terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Festa da padroeira da Bahia é celebrada por adeptos de diferentes religiões – Por Alexandro Mota


O feriado desta terça-feira (08/12) marca a celebração pelo dia da padroeira da Bahia, Nossa Senhora da Conceição. 

Ao Comércio, ponto alto da festa, compareceram pela manhã gerações diferentes de fiéis e também adeptos de outras religiões. Entre eles, a estudante goiana Alessandra Rita Almeida, 22 anos, que mora em Salvador e frequenta a seita religiosa do Santo Daime.

Ela fez orações e observou os fiéis. “Tenho uma admiração pela virgem, que é chamada assim não somente por não ter contato sexual, mas por ser uma mulher independente dos homens. É legal ver a crença das pessoas e o sincretismo", Com contas e roupa de baiana, a aposentada Lucília Silva, 78, acompanhou o cortejo reforçando o sincretismo. "A gente agradece a Oxum e a Imaculada Conceição", afirmou.

Junto com uma multidão, ela seguiu a procissão após missa campal celebrada, às 9h, pelo arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, dom Murilo Krieger. Foram percorridos pouco mais de dois quilômetros, o cortejo passou pelas ruas Miguel Calmon e da Polônia e retornou pela Avenida da França à Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia. O trânsito foi interditado em algumas ruas do bairro por conta da celebração.

Na frente da dona da festa, no Comércio, outros santos abriram o caminho para passagem da homenageada. As imagens de Santa Bárbara, Senhor do Bonfim e São José foram aplaudidas antes dos fogos, balões brancos e papéis picados que anunciaram a saída da padroeira da Bahia da igreja para percorrer as ruas do bairro. Um corredor com fiéis segurando cerca de vinte bandeiras de municípios baianos contribuíram com o colorido.

Foi só a imagem da santa deixar a igreja que a aposentada Maria Conceição Amorim, 74, se segurou no andor e percorreu toda a procissão assim, embaixo da estrutura.

“A minha devoção vem do coração. Meu pai que escolheu o meu nome, a gente não pode deixar de vir agradecer as graças”, afirmou.

Também estavam previstas missas, alvoradas e procissões em homenagem à santa em outras paróquias da cidade, como em Itapuã, Periperi e Lapinha. Nesses bairros, a programação se concentra no final da tarde. Em Itapuã, ocorre missa celebrada por dom Murilo às 16h30, seguida de procissão às 18h.

Crise política 

Em seu sermão no Comércio, dom Murilo tocou em temas da atualidade, listou os recentes atentados em Paris, destacou a crise política no Brasil, falou ainda sobre a insegurança e outros problemas relacionados ao tráfico de drogas na capital.

"Vemos a falta de bom senso de nossos legisladores em buscar o diálogo e em pessoas que estão apenas buscando o resultado dos seus interesses pessoais”, disse ele sobre o cenário político. Após listar essas situações, amarrou: “estamos todos à procura de esperança”.

No final da missa no Comércio, dom Murilo agradeceu a prefeitura pela estrutura montada para a festa.

“No ano passado, tivemos problemas com a fragilidade do palco e tivemos que fazer a missa dentro da igreja com muitos do lado de fora. A mesma boca que criticou hoje vem agradecer a prefeitura pela estrutura deste ano”, comentou.  

Em 2014, o palco foi considerado pequeno pela igreja e a segurança da montagem foi questionada. Na época, o prefeito ACM Neto se desculpou publicamente pela estrutura.

Celebração de fé

Apesar da presença de alguns jovens, a aposentada Marilene da Paixão, 56, sente um esvaziamento da festa a cada ano.

“Os jovens estão perdendo a fé”, acredita ela, que lembra que houve anos em que teve dificuldade de entrar na igreja devido ao público e hoje, apesar da aglomeração em frente à igreja, conseguiu com facilidade levar até a santa as flores azuis que comprou. De acordo com a Polícia Militar, cerca de 3.500 pessoas participaram da missa campal e da procissão.

A estimativa foi informada pelo major Ibrahim de Almeida, comandante 16ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM/Comércio). Para quem foi pela primeira vez na festa, como a dona de casa Maria de Lourdes Souza, 72, a quantidade de pessoas impressionou.

“Meu coração é dela, de Maria. Eu moro em Aurelino Leal (Sul do estado) e ela é a padroeira de lá. Então todo ano, eu estou na festa lá no interior. Essa igreja aqui é muito linda e são tantas pessoas aqui em uma só fé que é de emocionar”, disse Maria de Lourdes. 

Para os comerciantes, que montam barracas em frente à igreja, o movimento este ano foi menor.  “Está mais vazio por ter caído um dia de terça-feira, muita gente viaja. Mas ao longo dos anos, a festa vem enfraquecendo”, afirmou o comerciante Ademilton Santos, conhecido como Boca. Ele conta que “religiosamente” vende drinques nas festas de largo da região. 

Para o Padre Adilton Lopes, pároco da basílica, o que tem ocorrido é uma descentralização das visitas dos fiéis. “São mais de 30 mil pessoas que passam na igreja ao longo do dia, desde a missa das 5h, logo depois da alvorada, que este ano estava bastante cheia, até a noite. São várias celebrações”, pondera. 

História

A primeira vez que uma imagem de Nossa Senhora da Conceição desembarcou em Salvador em 1549, trazidas pelos jesuítas que acompanhavam o então governador.

No livro: Festas Populares da Bahia, do jornalista Nelson Cadena, há a lembrança de que o nome da paróquia ganhou o nome de Conceição da Praia pôr na época o local ainda ser uma praia, aterrada no início do século XX. Era uma festa de pompa, que exigia figurino impecável da elite da época.

A festa mudou de perfil e chegou a um processo de decadência, para os historiadores, a partir do momento em que houve a mudança do perfil dos moradores na região, a partir dos anos 40/, com ocupações por pessoas de baixa renda na região da Ladeira da preguiça.






Morro da Conceição acolhe adeptos de diversas religiões no Recife



A dona de casa Luciene da Silva Tenório, 55 anos, mora na Rua Morro da Conceição e há dez anos deixou de seguir os preceitos católicos para se converter ao protestantismo. 

Hoje frequentadora da Assembleia de Deus, localizada na mesma rua, ela conta que respeita as tradições que lhe cercam, em especial nesta época de homenagem à santa.

“Antes a maioria era católica, mas aí abriu essa Assembleia e depois uma Presbiteriana. Com essas duas igrejas as pessoas têm buscado mais o evangelho. Mas todos se respeitam e aceitam as crenças do próximo”, pontuou.

A “ex-católica” ainda aluga a garagem de sua casa para ser a sede de uma igreja evangélica. Luciene relata que a festa de Nossa Senhora da Conceição só impede a realização de cultos no próprio dia 8 de Dezembro por causa do grande fluxo de pessoas no morro.

“Além de prejudicar o dia do culto, a festa só atrapalha quem mora por aqui, independente da região, no que diz respeito à circulação dos ônibus e a chegada da água encanada. Fora isso, poderia ter festa todos os dias que eu não me incomodaria”, comentou a dona de casa.

Já o babalorixá José Bonfim de Souza, 52 anos, mais conhecido como Pai Bonfim, acredita que as religiões católica e de matriz africana, como umbanda e candomblé, são mais próximas do que a maioria dos fiéis imagina. Há cerca de 15 anos os adeptos do candomblé de todo Estado saudavam a imagem de Nossa Senhora da Conceição, no Morro do Recife, como se a mesma representasse Iemanjá, celebrada na mesma data. Com o tempo, no entanto, esse espaço foi sendo tolhido e as oferendas à imagem reduzindo.

“Esse sincretismo vem do tempo dos escravos, quando eles não podiam adorar seus orixás e faziam suas homenagens aos santos católicos, mas na verdade estavam rezando para as divindades do Candomblé. Esse costume era reproduzido aqui no Morro da Conceição, mas agora nós não podemos mais fazer nossos rituais. Sentimos falta, mas temos que lutar contra essa resistência”, explicou o pai Bonfim.

Apesar das restrições, o babalorixá acredita que a proximidade com a santa torna as pessoas mais espiritualizadas, o que reduz a intolerância religiosa na região. No local, inclusive, existem apenas dois terreiros de candomblé, os quais são respeitados pelos demais moradores do Morro da Conceição. 

“Não vou dizer que não tem discriminação por causa da nossa religião, mas nós percebemos que aqui as pessoas respeitam quem segue as religiões de matriz africana”, pontuou o religioso. 

Festa de Iemanjá

Este ano o Projeto Orixamar ganha 2ª edição nesta terça-feira (08/12), dia de celebrar Iemanjá para os adeptos das religiões de matriz africanas. O evento promoverá shows, palestras, degustação gratuita de comidas de santo e a reunião de 14 terreiros de candomblé na praia de Barra de Jangada, em Jaboatão dos Guararapes. Milhares de pessoas são esperadas para a manifestação religiosa.





Mercado evangélico cresce ao apostar em consumidor fiel


De moda a aplicativos religiosos, segmento movimenta cerca de R$ 21,5 bilhões por ano.

Nos momentos mais difíceis, há quem diga que o socorro vem da oração. Esta frase pode até ser discutível, mas no contexto da crise que afeta o Brasil em 2015, não há como negar que a fé têm sido a tábua de salvação para muitos negócios. Em certos casos, literalmente.

Com 42,2 milhões de potenciais consumidores, segundo dados do Censo 2010 do IBGE, o mercado evangélico tem gerado cada vez mais oportunidades para quem busca empreender, e já conta com negócios de nicho e forte demanda por tecnologia. 

Marcelo Rebello, presidente da Abrepe (Associação Brasileira de Empresas e Profissionais Evangélicos) e organizador do Salão Internacional Gospel, afirma que o segmento vem passando por um processo de expansão ao longo dos últimos anos graças ao maior número de adeptos desta religião. De acordo com dados do IBGE, a quantidade de evangélicos cresceu 61% entre 2000 e 2010, enquanto a de católicos recuou 1,3% no mesmo período.

“Estimamos que os evangélicos movimentem cerca de R$ 21,5 bilhões por ano. É um público com bom poder de consumo, pois vive uma vida mais regrada e não gasta com bebida, cigarro ou balada. O mercado começou a se dar conta disso nos últimos 10 anos, e o número de empresas voltadas pra eles está crescendo”, diz.

Por seguirem os ensinamentos da Bíblia, muitos adeptos da religião optam por comprar produtos que estejam adequados à doutrina cristã, mas encontram dificuldades de encontrá-los em lojas convencionais, abrindo oportunidade para o surgimento de negócios especializados. 

“Um dos preceitos bíblicos é que a pessoa não pode ser sensual, e os comércios de moda evangélica oferecem peças que não marquem demais o corpo, atendendo a esta demanda”, exemplifica.

Segmentar é preciso 

Com o passar dos anos, esse público também vem se tornando mais exigente. Além de evitar uma roupa considerada vulgar dentro dos padrões da religião, muitos evangélicos desejam uma peça com estilo, elegante ou mesmo descolada, o que tem motivado a criação de alguns negócios segmentados. É o caso da Servos Cia, especializada em moda social masculina de alto padrão.

“O mercado evangélico já conta com grandes players, e hoje é preciso ter um diferencial para investir na área. Nossa aposta está no fato de o homem gostar de se vestir bem, mas encontrar altos preços em ternos de grife. Oferecemos produtos de qualidade similar, mas que saem muito mais barato em função da marca”, revela Anderson Finizola, proprietário da Servos Cia.

“Muitos negócios também têm apostado em roupas que atendam às exigências de diferentes doutrinas. Algumas mais ortodoxas, como os batistas, e outras mais liberais, que permitem até a criação de camisetas de moda jovem com frases bíblicas em contextos de skate e hip hop”, acrescenta Marcelo.

Apesar da grande quantidade de lojas especializadas em vestuário, o mercado evangélico não se restringe apenas a este setor. Com 22 anos de existência, a Estrela da Manhã comercializa brindes e presentes, como canetas e chaveiros, voltados para o público cristão. 

“Temos uma produção própria e investimos em itens de qualidade e bom preço. Porém, o mais importante é a mensagem, pois quem compra nossos produtos deseja tocar alguém com a palavra de Jesus. Para nós, não é apenas um comércio. É um trabalho de evangelização também”, afirma Cátia Coelho, sócia-proprietária da empresa.

Invasão tecnológica 

Marcelo ainda destaca outros segmentos que têm ganhado força entre os evangélicos. Para ele, o turismo religioso vem sendo impulsionado pelo aumento da demanda de viagens para Israel e pela participação dos fiéis em eventos e congressos. O setor de tecnologia também tem conquistado espaço, pois há pastores que despertaram para a necessidade de ter um melhor aproveitamento dos recursos de áudio e vídeo na comunicação com os fiéis.

“Grande parte das igrejas já transmite seus cultos ao vivo pela internet, e isso gera a necessidade de serviços de edição, por exemplo. Além disso, hoje existem redes sociais para evangélicos e aplicativos de pregação online que permitem o contato do fiel com o pastor em tempo real”, revela.

Por lidar com um público que tem costumes e linguagem próprios, o empreendedor que pensa em investir neste segmento não precisa ser evangélico, mas deve entender e respeitar o universo do cliente para ter sucesso. 

“Conhecer bem o mercado é a regra básica para o sucesso de qualquer empresa. Então, quem é evangélico já tem uma grande em vantagem neste ponto”, encerra Anderson.