segunda-feira, 28 de março de 2016

Liberdade no vazio e religião na páscoa - Por Aires Gameiro



Liberdade para quê? Há dias sentei-me por acaso ao lado de um desconhecido num encontro sobre diálogo interreligioso.

Cinco minutos depois de nos apresentarmos já me estava a dizer que era ateu; não bem um ateu, mais um agnóstico. Conversa animada.

A certa altura veio a questão se um ateu seria um religioso especial que fazia do ateísmo um dogma de fé na liberdade individual a impor ou propor aos outros. Que não, era apenas alguém que prezava a sua liberdade de não acreditar, mas continuava a procurar; sem excluir encontrar alguma religião.

A liberdade é um tema recorrente em conversas casuais de pessoas que se encontram, principalmente se uma delas é fiel ou simpatizante de uma confissão religiosa e a outra não. A liberdade é tema quase inevitável e um pouco escandaloso como aconteceu no Vaticano II com a declaração sobre liberdade religiosa na Igreja.

Só com liberdade a religião é digna da pessoa e merece esse nome. A liberdade, porém, é tratada com alguma ligeireza como se fosse fácil ser livre. Não se distingue bastante a liberdade da libertinagem, nem da liberdade condicionada ou esvaziada de tudo. Os dependentes do álcool, da droga, do jogo, dos alimentos e, em maior número, os de todas as modas, repetem que são livres.

Das três atitudes religiosas: adorar a Deus; adorar a deuses fabricados; e adorar-se a si mesmo fica de fora a liberdade no vazio como enigma. Nos diálogos sobre pertença a uma religião, judaica, muçulmana, cristã ou outra, será que os que as recusam todas por motivos de liberdade as desvalorizam como práticas sem liberdade?

Uma religião, parecem insinuar, por diminuir a liberdade é de rejeitar sempre. Do pretender ser livres no vazio de nenhuma religião cai-se na liberdade vazio como religião de lavra humana. Liberdade sim, religião, não; crentes, também não. A liberdade é um valor irrenunciável, certo, mas podemos perguntar: para que serve? Sentido egocêntrico, vazio de sentido de vida? Viver para a liberdade, para quê? O meu companheiro acima dizia que continuava a procurar algo.

Procura é liberdade aberta para algo, recusa de autossuficiência. Liberdade religiosa de religião negada, autossuficiência radical, só pode dar no ateísmo “religioso” de horizonte temporal. A liberdade de rejeitar Deus e qualquer religiosidade pode assumir algo de “evangelismo” pedagógico, norma a propor a uma audiência mais receptiva.

Afirmar-se livre de religião e de Deus seria um sinal de que os outros não são livres na sua religião. Seria considerar tudo igual: o fanatismo pseudorreligioso e a prática livre de uma religião. Liberdade e religião seriam inconciliáveis; e dignos de lástima os que não se bastam a si mesmos no laicismo e secularismo radical.

Esquecem que nenhuma pessoa se basta, nenhuma é totalmente autossuficiente: ou adere livremente a uma religião transcendente ou uma “religião” laicista de horizontes para cá da morte; ou, finalmente, por altivez alimenta a religiosidade do ídolo ego de orgulho pessoal. O não “religionado” e descentrado para Deus vive na ilusão, numa forma de religião fechada, de autoidolatria de fabrico caseiro.

O egocentrado religa-se apenas a si de forma individualista e fecha a porta à consciência de..., à responsabilidade para com..., ao ser pessoa para com o outro e os outros. Jesus na Cruz e na Ressurreição da Páscoa apela a um coração egodescentrado e voltado para o Pai e para todos por quem morre e ressuscita.






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