quinta-feira, 12 de maio de 2016

‘Respeito mútuo entre diferentes religiões e culturas é alicerce para um mundo em paz’



Estados-membros e dirigentes da ONU debateram papel das religiões na busca pela paz. 

Líderes religiosos devem lutar contra distorções das crenças que alimentam terrorismo e extremismo violento.

A harmonia entre diferentes credos e culturas é um “desafio enorme” e talvez seja mais importante atualmente do que em qualquer momento no passado recente, alertou o presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, Mogens Lykketoft, na semana passada (06/05), durante evento que debateu o papel das religiões na busca pela paz.

Em encontro com Estados-membros e outros representantes da ONU, o dirigente destacou que o entendimento e a tolerância são pré-requisitos para que a humanidade alcance objetivos almejados tanto pelas pessoas, quanto pelas Nações Unidas.

Lykketoft chamou atenção ainda para os ataques terroristas que ocorrem em todo o mundo. Segundo o presidente do plenário da ONU, o extremismo violento é motivo de grave preocupação e deixa clara a necessidade de a comunidade internacional se unir em resposta a tais ameaças.

Também presente no evento, o representante da Aliança de Civilizações da ONU (UNAOC), Nassir Abdulaziz Al-Nasser, enfatizou que “o respeito mútuo entre diferentes religiões e culturas é o alicerce para um mundo em paz e entendimento e aceitação são os fundamentos do desenvolvimento sustentável em longo prazo”.

“Prosperidade e bem-estar requerem que as pessoas coexistam em respeito pleno à sua diversidade”, explicou.

Al-Nasser ressaltou que a UNAOC tem desenvolvido uma série de projetos de conscientização voltados principalmente para a juventude, principal alvo do extremismo. No final de abril, o 7º Fórum Global da organização reuniu 150 jovens representantes de diferentes partes do mundo no Azerbaijão, o país enfrenta conflitos internos motivados por questões étnicas e religiosas.

A ONU conta com diversas iniciativas e programas para combater o terrorismo. Entre eles, está o Plano de Ação do secretário-geral para Prevenir o Extremismo Violento, documento que reconhece que medidas contra o terror baseadas apenas em questões de segurança não são suficientes para erradicá-lo. A avaliação identifica que a distorção e o mau uso de crenças são alguns dos motores da violência.

“O engajamento de líderes religiosos é essencial para neutralizar as mensagens dos líderes de grupos terroristas que distorcem o núcleo das crenças religiosas para propósitos em benefício próprio”, disse Al-Nasser.

O representante da UNAOC fez um apelo às lideranças religiosas para reafirmar sua rejeição de doutrinas violentas e reforçar os valores pacíficos e tolerantes inerentes às suas teologias. 

Al-Nasser ainda condenou a destruição de locais culturais antigos, “testemunhos da história e símbolos do pluralismo”, por extremistas.






O Islão à lupa: Um instantâneo – Por José Manuel Cruz


Mais do que os atentados na Europa e um pouco onde cai a jeito, mais do que as conquistas presumivelmente efémeras da DAESH na Síria e Iraque, acompanhadas do retumbante cortejo de reclamações relativas à restauração do Grande Califado, mais do que todas as células de fiéis e pequenos exércitos de fidelidade jurada na orla sul da bacia mediterrânica e na faixa subsariana, de lés-a-lés, do Atlântico ao Indico, enfim, mais do que tudo isso, assistimos nós ou não a uma guerra larvar de culturas, até de civilizações, entre o que o Ocidente preconiza e aceita, e o que um Islão expansionista persegue?

Uns dirão que sim, outros que não. Uns verão actos isolados, que a seu tempo se extinguirão; outros verão um crescendo de ambição e ousadia, um enraizamento, uma conquista progressiva de espaço vital. Sei que abordo uma questão um pouco distante das preocupações diárias dos portugueses, e que assim me votem uma atenção superficial. 

Compreendo que o façam, ou não fosse este assunto um que eu próprio tivesse descoberto recentemente, por efeito da minha estadia em França. 

Encontro, no entanto, matéria sobeja de reflexão para todos nós, independentemente das desditas de refugiados que tanto Costa como Marcelo se afadigam por seduzir com algarves pouco apetecíveis.

Tenho escrito sobre este assunto com base em impressões pessoais, hoje poderei fazê-lo a partir de um estudo sociológico, efectuado na região de Marselha no segundo trimestre de 2015. Inquiriram-se adolescentes sobre questões relativas à prática religiosa e à relevância que a religião assumia nas suas vidas, sobre questões sociais e culturais, sobre os códigos sexuais, aqui incluídos o papel da mulher e as disposições homossexuais. 

O inquérito foi conduzido sob os auspícios do Centre National de Recherches Scientifiques, e do SciencesPo de Grenoble, pelo que nada de pirata teria, ou de intrinsecamente tendencioso; 9000 indivíduos foram assim sondados.

Pouco mais do que 5% dos abrangidos no estudo assinalaram uma pertença a religiões minoritárias, incluindo a judaica e diferentes credos cristãos. Rasou os 39% os que disseram não praticar nenhuma religião, repartindo-se o resto da amostra por católicos e muçulmanos, quase ela por ela, 30% para católicos, 25% para muçulmanos.

Admito que se o estudo tivesse sido realizado na Bretanha a distribuição seria distinta, em todo o caso mal vai o cristianismo gaulês se tão claramente perde terreno face à indiferença religiosa, e se tão chegado aos calcanhares vê os islões. 

Pouca novidade quanto ao estatuto preferencial da mulher como mãe e fada do lar; pouca novidade na estigmatização da homossexualidade. Interessam-nos outras questões.

A formulação até era um pouco mais simples, mas o sentido da pergunta é o que deste modo se expõe: “Que farias tu se te confrontasses com uma situação em que uma Lei Civil determinasse algo de contrário aos teus princípios religiosos?” 

Ora, dá-se o caso que 33,3% dos católicos responderam que seguiriam por uma linha congruente com a Fé, taxa que é insignificante, logo que confrontada com os expressivos 68% dos seguidores de Maomé, indivíduos para quem os normativos religiosos sobrelevam do que qualquer Lei da República preceitue.

Noutra questão se inquiria se os livros ou os filmes que afrontam as religiões deveriam ser interditos ou autorizados. Aqui, 53% dos adoradores de Alá responderam que tais artefactos deveriam ser destituídos de existência, contra 32% dos católicos que afinaram pela mesma bitola.

Quase na totalidade, índices na casa dos 80%, 90%, se declararam os muçulmanos orgulhosos e activamente participantes da sua fé, intrinsecamente ligados, contra taxas na ordem dos 30% a 50% para os católicos.

Retenho, de tudo, que uma maioria confortável dos inquiridos confere mais crédito ao que a Fé preceitua, do que às regras civis que regem a vida em comum.

Formatados pelo pensamento “politicamente correcto” podemos dizer que o estudo evidencia opiniões, algo de distinto de comportamentos concretizados. Mas é uma ilusão. Não farei, de crentes piedosos, potenciais terroristas, mas a sociedade em que vivemos, a sociedade que baniu a religião de todos os pedestais, não é a que cala fundo nos corações que oram voltados para Meca. 

Enganamo-nos, quando olhamos para o Islão como uma simples religião, pois, bem mais do que isso, ele é uma mundividência e uma ordem político-social. E é por isso que, os muçulmanos ditos moderados, os bons, acabam por conviver sem grandes sobressaltos com os muçulmanos maus. 

Afligem-se, os bons, quando os maus confecionam explosivos ou soltam rajadas de kalashnikov, mas é inquietude que rápido cessa.