco como jogaram com o Fatah. Aí você tem a resposta.

Leila Sterenberg — E como o senhor vê o novo capítulo nas relações entre os Estados Unidos e o Irã?

Yitzhak Frankenthal — Eu não sou um expert em Irã e bomba atômica. Mas acho que houve cerca de 40 anos de Guerra Fria entre a União Soviética e os Estados Unidos, cada um fez alguns milhares de bombas atômicas. E se um deles usasse uma bomba atômica, seria destruído. Então eu acho que está OK se o Irã fizer bombas atômicas. A propósito, vão fazer de qualquer jeito. E o que tem que ser dito aos iranianos? Se você usar uma vez uma bomba atômica, o Irã acaba. Então eu não acho que os iranianos sejam idiotas. São seres humanos como você e eu.

Leila Sterenberg — Pelo menos parte das suas ideias não provoca um nível considerável de oposição ou desconforto dentro de Israel e fora do país?

Yitzhak Frankenthal — Eu não estou querendo provocar empatia ou ser amado pelas pessoas. Eu perdi meu filho. Eu tenho outros quatro filhos, oito netos. E eu estou lutando por eles. Eu estou lutando pelos filhos de cada um. Porque o conflito entre israelenses e palestinos criou muitos problemas em todo o mundo. Então temos que acabar com ele.

Leila Sterenberg — O senhor tem amigos palestinos?

Yitzhak Frankenthal — Muitos. Eu também tenho colonos que são muito meus amigos. Eu celebro todo ano o Dia da Independência num dos assentamentos, porque eles são pessoas maravilhosas, os colonos. Eles têm uma posição errada, cometem um erro, mas são pessoas maravilhosas. As pessoas têm medo. Passamos 2000 anos na diáspora, sofremos o Holocausto, sofremos nas guerras com o mundo árabe. Nós israelenses sofremos com o terror palestino, com as baixas israelenses provocadas pelos palestinos. Então os israelenses têm razões pra ter medo, não há dúvida quanto a isso. Mas devemos deixar o medo nos conduzir? Devemos estar atrelados ao conflito por medo, por ódio, por desespero? Não. Devemos firmar a paz. Precisamos dar às nossas crianças e às crianças palestinas a chance de viverem da forma certa, de forma pacífica. E também tentar trazer o judaísmo para o lugar certo. Porque o que está acontecendo hoje: o sionismo está destruindo o judaísmo.

Leila Sterenberg — É mesmo? Por quê?

Yitzhak Frankenthal — Porque aqueles sionistas... Eu sou sionista, mas aquelas pessoas estão se intitulando “sionistas” e estão criando mais um assentamento e mais um assentamento. E isso cria uma crise terrível entre israelenses e palestinos. Pessoas são mortas por causa disso, nos dois lados. Por quê? Porque Deus prometeu a Abraão, Isaac e Jacó que teríamos o Estado Judeu em Israel. Mas Deus nos livre! Ninguém disse que precisamos perder gente para isso.

Leila Sterenberg — É sacrifício humano no fim das contas.

Yitzhak Frankenthal — Claro. Então, parece que o judaísmo destrói o judaísmo, o sionismo destrói o judaísmo! E onde estão os valores judaicos? Amar um ao outro, respeitar um ao outro. Respeitar os outros! Tantos mandamentos temos na nossa tradição. Respeitar o outro, amar o outro. Amar aparece três vezes: amar a Deus, amar a sua fé, amar os outros. Está três vezes na Bíblia. Inacreditável.





Comissão de Direitos Humanos realiza debate sobre Intolerância Religiosa pós-atentados em Paris


As denúncias de intolerância religiosa na capital paulista aumentaram após os atentados de Paris ocorridos na sexta-feira 13/11, cuja autoria foi reivindicada pelo grupo Estado Islâmico. 

Para discutir essas denúncias, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de São Paulo, cujo presidente é o vereador Laércio Benko, realizou na quinta-feira (26/11) um debate sobre a intolerância religiosa. 

Representantes das mais diversas matrizes religiosas, como catolicismo, judaísmo, budismo, protestantismo, islamismo e religiões de matriz africana estiveram presentes no evento.

O Padre Tarcísio, representante da igreja católica no debate, lembrou que no Brasil o povo é pacífico e que essa é uma característica que deve ser estimulada na sociedade. Para o xeque Abdul Hamid, líder da Mesquita Brasil, viver em terras brasileiras é muito bom, pois existe uma aceitação da religião islâmica muito maior do que em outros países. 

“Nós repudiamos todos os atos cometidos em Paris. O islã não aceita de forma nenhuma tudo isso. O islã prega a paz. Muçulmano não é terrorista e terrorista não é muçulmano”, afirmou.

O monge budista Jean Algieri, que mora parte do tempo em Paris e parte em São Paulo, disse que o brasileiro não conhece o terrorismo vivido em outros países e que somos um povo de sorte. Damaris Moura, presidente da Comissão de Liberdade Religiosa da OAB São Paulo, disse que foi uma iniciativa extraordinária realizar uma reunião como essa, na Câmara Municipal. 

“Quanto mais espaços institucionais nós conseguirmos aglutinar para essa luta com ideal pacifista, que é promover e defender os direitos de todos os grupos religiosos, melhor”, disse.

Laércio Benko, vereador e presidente da Comissão, contou que as denúncias de casos de intolerância, especialmente aos muçulmanos têm aumentado e que o terrorismo praticado em Paris não pode contaminar a nossa nação. O Brasil é um país pacífico. 

“Tratamos especificamente do caso de Paris para mostrar que o que foi feito lá não é fruto de nenhuma religião, mas de quem não tem Deus no coração. A soma de todas as religiões é igual a Deus”, complementou o vereador Laércio Benko.





quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Arábia Saudita e a proximidade com o "Estado Islâmico"



A ideologia do grupo terrorista não nasceu por acaso: sua inspiração veio sobretudo do wahabismo, uma vertente do islamismo sunita que tem status de religião oficial na Arábia Saudita. Mas existem ainda outras ligações.

O ódio contra pessoas de outra fé, uma visão bizarra de mundo, que vê ameaças de todas as formas contra o islã, e a desconfiança perante todos que creem e pensam de forma diferente: esses são elementos centrais da ideologia do "Estado Islâmico" (EI).

Não foi o grupo terrorista, no entanto, quem criou essa visão de mundo, ao menos não sozinho. Quando incita ao ódio contra xiitas, yazidis, cristãos e judeus, o "Estado Islâmico" mostra semelhanças estreitas com o wahabismo, uma vertente radical-conservadora do islamismo sunita que tem status de religião oficial na Arábia Saudita.

De fato, os paralelos entre o EI e o wahabismo são inconfundíveis. Isso fica claro com uma olhada nos livros didáticos que, ao menos até há poucos anos, moldavam a visão de mundo dos escolares sauditas.

"Qualquer outra religião exceto o islã é falsa", aprendiam eles no livro introdutório. Os alunos também tinham de solucionar pequenas tarefas, como completar a frase: "Quem morre fora da religião do islã vai...". De acordo com o livro didático, a resposta certa era: "para o inferno". Outro exercício era: "Dê exemplos de falsas religiões, como judaísmo, cristianismo, paganismo etc."

"Fé não é apenas uma palavra"

Para os alunos mais velhos, as tarefas eram mais difíceis: eles eram iniciados, segundo orientação do reino saudita, nos exercícios adequados para um muçulmano. Podia-se ler: "A fé não é apenas uma palavra dita por uma pessoa. A fé consiste de língua, convicção e ação."

Os alunos também eram esclarecidos sobre o significado da "verdadeira fé": "Que você odeie politeístas e infiéis, mas sem tratá-los de forma injusta." A questão do que seria "injusto" era deixada em aberto pelo livro didático.

Em vez disso, há instruções para o caso de um muçulmano se deparar com uma pessoa de outra fé: "É proibido a um muçulmano ser amigo leal de uma pessoa que não acredite em Deus e seus profetas ou que combata a religião islâmica."

Os exemplos citados provêm de livros didáticos sauditas do ano de 2005. O think tank Centro de Liberdade Religiosa, ligado à fundação americana Freedom House, examinou uma dúzia desses livros. 

No estudo divulgado em 2006, os pesquisadores chegaram a uma conclusão preocupante: a Arábia Saudita "semeia o ódio contra o Ocidente tanto no ensino público religioso como em outros materiais, como, por exemplo, pareceres religiosos (fatwas)."

Os pesquisadores responsabilizaram a Arábia Saudita por essa política, pois os livros são publicados pelo Estado e os imãs responsáveis pelo conteúdo recebem o seu salário do governo.

Reformas duvidosas

De acordo com a fundação Freedom House, um estudo encomendado pela própria Arábia Saudita chegou a um resultado semelhante. Apresentada em Dezembro de 2003, a pesquisa relatou as seguintes conclusões: o ensino de religião no reino saudita "incentiva à violência contra outras pessoas e induz os alunos à convicção de que eles, para proteger a própria religião, deveriam reprimir outros com violência ou até mesmo com a destruição física."

Oficialmente, a Arábia Saudita nunca reagiu ao relatório da Freedom House. Em 2006, porém, o então ministro do Exterior saudita, Saud al-Faisal, declarou que o sistema de ensino do país seria completamente revisto. Não se sabe até que ponto isso realmente aconteceu. Nos anos de 2012 e 2013, o Departamento de Estado dos EUA encomendou um novo estudo sobre os livros didáticos sauditas, mas os resultados não foram divulgados.

Dinheiro e fé

A Arábia Saudita exporta a sua interpretação do islã sunita de todas as formas. Nos últimos 25 anos, Riad investiu ao menos 87 bilhões de dólares em propaganda religiosa em todo o mundo, estima um ex-embaixador americano em estudo publicado em 2007. Depois disso, a soma deve ter sido ainda maior, afirmou, devido à duradoura alta no preço do petróleo. O dinheiro foi destinado à construção de mesquitas, madraçais (escolas muçulmanas) e instituições religiosas. Com esses recursos, imãs são formados, editoras são financiadas, textos wahabitas são publicados.

Grande parte do dinheiro vai para países islâmicos desfavorecidos, mas populosos, no Sul e no Sudeste Asiático: Paquistão, Indonésia, Filipinas, Malásia. O wahabismo também é promovido em partes da África. 

Para muitas das pessoas que vivem nessas regiões do planeta, essas instalações são a única possibilidade de uma formação escolar. Ali eles aprendem a ler e a escrever e, ao mesmo tempo, são familiarizados com a doutrina wahabista. Mas também no Ocidente existem instituições financiadas pela Arábia Saudita.

A proximidade ideológica com o "Estado Islâmico" também se reflete na ajuda econômica concreta. É difícil avaliar quanto dinheiro é destinado ao EI: ele é enviado por meio do chamado sistema Hawala, um sistema informal em que o dinheiro não é transferido através de contas bancárias oficiais, mas por meio de pessoas de confiança. Também não se sabe até que ponto o Estado saudita apoia direta ou indiretamente o EI.

Afastamento rápido

Nos últimos tempos, o governo em Riad se distanciou do terrorismo do EI. Em Agosto de 2014, o grande mufti da Arábia Saudita declarou, em alusão direta ao EI e à Al Qaeda, que ideias radicais, extremistas e terroristas não tinham nada que ver com a fé muçulmana. "E seus autores são os maiores inimigos do islã."

Em seu livro: Le piège Daech (A armadilha EI, em tradução livre), o estudioso islâmico francês Pierre-Jean Luizard afirma que, hoje, a Arábia Saudita classifica de terroristas fenômenos que até há poucos anos ou meses eram vistos como os pilares mais confiáveis do wahabismo na região.

"Parece que o regime saudita se separou em tempo recorde das ligações que podiam legitimar esse sistema político, um sistema que, por meio de sua exportação da ideologia wahabista, por um lado, e de sua submissão aos interesses americanos, pelo outro, apresentava paradoxos políticos encontrados em poucos regimes deste mundo."





O Antropólogo e sua Magia: Trabalho de Campo e Texto Etnográfico nas Pesquisas Antropológicas sobre Religiões Afro-Brasileiras


Vagner Gonçalves da Silva

Vagner Gonçalves da Silva é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo, onde é docente.

Na definição da antropologia como ciência da alteridade ou da crítica cultural, o trabalho de campo desempenha papel fundamental.

Determinados aspectos do trabalho de campo são analisados aqui, enfocando principalmente a relação observador-observado tal como se apresenta nos depoimentos de antropólogos e não especialistas entrevistados.

O autor investiga a produção dos textos etnográficos e sua recepção entre os grupos pesquisados, colocando em questão os limites entre observação e participação.

O destaque é dado especialmente às comunidades religiosas afro-brasileiras e às transformações ou legitimações das tradições religiosas decorrentes do contato entre o universo da academia e o dos terreiros.






Muçulmanos buscam vencer preconceitos – Por Lucas Meloni



“A Deus pertencem o levante e o poente. Para onde quer que vos tornardes, lá encontrarás o semblante de Deus”.

A frase, do escritor afegão Khaled Hosseini, presente no livro: “A Cidade do Sol”, contrapõe o que muitas religiões dizem: Deus pode ser buscado em qualquer lugar. Para membros da comunidade islâmica, que sofrem com certo receio por parte do mundo em decorrência dos ataques terroristas, a religião é agregadora e os extremistas são minoria que não merecem qualquer consideração. 

Em Mogi das Cruzes, o número cada vez maior de refugiados desperta a necessidade de se discutir que apoio essas pessoas podem receber, já que buscam novas chances de vida.

O jornalista Haisem Abaki (ex-O Diário, atualmente na Rádio Estadão) conta que este preconceito é fruto da desinformação. “O Estado Islâmico, por exemplo, faz uma associação à religião quando sabemos, na verdade, que seus atos objetivam mais a barbárie”, avaliou.

Em seu blog no portal do Estadão, Abaki publicou no último dia 20 o texto: “Tenho Nome de Terrorista” falando exatamente sobre o fato de seu nome ter referência aos muçulmanos. A família de Haisem é da Síria. “Não nos enganemos mais com os terroristas doidões. Muito mais do que religioso, o fanatismo deles é por poder, território, petróleo e armas. Resumindo: dinheiro”, trouxe o texto.

Mohamad Saad, presidente da Sociedade Cultural e Beneficente Islâmica de Mogi das Cruzes, conversou com a reportagem e falou sobre a visão negativa que a comunidade acaba enfrentando. “São atos violentos que acabam prejudicando o trabalho que desenvolvemos. Nós buscamos a paz, a comunhão e a cooperação. O extremismo não combina com o que acreditamos”, opinou.

O Diário revelou ontem, com exclusividade, que Mogi das Cruzes recebeu, desde Janeiro deste ano, 100 refugiados sírios que buscavam fugir do conflito armado no Oriente Médio. A informação foi revelada a O Diário pelo xeque Hosni Abdelhamid Mohamed Yousself. Eles estão recebendo assistência da comunidade islâmica, já que muitos chegam sem recursos e têm dificuldade na adaptação à nova cultura. 

Abaki já observou algumas dificuldades. “A minha família ajuda alguns dos refugiados. A principal dificuldade é com o idioma, a cultura e os costumes. Há todo um processo”, disse o jornalista.






Convite

Caríssimos,

Convido todos os interessados.

Entrada Franca


quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Amebras participa da Expo-religião no SulAmérica neste final de semana



A Amebras (Associação de Mulheres Empreendedoras do Brasil) vai levar a arte do carnaval para a maior feira de negócios do segmento religioso. 


De sexta a domingo desta semana (27 a 29 de Novembro), a instituição participa da 3ª Expo Religião, que acontece no Centro de Convenções SulAmérica, na Cidade Nova, no Rio de Janeiro.

A Amebras terá um quiosque onde estarão expostos produtos artesanais, como flâmulas e bonecos de orixás, elaborados nas oficinas de capacitação que a entidade realiza na Cidade do Samba. 

Ao longo dos três dias, instrutores da associação darão aulas gratuitas para os frequentadores da feira, ensinando a confeccionar bonequinhos de orixás. As aulas serão gratuitas e as inscrições devem ser feitas na hora do evento.

“A feira é muito importante para unir pessoas em um espaço democrático, onde todos têm a mesma liberdade para expor, apresentar, praticar, falar de suas religiões, doutrinas e crenças, com aceite de outras filosofias e entendimentos, mas todos com a mesma proposta de respeito, união e paz”, acredita Célia Domingues, presidente da Amebras. “Esta é a segunda vez em que participamos”, informa a dirigente.

A entrada para a Expo Religião 2015 custa R$ 3,00 ou um quilo de alimento não perecível.







Filme sobre Daime estreará em Rio Branco/AC durante festival Pachamama – Por Aline Nascimento e Quésia Melo



'O Império do Floresta' será exibido na quinta (26/11), no Cine Teatro Recreio. Filme faz parte de série sobre religiões e é contado através de personagens.

Tendo como foco a doutrina do Daime, uma das religiões tradicionais da Amazônia, que teve origem no Acre, o documentário 'Santo Daime - O Império do Floresta' de 70 minutos será exibido pela primeira vez nesta quinta-feira (26/11), às 19h no Cine Teatro Recreio. O longa faz parte da programação do VI Festival Pachamama Cinema de Fronteira que será realizado até sábado (28/11), em Rio Branco/AC. 

"Tivemos uma proposta para lançar em um festival no Rio de Janeiro, mas optamos por exibir aqui [em Rio Branco] ,pois é onde boa parte do documentário foi filmado. É a oportunidade única de ver o filme no cinema da forma como pensamos que deveria ser. Acho que dos longas que serão exibidos no Pachamama esse é o único filmado no Acre", destaca o produtor do filme, Tiago Melo.

O trabalho foi dirigido e roteirizado pelo cineasta André Sampaio e faz parte de uma série de quatro produções chamadas de 'Terra de Encantaria' que abordam a religiosidade brasileira.

O Daime foi criado pelo maranhense Irineu Serra em 1912 e tem como principal doutrina a utilização da bebida produzida a partir da junção do cipó-mariri e da folha chacrona, o chá da ayahuasca.

"Queríamos que a série tivesse cenas de todo o Brasil com manifestações muito particulares, não é o caso do Daime que já expandiu para o planeta inteiro. A intenção era ir na origem dessas religiões" explica Sampaio.

Personagens contam a história

Segundo Sampaio, as filmagens começaram em 2013 e os cineastas ficaram ao menos três semanas no estado, porém, as pesquisas de locação  foram iniciadas três anos antes. "Em Rio Branco filmamos na Colônia 5 Mil, no Pronto Socorro de Cura, Comunidade Fortaleza e muitos pontos da cidade como o Terminal Urbano", conta.

O diretor destaca que o Daime é um patrimônio imaterial do Brasil e que nasceu no Acre. O 'Império da Floresta conta a origem da religião e seus desdobramentos através de personagens mostrando o cotidiano e os momentos durante os rituais da religião.

"Os personagens é que trazem a memória do mestre Irineu Serra. Não é um filme com narração, as pessoas contam a história através de conversas. Optamos por não ter nenhum antropólogo, cientista ou químico, o ponto de vista é das pessoas que fazem parte da doutrina", destaca Sampaio.

Para Melo, o produtor, é importante que o processo para mostrar a doutrina seja de dentro para fora. "Primeiro temos uma relação com esses lugares e com essas pessoas. Daí, buscamos entender como é tudo. Até então, não há nada exótico, não há estereótipos. Mostramos todos os rituais, são pessoas comuns", enfatiza.

Com o documentário pronto, Sampaio afirma que não é uma estreia, mas a entrega do filme para as pessoas que fizeram parte do trabalho. "É tanto tempo trabalhando nisso, que se perde a dimensão de como é o filme, estou ansioso é para ver as reações. Não tentamos dar conta da história, pois sabemos que tudo isso não cabe em um filme", finaliza.






Karl Rahner e o método Antropológico-Transcendental – Por José Ivan Lopes



Em meados de 1964, Karl Rahner foi convidado para substituir o sacerdote, escritor e teólogo Romano Guardini (1885-1968) na cadeira de Filosofia da religião, na Weltanschauung católica em Munique.

Logo no início do seu trabalho naquela universidade, Rahner desenvolveu uma “Introdução ao conceito de cristianismo”, que mais tarde foi publicado com o nome de Curso fundamental sobre a fé (1976), sendo considerada a obra mais relevante e significativa da teologia católica do século XX.

Nenhum outro teólogo do século XX foi mais familiarizado com as mudanças ocorridas no campo teológico católico do que Karl Rahner. Foi um teólogo singular que abalou as estruturas do cristianismo face às outras denominações religiosas. Sua reflexão desperta a teologia católica para o valor das outras religiões no que se refere à questão soteriológica.

O autor se revela um intenso opositor da visão pessimista da história. Introduziu de maneira contundente na teologia o estatuto de método antropológico-transcendental, que lhe permitiu incentivar a passagem de uma racionalidade reduzida da cultura secular ao alargamento para o horizonte mais vasto de uma racionalidade capaz de reconhecer dialeticamente na modernidade o valor do mistério e da graça de Deus.

A presente discussão deixa claro que Rahner, em sua teologia antropocêntrica, se propõe a defender a teoria de que todos os seres humanos estão abertos a Deus e à sua graça. O homem só se realiza pessoalmente a partir da sua relação com Deus. Essa relação se dá por meio de Jesus Cristo como Salvador.

A antropologia rahneriana revela a chamada receptividade natural do homem a Deus, pois ela do pressuposto do chamado existente sobrenatural, ou seja, a graça, que, segundo o autor, há em todos os seres humanos. O ponto de partida para tal construção teórica se inspira na certeza de que Deus quer a salvação para todos (1Tm 2.4), para tanto mostra que a fé em Cristo é imprescindível. Lembra ainda que todos podem crer, pois a graça de Deus atua na existência de todos os seres humanos, até que o homem ou a mulher sejam atingidos pela boa nova de Jesus.

Para Rahner a graça de Deus, ou seja, o existencial sobrenatural, operando diuturnamente até mesmo em quem se afirma ateísta, embora possa possuir fé, esperança e caridade, mesmo que continuem ateus. Mesmo um ateu não está excluído de receber a salvação, uma vez que ele não age contrariamente à sua consciência moral.

Segundo Rahner, a própria fé salvadora. Nesta perspectiva, mesmo quem não tem acesso à Revelação cristã e não é adepto à Igreja e não recebe os sacramentos, mas busca viver identificado com a reta consciência e com as determinações divinas, possui a fé cristã, mesmo sem ter consciência dessa sua realidade. Esta pessoa é definida como cristão anônimo.

* Mestre em Ciência da Religião pela PUC Minas. Especialista em Pedagogia Empresarial pela FINOM. Licenciado em Filosofia pela PUC Minas. Atualmente é Diretor Acadêmico da FINOM.






Igreja Católica/PI se une a outras religiões na primeira marcha pela vida - Por Vera Alice Brandão



A Arquidiocese de Teresina/PI apóia a: 

I Marcha pela vida

Que ocorre no dia 12 de dezembro, com o tema: “Na defesa do direito dos inocentes”. 

A iniciativa vai contar com a união das Igrejas Católica, Evangélicas, dos Espíritas, da Maçonaria e de outras frentes e movimentos que são contrários ao aborto e terá concentração a partir das 16h, na Ponte Estaiada, seguindo pela Avenida Raul Lopes.

A realização da I Marcha é do Movimento Brasil sem Aborto, iniciativa de caráter nacional, suprapartidário e suprarreligioso que percorre escolas, bairros e faculdades com a missão multiplicadora de formar defensores da vida, através da conscientização sobre os males físicos e psíquicos causados na mulher pelo aborto. Da mesma forma, o movimento luta contra a possível legalização do aborto no Brasil pelo Congresso Nacional. 

“Nossa missão maior, além do engajamento na causa como multiplicadores, é defender os direitos dos inocentes, conscientizando jovens e adultos para não praticarem esse ato contra a vida”, explica Rubenita Lessa que é advogada e presidente do Movimento Brasil sem Aborto no Piauí.

“Independente do credo e da ideologia política, temos que defender o direito à vida, que é o direito mais essencial. Não existe nenhum outro direito se não existir o direito à vida. Nossa defesa é pela valorização humana desde a concepção. Todos nós tivemos nosso direito à vida respeitados antes mesmo de nascer, e é por isso que todo cidadão deve abraçar essa causa e defender aqueles que já foram concebidos. É sobre eles que deve recair a maior proteção, pois são indefesos”, finaliza.

Haverá apresentações artísticas e bandas locais que animarão o público presente. As camisas da Marcha estão sendo comercializadas no valor de R$ 20,00 na sede do Centro Pastoral Paulo VI.






O Alto-Comissário para as Migrações defendeu hoje que Portugal tem um "clima de tolerância e diálogo inter-religioso" que pode servir de exemplo a outros países europeus.


"Nestes tempos de sobressalto, Portugal tem um extraordinário clima de tolerância e diálogo inter-religioso, o que pode torná-lo exemplar para outros países europeus", afirmou hoje Pedro Calado, Alto-Comissário para as Migrações, à agência Lusa.

Falando na Mesquita Central de Lisboa, momentos antes do início da tertúlia "O autoproclamado Estado Islâmico, os refugiados e os desafios que se colocam à Europa", Pedro Calado alertou para a importância de "não confundir agressores e vítimas no caso dos refugiados, sob pena de estes se tornarem duplamente vítimas".

"Um dos atuais desafios europeus é equilibrar a segurança com a tolerância, que é um valor civilizacional a preservar", afirmou o Alto-Comissário para as Migrações à Lusa, acrescentando que "o grande objetivo destas iniciativas é passar uma mensagem de serenidade e segurança", nomeadamente face à comunidade islâmica, atualmente com cerca de 50.000 pessoas em Portugal.

Por seu lado, Emília Lisboa, coordenadora do Gabinete de Asilo e Refugiados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, sublinhou que "não há evidências de que os atentados tenham sido cometidos por infiltrados integrados na vaga de refugiados, tudo apontando para indivíduos já residentes na União Europeia", pelo que "não faz sentido alimentar receios com base em especulações".

"Os refugiados procuram escapar às violações de direitos humanos, à guerra e ao terrorismo nos seus países de origem", disse ainda Emília Lisboa à agência Lusa, também a poucos minutos de intervir na tertúlia organizada pelo Clube de Filosofia Al-Mu`tamid, da Universidade Lusófona, em parceria com a Comunidade Islâmica de Lisboa.

Igualmente presente na iniciativa, Abdool Vakil, presidente da Comunidade Islâmica de Lisboa, salientou que "as pessoas questionam o acolhimento dos refugiados, mas ajudar os necessitados, socorrer os que pedem auxílio, é um gesto muçulmano, tal como é judaico ou cristão, é um ato de humanidade transversal a várias religiões".

Em declarações à Lusa, Abdool Vakil referiu também que "o autoproclamado Estado Islâmico, que usa essa designação abusivamente, não tem qualquer direito de matar, gesto que é, inclusive, contrário ao Islão", e deu o exemplo de "termos que estão a ser deturpados", caso de `jihad`, que significa, na realidade, "o controlo da alma para resistir às tentações do mal".

Além de Pedro Calado, Emília Lisboa e Abdool Vakil, estava também prevista na tertúlia a presença de Rui Pereira, presidente do Observatório de Segurança, Crime Organizado e Terrorismo e antigo Ministro da Administração Interna, e Ziyaad Yousef, assistente do ex-presidente norte-americano Jimmy Carter, jornalista da BBC e dirigente da ONG "Save the Children" em Jerusalém.

A tertúlia, aguardada por cerca de 70 pessoas, foi antecedida da apresentação do livro "Mais um estranho na escola", da autoria de Alexandre Honrado e Paulo Mendes Pinto, com ilustrações de Joana Rita.

O volume é o primeiro de uma série destinada a explicar as religiões às crianças e que conta já com um segundo título, "Jesus vive na rua", dos mesmos autores e ilustrado por Dara Deer.

Também moderador da tertúlia, Paulo Mendes Pinto, responsável pela área de Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, explicou à Lusa que esta iniciativa, a 18.ª em menos de dois anos, visa "mostrar que o religioso só faz sentido na sociedade através do cívico".






Padre que abriu igreja para evangélicos tem apoio de líderes religiosos – por Francisco Edson Alves


Lideranças religiosas de diversos credos estão preparando um ato de apoio ao padre Wellerson Magno Avelino, de 39 anos. 

Ele abriu as portas de sua paróquia para cultos de outras religiões, sobretudo a Igreja Batista, que teve seu templo parcialmente destruído pelo tsunami de lama de rejeitos de mineração da Samarco, em Barra Longa, a 60 Km de Mariana.

Como O DIA publicou nesta terça-feira, o pároco da Igreja São José, embora tenha recebido elogios, também foi criticado, inclusive por outros padres católicos, pela sua iniciativa. O ato de desagravo está sendo articulado para os próximos dias.

“Faço questão de participar e convidar outros religiosos para o ato de desagravo em apoio a Wellerson. Ele externou, com seu gesto, o amor divino, ao receber irmãos de outros credos”, afirmou o bispo Josep Rossello, da Igreja Anglicana, e Comissário da Free Church of England para o Brasil.

O pastor Roberto de Oliveira, da Igreja Assembleia de Deus de Mariana, também confirmou participação. “Poucos teriam uma iniciativa tão nobre diante do caos. O padre Wellerson tem toda minha admiração”, justificou. 

Ontem, padre Wellerson, passou o dia recebendo telefonemas de solidariedade. Fotos de um dos cultos que circulam pelas redes sociais, dividem opiniões e causam polêmica. Nele, devotos batistas aparecem orando e abraçados ao padre.