quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Conheça Combo, o street artist francês que prega a paz entre as religiões - Por Taíssa Stivanin


O artista francês Combo expõe até o dia 6 de Março, no Instituto do Mundo Árabe, em Paris, uma série de telas que pregam a coexistência pacífica entre árabes, muçulmanos e cristãos.

Combo chega esbaforido, com duas horas de atraso para entrevista, se desculpando de antemão. “O dia hoje está terrível”, diz, sem entrar em detalhes. Mas bastam cinco minutos de conversa para entender a complexidade do dia-a-dia do street artist francês, de 28 anos. 

Ao mesmo tempo em que ele vive uma fase de reconhecimento pelo seu trabalho de duas décadas, com uma exposição inédita no Instituto do Mundo Árabe em Paris, Combo é alvo constante de ameaças.

Na verdade, os quadros de Combo pregam a coexistência pacífica entre religiões (cristã, muçulmana e judaica), como demonstra o nome da exposição, “Coexist”. Na obra do artista, o C é representado pela lua crescente, o símbolo do Islã, o X pela estrela de Davi, do Judaísmo, e o T virou uma cruz, simbolizando o cristianismo. 

Ousadia demais em tempos de atentados, tensões comunitárias e radicalizações diversas. Os ataques de 13 de novembro, aliás, marcaram como nunca seu trabalho. Ele prepara uma série de quadros com o tema: “Paris está de pé”, depois da explosão no Bataclan.

“Essa exposição me ajuda a difundir minhas mensagens. Neste último ano, fui muito criticado pelas minhas declarações. Sou perseguido por alguns membros da extrema-direita. Recebo muitas ameaças, muitas mensagens de ódio. Quando eu faço pinturas para a prefeitura na rua, sou escoltado pela polícia, porque sempre há tentativas de agressão”, relata.

Agressão em Paris

Os atentados, diz, mudaram sua vida. “Desde então, não parei de trabalhar, não tirei um dia de folga. O tema exige muita pesquisa, porque tenho que achar pontos comuns entre as religiões. É difícil, as pessoas não gostam de falar sobre sua própria religião, preferem ressaltar as diferenças em relação a outra religião”.

No ano passado, em 30 de Janeiro, Combo pagou caro em nome da liberdade de expressão. Ele foi espancado por quatro jovens no leste de Paris depois de se recusar a apagar a inscrição Coexist, feita em um dos muros no bairro. 

O slogan, na verdade, já era utilizado pelo artista polonês Piotr Miodozeniec desde 2001 para abordar o conflito entre Israel e Palestina e foi retomado pelo street artist francês.

"Nunca me senti nada além de francês"

Nascido em 1987 em Amiens, no norte da França, Combo é filho de pai libanês cristão e mãe muçulmana marroquina, os dois, segundo ele, "franceses antes de tudo". O tom às vezes é visto como provocativo por alguns adeptos, mas o que Combo quer, na verdade, é mostrar "que, a diferença sendo aceita, não impede que cada um viva à sua maneira".

"Meu pai falava francês fluentemente; ele aprendeu a escrever em árabe aos 40 anos. Como minha mãe. São crianças da escola francesa, assim como eu. Nunca me senti nada além de francês. Foi quando cresci, através do olhar dos outros, que percebi que era diferente. Na minha casa, sempre fomos educados com o que chamamos hoje de valores republicanos, laicos, termos que, na verdade, não têm nada de original. Foi a mesma educação que muita gente teve, e é isso que tento lembrar no meu trabalho”.

“Dji’Art”

Coexist não é o primeiro trabalho em que Combo aborda a religião. O artista já havia colocado em prática, em 2014, seu “Dji’art”, em alusão ao Jihad islâmico, inspirado por uma residência artística no Líbano em 2014. A produção da época pode ser conferida na Exposição, que também traz obras de seu período ‘neoclassicista’, herança do período em que passou na escola de Belas Artes em Nice, no sul da França.

“Eu me inspirei em quadros bem emblemáticos da pintura francesa, como Delacroix, le Radeau de la Méduse, entre outros. São quadros que estão no Louvre e que todos conhecemos. Tentei atualizar a problemática e mostrar que antes, a guerra, o desemprego, o racismo, também eram coisas contemporâneas, como hoje”, diz.

“Hoje nos referimos a muçulmanos, antes nos referíamos a árabes. Antes não dizíamos árabes, dizíamos imigrantes. Tudo isso é racismo. Essa é minha mensagem: hoje não está pior do que antes. O que tento explicar é que somos todos franceses, e depois somos muçulmanos, judeus ou ateus. E todos somos iguais".

Projetos no Brasil

Combo conhece e aprecia o trabalho de street artistas brasileiros, como Cranio, o Brasil sendo, segundo suas próprias palavras, um poço de inspiração. “Existe uma verdadeira temática, que é falar, por exemplo, dos verdadeiros brasileiros, os indígenas, e da fratura social que hoje existe no país. Eu adoraria conhecer São Paulo, acho que tem muita coisa para fazer por lá. O Brasil tem excelentes artistas”. 




 


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