segunda-feira, 27 de junho de 2016

A “Teologia” do dinheiro – Por José Vicente Ferreira



A Declaração de Independência dos Estados Unidos, de 4 de Julho de 1776, refere:

“Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a procura da felicidade…”.

Nestes tempos, que são os nossos, parece que muita coisa está posta em causa e que a criatura desfigura e nega o Criador. O mundo está bastante esquisito e cada vez mais difícil de entender. 

O desrespeito pela vida, pela liberdade e pela procura da felicidade são aspectos tristes e bem marcantes no actual estado do mundo. A ânsia de dinheiro e de poder aí estão a impor um jogo perigoso porque não conhece regras. De facto, o dinheiro saltou para primeiro plano e parece que, para além deste fenómeno, nada mais existe. Tudo gira à volta do vil metal, cada vez mais vil, pois destrói tudo o que lhe passa pela frente.

Dinheiro, dinheiro, lucro e mais lucro sem limites, obviamente sem qualquer preocupação ética ou humana, ditam a lei do mais forte. O diabo anda à solta e diverte-se com a estupidez humana transformada em ganância. A criatura nega o Criador e o homem transforma-se em lobo do próprio homem.

Tudo vale e tudo tem sido permitido por Estados fracos e pessoas sem escrúpulos. Pessoas sem qualquer sentido ético comportam-se como corsários, porque a partilha dos interesses instalados assim o permite. Ora, em muitas situações recentes, a história continua a ser recriada pois anda por aí gente que faz do corso a sua forma de vida.

Alguns devem possuir mesmo a chamada “carta de corso” que traduz um modo de vida, que foi muito praticada por povos nómadas, que sobreviviam daquilo que roubavam, por onde passavam. Sabiam viver das conjunturas e, enquanto estas fossem propícias, facturavam sem olhar a meios. Adaptando-se aos novos tempos, a arte de sacar passou a ter nomes mais modernos como favores maquiavélicos, salários e pagamentos obscenos, branqueamentos, corrupção, cambão,… num capitalismo de rapina muito informal e obviamente clandestino.

A moda dos corsários aí está bem visível em tudo o que seja dinheiro ou finança, com ou sem autorização dos governos. Tudo simples mas, mais sofisticado, e feito no recato dos corredores dos vários poderes instalados. E assim vamos vivendo falando de transparência, mas longe dela. É um mundo reservado onde os eleitos vão vivendo sustentados numa novíssima corte de vassalos.

Na sociedade portuguesa continuam a gerar-se novas classes senhoriais que se sucedem umas às outras e enquanto duram são suficientemente influentes na lógica do poder e das benesses que lhes está associada. Manipulam números, pessoas e conhecimentos, sem ética. O único critério são eles próprios, quais senhores omnipotentes. São pessoas de raciocínio rápido, frio e feio. Nos tempos actuais, em que o crime parece compensar, é necessário que as autoridades se assumam com credibilidade pois só assim será possível recuperar o clima de confiança e de tranquilidade para o cidadão comum que vive do seu trabalho.

Desculpas e sucessivas justificações sobre a crise financeira internacional apenas demonstram que os “Alibabás” do sistema financeiro se dão ao luxo de dizerem e fazerem o que lhes apetece porque nada acontece na teia de interesses instalados. Governos e autoridades, mostram as suas próprias debilidades, ao permitirem que estes esquemas lhes passem ao lado.

Entre nós, pequena economia aberta em fase de marasmo, o problema financeiro está a tranformar-se em crise económica que atinge o dia a dia das pessoas. A crise social mostra, com intensidade, os seus sinais preocupantes de mais desemprego, maior empobrecimento e mais dificuldades para cumprir os compromissos assumidos.

Cada vez mais o mês parece ter mais dias. É urgente travar o facilitismo do consumo e os “encostos” que todos os dias os donos do dinheiro nos propõem com arte, manha e juros elevadíssimos. E claro, cuidado com esse intruso “familiar” chamado cartão de crédito, que todos os meses, tão simpaticamente, nos coloca à disposição mais um salário que terá que ser pago e bem pago.

Se o deus do mundo é o dinheiro o resultado só pode ser ganância, egoísmo e miséria humana. Talvez muitas das nossas contas bancárias, a prazo ou à ordem, mostrem alguns dos nossos pecados ocultos. O dinheiro tem destas coisas e denuncia a consciência do homem. Torna-se demasiado evidente que “Não podemos servir a Deus e ao dinheiro”.

Afinal, a velha, mas sempre actual, questão da existência de Deus aí está bem presente, porque se “tudo nos é permitido, nem tudo nos convém”.

Fonte: http://tvl.pt