terça-feira, 5 de julho de 2016

O 'Deus Mercado' e a religião capitalista, segundo Jung Mo Sung – Por Tatiana Carlotti



Segundo especialista, a narrativa religiosa do neoliberalismo coloca a fé no Mercado como única possibilidade de salvação e culpa os pobres por sua pobreza.

Os aspectos religiosos do neoliberalismo e o proselitismo na comunicação foram temas debatidos pelos professores da Universidade Metodista, Jung Mo Sung (Ciências da Religião) e Magali Cunha (Comunicação). 

Eles participaram do seminário: “A Metafísica do Neoliberalismo e a Crise de Valores no Mundo”, promovido pelo Fórum 21, no último dia 2 de julho (sábado), no auditório da Fundação Escola de Sociologia e Política (FESP).

O evento é o primeiro de uma série de debates voltada à discussão do neoliberalismo hoje. A escolha do tema, explica Anivaldo Padilha, presidente do Fórum 21, deve-se ao caráter sagrado atribuído ao mercado que congrega os atributos da “onipotência, onipresença e onisciência”. Uma espécie de “deus Mercado” que vem fracassando, sistematicamente, “em termos de justiça social e de igualdade entre os homens”. 

Daí a pergunta: por que o capitalismo atrai tanto? 

Segundo o professor Jung Mo Sung, a compreensão dos aspectos religiosos do capitalismo é fundamental para o entendimento não apenas de sua atração, mas também do que se passa hoje no Brasil. Mostrando, a partir de imagens, os ícones (Ferrari, bolsas Louis Vuitton), templos (shopping centers), igrejas (institutos von Mises) e mitos do neoliberalismo, Sung destrinchou a narrativa religiosa e sedutora, por trás do discurso neoliberal. 

“Antes, quando as pessoas se sentiam pecadoras ou impuras, elas iam à Igreja para recuperar a humanidade e a pureza. Hoje, quando se sentem tristes, elas vão ao shopping. Verdadeiras catedrais modernas”, apontou. 

Não é de se estranhar, portanto, a forte semelhança arquitetônica entre as catedrais e os shopping centers (confiram a imagem acima).

Os mitos do desenvolvimento

Ao longo das décadas de 1960 e 1970, a teoria econômica (da esquerda e da direita) foi embalada por dois mitos principais. Primeiro, a crença de que o “bom da vida era aumentar o poder de consumo”. Sung destacou que, frente a essa ideia, a modernidade promoveu uma inversão: o “bom da vida” passou a ser possível dentro da história (via consumo) e não mais restrito ao pós-morte”. 

O segundo mito era que “o padrão de consumo dos países ricos poderia ser universalizado”, fortalecendo “a ideia de que todos os seres humanos têm direitos”. 

Sung também mencionou que a discordância entre os economistas marxistas e liberais capitalistas se deu aos caminhos para se atingir essa universalização: o mercado ou a planificação estatal. 

O exemplo é simples: “Quando se privilegia o ajuste econômico no Brasil e se corta o dinheiro da Educação e da Saúde, por exemplo, é preciso justificar essa decisão. Quando se corta o pagamento de juros aos bancos, para privilegiar programas sociais, também é preciso justificar. Essas duas justificativas, porém, são completamente diferentes porque trabalham com duas estruturas míticas diferentes”. 

Em 1970, porém, esses mitos caíram por terra, quando da publicação de “Os Limites do Crescimento” (1972), pelo Clube de Roma. A obra reconhecia os limites do crescimento do sistema capitalista e a impossibilidade da universalização do padrão de consumo. “A primeira reação dos capitalistas foi dizer ´isso é bobagem´. Depois não deu mais para negar”, lembra. 

A Fé no Mercado

A partir de então, novos mitos foram construídos. Em 1974, em plena crise do petróleo, F. von Hayek, um dos teóricos do capitalismo, ganhava o Prêmio Nobel de Economia com a obra: “A Pretensão do Conhecimento”. Hayek sustentava que a crise do sistema tinha como principal causa a “pretensão dos economistas de saberem como o mercado funciona, porque toda intervenção pressupõe conhecimento”.

“A raiz de todas as crises”, explicou Sung, passou a ser a tentativa de compreensão do funcionamento do Mercado. Em termos míticos, “esse discurso neoliberal é uma reeleitura do mito da Gêneses”, que interditava a Adão e Eva os frutos da Árvore do Conhecimento. “Se não podemos conhecer as leis do Mercado, o que podemos fazer? Temos de ter fé no Mercado”.

Uma fé, destacou, de que “o mercado sempre vai produzir outros melhores resultados possíveis”. “Essa é a base epistemológica do neoliberalismo” que apresenta uma contradição lógica: “se você não pode intervir, porque não pode conhecer o mercado, como pode afirmar que ele sempre vai produzir melhores resultados possíveis? O salto lógico se tornou uma questão de fé”. 

Anos depois, ou prêmio Nobel, Milton Friedman, afirmaria: “os que são contra, no fundo, têm um problema de falta de confiança na liberdade do mercado”. Uma narrativa, frisou Sung, disseminada em todos os cantos do mundo, a partir da mídia e, também, da proliferação de institutos, como os institutos von Mises.

Sobre a obra de L. von Mises, “A Mentalidade Capitalista”, o professor avaliou: “é uma maravilha de livro de teologia”. Nela se defende a ideia de que “todo adulto é livre para montar a sua vida de acordo com os seus próprios planos, a partir de um conceito de liberdade pelo qual não existe o outro: sou eu e o meu desejo. É puro indivíduo”. 

Captura do desejo

Para L. von Mises, no sistema de mercado livre, “os consumidores são soberanos” e “desejam ser satisfeitos”. Mas, apontou Sung, “consumidor não é qualquer indivíduo” nesta lógica. “O nível é: todos somos humanos, mas nem todos os humanos são cidadãos, e nem todos os cidadãos são consumidores. O desejo soberano [se restringe] aos consumidores”.

Com base na impossibilidade de satisfação dos desejos, conforme alguns vão sendo satisfeitos, surgem novos desejos, von Mises chega a defender a avidez como “impulso que conduz o homem em direção ao aperfeiçoamento econômico”. Afirma, ainda, que “manter alguém contente com o que já conseguiu ou pode facilmente conseguir, sem interesse por melhorar suas próprias condições materiais não é uma virtude”.

“Essa é a tese teórica”, salientou Sung, lembrando que a sociedade vem criando mecanismos para, justamente, controlar a avidez do desejo individual.  “Nós somos seres infinitos na condição de finitude e o nosso desejo é infinito, mas, em uma economia escassa, não há satisfação para todos”. 

E se não há satisfação para todos, então, como lidar com a frustração? “A saída neoliberal é a criação de uma verdadeira teologia da culpa”. No capitalismo, todos somos alimentados pela frustração”, apontou.

Teologia da Culpa

“Se você não consegue ser o rei do chocolate, o campeão de boxe ou a estrela de cinema, você é o culpado. Essa é a teologia da culpa: o indivíduo passa a ser culpado pela sua própria frustração”, explicou. E trata-se de uma culpa que atinge a todos, começando pelos mais pobres. 

“Por que pobre é pobre? Porque é culpado. Ele merece a sua pobreza”. Segundo essa lógica, “o pobre que não pode comprar brinquedo para o filho assume a culpa duas vezes: pela pobreza e por sentir culpa em ser pobre”. Enquanto isso, o Mercado se consolida enquanto juiz transcendental. 

“Se a culpa é de todos, por conta da distribuição de riqueza, quem é o juiz que faz essa destruição? O Mercado. Mas, eu posso questionar o mercado? Não. Ele é inquestionável, está além do bem e do mal, do injusto e do justo”. Na medida em que não está sob o juízo humano, o Mercado se torna algo sagrado. “E o sagrado é aquilo que é separado do sistema profano, acima do juízo e do questionamento da justiça”, explicou. 

Sung também alertou: para o capitalista e para o neoliberalismo, o verdadeiro o problema “está nas pessoas que acreditam que os seres humanos têm direitos”.

Direitos Humanos

Ele explicou que o pensamento liberal moderno foi fundado na tradição neotestamentária. Segundo essa tradição, primeiramente, “todos os homens são iguais perante a Deus. Depois, todos os homens passaram a ser iguais perante as leis; e, de acordo com a razão moderna, a essência humana traz consigo direitos implícitos”. 

São justamente esses direitos implícitos, denunciou, que estão sendo rejeitados pela teoria pós-moderna ao defender que “tudo é cultural”, inclusive, “afirmar que a natureza humana dá direitos é cultural”. Sob essa ótica, “o grande erro das esquerdas e dos humanistas é acreditar que ser humano tem direito por natureza. Não tem. Quem não conseguiu direitos no contrato do mercado, não tem direito nenhum”.

Essa é a narrativa dos que criticam programas sociais como o Bolsa Família ou o Mais Médicos. “Se pobre não tem direito a comer, porque não tem direito, o que é um programa social como o Bolsa Família? Um roubo. Você tira de quem tem direito e o ganhou justamente via Mercado - e passa para quem não tem direito”. 

Daí a inversão, situou Sung, já que “os defensores dos direitos dos pobres e dos programas sociais tornam-se os grandes malfeitores da humanidade”. A violência explode: “eu estou frustrado porque esse desgraçado de esquerda continua querendo o meu imposto para dar para esses pobres desgraçados. De quem é a culpa da minha frustração? Da esquerda e dos pobres. Aí eles colocam fogo no mendigo”, destacou. 

Deveres

Quando o então ministro Alexandre Padilha (Saúde) comemorava o sucesso do Mais Médicos, ele estava reafirmando não apenas o direito das pessoas à Saúde, mas o dever do Estado para com elas. No entanto, muitas pessoas foram contra o programa e retrucaram: “eles não têm direitos e nós não temos deveres. Isso é um roubo”. “Tratam-se de duas estruturas de pensamento diferentes. Saber isso nos ajuda a compreender a agressividade”, explicou.

Em sua avaliação, sempre existiram egoístas exagerados, a diferença é que antes, “as pessoas tinham vergonha de ser publicamente egoístas, porque havia uma pressão cultural. Hoje, elas têm orgulho. Depois que passar a vergonha do Temer, vai continuar esse orgulho e ele vai continuar enquanto esse modelo civilizatório prevalecer”. 

A lógica da Responsabilidade

Segundo Sung, “nós retornamos a um debate surgido no século XVIII: o ser humano tem direitos? Para os defensores do neoliberalismo, esses direitos são vistos como ´coisa de bandido´. O processo tecnológico chegou ao ponto de destruir as bases humanistas do mundo moderno”.

A saída, apontou, “está na luta social”. Uma luta que, em última instância, pressupõe “a descoberta dos direitos fundamentais de todos os seres humanos”. Sung também alertou: “culpa e humilhação não acabam quando você come. Quando você come, você mata a fome. Isso vai aparecer em violência familiar, em neuroses, loucuras. E quem se sente culpado não luta”. 

Em sua avaliação, “para sair desse entrave é preciso lembrar que apenas um mito combate outro mito”. Citando a experiência do apóstolo Paulo de Tarso que, em pleno Império romano, conseguiu criar comunidades de resistência, Sung avaliou que “Paulo tem algo a nos ensinar”, sobretudo, quando afirma:

“Enquanto ainda éramos inimigos de Deus, Deus se reconciliou conosco” (Rom 5,10).

Essa citação, analisou, é uma “crítica radical à ideia de Deus norteadora das culturas de opressão, que pressupõem um Deus que culpa e pune. E não um Deus, não importa aqui se existe Deus ou não, que humaniza o ser humano e se reconcilia. Antes de qualquer articulação cultural, todos os seres humanos têm direito à vida”. 

A proposta de Paulo, avaliou, abre uma fenda na “lógica da culpa” e nos permite entrar em outra lógica: a da responsabilidade. “É preciso responder aos problemas sociais. A lógica da responsabilidade nos chama à ação. A lógica da culpabilidade apenas aponta o culpado. E apontar culpados não resolve nada”, concluiu.

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Jung Mo Sung, autor de diversos livros, entre os quais: “Mercado, religião e desejo: o mundo de hoje na perspectiva da Teologia da Libertação” (Suhae Munjip, 2014); “Para além do espírito do Império" (Paulinas, 2012) e “Deus em nós: o reinado que acontece no amor solidário aos pobres" (Paulus, 2010).






Lamya, 18 anos. Escrava do estado islâmico durante 20 meses - Por Sofia Lorena


Simplesmente por pertencer à comunidade yazidi, ligada aos curdos, a jovem iraquiana Lamya Taha foi vendida e violada até pensar que não aguentaria mais. Mas sobreviveu. Para contar a sua história. 

Dizem que os yazidis são adoradores do diabo, mas eles sabem que o diabo são os outros. A religião deles é muito antiga, anterior a Cristo e a Maomé, provindo diretamente dos sistemas de crenças da Mesopotâmia. Mas desde que os muçulmanos existem, os yazidis vivem entre eles. 

Por professarem uma religião de sincretismos num mundo islâmico fundamentalista, os yazidis sempre foram perseguidos e hoje estão espalhados pelo mundo. Em 2010, sobravam uns 800 mil, a maioria no Iraque. Hoje, depois de Saddam Hussein e dos extremistas, ninguém sabe quantos são.

Estejam onde estiverem, os yazidis acreditam que o dia do julgamento final vai acontecer no templo de Lalish, a montanha do Curdistão iraquiano. É dali, dizem, que se separam os caminhos: para um lado, o inferno; na direção oposta, o paraíso. 

Em Lalish há uma serpente e é desta que os ignorantes falam quando os acusam de adorar o diabo. O que eles não sabem é que foi com esta serpente que Noé tapou o buraco da arca e, assim, a vida pôde continuar.

O pediatra Mirza Dinnay sabe bem o que é resgatar crianças atiradas ao inferno. Lamya Taha exibe as marcas do diabo no rosto, mas continua a adorar a vida e ainda quer ser professora. Tem 18 anos e a cara desfigurada pela bomba que explodiu quando fugiu de quase dois anos de cativeiro impensável. O impensável chama-se Isis (o autodenominado Estado Islâmico). A bomba tirou-lhe o olho direito e deixou-lhe o esquerdo com a visão 90% reduzida.

As piores marcas são as que não se veem. O pediatra Mirza sabe disso. Afinal, é ele quem cuida de Lamya e procura resgatá-la para uma nova vida. 

Conversão ou morte

“Sou uma das milhares de moças yazidis capturadas pelo ISIS (sigla em inglês para Estado Islâmico do Iraque). Eu e toda a minha família fomos capturados em Agosto de 2014 em Korcho, a nossa aldeia. Os combatentes chegaram e disseram: ‘têm três dias para se converter ao islão ou serem mortos’”, conta Lamya, com Mirza a fazer de intérprete.

Quando os combatentes chegaram, o terror estava apenas começando. “No fim desses três dias, obrigaram-nos a ir para a escola da aldeia. Separaram as mulheres e as crianças dos homens. Levaram os homens lá para fora e mataram-nos. Depois, transportaram-nos para outra zona e foi aí que nos dividiram, mulheres para um lado, moças para outro”, descreve. 

Na aldeia, diz Mirza, viviam 1900 pessoas, 400 eram homens, como o pai de Lamya que ela nunca mais viu; os outros eram mulheres e crianças. 

“As moças, como eu, fomos para Mossul (a segunda maior cidade do Iraque, no Norte do país, sob controle dos jihadistas). As mulheres mais jovens e as crianças pequenas foram levadas para Tal Afar (outra cidade). As mais velhas foram mortas”, conta a jovem. 

“Depois de uns dias, levaram-me, a mim e à minha irmã, para Raqqa (a cidade síria que os membros do Isis chamam de capital do seu autoproclamado 'califado'). Um combatente saudita nos levou e nos violou, as duas no mesmo dia, antes de nos devolver ao grupo”.

Vendida e comprada

Foi então que Lamya foi vendida e comprada pela primeira vez. Tinha 16 anos e pensou que não aguentaria. 

“Um dos emires, um saudita, comprou-me e levou-me. Torturou-me, espancou-me, violou-me e eu cortei os pulsos, tentei matar-me. Estive três dias no hospital e, logo a seguir, ele levou-me para Deir Ezzor, outra cidade da Síria. Tentei fugir e passei uns dias com uma família. Mas eles me denunciaram e fui capturada outra vez”, recorda Lamya, franzina e frágil, vestindo camiseta branca e trazendo um fio ao pescoço.

Por tentar fugir, foi punida com nova dose de espancamentos e violações. 

“Depois, quiseram levar-me para Caim, no Iraque, mas eu saltei do carro e fugi. Capturam-me num controlo do ISIS e voltei para Deir Ezzor. Enfiaram-me numa prisão, e violaram-me seguidamente sem me darem comida nem água. Entregaram-me a um outro combatente e fui escrava deste durante três meses. Este vendeu-me a um que era o responsável por fazer as bombas.  Além de me estuprar, ele me obrigava a construir explosivos. Passados outros três meses, consegui fugir e voltei a ser capturada”, conta, num só fôlego. 

“Levaram-me de volta para Mossul, para ser julgada num tribunal da shaaria (lei islâmica). Devia ser morta ou ser mutilada, ficando sem os pés, por ter fugido. Decidiram matar-me, mas veio outro saudita que perguntou se me podia comprar. Primeiro, espancaram-me até todo o meu corpo sangrar por todos os lados. Depois, deixaram que o saudita me levasse para o mercado de escravos”, lembra. 

“Fui comprada por um médico iraquiano que era muito mau para mim. Passei um ano com ele, ele comprava e vendia moças yazidis o tempo todo”.

A grande explosão

Lamya não estava sozinha e conseguiu convencer duas outras yazidis a fugir com ela. Determinada, entrou em contato com uns familiares afastados para lhe enviarem um contrabandista. 

“Consegui escapar com duas amigas, uma de 18 anos, outra de oito. Fugimos de noite, mas perto da fronteira com o Curdistão uma delas pisou uma bomba e houve uma grande explosão. Elas morreram e eu perdi o meu olho direito e fiquei com a cara assim, quase cega do olho esquerdo. Um contrabandista levou-me ao Curdistão”.

Além do pai, um irmão de Lamya foi assassinado. Duas irmãs já estão na Alemanha, onde Lamya chegou há um mês; como ela, foram resgatadas pela organização do pediatra Mirza. Outro irmão, com 12 anos, foi forçado a combater durante um ano nas fileiras do ISIS. “Conseguimos resgatá-lo e está no Curdistão. A mãe dela e outro irmão estão desaparecidos até agora”, diz Mirza. 

“O plano é reunir os sobreviventes da família na Alemanha”, explica o pediatra. Mas nos campos de deslocados no Norte do Iraque não faltam “outros casos de moças que precisam de cuidados médicos e psicológicos e de quem as acolha depois do trauma” do cativeiro. “As condições em que vivem no Iraque são terríveis”, diz o eurodeputado Josef Weidenholzer, que visitou os campos e sabe do que fala Mirza. O médico Mirza vive entre o Curdistão e a Alemanha, dedicado  a resgatar crianças daquele inferno.

No Iraque, lembra Mirza, “são raríssimos os profissionais da psicologia, e não existe uma infraestrutura para acolher este tipo de refugiado que carrega terríveis feridas escondidas. “Em todo o Curdistão, há vinte psiquiatras para atender milhões de pessoas. E há mais de seis mil crianças que passaram meses e anos em cativeiro”, descreve.

“Estas pessoas estão muito traumatizadas, vivem em campos de tendas sem qualquer ajuda, o apoio médico e psicológico é quase inexistente”, diz. “Há crianças de seis anos que ainda acordam às 6 horas da manhã para rezar com medo de serem mortas pelos homens do ISIS. Não perceberam que já não estão em cativeiro”.

Ainda em fuga

Na Grécia, conta o médico, há 4700 refugiados yazidis em diferentes campos. “Fugiram da discriminação que sofriam no seu país, mas estão em campos onde continuam a ser discriminados. Sabemos que 231 escaparam dos campos o mês passado porque os refugiados sírios muçulmanos queriam obrigá-los a fazer jejum durante o Ramadão. Houve uma rapariga que se suicidou há dias. Temos de tira-los de lá”.

Os yazidis e todos os refugiados que permanecem na Grécia estão também vulneráveis aos traficantes. São 15 mil ao todo, quase cinco mil são yazidis. E entre estes, há os 470 identificados.

Lamya fugiu em abril em direção ao Curdistão iraquiano. Na Alemanha, ela ainda não tem estatuto de refugiada. Foi levada ao país pela associação do pediatra Mirza. Tem um visto de curto prazo, três meses, para tratamento médico. Mas Mirza vai tentar mantê-la lá, impedir que regresse às tendas do Iraque, onde não tem nenhuma perspectiva de sobrevivência.

Ainda há 3 mil yazidis escravos do ISIS, lembra a jovem. “Gostaria que todos fossem resgatados”, diz Lamya. “A situação das mulheres e das crianças que conseguiram fugir é muito ruim. Espero que outros países as queiram acolher”.

Quem são os yazidis?

Os yazidis, membros da comunidade à qual pertence Lamya Taha, têm sido perseguidos ao longo dos milênios, vítimas de vários genocídios e do ódio, tanto de cristãos como de muçulmanos. Agora, ameaçados de extermínio pelo Estado Islâmico, começaram a treinar, no Curdistão, para pegar em armas. Dizem que estão “em busca de vingança” pelos familiares que perderam nos massacres dos últimos anos.

Povo da mesopotâmia em fuga perpétua, os yazidis são etnicamente curdos, mas distinguem-se pela religião que praticam. Monoteístas, pré-cristãos, misturam elementos de várias tradições, especialmente do zoroastrianismo, que foi culto majoritário na antiga Pérsia, mas também do islão e do cristianismo.

Segundo a religião yazidi, Deus colocou a terra sob a proteção de sete divindades (anjos). A principal, Melek Taus, o Anjo-Pavão, é também conhecida pelo nome Shaytan, o mesmo que o Alcorão dá a Satanás. Isto leva a que muitos muçulmanos, em particular os mais radicais, vejam os yazidis como “adoradores do diabo”.

Para agravar os desentendimentos com outras religiões da área em que vivem, os yazidis acreditam na reencarnação e não seguem nenhum livro sagrado. 

A esmagadora maioria dessa comunidade caracterizada pelas suas tradições orais, entre 200 a 600 mil, vive na planície de Nínive (a antiga capital da Babilônia), no norte do Iraque. Mas a diáspora não para de crescer. Estima-se que existam entre 20 a 50 mil na Alemanha, 10 a 20 mil na Síria e entre 70 a 110 mil na Armênia, na Geórgia e no Azerbaijão.

O monte Sinjar tem-lhes servido de refúgio, mas muitos já não querem voltar: “Não sei, não sei se algum dia poderemos voltar. Já não queremos voltar para o Sinjar. Se as coisas continuarem como estão agora, não queremos voltar. Se voltássemos hoje, estaríamos todos mortos amanhã”, explica um refugiado que conseguiu fugir ao cerco dos extremistas do Estado Islâmico.

O massacre de yazidis está também servindo de justificação moral para o Ocidente armar os curdos pechmerga, os únicos que, no terreno, parecem capazes de poder travar o avanço do Estado Islâmico que já declarou um califado numa vasta região que abrange o norte do Iraque e o leste da Síria.

Os yazidis, hoje, só pedem uma coisa: “salvem-nos” do Estado Islâmico.