terça-feira, 29 de março de 2016

Unesco declara escritos de Lutero Patrimônio Mundial


Entre os documentos está cartaz contendo 95 teses que introduziram a Reforma Protestante, em 1517.

Lista de patrimônios inclui itens únicos, autênticos, de relevância internacional e insubstituíveis. A comissão alemã da Unesco incluiu na quinta-feira (17/03) 14 escritos de Martinho Lutero na lista de Patrimônios Mundiais.

Trata-se de cartas e impressões originais, entre elas um exemplar da edição da Bíblia de Lutero em hebraico e um cartaz contendo as 95 teses que serviram de introdução à Reforma Protestante, em 1517.

Os escritos de Lutero influenciaram o desenvolvimento da sociedade durante séculos, ressaltou a ministra alemã da Educação e Pesquisa, Johanna Wanka. Ela afirmou que o título da Unesco tem ainda mais peso às vésperas do aniversário de 500 anos da Reforma Protestante, a ser comemorado no ano que vem.

Numa cerimônia no museu Lutherhaus, na cidade de Wittenberg, Christoph Wulff, vice-presidente da comissão alemã da Unesco, entregou os certificados de Patrimônio Mundial aos diretores das 11 instituições nas quais os originais dos documentos são preservados.

Segundo o Instituto Leibniz de História Europeia, que elaborou o dossiê para a nomeação dos escritos, estes mostram como um impulso religioso conseguiu desencadear um profundo processo de transformação. Tal movimento teria mudado a religião, a política, a sociedade e a cultura, através de uma nova forma de divulgação midiática, a impressão.

Para documentos serem incluídos na lista de Patrimônios Mundiais, eles precisam ser considerados autênticos, de relevância internacional, únicos e insubstituíveis. Katja Römer, porta-voz da comissão alemã da Unesco, qualifica a lista da Unesco como memória digital da humanidade, a qual inclui desde partituras de compositores famosos aos diários de Anne Frank.






segunda-feira, 28 de março de 2016

Católicos, ortodoxos, evangélicos e judeus: a Páscoa em versão jovem – Por Catarina Martins


Um católico praticante, três cristãs ortodoxas não praticantes, uma evangélica a perder a fé em Deus e um judeu a descobri-la partilham os rituais de celebração da Páscoa. São jovens entre a religião e a festa de família.

A Páscoa da família Alvim parece saída de outros tempos. Todos os anos mais de 100 pessoas reúnem-se para um fim-de-semana de celebração. A fotografia de família é tirada na grande escadaria da Quinta de Seiça, o único local com espaço suficiente para permitir que as sucessivas gerações Alvim, compostas por famílias numerosas, caibam no retrato. Há muitas crianças e jovens e todos estão impecavelmente vestidos e sorridentes.

A Páscoa dos Alvim é uma grande festa familiar em torno de uma festa religiosa, não apenas um almoço por tradição e de costumes esquecidos com o passar das décadas. 

Joaquim Alvim, 15 anos, é o mais novo de oito irmãos e explica a importância desta celebração: “A Páscoa é aquele momento do ano em que todos os Alvim se juntam. No Natal geralmente só se encontram os primos direitos, mas na Páscoa unimos a família toda. Estamos todos juntos na quinta e nunca esquecemos a ressurreição de Jesus Cristo”.

Este ano, a mãe e os irmãos de Joaquim celebram a quinta-feira e sexta-feira santa em Lisboa, só partindo para Ourém no domingo. Uma das irmãs está prestes a ter o segundo filho, que pode nascer a qualquer momento. Os Alvim estão convencidos que nascerá este domingo de Páscoa.

No caminho para Ourém é provável que parem em Fátima, “aproveitando para rezar”, diz Joaquim. Além da missa e do almoço, os Alvim desdobram-se em actuações musicais e cânticos, religiosos ou outros, e na corrida pela busca dos ovos de Páscoa escondidos pelos mais velhos entre os arbustos. Será o desfecho de uma celebração mais alargada que começou no dia 10 de Fevereiro, data do início da Quaresma segundo a Igreja Católica.

Se para muitas famílias de origem católica em Portugal esse dia pode até ter passado despercebido, para Joaquim, o período que então se iniciou é da maior importância e exige sacrifícios especiais. “Nas sextas-feiras da Quaresma não comemos carne. Durante todo o tempo, fazemos sacrifício daquilo que mais queremos”, diz o jovem.

O jejum e a abstinência observados pela família Alvim traduzem-se em quê? “Não se trata só da comida, mas também de ajudar mais em casa, de tentar rezar o terço todos os dias”, continua. E como resiste um jovem a um mundano século XXI, quando entre muitos dos seus amigos essas práticas já desapareceram? “O melhor para fazer o jejum é pensar em Jesus. Ele esteve 40 dias sem comer nada”. E é assim que, por vezes, Joaquim lá consegue evitar comer um chocolate.

Os últimos Censos, de 2011, indicavam que o número de pessoas que se identificava como católicas pouco baixou numa década (de 7,35 milhões em 2001 para 7,28 milhões dez anos depois). 

Em contrapartida, subiu o grupo de quem dizia não ter religião ou de quem tinha outra que não a católica. Portugal contava, no ano do Censos, com 615 mil pessoas que se assumiam sem religião (o dobro de uma década antes) e 348 mil que se afirmaram crentes de outra religião que não a católica (mais 80%).  

Luana Pereira, 19 anos, promete que vai contornar a proibição da mãe e terá comido carne pela primeira vez na chamada “sexta-feira santa”. “Acho que desta vez vou comer. Não acredito em Deus”, diz a brasileira que está em Portugal há nove anos. A mãe de Luana é cristã evangélica e frequentadora assídua da Igreja Deus e Amor. Luana já foi crente, mas afastou-se da fé. Para desgosto da mãe. “A minha mãe chateia-se muito e diz: ‘Você tem de acreditar, vamos na Igreja’”.

A jovem de 19 anos entrou uma vez na igreja a que a mãe vai, mas diz não querer repetir a experiência. “Fiquei assustada. Era uma gritaria de todo o tamanho, estava todo o mundo rezando”, diz, sem paciência. A atitude de Luana não traduz apenas uma fase rebelde ou intolerância face aos rituais religiosos. Fala de uma transformação mais profunda. “Quando eu era pequena, acreditava muito em Deus. Agora vejo o que está a acontecer no mundo. Se existisse mesmo um Deus, ele não deixaria isto acontecer. Acredito que existe qualquer coisa, mas não gosto de dogmas. Os padres estão programados para dizer sempre a mesma coisa”, desabafa.

Logo de seguida, outro desabafo: “A minha mãe não gosta nada que eu diga isso.” A amiga Natia Machaidze, georgiana de 19 anos, aproveita a deixa para confessar: “Quando digo isso à minha mãe, ela também não gosta”. 

Natia Machaidze é natural de Tbilissi, na Geórgia. Veio para Portugal há cinco anos. Frequenta o 11º ano no Liceu Passos Manuel, onde é colega de turma de Luana. A Páscoa ortodoxa é uma celebração de extrema importância para os crentes desta Igreja, talvez mais ainda do que o Natal. Na Geórgia, o fim-de-semana de Páscoa (que não é celebrado obrigatoriamente na mesma altura que a Páscoa católica devido à diferença de calendários) era sempre celebrado com uma grande festa em família, fartos almoços acompanhados por idas à igreja. Em Lisboa, a família é composta pela Natia, os pais e dois irmãos mais novos e as idas à igreja são cada vez menos frequentes. 

“Fomos uma vez à igreja russa, mas não costumamos ir à missa. A minha mãe diz que acredita em deus, mas não precisa de ir à igreja para o demonstrar”, diz. Ainda assim, quando a Páscoa ortodoxa se estiver a aproximar, este ano, calha a 1 de Maio, a família Machaidze vai enfeitar a casa com ovos de um tom vermelho-acastanhado, tingidos no corante natural libertado pela cozedura das cascas de cebola e das raízes de grana e com velas de mel, adquiridas na Geórgia nas viagens de férias. A única iguaria típica da Páscoa preparada na casa dos Machaidze é o pashka, um bolo de frutos secos que os eslavos comem tradicionalmente nas celebrações pascais.

Natia tem dificuldade em enumerar outros hábitos georgianos neste período e chega a procurar no Google. Depois lembra-se que a mãe assiste sempre, pela Internet, à celebração do Ritual do Fogo na Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém

Natia, que parece não ter a certeza de acreditar em deus, lá acaba por dizer que o que acontece nessa igreja é “um milagre”, referindo-se ao acender supostamente espontâneo de milhares de velas pelos fiéis ortodoxos. Mas para Natia o mais importante neste período é o almoço com a família e, principalmente, a possibilidade de comer pratos georgianos de todos os dias como num banquete. “Xachapuri [massa com queijo no forno], bobinai [feijão com especiarias]. Aiiii!”, diz Natia, antecipando já a satisfação.

A amiga Luana, para quem a Páscoa também se resume ao almoço de domingo com a família, onde se juntam tias, tios, primos e se come peixe, carne, arroz, feijão, mais carne, junta-se-lhe no elogio algo nostálgico à comida georgiana. “É tudo muito bom”, diz. E a conversa sobre a celebração da Páscoa fica por aí. 

No restaurante de comida russa Stanislav, no centro de Lisboa, a conversa sobre a Páscoa também gira em torno da importância dos almoços de família. No início de Maio, o restaurante estará também decorado com os ovos tingidos e haverá fatias de pashka para distribuir pelos clientes. 

Milene e Nicole Pskhatsieva, duas meninas de 13 e 7 anos, amigas de Stanislav, o dono do restaurante, contam como decoram os ovos com autocolantes ilustrados com motivos religiosos ou figuras de desenhos animados e como se divertem a chocar os ovos uns contra os outros, perdendo a criança que tiver o azar de ver o seu ovo estalar primeiro.

As meninas já nasceram em Portugal, mas são filhas de pais uzbeques, que chegaram à zona de Lisboa há cerca de quinze anos e abriram lojas com mercadorias eslavas, onde imigrantes da Geórgia, Ucrânia, Moldávia, Rússia e de outros países da ex-União Soviética, compram produtos típicos para o dia-a-dia, mas também para a celebração de festividades. 

Para a Páscoa, a lista de compras terá de incluir o rábano, a beterraba, os enchidos, a couve ácida, o arenque fumado, o vinho doce, bombons e, para quem não quiser dar-se ao trabalho, o pashka já confeccionado. 

Yana, a mãe das crianças, cresceu num país que, além de ser maioritariamente muçulmano, pertencia também à União Soviética, o que significou que as práticas religiosas nunca tiveram grande importância na sua vida. Milene, de 13 anos, intervém e diz: “Mas para acreditar em deus não é preciso ir à igreja”.

Contrariamente ao que aconteceu à família de Natia, os Pskhatsieva começaram a frequentar mais a igreja desde que estão em Portugal, influência dos amigos ucranianos e moldavos, mais tradicionais e ligados à religião, explica Yana. É provável que no dia 1 de Maio Milene e Nicole peguem em cestos com Pashka e ovos tingidos e assistam à missa numa igreja de Cascais. 

As celebrações duram toda a noite e juntam vários ortodoxos próximo da marginal, num espírito comunitário da saudação pascal ortodoxa. “Cristo ressuscitou”, dizem uns. Os outros respondem: “É verdade que ressuscitou”.

Mas a família Pskhatsieva prepara-se para celebrar este domingo a Páscoa católica, tal como têm feito. Ainda que esta celebração não envolva idas às igrejas católicas, é normal para estes uzbeques juntarem-se num almoço que inclui o folar e uma ida à praia. Em parte, este novo costume é motivado pela interrupção lectiva das crianças que se encontram em férias de Páscoa. Em parte, é por uma questão de integração. “Já cá estamos há tanto tempo. As crianças estão de férias e aproveitamos. Também celebramos dois Natais”, diz Yana. Stanislav interrompe: “Não podemos ficar desligados”. 

Dos 348 mil crentes não católicos, ainda segundo o Censos de há cinco anos, 57 mil eram ortodoxos (o triplo de 2001), 76 mil protestantes (mais 58%) e 163 mil “cristãos de outro tipo”. O número de judeus quase duplicou em 10 anos (de 1773 para 3061), mas este grupo religioso mantém-se como um dos menos expressivos na sociedade portuguesa.

Yahoshua Miranda, 15 anos, vai este domingo a um almoço de Páscoa em casa da avó materna, católica não praticante que assinala a época festiva como um momento para juntar a família. Nesse almoço não se fala de Jesus Cristo e Yahoshua nem chega a lembrar-se de que está a celebrar uma festa de uma religião que não é a sua. Tudo se torna mais complicado quando as férias da Páscoa da escola pública que frequenta coincidem com a Pessach, que tradicionalmente chamamos “Páscoa judaica”, mas que é, na verdade, o momento em que os judeus celebram a libertação da escravatura a que foram sujeitos no Egipto. 

Pessach, que significa “passar por cima”, alude ao pedido feito por Moisés aos judeus para que sacrificassem um cordeiro e utilizassem o sangue deste nas portas das suas casas para que deus, que havia decidido sujeitar os egípcios a dez pragas, passasse por cima das suas casas, evitando que a décima praga, a morte dos filhos primogénitos, se abatesse sobre este povo.

Um dos preceitos desta celebração é não consumir alimentos que contenham fermento, uma referência ao pão cuja massa não teve tempo para levedar durante a fuga do Egipto. Mas em casa da avó é possível que haja bolos e bolachas à solta, apesar dos pedidos e dos avisos da mãe de Yahoshua, Lusa Miranda, uma judia convertida. 

“Os mais novos acabam sempre por cair”, diz Lusa. Quando, como este ano, o Pessach calha fora da interrupção lectiva não judaica (a celebração começa no dia 22 de Abril e estende-se por oito dias, terminando oito dias depois), Lusa pede na escola dos filhos que não lhes seja servido às refeições nenhum dos cinco cereais proibidos, cevada, trigo, aveia, centeio e espelta. O Pessach inicia-se com a limpeza profunda das casas, em que os judeus procuram livrar-se do chametz, ou seja, tudo o que é farinhas e cereais e massas é dado, vendido ou destruído.

Yahoshua é o primogénito, o que significa que no dia anterior ao início do Pessach tem de cumprir jejum. Não tem conseguido fazê-lo, porque acaba por se sentir mal, mas Lusa garante que este ano vão “tentar esticar-se mais um bocadinho”. No futuro, isso poderá justificar as faltas escolares, cenário que agrada a Yahoshua.

O Seder do Pessach, jantar inicial da comemoração, segue uma série de rituais definidos no Hagadá, texto com regras a serem cumpridas. Antes de a refeição propriamente dita poder começar, os judeus têm de contar a história do êxodo, fazer rezas, comer alimentos simbólicos e referentes à fuga do Egipto. 

Para que os mais novos não adormeçam ou não se aborreçam, esconde-se o afikoman (metade do matzá, o pão sem fermento que pode ser comido durante este período) para que as crianças esperem até ao final do jantar para se divertirem na busca do pedaço escondido.

Yahoshua admite que a proibição de não comer os alimentos fermentados se torna mais difícil à medida que os oito dias do Pessach vão passando. “Sinto muita falta de comer esparguete. Quando no fim podemos comer pão, é mesmo bom.” O jovem concede que, se a mãe não o tivesse levado a cumprir os rituais da fé judaica, ele teria ignorado, já não lhe ligaria nenhuma.

Há cerca de dois anos completou o Bar Mitzvá (quando celebram 13 anos, os jovens judeus são chamados, pela primeira vez, a ler a Torá, passando então a pertencer integralmente à comunidade) e agora continua a aprender hebraico. Então, o Pessach ganhou outro significado. “Sinto uma ligação espiritual com os nossos antepassados que fugiram”.  



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Liberdade no vazio e religião na páscoa - Por Aires Gameiro



Liberdade para quê? Há dias sentei-me por acaso ao lado de um desconhecido num encontro sobre diálogo interreligioso.

Cinco minutos depois de nos apresentarmos já me estava a dizer que era ateu; não bem um ateu, mais um agnóstico. Conversa animada.

A certa altura veio a questão se um ateu seria um religioso especial que fazia do ateísmo um dogma de fé na liberdade individual a impor ou propor aos outros. Que não, era apenas alguém que prezava a sua liberdade de não acreditar, mas continuava a procurar; sem excluir encontrar alguma religião.

A liberdade é um tema recorrente em conversas casuais de pessoas que se encontram, principalmente se uma delas é fiel ou simpatizante de uma confissão religiosa e a outra não. A liberdade é tema quase inevitável e um pouco escandaloso como aconteceu no Vaticano II com a declaração sobre liberdade religiosa na Igreja.

Só com liberdade a religião é digna da pessoa e merece esse nome. A liberdade, porém, é tratada com alguma ligeireza como se fosse fácil ser livre. Não se distingue bastante a liberdade da libertinagem, nem da liberdade condicionada ou esvaziada de tudo. Os dependentes do álcool, da droga, do jogo, dos alimentos e, em maior número, os de todas as modas, repetem que são livres.

Das três atitudes religiosas: adorar a Deus; adorar a deuses fabricados; e adorar-se a si mesmo fica de fora a liberdade no vazio como enigma. Nos diálogos sobre pertença a uma religião, judaica, muçulmana, cristã ou outra, será que os que as recusam todas por motivos de liberdade as desvalorizam como práticas sem liberdade?

Uma religião, parecem insinuar, por diminuir a liberdade é de rejeitar sempre. Do pretender ser livres no vazio de nenhuma religião cai-se na liberdade vazio como religião de lavra humana. Liberdade sim, religião, não; crentes, também não. A liberdade é um valor irrenunciável, certo, mas podemos perguntar: para que serve? Sentido egocêntrico, vazio de sentido de vida? Viver para a liberdade, para quê? O meu companheiro acima dizia que continuava a procurar algo.

Procura é liberdade aberta para algo, recusa de autossuficiência. Liberdade religiosa de religião negada, autossuficiência radical, só pode dar no ateísmo “religioso” de horizonte temporal. A liberdade de rejeitar Deus e qualquer religiosidade pode assumir algo de “evangelismo” pedagógico, norma a propor a uma audiência mais receptiva.

Afirmar-se livre de religião e de Deus seria um sinal de que os outros não são livres na sua religião. Seria considerar tudo igual: o fanatismo pseudorreligioso e a prática livre de uma religião. Liberdade e religião seriam inconciliáveis; e dignos de lástima os que não se bastam a si mesmos no laicismo e secularismo radical.

Esquecem que nenhuma pessoa se basta, nenhuma é totalmente autossuficiente: ou adere livremente a uma religião transcendente ou uma “religião” laicista de horizontes para cá da morte; ou, finalmente, por altivez alimenta a religiosidade do ídolo ego de orgulho pessoal. O não “religionado” e descentrado para Deus vive na ilusão, numa forma de religião fechada, de autoidolatria de fabrico caseiro.

O egocentrado religa-se apenas a si de forma individualista e fecha a porta à consciência de..., à responsabilidade para com..., ao ser pessoa para com o outro e os outros. Jesus na Cruz e na Ressurreição da Páscoa apela a um coração egodescentrado e voltado para o Pai e para todos por quem morre e ressuscita.






domingo, 27 de março de 2016

Mesmo com legislação ‘liberal’, Dinamarca tem de ‘abraçar diversidade religiosa’, diz relator da ONU


Após visita oficial ao país do norte da Europa, especialista independente da ONU fez recomendações para reforçar a atual abordagem quanto à liberdade de religião ou crença. 

Ele destacou a importância de evitar sentimentos de estigmatização e a exclusão das minorias religiosas. 

A Dinamarca é um país liberal que valoriza e respeita a liberdade de crenças religiosas. Mesmo assim, a sociedade ainda tem desafios a enfrentar, sobretudo em relação a uma necessária identidade “aberta e inclusiva” e uma maior diversidade religiosa.

A avaliação é do relator especial da ONU sobre a liberdade de religião ou crença, Heiner Bielefeldt, que acaba de finalizar uma visita de nove dias ao país do norte da Europa. “É da responsabilidade do governo assumir a liderança no desenvolvimento de uma compreensão mais abrangente da identidade dinamarquesa”, destacou Bielefeldt.

“Eu valorizo que a Dinamarca, que evoluiu rapidamente de homogeneidade religiosa para uma sociedade diversificada, respeite o direito de todos de praticar livremente sua religião, tanto em privado e quanto em público”, disse o especialista em direitos humanos.

Ele também reconheceu os esforços para promover o diálogo entre os grupos religiosos e os não religiosos. A Igreja Nacional Dinamarquesa, geralmente denominada ‘Folkekirke’, em particular, tem contribuído para a formação de uma sociedade inclusiva no país.

No entanto, a fim de reforçar a abordagem liberal da Dinamarca quanto à liberdade de religião ou crença, Bielefeldt ressaltou a importância de evitar sentimentos de estigmatização e a exclusão das minorias religiosas.

Ele observou uma “tendência generalizada” de associar os muçulmanos com o extremismo e o terrorismo. “Algumas vozes sugerem que a identidade dinamarquesa e o islamismo se excluem mutuamente”, frisou, acrescentando que “a comunidade judaica, que tradicionalmente se sente em casa na Dinamarca, vê-se exposta a hostilidade em respeito à circuncisão por motivos religiosos de meninos”.

Portanto, “trabalhar por uma maior compreensão mútua entre diferentes religiões e os não religiosos (ou ‘seculares’) na sociedade deve ser uma das principais prioridades”, disse Bielefeldt.

Ele pediu também reformas institucionais na Folkekirke e em seu procedimento de reconhecer as comunidades religiosas. Outra ação sugerida pelo especialista em direitos humanos é manter uma compreensão ampla da liberdade de religião ou crença, de acordo com as normas europeias e internacionais.

“Obviamente, é uma tarefa de longo prazo, que envolve questões como a educação escolar, o diálogo inter-religioso e outras formas de comunicação entre os grupos, as políticas antidiscriminação e programas de integração”, destacou Bielefeldt.

Relatores independentes ou relatores especiais são nomeados pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU para examinar e apresentar um relatório sobre a situação do país ou um tema específico de direitos humanos. Os cargos são honorários e os especialistas não são funcionários da ONU, nem são pagos pelo seu trabalho.





Páscoa: festas religiosas nas fazendas de Minas Gerais do século XIX – Por Mary Del Priore



As fazendas costumavam ter, na extremidade das varandas, uma capela ou um quarto de santos. 

A fazenda de Manuel de Abreu Guimarães tinha ao final da sua, uma capela dedicada à Nossa Senhora do Carmo, “com seu emblema de três estrelas douradas e um escudo pintado de azul. Havia ali cantos, nas noites de domingo”, conta Richard Burton que a visitou. A Carrapixo, próxima ao Tejuco, possuía “capela de dizer missa”. Pequenos oratórios, também, integravam as práticas de religiosidade.

Marianne North almoçou na casa de um escravo forro, cujo senhor lhe deixara o seu, com móveis entalhados e santos além de objetos de culto em prata. Em certa fazenda onde ficou hospedada, percebeu que africanos usavam de suas práticas religiosas, mesmo debaixo do nariz dos senhores brancos: “Old Pedro, deixava de quinze em quinze dias, nas noites de sexta-feira, pão e carne no quarto em que seu antigo dono, o padre, morrera. Como ele nunca encontrava nada na manhã seguinte, afirmava que o velho amo vinha para comer”. 

O “velho” Pedro apenas reproduzia crenças enraizadas na cultura banto, que acreditava viverem os mortos num mundo de sombras, onde se reproduziam as condições terrenas. Dar-lhe de comer era normal. Afinal, em África, os mortos nunca morriam…

Os fazendeiros que tinham ermida com capelão assistiam, com agregados e cativos, a missa em casa. Os demais eram obrigados junto com seus escravos a deslocar-se até a igreja mais próxima. A construção de centenas delas foi obra generalizada nas Minas Gerais, todas repletas de retábulos, imagens talhadas e soberbos altares policromados.

Um sacerdote fiscalizava presenças e ausências lendo em voz alta os nomes dos fiéis. Cabia então aos familiares do Santo Ofício, figurões das irmandades religiosas e intrigantes em geral, a delação das faltas e todos eram compelidos a se justificar.

Isso também acontecia por ocasião da comunhão pela Páscoa e da desobriga anual de confissão, devidamente vigiadas por tais olhos e ouvidos da Inquisição, Roubos, assassinatos, estupros, desonestidade, concubinato, tudo se acertava na época da desobriga mediante o pagamento de espórtulas e donativos às igrejas e irmandades.

Cruzes às portas das casas, nos caminhos, altos de morros, nas guardas das pontes, em toda a parte, erguiam-se para espantar o Demônio, que, segundo Lima Júnior, tinha motivos de sobra para sentir-se à vontade, não fossem os empecilhos da redenção.

Importantes romarias e festas religiosas congregavam todos os fazendeiros. Entre as primeiras, destacava-se a do Bom Jesus de Congonhas, em setembro; à Senhora da Lapa, em outubro, a do jubileu da Porciúncula, em São Francisco de Assis de Mariana. Entre as festas religiosas, a Páscoa e a Semana Santa. Na Quarta-Feira de Cinzas, realizava-se a procissão das Cinzas. Dias antes, deixavam suas fazendas percorrendo ostensivamente as estradas:

“Grande número de homens e mulheres passavam a cavalo que iam assistir a festa e apesar do calor extremo, quase todos estavam envoltos em amplas capas de gola alta, semelhantes às que se usam na França na época do Natal. Esse costume era originário de Portugal e vinha sendo adotado há muito tempo na província de Minas […] não havia um único trabalhador que saísse sem ela e a posse dessa peça do vestuário era cobiçada por todos os mulatos livres”, registrou Saint-Hilaire. As mulheres “capoteiras”, muitas delas fazendeiras, eram conhecidas por sua piedade e o hábito de puxar o terço.

Na cidade, quem vinha da aérea rural, assistia à missa cantada. Procissões durante a Quaresma traziam “mulatos trajando túnicas cinzentas semelhantes com que se apresentam, em nossas óperas, os Gênios do Mal. Um deles levava uma grande cruz de madeira e os outros dois, seguravam, cada um, um longo bastão com uma lanterna na ponta. Imediatamente atrás deles vinha outro personagem, vestido com um traje muito justo, de tecido amarelado, no qual havia sido desenhado com tinta negra os ossos que compõe o esqueleto. Esse personagem representava a Morte, e em meio a grandes palhaçadas, fingia golpear os passantes com uma foice de papelão”, contou Saint-Hilaire. 

Aos fiéis fantasiados de Adão e Eva, Caim e Abel, seguiam-se andores com imagens em tamanho natural, pintadas e vestidas com roupas de verdade. A seguir: Jesus no Jardim das Oliveiras, Madalena, São Luís rei de França e até Yves, bispo de Chartres. Transportavam, também, a Virgem em toda a sua glória, além de São Francisco, beijado por Cristo.

“Mais ridículo, eram meninos de raça branca, vestidos de anjo que acompanhavam cada andor. As sedas, os bordados, as gazes e as fitas eram usados com tal profusão em seus trajes que eles mal podiam caminhar, embaraçados por tantos arrebiques”: tiaras de gaze e fitas que encobria as cabeças, saias balão bem armadas, corpetes de gaze plissada e meia dúzia de asas. “Havia certo encanto nessa cerimônia irreverente, em que ridículas palhaçadas se misturavam com o que a religião católica tem de mais respeitável”, anotou o naturalista francês.

Vez por outra, um bispo vindo de Mariana, passava numa cidade perto das fazendas. Repicavam os sinos e crianças vinham de toda a parte, receber crisma ou fazer a primeira comunhão. Nos batizados e casamentos, muitos fazendeiros encomendavam roupas na Corte. As festas duravam quinze dias, esvaziavam-se caixas de vinhos franceses enquanto uma “chuva de comidas” caia sobre os convidados.

Nos ranchos de negros ou senzalas, erguiam-se mastros com “imagens de santos negros” e na época de São João, esse era enfeitado com espigas de milho e frutas, signo de abundância. Aliás, o ciclo junino guardava celebrações de grande significado no mundo rural: junto ao hasteamento da bandeira com a efígie do patrono, plantava-se uma árvore à qual se penduravam flores e enfeites, ao som de cantos. Aos seus pés, lançavam-se ovos, para proteger animais de penas, de pestes. 

Os frutos da terra, sobretudo o milho, a ela amarrados, deviam estar os mais expostos possível, Eles representavam a passagem da vegetação que morria para a que brotaria. Depois da festa, o mastro era queimado e guardados os tições. Acreditava-se que era possível controlar com eles as forças das tempestades, neutralizando raios e trovões.

No Norte da província, praticava-se o canjerê, reunião religiosa associada a feitiços ou mandingas, acompanhada de bailados e sapateados. Nas festas de São Gonçalo e nas Folias de Reis, afrodescendentes saiam pelas estradas com violões, cavaquinhos e pandeiros despertando os moradores para pedir-lhes esmolas para a festa. No dia de Nossa Senhora das Candeias ou Candelária era realizada uma copiosa refeição.

O Divino abençoava até a exploração, pois senhores, antes de dar ordens aos seus escravos, diziam: “Deus dê prosperidade e bom êxito ao seu trabalho”.

Segundo Lima Júnior, tradições judaicas também foram incorporadas no cotidiano da vida rural. O uso da lamparina acesa no quarto da parturiente, pois antes do batismo, originalmente, da circuncisão, a criança não podia ficar no escuro; o hábito de acender velas nos oratórios aos sábados; a gentileza de enviar aos viajantes uma bacia de água morna para a lavagem dos pés; a repulsa em ingerir a carne de animais não sangrados previamente, e a presença do “abafador”, homem que “ajudava a morrer”, no quarto do moribundo. Aliás, era comum visitar, consolar e lamentar os doentes. Segundo Burton, as janelas fechadas, o ambiente abafado e o calor de velas acesas eram capazes de matar qualquer um.

A presença de grandes manadas bovinas reforçava tradições religiosas: na festa do Espírito Santo oferecia-se o “boi do Divino”. Um animal era sacrificado e a carne distribuída entre o povo em nome da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Entre escravos, o bumba-meu-boi acompanhava os festejos em torno da sagrada Pombinha.

O encontro de culturas diversas, assim como a complexidade e a diversidade da economia e da população são características marcantes da história de Minas Gerais. Suas fazendas não seriam exceção. Muito pelo contrário. Elas evoluíram na dispersão, atendendo aos reclamos da economia regional: poucas nos campos rupestres de altitude, onde se localizava a região do ouro e diamantes. Muitas na zona da Mata, onde se situa São João del-Rei e Juiz de Fora. 

E, tardiamente, no Triangulo Mineiro, onde não houve mineração e sim, gado. A vida cotidiana nesse complexo mundo rural retrata formas de viver e de sobreviver especificamente mineiras.

Vidas marcadas pela produção multíplice que consolidou o mercado interno da antiga Colônia e depois Império. Pelo caráter e mentalidade mercantil de tropeiros, boiadeiros, atravessadores, mascates e vendedores de serviços. Mas, também de produtores rurais, artesãos e escravos. Mundo onde lavras, roças e currais, homens livres e escravos, a religiosidade leiga e a secular, o som de sinos e do ranger de rodas, mandingas e “vissungos”, procissões e novenas, a vida urbana e a vida rural dialogavam.

Universo no qual se multiplicou a dialética entre riqueza e decadência, rusticidade e hospitalidade, religiosidades brancas e negras, sociabilidades e tensões.

Universo de “fé cega e faca amolada”. Ali, também as relações de trabalho, nas suas formas diversas, andavam lado a lado: podiam ser escravistas ou camponesas. Quilombos coexistiam com pequenas ou grandes propriedades, e a mineração com a lavoura, tudo se interligando. Nas Geraes, o fixo e o incerto, a mudança e a permanência estavam em permanente conversa.

Era terra de “gente que vai, gente que vem”, como canta o poeta Milton Nascimento, de “filho do branco e do preto correndo na estrada atrás de passarinho”, do “morro verdinho” pintado por tantos naturalistas e da “agricultura bárbara” onde o cultivador com um machado na mão e um tição na outra ameaçava as matas de total destruição, como previu o naturalista do Tijuco, José Vieira Couto. Finalmente, “num carro de boi ir por aí… quantas coisas eu vou conhecer” nas velhas fazendas de Minas Gerais.







Jerusalém esmagada pelo passado – Por Eduardo Cintra Torres



Lutar pela paz é combater o passado.

Camadas sobre camadas. Do rei David ao nosso tempo, Jerusalém, ovo das três grandes religiões monoteístas, de Deus, de Deus e de Deus, acumula camadas de história.

Para se ver lajes que Jesus terá pisado no mercado junto ao Templo, é preciso descer debaixo da terra. As paredes mostram camadas de construções sobre construções, religiosas, militares, civis. Ruínas.

Placas lembram "foi aqui que…" Um gigantesco cemitério sobe o Monte das Oliveiras em fileiras de pedras tumulares de há milénios ou de hoje, um sítio geológico humano. Os mortos espreitam os vivos. 

A cidade velha divide-se em zonas que distribuem camadas históricas pela superfície: o bairro cristão, o bairro islâmico, o bairro judeu, o bairro arménio. Há portas milenares e muros do século XXI. Torres de igrejas, cúpulas de sinagogas e minaretes de mesquitas disputam no céu a última camada do espaço.

Uma camada comprime a outra e cá em cima Jerusalém vive esmagada pelo passado. Os vivos são prisioneiros dos mortos. Diferentes culturas, religiões de guerra e paz, nações valentes que se querem mais imortais que as outras. Vive-se o presente no receio de que o futuro seja a colocação duma nova camada de sangue seco nas pedras velhas e muros novos. Lutar pela paz é combater o passado.

Quando se promove o encontro de culturas, sente-se perigo. Juntar pessoas vítimas de passados diferentes é um acto de coragem, como o narrado pelo documentário de Erez Miller e Henrique Cymerman, ‘East Jerusalem, West Jerusalem’, estreado em Portugal na Judaica, Mostra de Cinema e Cultura.

O músico israelita David Broza quis fazer um álbum em Jerusalém Oriental com músicos judeus e palestinos. O filme acompanha esta pequena guerra pela paz, os encontros no estúdio, quase clandestinos, as conversas dos dois lados do muro de cimento e passado que separam pessoas iguais em mundos diferentes.

A iniciativa de Broza, que noutros lugares seria vulgar, é ali arrancada ao preconceito, como se alguém roubasse uma pedra antiga duma camada de passado do Outro na cidade velha. Os músicos judeus e palestinos dizem coisas para nós banais, mas para eles actos da guerra pela paz: somos iguais, podemos encontrar-nos, gravar juntos, viver em harmonia.

O projecto de Broza e deste documentário aconteceu nove anos depois, nove anos depois!, do difícil concerto, também documentado em filme, da West-Eastern Divan Orchestra, com músicos judeus, muçulmanos e cristãos, em Rammalah, Palestina. Quanto anos para o próximo? Estes lutadores, na música e nos documentários, sonham com uma última camada da história de Jerusalém, a da paz.







sábado, 26 de março de 2016

Europa se afasta da tradição cristã



Paralelamente à mais importante missa do ano litúrgico católico, uma partida internacional de futebol está sendo apitada em Berlim neste sábado. Para o jornalista Felix Steiner, nada mais é sagrado na Europa cristã.

O medo de muitos alemães diante da "islamização" do país não começou somente depois do início da crise migratória no segundo semestre do ano passado. Ou, como dizem de forma mais elegante e exata os institutos de pesquisa de opinião: eles temem um aumento da influência do islã na Alemanha.

Já no início de setembro, a chanceler federal alemã, Angela Merkel, deu a resposta certa a esse tipo de preocupações. Durante visita à Universidade de Berna, na Suíça, onde recebeu o título de doutora Honoris Causa, ela respondeu a uma questão semelhante com a observação de que não se poderiam recriminar os muçulmanos por eles praticarem e vivenciar sua fé. E recomendou aos cristãos preocupados para que voltem a lidar mais intensamente com sua religião e suas tradições.

A pouca ressonância que o apelo de Merkel provocou na Alemanha pode ser vista, neste fim de semana, de forma mais clara do que nunca: na noite deste sábado (26/03), quando os católicos se reúnem em suas igrejas para a Vigília Pascal, o culto mais importante do ano, e lembram a ressurreição de Cristo, está sendo apitada no Estádio Olímpico de Berlim a partida internacional Alemanha x Inglaterra.

É bem verdade: em nenhum país muçulmano seria concebível tal conflito de programação, ali a religião teria claramente prevalência sobre o esporte. Mas também é certo: o presidente da Federação Alemã de Futebol não é muçulmano.

Ou seja, não se trata da provocação de um islã ávido pela supremacia. Num futebol europeu totalmente comercializado, deve ter sido fácil, provavelmente, não encontrar nenhuma outra data para o amistoso sem grande importância esportiva. Nos grandes negócios que envolvem os direitos de transmissão e patrocínios, sentimentos religiosos têm que ficar para trás. Além disso: quem ainda hoje vai a missa?

Por volta de cinco por cento dos protestantes e pouco mais de dez por cento dos católicos, essa é a triste realidade. Por motivos financeiros não deve ser: na Alemanha, "os cofres estão cheios e as igrejas, cada vez mais vazias", reclamou o arcebispo e secretário papal, Georg Gänswein, na semana passada em entrevista à DW.

Engajar-se pela fé ou pelos interesses da Igreja saiu completamente de moda na Alemanha, até nos mais altos círculos eclesiásticos. O que, por exemplo, se nota no fato de, também por parte da Igreja, ninguém, nem os bispos nem a organização laica Comitê Central dos Católicos Alemães, que normalmente emite nota de imprensa para tudo, tenha se manifestado sobre o jogo de futebol na noite da Santa Vigília Pascal.

As conclusões são claras: a Alemanha se distância sozinha e por iniciativa própria cada vez mais de suas raízes cristãs. A tradição religiosa pode esperar uma aceitação irrestrita somente onde se perseguem também os interesses comerciais, da distribuição de presentes no Natal a ovos de Páscoa.

Onde, por outro lado, o calendário cristão demanda a dispensa do consumo, por exemplo, durante a Quaresma ou com a proibição de dança e entretenimento no Dia de Finados em Novembro, os fiéis são logo vistos como um grupo à parte.

Uma minoria que não deve, de forma alguma, estipular regras de comportamento para uma maioria secular de longa data.

Nesse ponto, pode-se ousar a previsão: em algum momento, nos próximos 25 anos, as lojas estarão abertas também na Sexta-Feira Santa na Alemanha. A razão, certamente, não estará na crescente influência dos atuais cinco por cento de muçulmanos na Alemanha. Mas na falta de respeito de uma parcela crescente e não religiosa da população diante da cultura e das tradições sociais de cunho cristão na Europa.

Provavelmente, algum lojista vai recorrer à Justiça e lançar a pergunta de por que os parques de diversões podem abrir no dia da morte de Jesus, tradicionalmente um dia "quieto", mas a venda de calças e celulares não deve ser permitida.

E os juízes irão concordar com ele, pois se trata, por um lado, de dinheiro e também implicaria uma discriminação dos vendedores de calças. E quase ninguém irá se importar com isso. Porque na Europa cristã, quase nada mais é sagrado.






Mulheres são mais religiosas do que os homens, diz estudo


As mulheres são, em geral, mais religiosas do que os homens na maioria dos países de todos os continentes, segundo um estudo divulgado na quinta-feira (24/03) pelo centro de estudos Pew, com sede em Washington.

Enquanto 83,4% das mulheres de todo o mundo se identifica com uma fé, no caso dos homens a proporção é de 79,9%, com base nos dados da pesquisa.

A diferença de 3,5 pontos percentuais indica que aproximadamente há 97 milhões de mulheres a mais do que homens que se consideram como pessoas religiosas, diz o estudo, que se baseia em censos e pesquisas de 192 países e territórios compilados no ano de 2010.

Os entrevistados foram perguntados sobre a participação em serviços religiosos semanais, preces diárias, importância da religião em suas vidas, crença no paraíso, no inferno e nos anjos.

Na religião cristã, as mulheres se mostraram mais religiosas que os homens em todos os sentidos, especialmente nas preces diárias, onde superam os homens em 10%.

Por outro lado, no Islã, enquanto 70% dos homens vai à mesquita pelo menos uma vez por semana, no caso das mulheres a proporção é de 42%. Em todos os demais pontos analisados, as muçulmanas se mostraram mais praticantes e crentes que os homens.






sexta-feira, 25 de março de 2016

Oração na mesquita de Lisboa mostrou partilha dos valores fundamentais



O embaixador belga em Portugal saudou hoje a iniciativa da comunidade islâmica de Lisboa de realizar uma oração pelas vítimas dos atentados em Bruxelas, salientando que a cerimónia mostrou que existe uma partilha de valores fundamentais que transpõe religiões.

"A comunidade muçulmana fez muito bem em organizar esta iniciativa inter-religiosa, reunindo todas as confissões religiosas em Portugal, porque entre as vítimas na Bélgica existem muitas pessoas de várias nacionalidades e de diversas religiões", afirmou Boudewijn Dereymaerker, em declarações aos jornalistas, no final da cerimónia, que decorreu na Mesquita Central de Lisboa.

Três explosões foram registadas na terça-feira em Bruxelas: duas no aeroporto internacional de Zaventem e uma na estação de metro de Maelbeek, junto às instituições europeias, no centro da capital belga. Pelo menos 31 pessoas morreram e outras 300 ficaram feridas nos ataques na capital belga, reivindicados pelo grupo extremista Estado Islâmico (EI).

"A mensagem final é: pouco importa em que Deus nós acreditamos, o que importa é a paz, a tolerância, os seres humanos, a democracia. São os valores fundamentais em que acreditamos", prosseguiu o representante diplomático, salientando que "aqueles que perpetraram os atentados horríveis pretendem estar conotados com uma religião, mas não representam essa religião".

Boudewijn Dereymaerker foi uma das personalidades convidadas a participar na cerimónia promovida pela comunidade islâmica de Lisboa, realizada antes da oração semanal de sexta-feira (dia sagrado para os muçulmanos).

O presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, o assessor cultural Pedro Mexia, em representação da Casa Civil da Presidência da República, e os embaixadores dos países islâmicos representados em Portugal foram outros dos participantes na iniciativa, que foi presenciada por mais de uma centena de pessoas, a grande maioria muçulmanos.

Também estiveram presentes representantes de cerca de uma dezena de confissões religiosas.

Após cumpridos dois minutos de silêncio, em que os presentes foram convidados a rezar em silêncio, e intervenções breves das personalidades convidadas, o imã da mesquita, sheik David Munir, salientou que "um dos atributos de Deus é a paz" e que "não há compulsão na religião".

"Aquele que mata uma alma, é como se tivesse morto toda a Humanidade. Aquele que salva uma alma, é como se tivesse salvo toda a Humanidade", destacou.

Hoje, na grande mesquita de Bruxelas, também as vítimas dos atentados foram recordadas na oração e na zona exterior do edifício foram colocadas várias bandeiras da Bélgica, segundo relataram os `media` belgas.






Páscoa até existe em outras religiões, mas com significados bem diversos – Por Guilherme Cavalcante



Liberdade religiosa tem promovido visibilidade de outros credos, que fogem da ritualística cristã.

Em um país de tradição religiosa cristã, sobretudo católica, o feriado da Páscoa, ou Semana Santa, como prega o catolicismo, afeta a todos sem distinção, seja na fé ou no bolso.

Vai muito além dos costumes ritualísticos que impregnam a rotina do brasileiro nos dias que antecedem a celebração, até a economia é afetada pela data. A procura por ovos de chocolate, peixes e frutos do mar, pão de coco e outros alimentos afins foi naturalizada, ainda mais quando a sexta-feira de Páscoa é, inclusive, feriado nacional, independente da religião professada.

Entretanto, por mais que o período faça mais sentido no contexto do cristianismo, outras religiões também celebram a data, mesmo que com diferentes significados. E embora seja certo que as rotinas pascais cristãs influenciem muito as celebrações de outros credos, cada religião tem seguido para um fortalecimento dos próprios rituais. Afinal, para além da questão religiosa, há certamente elementos cultural e identitários na composição de cada credo.

A liberdade religiosa, a propósito, promove visibilidade da cultura de outros credos, a exemplo do judaísmo, para a qual a páscoa tem significado bastante diferente. Conhecida como pessach, a 'páscoa judaica' tem significado diverso das religiões cristãs e marca a 'festa da libertação', ou seja, a comemoração de quando hebreus foram libertados do Egito por Moisés, após atravessaram o deserto e encontrarem a terra prometida, atual Israel.

"O que a gente faz no pessach é justamente isso, celebrar essa vitória dos judeus guiados por Deus, através de Moisés. Durante sete dias, a gente fica sem comer nenhum alimento fermentado. O que a gente come é o matzá, um pão tradicional sem fermento. Nessa época, nós fazemos muitas rezas e reflexões. Tudo tem uma simbologia, representa algo do passado do nosso povo", conta a gastróloga Daniela Feher.

Segundo ela, essas simbologias são condensadas principalmente na 'keará de pessach', um prato onde se põe cada componente simbólico do pessach, durante a seder (o jantar cerimonia no qual culmina o pessach). "Cada elemento tem um significado e nos ajuda e remeter à cultura judaica e à história do nosso povo, os sacrifícios de Deus para conosco", afirma.

Rumos diferentes

Historicamente, para resistirem, estes credos precisaram recorrer ao sincretismo com o catolicismo, um fenômeno de ressignificação das entidades para um contexto cristão, que marcou fortemente os rituais do candomblé. 

"As casas tradicionais têm uma ligação sincrética muito forte. A maioria até fecha e suspende todas as atividades durante a quaresma. Assim, a sexta-feira Santa, para nós, é uma data de resignação perante Oxalá. Vestimos branco, resguardamo-nos em casa. Não comemos carnes e nem frango, somente peixe. Não saímos, não festejamos. A páscoa, por outro lado, marca essa reabertura, o que não deixa de ser um renascimento. Nós nos recolhemos na quinta-feira nos terreiros. Dormimos lá, acordamos na sexta em jejum pela manhã para fazer ritos de proteção, acender velas e realizar nossas preces", relata o Babalorixá Lucas de Odé, 28, dirigente do Axé Dambá Odé, terreiro de candomblé em Campo Grande.

Um fenômeno diferente tem sido observado na umbanda, uma religião brasileira, porém, oriunda do catolicismo, espiritismo, cultos ameríndios e do africanismo. Por muitas décadas, a aproximação com a páscoa católica no mesmo período, mas a situação mudou. 

"Antigamente as pessoas não tinha liberdade de ser umbandistas, devido ao domínio católico. Por isso as pessoas antigas eram umbandistas, mas carregavam muitas tradições daquela religião. Como as coisas evoluíram e houve mais liberdade religiosa nas últimas décadas, a umbanda fortaleceu-se e, atualmente, não considera mais o calendário católico", explica Elson Borges dos Santos, diretor espiritual da Tenda de Umbanda Pai Joaquim de Angola.

Segundo ele, a maioria dos umbandistas já não seguem os rituais antigos, que muitas vezes até copiavam a igreja católica, como abstinência na sexta-feira Santa e rituais de lava-pés.

"O que a gente se vale desse período é que devido ao feriado, a maioria dos terreiros acaba não trabalhando, mas por questões de médiuns que viajam, a corrente fica pequena... Agora, a questão de renovação na páscoa, que a igreja católica prega neste período, a gente prega o tempo todo. Todos os dias, para nós, têm o sentimento de páscoa”. 

Por fim, há religiões como o islamismo, que já nem sequer veem na páscoa algum significado especial, como explica Omar Ibrahim, coordenador do blog 'A Nova Cruzada', sobre cultura e religião muçulmana.

"Para nós, muçulmanos, esta semana não traz qualquer significado espiritual especial, pois não cremos na morte de Cristo e por consequência, não cremos em Sua ressurreição, uma vez que só ressuscita, ou volta a vida aquele que morreu", conclui.