quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A trajetória do pensamento católico no Brasil – Por José Tadeu Arantes


Apesar de persistente declínio numérico, ao longo das últimas décadas, o catolicismo ainda é a religião majoritária no Brasil. 

Segundo dados do Censo de 2010, o último realizado, havia, na população da época, 64,6% de católicos apostólicos romanos; 22,2% de evangélicos (não pentecostais ou pentecostais); 2% de espíritas; 0,7% de testemunhas de Jeová; e 0,3% de umbandistas e candomblecistas, para mencionar apenas os cinco segmentos religiosos com maior expressão quantitativa. No mesmo levantamento, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 8% dos entrevistados declararam-se "sem religião”.

Um projeto temático, com a participação de vários pesquisadores, investiga a trajetória do catolicismo no Brasil desde meados do século XIX e sua influência em vários campos da vida nacional. 

Trata-se do estudo: "Congregações católicas, educação e Estado nacional no Brasil”, coordenado por Agueda Bernardete Bittencourt, professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp – São Paulo), com o apoio da FAPESP.

Um dado interessante destacado pelo estudo é que, embora a colonização europeia do território brasileiro tenha se dado sob a égide do catolicismo, a presença quantitativa de religiosos católicos era muito pequena no país até a última década do século XIX. 

"Em 1880, havia, no Brasil, apenas sete ordens religiosas masculinas e 11 femininas, e todo o clero católico era composto por menos de 3 mil pessoas. A entrada maciça de religiosos católicos provenientes da Europa ocorreu a partir de 1890, com picos importantes nas décadas de 1920, 1950 e 1960”, afirma Agueda à Agência FAPESP.

Os religiosos, homens e mulheres, vieram em congregações, algumas delas previamente estabelecidas no país; a maioria instalando-se com sua chegada. Um dos motivos de sua vinda foi a expulsão dessas congregações dos países europeus, devido ao processo de laicização dos Estados nacionais. 

Outro motivo foi a demanda da elite brasileira e da elite eclesiástica por pessoal qualificado, para estabelecer, aqui, colégios e asilos, oferecer atendimento à saúde, e mesmo atuar em outras áreas especializadas, como a imprensa.

"Essa entrada maciça de religiosos foi também um projeto da Igreja Católica, que tinha interesse em catolicizar as repúblicas da América Latina, não apenas o Brasil, mas, igualmente, a Argentina, o Chile, a Colômbia, o México, o Peru, o Uruguai, a Venezuela etc. Pois, durante o século XIX, por decorrência da Revolução Francesa e do ideário liberal ou positivista, houve forte restrição à atuação católica no continente. Conventos foram fechados em países como a Argentina e o Peru. E chegaram a ocorrer perseguições aos religiosos na Colômbia, no México e na Venezuela”, informa a pesquisadora.

De qualquer modo, o Brasil foi o país que mais recebeu religiosos, pela vastidão do território e porque não tinha uma infraestrutura escolar e de saúde que cobrisse tal espaço. Assim, ao longo de quase um século, foram registrados os seguintes números para a entrada de novas congregações: 13 (1890), 20 (1900), 23 (1910), 41 (1920), 29 (1930), 26 (1940), 51 (1950), 41 (1960), em um universo de 260 congregações mapeadas pela pesquisa até o momento.

"Os religiosos que vieram até a primeira metade do século XX estavam, em sua maioria, comprometidos com o projeto de centralização da Igreja, nos moldes propostos pelo Concílio Vaticano I, realizado na segunda metade do século XIX. Com base no dogma da infalibilidade papal, promulgado em 1870 pelo Papa Pio IX no decorrer desse concílio, a Igreja se arvorou o direito de ‘dizer a verdade’ a partir de Roma”, afirma Agueda.

Religião do Estado

Tal centralização ou romanização teve importante repercussão na Igreja instalada no Brasil. Esta, durante boa parte do século XIX, fora bastante contida pela ação do imperador Pedro II. Influenciado pelo liberalismo e pelo positivismo, e aberto a ideias novas, como a Teoria da Evolução de Darwin, Pedro II manteve o catolicismo como religião do Estado, mas procurou restringir a influência da Igreja, proibindo a abertura de seminários, controlando a seleção dos bispos e coibindo a entrada de novos quadros estrangeiros.

Como depositária da religião oficial, a Igreja Católica estava submetida ao Estado. Por isso, quando os bispos de Olinda [Estado de Pernambuco] e Belém [Pará], influenciados pela ênfase antiliberal do Concílio Vaticano I, desafiaram abertamente o direito civil, ordenando a expulsão dos maçons das irmandades católicas leigas, o caso foi levado ao Superior Tribunal de Justiça, que condenou, em 1874, os dois religiosos a quatro anos de prisão, com trabalhos forçados. 

O imperador comutou a pena para prisão simples, mas só anistiou os bispos depois que o Vaticano anulou as interdições aos maçons. Tal caso ficou conhecido, na historiografia brasileira, como a "Questão Religiosa”. Não por acaso, a entrada das congregações católicas no Brasil só adquiriu importância numérica a partir da década de 1890, após a proclamação da República.

"Fragilizada na Europa, e buscando legitimar uma política centralizada em Roma, a Igreja elegera a América Latina, colonizada por dois países católicos, Espanha e Portugal, como um espaço de forte investimento. Já em 1858 fora fundado o Colégio Pio Latino-Americano de Roma, criado para formar quadros para os países de língua latina alinhados com os cânones romanos. No entanto, o ponto alto da investida constitui-se na convocação de todos os arcebispos e bispos do continente pelo Papa Leão XIII para o Concílio Plenário da América Latina, celebrado na sede do papado, no apagar das luzes do século XIX. Desse conclave, que reuniu 53 prelados, dos quais 11 brasileiros, emanaram as diretrizes para a ação da Igreja no século seguinte”, escreve a pesquisadora.

Romanização e conservadorismo

A entrada das congregações católicas trouxe ao Brasil religiosos qualificados, provenientes, principalmente, da França e da Itália, que passaram a atuar em escolas, hospitais e na imprensa. 

Na primeira etapa, que se estendeu da década de 1890 até a década de 1950, a Igreja, comprometida com o processo de romanização e o ideário conservador, empregou esses novos recursos humanos principalmente em sua própria estruturação. Assim, o número de dioceses, inferior a duas dezenas, por ocasião da Proclamação da República, cresceu até chegar às 272 dioceses atuais.

"A preocupação de não mais se limitar a combater escritores laicos, ateus ou agnósticos, e sim produzir uma imprensa própria, constituída por livros, revistas e jornais, com a mesma qualidade intelectual e gráfica dos produzidos pelas empresas laicas, levou a Igreja a incentivar a manifestação de escritores católicos. E este movimento, no Brasil, foi capitaneado pelo grupo do Rio de Janeiro, que fundou, em 1921, a revista "A Ordem”, e, no ano seguinte, o Centro Dom Vital. Depois da morte acidental de Jackson de Figueiredo (1891 – 1928), criador dos dois projetos, o mais importante protagonismo intelectual desse grupo foi exercido por Alceu Amoroso Lima”, relata Agueda.

A trajetória pessoal de Alceu Amoroso Lima (1893–1983) é exemplar da trajetória coletiva do catolicismo brasileiro, no século XX. Por isso, convém descrevê-la com maior detalhe. Filho de industrial e neto de aristocrata, formou-se em Direito, no Rio de Janeiro, e deu continuidade aos estudos na França, onde frequentou o curso ministrado pelo filósofo Henri Bergson (1859–1941), na Sorbonne. 

De volta ao Brasil, trabalhou como advogado, antes de assumir a direção jurídica de uma fábrica da família. Ao iniciar sua atuação na imprensa, como crítico literário, em 1919, adotou o pseudônimo de Tristão de Athayde, para não confundir a atividade jornalística com a atividade empresarial.

Liberal em política e agnóstico em Filosofia, Alceu converteu-se ao catolicismo, em 1928, depois de uma intensa troca de ideias com Jackson de Figueiredo. Sua conversão teve grande repercussão, tanto na esfera familiar quanto na esfera pública. 

No âmbito familiar, a principal consequência viria a ser, duas décadas mais tarde, o ingresso de sua filha Lia no monastério e na clausura. Nascida em 1929, em Petrópolis, no Rio de Janeiro, Lia, com o nome religioso de madre Maria Teresa, tornou-se, aos 22 anos, monja enclausurada, no mosteiro beneditino de Santa Maria, em São Paulo. No âmbito público, a intensa produção literária, jornalística e epistolar de Lima constituiu-se no principal baluarte do pensamento católico no país.

No decurso de uma vida longa, ele redigiu quase uma centena de livros, um número incontável de artigos, publicados em periódicos, como O Jornal, Diário de Notícias, Tribuna da Imprensa, Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo, e manteve correspondência com alguns dos mais importantes intelectuais brasileiros. Para a filha enclausurada, escreveu quase diariamente, durante 30 anos, mantendo-a informada do que se passava no país.

"Até o fim dos anos 1940, Alceu caracterizou-se por posições bastante conservadoras e chegou a simpatizar com a Ação Integralista Brasileira, embora não tenha participado dessa organização, de inspiração fascista. Nesse período, engajou-se em causas como a indissolubilidade do casamento, a pluralidade sindical e o ensino religioso nas escolas públicas. Ao modelo de educação laica, pública e obrigatória, defendido por Anísio Teixeira, contrapôs a proposição de uma educação livre, de escolha da família. E, em oposição à Universidade do Distrito Federal (UDF), criada por Anísio Teixeira, empenhou-se na fundação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), a primeira das PUCs, cujo modelo inspiraria as demais, inclusive, a de São Paulo”, conta a pesquisadora.

O grupo do Rio de Janeiro era liderado pelo cardeal Sebastião Leme (1882–1942) e, além de Lima, reunia vários intelectuais influentes, como o padre Leonel Franca, o escritor Gustavo Corção, o jurista Sobral Pinto, entre outros. E incorporou, mais tarde, o então padre e futuro cardeal Hélder Câmara (1909–1999).

Catolicismo progressista

Uma forte inflexão, da direita para o centro e do centro para a esquerda, operou-se no meio intelectual católico brasileiro a partir da Segunda Guerra Mundial. 

"Durante a guerra e especialmente no pós-guerra, ocorreu na Europa uma transformação profunda no pensamento e na prática dos religiosos. Foi um direcionamento para o trabalho no mundo, em prol da superação das desigualdades e da promoção da justiça social. Como reflexo disso, Alceu Amoroso Lima viveu uma espécie de segunda conversão, durante os anos 1950, mudando de campo. De simpatizante do integralismo, tornou-se interlocutor do chamado catolicismo progressista. Foi um dos protagonistas do processo de renovação, promovido pelo Concílio Vaticano II (1961 – 1965). E, após o golpe de Estado que depôs o presidente João Goulart, em 1964, colocou-se, abertamente, no campo da oposição à ditadura civil-militar”, informa Agueda.

Ainda nos anos 1950, outra forte influência na renovação do catolicismo no país foi a do padre francês Louis-Joseph Lebret (1897–1966), criador do movimento: "Economia e Humanismo”, como uma espécie de terceira via diante da dicotomia "Capitalismo versus Socialismo”

Lebret, que viria a ter, mais tarde, atuação decisiva no Concílio Vaticano II, participando da redação da constituição: Gaudium et Spes ("Alegria e Esperança”) e da encíclica Populorum Progressio ("Do Progresso dos Povos”), proclamadas pelo papa Paulo VI (1897 –1978), visitou, várias vezes, o Brasil, orientou pesquisas sobre as condições de vida nos bairros pobres de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte [Minas Gerais] e Recife [Pernambuco] e formou jovens ativistas, como Plínio de Arruda Sampaio, Francisco Whitaker e outros, que compuseram uma espécie de ala esquerda do Partido Democrata Cristão.

"As atuações de Alceu e de Lebret visavam, cada qual a seu modo, à formação de uma elite intelectual progressista. A de Alceu priorizava o debate no campo literário e jornalístico. A de Lebret uma capacitação técnica, capaz de formar quadros altamente qualificados para assessorarem os governos. Um ponto central enfatizado pelos dois protagonistas e seus seguidores foi o da produção bibliográfica. Isto levou à criação da Editora Agir, no Rio de Janeiro, e da Editora Duas Cidades, em São Paulo. Pensadores fundamentais na renovação do catolicismo, como Emmanuel Mounier, Jacques Maritain e Teilhard de Chardin, foram lidos e discutidos no período”, lembra a pesquisadora.

Segundo ela, houve ainda um terceiro influxo, este dialogando diretamente com os segmentos populares. Foi o dos "padres operários”, que surgiram, na Europa dos anos 1940, e chegaram ao Brasil nos anos 1950, principalmente por meio da ordem dominicana. 

Mas não se deve pensar que essa inflexão obteve unanimidade no corpo da Igreja Católica e em sua área de influência. Ao contrário, estas experimentaram uma forte polarização entre direita e esquerda, nas décadas de 1940, 1950 e 1960. 

"Após a primeira visita do padre Lebret ao Brasil, em 1947, ele ficou cinco anos sem poder voltar, devido a gestões, junto ao Vaticano, dos arcebispos conservadores do Rio de Janeiro e de São Paulo, Dom Jaime de Barros Câmara e Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, respectivamente. E Gustavo Corção, que fora introduzido no catolicismo por Alceu Amoroso Lima, tornou-se, depois, seu maior opositor, como um dos principais ideólogos do conservadorismo católico”, sublinha Agueda.

"A transição que se operou desde o final do século XIX até o Concílio Vaticano II foi a formulação de um humanismo cristão, que trouxe a profissionalização e também a politização dos quadros da Igreja, possibilitando uma produção e apropriação do conhecimento científico. Principalmente, os jesuítas e os dominicanos, mas não apenas eles, protagonizaram esse movimento. A opção pelo trabalho social levou esses religiosos a procurarem entender as condições de geração da miséria na sociedade contemporânea. E isto os aproximou dos pensamentos marxista e anarquista. Tal análise foi demandada pelos próprios trabalhos de base, em movimentos como o dos padres operários, de formação de comunidades de base, de educação popular, de atuação no meio rural etc. E tudo isso acabaria levando, depois, à formulação da Teologia da Libertação”, conclui a pesquisadora.






Documentário de Marina Abramović sobre o Brasil ganha data de estreia


A boa safra de filmes brasileiros no circuito internacional de festivais ganha mais um forte representante:

 “Espaço Além – Marina Abramović e o Brasil”.

Dirigido por Marco Del Fiol, o documentário terá première mundial no South By Southwest 2016, festival que reúne cinema, música e tecnologia em Austin, no Texas entre os dias 11 e 20 de Março.


“Espaço Além – Marina Abramović e o Brasil” traz a artista sérvia em uma jornada por terras brasileiras em busca do que ela chama de “pessoas e locais de poder” e das conexões entre arte e espiritualidade.

Em foco, uma extensa pesquisa sobre rituais sagrados e comunidades espirituais em meio à natureza exuberante do país.

 A equipe de filmagem percorreu mais de seis mil quilômetros em solo nacional acompanhada de Abramović e visitou João de Deus, em Abadiânia, as cerimônias de incorporações no Vale do Amanhecer, no Distrito Federal, o sincretismo religioso de Salvador, os rituais de ayahuasca na Chapada Diamantina e os processos xamânicos em Curitiba. O resultado? Quem viver verá.



Autor defende expulsão de Deus da sociedade para frear o Islã - Por Stefano Feltri



Ninguém leva a religião mais a sério do que um ateu militante.

 E o novo livro de Paolo Flores d'Arcais, filósofo, diretor da revista MicroMega, tenta suscitar qualquer reação, exceto a indiferença: La guerra del sacro ["A guerra do sagrado" (Ed. Raffaele Cortina) é uma resposta intelectual ao massacre do Charlie Hebdo, há um ano, e uma arma a ser empunhada no debate que se seguiu ao massacre de Novembro, também em Paris.


Enquanto os intelectuais franceses, de Eric Zemmour a Alain Finkielkraut, se limitam a fornecer uma aparência de legitimidade aos medos e ao racismo que impulsiona o Front National, Flores quer oferecer uma resposta drástica aos desafios postos pelo jihadismo dos massacres: a quem mata em nome de Deus, responde-se "ostracizando Deus da esfera pública". Com uma laicidade radical que não tolera símbolos religiosos expostos, escolas confessionais, objecções de consciência ao aborto.

Nenhuma sensibilidade individual pode limitar a laicidade radical: só quando se chegar a "banalizar a blasfêmia" é que poderemos dizer que a liberdade de expressão está a salvo (para além das vidas daqueles que a praticam).

Flores propõe até controles ginecológicos nas meninas que partem e retornam da África, além de monitoramentos nas escolas, para evitar as mutilações rituais.

Na batalha nunca vencida por completo dos seres humanos de decidirem por si sós o seu próprio destino, todo chamado a qualquer forma de autoridade externa é uma intolerável renúncia à liberdade, significa ceder espaço para a "revanche do sagrado" que ameaça o Ocidente confuso, piegas nas convicções e pávido na sua tradução concreta: "Se Deus é superior à soberania do desencanto, tudo é permitido em nome de Deus".

Contestar o recurso à religião como fonte de legitimidade, porém, tende a desligar para a negação de toda legitimidade à religião. Flores defende que o que importa é a separação entre Deus e espaço público, "como necessária aniquilação preventiva da possibilidade de que a religião se torne identidade política".

No entanto, ele se lança com força análoga contra o véu (manifestação exterior de uma identidade religiosa também, bastante compatível com um Estado laico), assim contra a burca (é difícil negar que ela indica uma submissão das mulheres em conflito com os direitos constitucionais).

O diretor da MicroMega parece se mover a partir do pressuposto de que só para os muçulmanos é impossível conter a religião no "foro interno": embora possa haver católicos "adultos", na acepção dada por Romano Prodi, os fiéis do Islã são apresentados como baluartes da teocracia, todos.

Vale a pena lembrar, porém, que, no romance de Michel Houellebecq Submissão, a ascensão do partido islâmico que chega a conquistar o Eliseu começa com a incapacidade dos socialistas e dos conservadores de inserir os franceses muçulmanos na dinâmica normal.

A guerra de civilização existe, diz Flores, mas não entre Ocidente e Islã, mas entre sagrado e desencanto, autonomia e heteronomia. Uma pesquisa do instituto norte-americano Gallup em 130 países (citado por Manlio Graziano no livro:Guerra santa alleanza, Ed. Il Mulino) descobriu que quanto menos os muçulmanos e os ocidentais se conhecem, mais estão convencidos de que, entre eles, há uma hostilidade irremediável.

Por isso, os autores do estudo falam "mais de um choque de ignorâncias do que de civilização". Flores certamente não é ignorante, mas escolhe do Islã uma representação seletiva, a mais congênita para demonstrar a sua tese de um avanço do sagrado que ameaça o Ocidente.

Os dois únicos autores árabes que ele cita são Sayyid Qutb, ideólogo da Irmandade Muçulmana, e Tariq Ramadan, filósofo contestado, neto do fundador da Irmandade Muçulmana.

Não há espaço para uma análise do equilíbrio entre religião e Estado nos países muçulmanos mais democráticos e menos dogmáticos (a Tunísia é um caso interessante, mas a Turquia também demonstrou e demonstra ainda uma notável separação entre Islã privado e laicidade oficial).

Durante grande parte do livro, Flores mantém o registro da batalha das ideias que precede e produz a violência terrorista, exceto, depois, quando se apoia em anedotas (a crônica as oferece, indubitavelmente) para justificar a impossível convivência entre Islã e democracia liberal.

Tendo a laicidade como objetivo e critério de juízo único, Flores evita toda explicação sociológica e geopolítica da violência: o problema é a religião, não o petróleo, a gestão da crise síria, a bomba atômica do Irã etc. Toda tentativa de compreender as motivações do terrorista se tornaria justificação.

Sem laicidade pública, é a resposta de Flores, todo o resto pouco importa, porque toda concessão ao sagrado é o início da derrota do Ocidente. Pode-se contestar tanta clareza, mas, ao menos, é uma tese que se pode discutir e também refutar, ao contrário das periclitantes jaculatórias de Oriana Fallaci e dos seus discípulos que intoxicaram o debate nesses anos.






Fiéis prestam homenagens a Iemanjá no centro do Rio de Janeiro



Fiéis de religiões de matriz africana lotaram na manhã do dia 02/02 a Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro, para comemorar o Dia de Iemanjá

A homenagem seguiu em caminhada pelo centro da cidade até a Praça XV, onde os religiosos levarão, em uma barca reservada para navegar na Baía de Guanabara, oferendas à orixá, divindade da água doce e salgada.

Sob sol forte, a festa tem cantos e tambores celebrando a religiosidade e grande parte dos fiéis vestem branco, levam flores e usam colares. A professora de matemática Rita de Cássia Tavares, de 66 anos, dançava e erguia as mãos emocionada com a homenagem. Ao conversar com a reportagem da Agência Brasil, seus olhos marejaram ao contar a importância de Iemanjá.

"Iemanjá é família. É a mãe de todos. Como a família é importante para todos, vim pela minha família. A gente tem que agradecer".

Para homenagear sua orixá, a professora deixará rosas e anéis na Baía de Guanabara. "Os anéis, pra mim, representam tudo aquilo que ficou no passado e você entrega para ter uma vida nova, e porque Iemanjá é muito vaidosa".

O enfermeiro Luciano Lucena, de 47 anos, também não foi agradecer de mãos vazias. Levou perfumes para Iemanjá, orixá a quem recorre diariamente em seu trabalho. "Eu cuido da vida das pessoas e sempre peço ajuda a Deus e a Iemanjá. É algo que não veio da minha família, mas do meu coração".

Renovação

Membro da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, o babalawo do candomblé Ivanir dos Santos comemora a proximidade da festa com o carnaval, e a exposição das religiões de matriz africana na maior festa do país.

 "Uma boa parte das escolas de samba vai falar sobre essa manifestação religiosa. Então, em um dos maiores momentos do turismo brasileiro, o que marca a cultura e a identidade desse povo é a essa religião".

Ivanir também festeja o fato de jovens estarem aderindo à festa e destaca que as religiões de matriz africana se renovam e resistem à perseguição religiosa. "Quanto mais se persegue. Mais ela se renova. É uma religião que não exclui, que não pergunta de onde você veio".

A estudante de letras, Theisy Nascimento, de 22 anos, é nova na umbanda. Ela está na religião há apenas um ano e conta que se aproximou por um sentimento de identificação com sua ancestralidade.

 "Foi o despertar de uma consciência, de uma ancestralidade. Não sei como explicar isso, se é algo que você escolhe ou se você é escolhido", conta ela, que foi criada em uma família cristã. "Minha família veio da Bahia e tinha essa raiz de matriz africana, mas se converteu ao cristianismo. E eu estou resgatando isso".