quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Por trás do véu: a imagem da mulher no islã



À primeira vista, o papel da mulher parece ser igual em todos os países muçulmanos. 

Mas não há base teológica para uma imagem unificada. O ato de cobrir a cabeça e o corpo, por exemplo, é uma questão de interpretação.

Nascido em 1960, não se pode dizer que Muhammad Salih al-Munajjid esteja em idade avançada. Mas as opiniões emitidas pelo estudioso de religião, filho de refugiados palestinos, natural da Síria e residente na Arábia Saudita desde a adolescência, se assemelham mais a documentos de épocas passadas.

Munajjid publicou suas opiniões no islamqa.info, um dos sites salafistas mais populares no mundo árabe. Na página, um jovem, por exemplo, pede ao religioso a resposta a uma pergunta aparentemente difícil para ele: E sobre o status das "escravas" que se encontram na Arábia Saudita? É possível ter relações sexuais com elas? Mesmo que se seja casado? 

O autor da pergunta não explicita o que entende por "escrava", ele considera ser algo difundido. Na Arábia Saudita, o termo é usado para se referir às muitas empregadas domésticas do Sudeste Asiático que trabalham no país.

O estudioso da religião sabe a resposta: "O islã permite a um homem ter relações sexuais com uma escrava, seja ele casado com uma ou várias mulheres ou solteiro". Como justificativa, Munajjid menciona passagens do Alcorão, a biografia do profeta Maomé, como também as opiniões dos principais xeiques. 

"Os estudiosos", resume Munajjid, "são uníssonos nessa avaliação, e não é permitido a ninguém vê-la como proibida ou proibi-la. Quem fizer isso é um pecador que vai de encontro ao consenso dos religiosos".

O parecer religioso (fatwa) sobre a disponibilidade sexual de mulheres asiáticas que, na realidade, vieram para a Arábia Saudita somente para o trabalho doméstico é apenas uma das muitas fatwas que os estudiosos islâmicos sauditas publicam diariamente sobre o papel da mulher. 

De acordo com a etnóloga Madawi al-Rasheed, da London School of Economics, somente na segunda metade do século 20, estudiosos de religião sauditas emitiram por volta de 30 mil fatwas. Casamento, cuidados corporais, questões medicinais, os devotos sábios não deixam de fora nenhuma área em seus pareceres.

O véu como símbolo

O cenário religioso dominado pelos ultraconservadores wahhabistas na Arábia Saudita constitui um dos lados da confusa discussão sobre o papel das mulheres no islã. Do outro lado, estão as próprias mulheres, muitas vezes feministas seculares ou islâmicas, cujas respostas se opõem diametralmente àquelas dos wahhabistas.

Os dois grupos concordam apenas num ponto: no islã, o tratamento dado às mulheres é de central importância. Segundo a historiadora e feminista tunisiana Sophie Bessis, mais do que nunca, teólogos islâmicos procuram impingir uma identidade religiosa no Oriente Médio.

Para a feminista, essa identidade dependeria de símbolos e sinais, que se refletem nas muçulmanas vestidas tradicionalmente. "Identidade = religião = mulheres veladas", esse é o tríptico sugerido pelos movimentos islamistas aos árabes e que estes assumiram sem nenhuma dificuldade significativa, escreve a historiadora em seu livro: Les Arabes, les femmes, la liberté (Os árabes, as mulheres, a liberdade, em tradução livre).

Há anos, o véu islâmico tem sido um dos sinais que tanto muçulmanos quanto não muçulmanos associam mais fortemente ao islã. Mas sinais são ambíguos. O que o véu poderia significar? Nos últimos tempos, algumas feministas ocidentais querem ver nele um símbolo da emancipação feminina.






Religião perseguida na China? – Por Miriam Diez Bosch



A perseguição religiosa está vinculada a regimes autoritários. A China não mediu palavras. 

Considerou “infundado” um relatório que a descreveu como “país preocupante” quando se trata de liberdade religiosa. O Governo já protestou, argumentando que respeita a religião.

A Comissão Internacional de Liberdade Religiosa dos Estados Unidos afirmou em seu relatório anual que a China é “um país de preocupação especial”, uma classificação que incluiu também o Vietnã, Mianmar e a Coreia do Norte.

“O relatório está cheio de preconceitos políticos e acusações infundadas, algo a que a China opõe-se firmemente”. Assim se expressou o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores, Hua Chunying. A China já apareceu mal em outro texto, o Relatório sobre Liberdade Religiosa de 2014, elaborado anualmente pela organização Ajuda à Igreja que Sofre.

Lá se especificava que a perseguição religiosa está vinculada a regimes autoritários. Quando surgem estas acusações, a China exige de quem as realiza que não “interfira nos assuntos internos sob o pretexto religioso”. Hua assegura que o governo chinês respeita e protege a total liberdade religiosa de seus cidadãos.

Segundo a agência Asinews.it, “a Associação Patriótica e o Ministério de Assuntos Religiosos sequestraram da Igreja bens e dinheiro, que em cumprimento das leis chinesas devem ser devolvido aos seus legítimos proprietários”. Segundo a Fundação Pew, em sua Projeção sobre o Futuro das Religiões, 52,2% dos chineses consideram-se “sem religião”.

Massimo Introvigne, coordenador do Observatório sobre a Liberdade Religiosa na Itália, criado pelo Ministério de Assuntos Exteriores, disse a Aleteia que é preciso ser cauteloso sobre o número de chineses que se consideram “sem religião”.

Ele é co-autor do livro: Cinesi a Torino (Chineses em Turim), e viu que os entrevistados se declaram “sem religião” porque formalmente não estão afiliados a uma Igreja ou templo, porém, “as entrevistas revelaram que eles não são ateus, sendo que têm muitas crenças e práticas religiosas”.

Sobre a liberdade religiosa, as leis chinesas permitem a prática de todas as religiões que não expressam oposição ao Governo e que são “patrióticas”, ou seja, que não reconheçam os líderes designados por autoridades que não residem na China. “Compreendo que para a embaixada chinesa esta é uma autêntica liberdade religiosa, mas não está de acordo com os critérios das convenções internacionais”, declarou.

Como disse o Papa Francisco, “não há liberdade religiosa se é para limitar a Igreja à sacristia e se se proíbe sua expressão, também de maneira crítica, sobre os grandes temas da política e da sociedade”. Quem o faz na China é castigado duramente, como demonstra a repressão do movimento Falun Gong.

“A ideia de que somente as associações patrióticas cujos líderes são nomeados pelo Partido Comunista podem regular com a aprovação da vida religiosa chinesa é uma grave violação da liberdade religiosa”, disse o sociólogo italiano.

Embora, acrescenta, “é certo que, pública e privadamente, hoje se intensificam os contatos entre a Igreja patriótica e a Igreja Católica fiel a Roma”.




Conheça Combo, o street artist francês que prega a paz entre as religiões - Por Taíssa Stivanin


O artista francês Combo expõe até o dia 6 de Março, no Instituto do Mundo Árabe, em Paris, uma série de telas que pregam a coexistência pacífica entre árabes, muçulmanos e cristãos.

Combo chega esbaforido, com duas horas de atraso para entrevista, se desculpando de antemão. “O dia hoje está terrível”, diz, sem entrar em detalhes. Mas bastam cinco minutos de conversa para entender a complexidade do dia-a-dia do street artist francês, de 28 anos. 

Ao mesmo tempo em que ele vive uma fase de reconhecimento pelo seu trabalho de duas décadas, com uma exposição inédita no Instituto do Mundo Árabe em Paris, Combo é alvo constante de ameaças.

Na verdade, os quadros de Combo pregam a coexistência pacífica entre religiões (cristã, muçulmana e judaica), como demonstra o nome da exposição, “Coexist”. Na obra do artista, o C é representado pela lua crescente, o símbolo do Islã, o X pela estrela de Davi, do Judaísmo, e o T virou uma cruz, simbolizando o cristianismo. 

Ousadia demais em tempos de atentados, tensões comunitárias e radicalizações diversas. Os ataques de 13 de novembro, aliás, marcaram como nunca seu trabalho. Ele prepara uma série de quadros com o tema: “Paris está de pé”, depois da explosão no Bataclan.

“Essa exposição me ajuda a difundir minhas mensagens. Neste último ano, fui muito criticado pelas minhas declarações. Sou perseguido por alguns membros da extrema-direita. Recebo muitas ameaças, muitas mensagens de ódio. Quando eu faço pinturas para a prefeitura na rua, sou escoltado pela polícia, porque sempre há tentativas de agressão”, relata.

Agressão em Paris

Os atentados, diz, mudaram sua vida. “Desde então, não parei de trabalhar, não tirei um dia de folga. O tema exige muita pesquisa, porque tenho que achar pontos comuns entre as religiões. É difícil, as pessoas não gostam de falar sobre sua própria religião, preferem ressaltar as diferenças em relação a outra religião”.

No ano passado, em 30 de Janeiro, Combo pagou caro em nome da liberdade de expressão. Ele foi espancado por quatro jovens no leste de Paris depois de se recusar a apagar a inscrição Coexist, feita em um dos muros no bairro. 

O slogan, na verdade, já era utilizado pelo artista polonês Piotr Miodozeniec desde 2001 para abordar o conflito entre Israel e Palestina e foi retomado pelo street artist francês.

"Nunca me senti nada além de francês"

Nascido em 1987 em Amiens, no norte da França, Combo é filho de pai libanês cristão e mãe muçulmana marroquina, os dois, segundo ele, "franceses antes de tudo". O tom às vezes é visto como provocativo por alguns adeptos, mas o que Combo quer, na verdade, é mostrar "que, a diferença sendo aceita, não impede que cada um viva à sua maneira".

"Meu pai falava francês fluentemente; ele aprendeu a escrever em árabe aos 40 anos. Como minha mãe. São crianças da escola francesa, assim como eu. Nunca me senti nada além de francês. Foi quando cresci, através do olhar dos outros, que percebi que era diferente. Na minha casa, sempre fomos educados com o que chamamos hoje de valores republicanos, laicos, termos que, na verdade, não têm nada de original. Foi a mesma educação que muita gente teve, e é isso que tento lembrar no meu trabalho”.

“Dji’Art”

Coexist não é o primeiro trabalho em que Combo aborda a religião. O artista já havia colocado em prática, em 2014, seu “Dji’art”, em alusão ao Jihad islâmico, inspirado por uma residência artística no Líbano em 2014. A produção da época pode ser conferida na Exposição, que também traz obras de seu período ‘neoclassicista’, herança do período em que passou na escola de Belas Artes em Nice, no sul da França.

“Eu me inspirei em quadros bem emblemáticos da pintura francesa, como Delacroix, le Radeau de la Méduse, entre outros. São quadros que estão no Louvre e que todos conhecemos. Tentei atualizar a problemática e mostrar que antes, a guerra, o desemprego, o racismo, também eram coisas contemporâneas, como hoje”, diz.

“Hoje nos referimos a muçulmanos, antes nos referíamos a árabes. Antes não dizíamos árabes, dizíamos imigrantes. Tudo isso é racismo. Essa é minha mensagem: hoje não está pior do que antes. O que tento explicar é que somos todos franceses, e depois somos muçulmanos, judeus ou ateus. E todos somos iguais".

Projetos no Brasil

Combo conhece e aprecia o trabalho de street artistas brasileiros, como Cranio, o Brasil sendo, segundo suas próprias palavras, um poço de inspiração. “Existe uma verdadeira temática, que é falar, por exemplo, dos verdadeiros brasileiros, os indígenas, e da fratura social que hoje existe no país. Eu adoraria conhecer São Paulo, acho que tem muita coisa para fazer por lá. O Brasil tem excelentes artistas”. 




 


Festa do Bonfim é celebrada por adeptos de outras religiões – Por Maíra Azevedo



O ponto máximo da lavagem ocorre na famosa e mística Igreja do Bonfim.

A cerimônia faz parte da tradição católica. A imagem do Cristo Crucificado sai em cortejo da Catedral de Nossa Senhora da Conceição, no Comércio, até a Basílica no alto da Colina Sagrada, na Cidade Baixa. 

Mas, são mulheres e alguns homens, vestidas com as indumentárias e carregando outros símbolos das religiões de matriz africanas, como a quartinha de barro, que se tornaram a representação da Lavagem do Bonfim.

O cortejo, que abre oficialmente o calendário de festas populares da Bahia, reúne fiéis das duas religiões. Tem católico que para pagar a promessa se veste de 'baiana' e participa da lavagem das escadarias, e candomblecista que sai cedo de casa para assistir à missa e manter o compromisso com Oxalá. 

De acordo com o historiador Ordep Serra, o ato de lavar a igreja faz parte dos ritos católicos que pregam a humildade. "Os nobres faziam esses atos como sacrifício, penitência. A princesa Isabel inclusive fez uma promessa de lavar uma igreja aqui no Brasil. Era pensando como um gesto de humildade", explica.

Com a forte influência do candomblé no país, o ato de lavar as igrejas teve uma nova interpretação.  "Esse rito [a lavagem das escadarias da Igreja] foi reinterpretado aqui na Bahia, com base em uma coincidência sincrética. Senhor do Bonfim é o filho de Deus, e foi associado com Oxalá, o filho do Deus supremo para os iorubás. Na cidade de Ifé, na Nigéria,  ele é venerado em uma colina, considerado o umbigo do mundo. E a Igreja do senhor do Bonfim fica em uma colina também", informa.

Respeito às crenças

O cortejo da Lavagem do Bonfim é marcado pela mistura do sagrado com o profano e o convívio de católicos e candomblecistas. E até mesmo adeptos de outras religiões.

Responsável pela Basílica do Senhor do Bomfim, Padre Edson define a festa como um acontecimento na cidade que possibilita encontros. "É um momento de integração, um acontecimento que deixa lição de diálogo religioso", diz. 

Mãe Jaciara Ribeiro, ialorixá do terreiro Abassá de Ogum, cobra respeito às diversas manifestações religiosas. "A subida à colina é para agradecer a Senhor do Bonfim. Nosso culto à Oxalá é feito no terreiro. É importante separar as coisas".

Confira a programação

Terça-feira
19h – Sexta noite do novenário
Quarta
19h – Sétima noite do novenário
Quinta
Tradicional lavagem do adro da Basílica Santuário Sr. Bom Jesus do Bonfim
Sexta
15h – Concentração dos movimentos e serviços eclesiais arquidiocesanos
19h – novenário (8ª noite)
Sábado
17h – Missa com a participação das crianças
19h – Última noite do novenário
Domingo
4h30 – Alvorada e repique de sinos, anunciando o grande dia da festa
5h – Celebração com a participação dos homens que,  sextas e domingos, são maioria nas missas, expressão da devoção masculina ao Sr. do Bonfim
6h – Missa dos devotos e das devotas pelas famílias baianas, que veneram o Senhor do Bonfim como seus antepassados
7h30 – Missa transmitida pela Rádio Excelsior na intenção dos ouvintes e dos internautas
9h – Recitação do Terço da Misericórdia
10h – Missa solene presidida pelo bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador, dom Marco Eugênio Galvão Leite de Almeida
16h – Procissão dos Três Pedidos. Os fiéis sairão da Paróquia N. Sra. dos Mares. Ao chegar à Colina Sagrada, dão três voltas em torno da igreja, fazendo os três pedidos. O encerramento será com a bênção do Santíssimo Sacramento e a queima de fogos de artifício.