quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Como o Alcorão é manipulado para justificar o terrorismo de radicais islâmicos? – Por Talita Marchao


Para insurgentes e terroristas de inspiração islâmica, a justificativa para o uso da violência está nas palavras do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos. 

E para quem lê os versículos isoladamente, sem levar em contra o contexto em que ele é citado e a época da qual ele se refere, algumas palavras podem parecer um convite para a barbárie, mas não são.

"Extremismo surge quando há terreno fértil, e o fanatismo religioso, em geral de todas as religiões, é igual ao mosquito da dengue: precisa de água parada para procriar e se espalha rapidamente", analisa o xeque Rodrigo Rodrigues, da mesquita do Pari, em São Paulo. 

"Em qualquer situação e problema social, econômico ou político, tudo isso é propício. As pessoas conseguem ter visões apocalípticas de qualquer texto sagrado, e assim os textos corânicos ganham um significado totalmente deturpado", explica o xeque Rodrigues.

Hani Hazime, especialista em estudos islâmicos da UFRJ, lembra ainda que os grupos radicais elegem versículos que incentivam a lutar contra os infiéis e ignoram completamente o que está escrito antes e depois, e muitas vezes são trechos que explicam, contextualizam e até deslegitimam o banho de sangue proposto por estes grupos em suas próprias interpretações. 

"O Alcorão nunca falou em luta contra os cristãos, por exemplo. No livro, são citados como 'o povo da Bíblia', mas nunca como inimigos".

Na verdade, a mensagem islâmica transmitida no Alcorão tem a mesma base do judaísmo e do cristianismo. "O Alcorão fala bastante dos judeus, dos cristãos, isto porque existe afinidade do Islã com os fiéis destas religiões, por causa de suas origens. Então os muçulmanos não são contra estas pessoas, a não ser que eles lutem contra outros muçulmanos", diz o xeque Jihad Hammadeh, da Wamy (Assembleia Mundial da Juventude Islâmica).

Aliás, o próprio nome do xeque Jihad Hammadeh tem o significado deturpado pelos terroristas. A jihad, traduzida por extremistas como "guerra santa", na verdade significa empenho, esforço, batalha pelo bem. "Qualquer pessoa que faça um bem está em uma jihad. E isto inclui desde recolher o lixo do chão até a defender a pátria com a sua própria vida", explica o xeque Hammadeh.

Apesar de os trechos fazerem referências ao uso da violência, é preciso interpretá-lo de acordo com o contexto do capítulo, sura ou surata, como o Alcorão é dividido. Muitos foram revelados pelo profeta Maomé durante guerras, e citam frequentemente os idólatras. O xeque Rodrigues explica que os idólatras eram os povos que viviam em Meca antes da revelação do Alcorão. 

"Eles adoravam ídolos, estátuas, dezenas de deuses, eram pagãos da Árabia primitiva que negavam a mensagem de Maomé e a combatia em guerras", diz o xeque Rodrigues.

A própria sharia, lei islâmica que tem como base os ensinamentos do Alcorão e na biografia do profeta Maomé, deriva de interpretações, no caso do Estado Islâmico (facção terrorista que controla partes da Síria e do Iraque), uma legislação em uma versão brutal. É por causa de sua própria interpretação, por exemplo, que a Arábia Saudita proíbe as mulheres de dirigirem, e que o Irã condenou Sakineh Mohammadi Ashtiani à morte por apedrejamento por adultério.

A pedido do UOL, alguns dos trechos usados pelos grupos radicais para justificar o uso da violência foram analisados pelos xeques Hammadeh e Rodrigues. A versão do Alcorão apresentada nesta reportagem é a traduzida para o português pelo professor de árabe da USP Helmi Nars.

Veja as interpretações:

 2- A sura da vaca

191. E matai-os, onde quer que os acheis, e fazei-os sair de onde quer que vos façam sair. E a sedição pela idolatria é pior do que o morticínio. E não os combatais nas imediações da Mesquita Sagrada, até que eles vos combatam nela. Então, se eles vos combaterem, matai-os. Assim é a recompensa dos renegadores da Fé.

Xeque Hammadeh: O versículo tem um contexto. Houve um acordo com os idólatras, inimigos dos muçulmanos. O acordo premia que os muçulmanos viajariam com segurança, sem serem incomodados, e vice-versa. Mas um grupo isolado rompeu o pacto e matou alguns muçulmanos. Então, Deus revelou este versículo, prevendo a pena de morte. Mas como o acordo não foi quebrado por todos, a punição não é aplicada a todas as pessoas. Por isso, Maomé pede para buscar os que quebraram o acordo e os mate.

Xeque Rodrigues: Quem interpreta este versículo como um incentivo à violência ignora o 190, dizendo que o muçulmano só combate quando é agredido e ele não pode ser o primeiro a agredir. 

Neste contexto, os idólatras, o povo de Meca, tinha expulsado o profeta Maomé e seus seguidores, mataram muitas pessoas, e foi travada uma guerra aberta com os muçulmanos. E o trecho diz: expulsaram vocês? Expulse-os. Matou vocês? Mate-os. É aí que está o problema destes movimentos que usurpam os versículos: eles usam este versículo como se fosse escrito sobre hoje. Chegam na França, onde pessoas estavam se divertindo em um bar, em um restaurante, e detona uma bomba. 'Combato aquele povo', dizem. Mas eles são os idólatras de Meca? Que agressão aquelas pessoas fizeram para iniciar uma guerra?

 5- A sura da mesa servida

33. A recompensa dos que fazem guerra a Allah e a Seu Mensageiro, e se esforçam em semear a corrupção na terra, não é senão serem mortos ou serem crucificados ou terem cortadas as mãos e os pés, de lados opostos, ou serem banidos da terra. Isso lhes é ignomínia, na vida terrena, e, na Derradeira Vida, terão formidável castigo.

Xeque Hammadeh: Este versículo fala justamente de terrorismo. Deus fala para as pessoas que praticam o terror que esta é a punição para crimes tão graves como colocar a vida das pessoas em risco, criar terrorismo na sociedade, para que sirva de lição para as pessoas. Existe um castigo severo.

Xeque Rodrigues: O contexto histórico deste versículo retrata os que combatem a Deus e seus mensageiros, atacando os muçulmanos, tomando seus bens, os expulsando de suas terras. Fala sobre o revide quando o muçulmano é atacado. Mas um radical tira este versículo do contexto e o usa, por exemplo, no caso do jornal "Charlie Hebdo". Eles acham que o jornal está fazendo charge, debochando do profeta, do Alcorão, e Deus mandou puni-los. Mas em um Estado islâmico de direito, e em qualquer outro Estado constituído efetivamente, onde existem leis, direitos e deveres para todos os cidadãos, quem decide as punições é a Justiça. Os EUA têm pena de morte, não tem? Este versículo é um dos usados também na Arábia Saudita para julgar alguns crimes, como latrocínio. E sempre quem decide quem morre é a Justiça.

9- A sura do arrependimento

3. E é uma proclamação de Allah e de Seu Mensageiro aos homens, no dia da Peregrinação maior: que Allah e Seu Mensageiro estão em rompimento com os idólatras, então, se vos voltais arrependidos, ser-vos-á melhor. E, se voltais as costas, sabei que não escapareis do castigo de Allah. E alvissara, Muhammad, aos que renegam a Fé doloroso castigo.

5. E, quando os meses sagrados passarem, matai os idólatras, onde quer que os encontreis, e apanhai-os e sediai-os, e ficai a sua espreita, onde quer que estejam. Então, se se voltam arrependidos e cumprem a oração e concedem az-zakãh¹, deixai-lhes livre o caminho. Por certo, Allah é Perdoador, Misericordiador.

Xeque Hammadeh: Este versículo fala sobre o período de 4 meses sagrados em que as tribos árabes fazem um pacto: nos meses da peregrinação, qualquer guerra que existisse seria interrompida. As pessoas estão indo e vindo em paz, no caminho para adorar a Deus. Deus diz para o profeta Maomé que se existir alguma guerra com os idólatras, já que eles eram os maiores inimigos dos muçulmanos, ela deve ser parada. 

Após este período, o conflito pode ser retomado, a não ser que eles queiram a rendição, um acordo ou que se convertam ao Islã. O que se fala muito é que os muçulmanos sempre estão em constante guerra com os não-muçulmanos, e isso não é verdade. Existem guerras em alguns momentos por causa de agressões. Fora isso, estamos em constante paz, independentemente da religião do outro.

Xeque Rodrigues: Quando começou a guerra entre os muçulmanos e o povo de Meca, e os muçulmanos dominaram toda a Arábia, Deus avisou que os idólatras deveriam devolver a cidade de Meca sem enfrentamentos. Eles teriam quatro meses para fazer um acordo, se converter ao islamismo ou entregar Meca. Depois deste prazo, a anistia se encerraria. E quem não cedesse às armas e seguisse armado, enfrentaria a guerra.

111. Por certo, Allah comprou aos crentes suas pessoas e suas riquezas, pelo preço por que terão o Paraíso. Combatem no caminho de Allah: então, eles matam e são mortos. E promessa, que, deveras, Lhe impende, na Tora e no Evangelho e no Alcorão. E quem mais fiel a seu pacto que Allah? Então, exultai pela venda que fizestes. E esse é o magnífico triunfo.

Xeque Hammadeh: Este versículo incentiva as pessoas a lutarem pela causa de Allah. O que seria esta causa? A Justiça, tudo o que Deus aprova, como legítima defesa, se nós formos agredidos. Por exemplo, se eu enfrento um ladrão, um bandido, um agressor que quer estuprar uma mulher, e eu salvar a vítima, mas morrer na tentativa de contê-lo, isto não é considerado suicídio. É um ato de heroísmo aprovado por Deus. Como muçulmano, terei como recompensa o Paraíso, já que eu defendi a causa de Allah. Estou fazendo algo positivo. É um ato de violência, mas para o bem. Este é o cerne da questão: se é para o bem ou para o mal, se Deus aprova ou não. E a causa de Allah não é matar não-muçulmanos. Se o bandido for muçulmano, como é este grupo que se denomina Estado Islâmico, mas que na verdade é pseudoislâmico, os que estão lá e morrem os enfrentando são heróis.

Xeque Rodrigues: Esse versículo também foi usado pela Al Qaeda, de Osama bin Laden. Ele fala na guerra, para os que têm medo de se sacrificarem, de deixar para trás as casas, famílias, bosques, em vez de defender a religião, a cidade, os filhos. Que eles saibam que Deus já cuidou de tudo. Mas este trecho é usado pelos grupos porque eles justificam o uso da violência usando as palavras deste versículo, para matar pessoas que não têm nada a ver com a história. Mas estas palavras são usadas, na verdade, por todos os lados, Como um comandante do Exército Livre da Síria (opositor) vai falar para os soldados enfrentarem o Exército do ditador Bashar al-Assad? Ele usa este versículos e argumenta para seus homens: 'como você vai construir um futuro para os seus filhos? Não existe sacrifício sem derramamento de sangue.'

 47- A sura de Muhammad

4. Então, quando deparardes, em combate, os que renegam a fé, golpeai-lhes os pescoços, até quando os dizimardes, então, acorrentai-os firmemente. Depois, ou fazer- lhes mercê, ou aceitar-lhes resgate, até que a guerra deponha seus fardos. Essa é a determinação. E, se Allah quisesse, defender-Se-ia deles, mas Ele vos ordenou a guerra, para pôr-vos à prova, uns com outros. E aos que são mortos, no caminho de Allah, Ele não lhes fará sumir as boas obras

Xeque Hammadeh: Este é mais um caso em que o contexto traz o conceito de legítima defesa. O que tem na guerra? Espadas. Então Deus diz que, se vocês encontrarem as pessoas com quem estão em guerra, que os expulsa de suas residências, que os agrediu, tiraram sua dignidade, então as vítimas estão livres para resgatar isto, mas só se for legítimo. E qual é a definição disto tudo: matar, acabar com a guerra, quando se ganha ou perde, ou com a existência de um acordo que deve ser cumprido. E muitas vezes as pessoas questionam: mas por que Deus está fazendo isto comigo? Deus está testando a sua fé e se você merece mesmo esta Justiça, terá que lutar por ela.

Xeque Rodrigues: É um versículo que foi revelado em uma guerra. Fala dos incrédulos na batalha, então deve-se considerar que o oponente é um idólatra, não-muçulmano em guerra contra a religião dele. E como é que estes grupos radicais fazem para justificar o uso deste trecho? Eles dizem que a pessoa deixa de ser muçulmana porque não os apoiam. Se não apoia a sua causa, o incrédulo pode ser até mesmo próprio muçulmano. A Al Qaeda usou esta argumentação, o EI usa também. Na Síria, os diferentes grupos radicais consideram seus rivais como incrédulos, mesmo que sejam todos muçulmanos. Quem não aceita o julgamento do EI se converte no incrédulo que o Alcorão mandou matar. E os muçulmanos que não aceitam esta interpretação são os primeiros a morrer. E são vítimas duas vezes: primeiro destes grupos radicais, e depois do preconceito motivado por causa das ações destes grupos.

¹ Parte dos bens concedida em caridade




Encontro de bruxos em Cuiabá acontece mensalmente e desmistifica bruxaria, Wicca e paganismo - Por Isabela Mercuri


Esqueça o chapéu pontudo, a verruga no nariz, a boca desdentada e a pele toda enrugada. 

A imagem das bruxas que está no imaginário de grande parte da população não corresponde ao que se encontra todo primeiro domingo do mês, à tarde, em uma praça da Universidade Federal de Mato Grosso. É ali que acontecem os Encontros Regionais de Bruxos de Mato Grosso (EBM-MT). 

Realizado pela primeira vez na cidade em Outubro do ano passado, o encontro já vai para sua quarta edição e reúne para quem quer discutir o universo da bruxaria, Wicca e paganismo. A cada mês são escolhidos temas diversos: 


“A elaboração das palestras não se restringem somente ao âmbito da Magia, Bruxaria, Wicca e Paganismo, mas também, utilizamos conceitos da Antropologia, Psicologia e Filosofia para explicar melhor e proporcionar o desenvolvimento de conceitualizações coletivas, afim de diversificar o conhecimento e fornecer mais significância às experiências vivenciadas pelos presentes no evento”, explica Raphael Brandão,19, coordenador regional do ERB-MT,

Ele explica que a bruxaria, o paganismo e o Wicca são religiões interligadas e que não podem ser dissociadas. A primeira é uma “religião devocional, ciência e conjunto de práticas baseadas também nas forças da natureza, e a todos os significados divinos que são atribuídos a ela, com seus métodos de prática e da ritualística adotadas”. 

A Wicca é uma religião neopagã, que busca repaginar o paganismo original, sem perder sua base e suas raízes fundamentais, que são principalmente ligadas ao culto à terra. 

“Não há como distinguir esses três linhas, pois elas estão, de certa forma, muito associadas. Exemplo disso, o paganismo é uma base fundamental que se aplica à bruxaria e Wicca; na Wicca, a prática de bruxaria é essencial. Contudo, a bruxaria não se resume somente em Wicca, havendo também outros métodos e correntes ideológicas de praticar e que não seguem normativos da Wicca”, afirma o coordenador.

Os novos conceitos e ideias podem ser confusos, mas o principal objetivo dos encontros é esclarecer as dúvidas. A Coordenação Nacional do ERB não permite que sejam realizados, nos encontros, nenhum tipo de ritual, feitiço ou encantamento, restringindo as reuniões a conversas sobre os temas: 

“Contudo, é por meio dos encontros que vamos criando vínculos afetivos que proporcionam outros encontros mais específicos, como por exemplo, encontros para celebração de algum festival de bruxaria”, afirma Raphael.

Ele afirma, ainda,que o preconceito existente é grande. Mas a única forma de driblá-lo é “através do amor, esclarecimento, desmistificação e determinação”. Para quem quiser saber mais sobre o assunto, o encontro é aberto. Só não pode ir “os que não tem amor em si e não cultiva respeito a todas as pessoas”, alerta Raphael. 

O próximo ERB-MT acontece neste domingo (10), às 15h, na UFMT, em frente ao Restaurante Universitário. Mais informações no EVENTO. 




Acordo histórico entre as Igrejas da Inglaterra e da Escócia


As Igrejas de Inglaterra e da Escócia anunciaram nesta quinta-feira a assinatura de um "acordo histórico", que tem como objetivo reforçar os laços entre as duas regiões do Reino Unido e possibilitar um trabalho de maior união em especial nas questões sociais.

A "Declaração Columba", nome do acordo que deve ser apresentado no sínodo da Igreja da Inglaterra em fevereiro e na assembleia geral da Igreja da Escócia em maio, "reconhece a relação forte que já existe (entre as duas Igrejas) e vai ajudar a estimular e apoiar novas iniciativas", segundo um comunicado.

A declaração "afirma e reforça nossa relação em um momento particularmente crítico para a existência do Reino Unido", em referência aos referendos sobre a independência da Escócia, organizado em 2014, e sobre a permanência na União Europeia, que deve acontecer até o fim de 2017.

Além disso, permitirá aos pastores das duas Igrejas oficiar de maneira indistinta em seus locais de culto. Este anúncio, considerado "histórico" pelos líderes das Igrejas, tem um forte caráter simbólico, já que as duas, frutos da Reforma Protestante mas com evoluções diferentes, travaram embates violentos no passado, que levaram inclusive à guerra civil inglesa no século XVII.

"É praticamente inimaginável em nosso mundo secular de hoje, mas a divisão entre o anglicanismo e o presbiterianismo constituiu um dos episódios mais violentos da história britânica", destaca o jornal Daily Telegraph.