domingo, 27 de dezembro de 2015

A Vida de Brian: Pelos direitos humanos, contra a realidade - Por Léa Maria Aarão Reis*



No filme, religião e política se misturam. A religião é vista de maneira política e a política tratada como religião com seu elenco de verdades absoluta.

Brian Cohen nasceu no ano de 33, na província da Judéia, quando a Roma imperial ocupava a região através do seu preposto, o prefeito Pôncio Pilatos. Brian nasceu no canto de uma manjedoura, vizinho de outro bebê que também viera a este mundo na mesma hora: o menino chamado Jesus. 

Desde os primeiros momentos, a existência de Brian foi atribulada por sempre confundirem-no com o bebê do lado. Quando sua execrável mãe enxotou os três Reis Magos e deles tentou surrupiar o ouro que traziam destinado na verdade ao bebê vizinho, a cupidez humana se mostra entranhada na sua saga. 

Mais adiante, a ignorância, a alienação da massa histérica repetindo dogmas e mantras de forma cega e robotizada, e o cinismo do ambiente são a moldura da breve vida de Brian, morto crucificado aos 33 anos por ordem do juiz Pilatos sem qualquer culpa formada, exceto a de exalar carisma, motivar e mobilizar as massas, e entusiasmar os indivíduos humildes, aqueles que eram “o problema”, no dizer dos personagens dos burgueses ricos.

Uma sucessão inacreditável de mal entendidos e de lances do acaso, (o mesmo acaso do qual fala Woody Allen nos seus filmes), pontuam a vida de Brian. Esta sua trajetória é narrada no brilhante filme Life of Brian, de 1979, hoje um clássico do cinema  inglês, de autoria do cineasta Terry Jones, integrante do genial grupo Monty Python*. O mesmo grupo que sacudiu a forma de fazer humor, no mundo inteiro, nas décadas dos 70/80, inclusive no Brasil, inspirando o gênero batizado aqui de besteirol.

O filme de Jones, quando estreou, foi criticado ferozmente e dividiu opiniões apaixonadas. Houve e há ainda quem o veja como um filme antissemita. Os católicos viram nele uma blasfêmia. Mas outros o avaliam como uma genial e demolidora crítica à sociedade, até hoje atual; o que o filme na verdade é.

No ano 33, na Judéia, Brian vive uma vida paralela à de Jesus Cristo e sofre por ser confundido com ele. A confusão começa quando finge ser um pregador para fugir dos centuriões, mas tem suas pregações levadas a sério, arrastando atrás de si uma horda de seguidores. Para escapar da perseguição dos romanos, Brian se alia a uma coligação de grupo de oposição ao regime, a esquerda (ou a guerrilha) da época: a mais radical, a Frente do Povo Judeu; a Frente Judaica do Povo e a Frente Popular, esta representada por apenas um único homem velho, remanescente.

Por sua vez, pregam: “Jesus não percebe que abençoado é qualquer um bem vestido e à procura de status.”

As três organizações trabalham juntas “em defesa dos direitos humanos e contra a realidade”, em momentos específicos, por conveniência. Planejam sequestrar Pilatos. Na verdade, não se entendem e se detestam. Lutam por uma mesma causa, mas não conseguem conquistar uma vitória porque brigam e disputam todo o tempo entre si, nas intermináveis reuniões teóricas e até na violência física.

A farsa, para o Monty Python Terry Jones é permanente. Camelôs vendem pedras aos que se encaminham para assistir o espetáculo dos apedrejamentos. Algumas, pedras pontiagudas, outras achatadas, grandes ou pequenas, conforme o gosto do freguês. Alusão clara aos linchamentos da mídia e aos fetiches do consumo.

No filme, religião e política se misturam. A religião é vista de maneira política e a política tratada como religião com seu elenco de verdades absolutas. O Outro nunca conta, é claro.

Em uma das intermináveis reuniões dos grupos ‘guerrilheiros’ discutem-se quais os benefícios trazidos pelos romanos para os judeus. Para além dos aquedutos, das estradas, saneamento, irrigação, cultura vinícola, educação, casas de banho, medicina. “Mas e para nós? O que fizeram por nós?” eles se perguntam.

“Eu não sou o Messias,” berra Brian, tentando, desesperadamente, esclarecer a confusão de identidades. O povo insiste: “É, sim!” “Então vocês vão se f...”, responde Brian, desanimado e entregando os pontos. Mas a massa/zumbi insiste e pergunta: “E como devemos  nos f..?”

“Pensem pela sua cabeça porque vocês são independentes! Vocês devem cuidar de vocês mesmos! Não deixem que os outros mandem em vocês!” vocifera Brian, procurando se desvencilhar da horda.

O velho leproso, curado por um “maldito milagre”, se lamuria, num canto. Antes, como um leproso, era mais fácil para ele ganhar a vida pedindo esmolas.

Duas sequências de A Vida de Brian são particularmente empolgantes. Diálogos que manejam o virtuosismo da inteligência em alta voltagem. Uma, no palácio, com Pilatos, que sofre de um distúrbio da fala, a dislalia, e troca ‘rs’ pelos ‘ls’. O juiz que condenará Brian sem culpa formada, quanta atualidade aí para o espectador brasileiro, neste momento, interroga Brian e, ao mesmo tempo, submete seus guardas à tortura ao proibir os acessos de risos deles diante do ridículo das suas falas. Se os centuriões não conseguirem reprimir o riso, serão presos e executados.

Outra sequência magistral é a do grand finale com a crucificação. Dezenas de prisioneiros são encaminhados por um burocrata romano ao Gólgota. A fila e o controle social são bem organizados. Já pregados e amarrados nas cruzes, os castigados acabam cantando, em coro, como num musical de Hollywood, a bonita composição que se tornou célebre no mundo inteiro e se transformou na marca musical do Monty Python: ”Dê um sorriso e olhe sempre para o lado bom da vida. (Always look on the bright side of life).

O autor da canção é Eric Idle, ator, escritor, cantor, compositor e guitarrista, hoje com 72 anos. Foi um ativo membro do grupo britânico. Com essa sua célebre composição, Idle provoca no espectador, nesse final da vida de Brian, não gargalhadas, mas  sorrisos amarelos.

É que conviver com néscios é dureza. Só é suportável sorrindo.

*Jornalista

**Alusão ao general Bernard Montgomery, herói britânico da Segunda Guerra Mundial.





O dia de ano-novo nem sempre foi 1º de janeiro – Por Joelza Ester Domingues



27 de Dezembro de 2015 Réveillon significa, em francês, “véspera”, e vem do verbo réveiller, “acordar”, isto é, a “véspera do despertar do ano”.

A palavra surgiu no século XVII para denominar eventos populares entre os nobres franceses: jantares longos e chiques, que iam até depois da meia-noite, nas vésperas de datas importantes. Esses festejos gastronômicos noturnos eram realizados várias vezes ao ano, mas com o tempo foram se reduzindo até se limitarem a Ano-Novo mesmo.

No século XIX, o Réveillon virou moda nas colônias e áreas de influência da França, que eram muitas, já que ela era a superpotência cultural da época. No Brasil, os primeiros Réveillons foram realizados na corte de dom Pedro II, no Rio de Janeiro, e logo copiados pelas elites paulistas. Mas alguns detalhes foram incorporados depois, recheando o jantar francês com um sincretismo bem brasileiro. A comemoração do Ano-Novo é muito mais antiga e remonta à época dos romanos. Mas dessa época até nossos dias a data do Ano-Novo passou por muitas alterações.

Ano-Novo no Império Romano

Foi Júlio César, em 46 a.C., que fixou o 1º de Janeiro como o primeiro dia do Ano-Novo ao implantar um novo calendário. Até então, o Ano-Novo era celebrado no dia 1º de Março. No dia 1º de Janeiro, os romanos presenteavam-se: os clientes aos seus patrícios e os cidadãos ao Imperador. O calendário juliano estabelecia doze meses que somavam 365 dias distribuídos em uma sequência de 31, 30, 31, 30… de Januarius a Decembris, com exceção de Februarius que ficou com 29 dias (mas, a cada três anos, teria 30 dias).

Posteriormente, o imperador Otávio Augusto, em 8 a.C., determinou que os anos bissextos ocorressem de quatro em quatro anos e que Februarius tivesse 28 ou 29 dias. Janeiro, o primeiro mês, era dedicado a Jano um dos mais antigos deuses de Roma e sem equivalente na mitologia grega. Em sua honra, eram celebradas as januálias no começo de janeiro. Todo dia primeiro de cada mês era-lhe, também, dedicado. Banquete romano. Mosaico, séc. II. Jano, o deus de Janeiro. Jano presidia os começos: o início do ano, de uma empresa, negócio ou obra. Intervinha nas ações dos deuses e dos homens. Era o deus das decisões e das escolhas. 

Mas todo começo contêm, em si, o fim e por isso Jano era representado com duas faces contrapostas: uma envelhecida com barba e outra jovem. Elas simbolizavam, respectivamente, o passado e o futuro. Podia ser representado, também, com uma face masculina e outra feminina, provavelmente simbolizando o Sol e a Lua. Jano era o deus das transformações e das passagens, marcando a transição e a mudança de um estágio a outro. Dia 1º de Janeiro, “a porta que abre o ano”, continha o ano velho que se encerrou e o ano novo com todos segredos do futuro.

Jano era responsável por abrir as portas ao ano que se iniciava. Seu templo ficava aberto durante a guerra, a fim de que o deus pudesse sair e ajudar o exército romano, e fechado em tempo de paz, para impedir que ele abandonasse a cidade.

A dupla face de Jano simbolizava, também, a capacidade de avaliar os prós e os contra, a direita e a esquerda, aquilo que se mostra e aquilo que se esconde, o interior e o exterior, a frente e as costas.

Neste sentido, Jano é o senhor da sabedoria. É significativo lembrar que Freud, pai da psicanálise, possuía em seu escritório uma cabeça de Jano, de origem romana.

Uma analogia às duas faces do ser humano, atormentado pela dualidade entre o inconsciente e o consciente, suas forças interiores, intuitivas e instintivas e suas forças exteriores comandadas por crenças, valores e padrões sociais. Hoje, quando nos entusiasmamos com as novidades e o sucesso, Jano nos mostra que tudo tem duas faces e que nada é permanente e imutável.

O Ano-Novo na Idade Média

O calendário juliano continuou sendo usado na Idade Média, mas o tempo passou a ser marcado pelas grandes festas religiosas: Natal, Páscoa e Pentecostes. A comemoração do Ano-Novo, no dia 1º de Janeiro, foi considerada pagã pela Igreja que escolheu o de 25 de Março, dia da Anunciação, como o primeiro dia do ano.

A escolha, porém, não foi aceita por toda cristandade europeia e o início do ano civil teve outras datas, conforme o reino, a região ou a cidade: 1º de Março (em Veneza, por exemplo), 1º de Setembro (no Império Bizantino) ou 25 de Dezembro (na Inglaterra). Já os astrônomos mantiveram o 1º de Janeiro como início do ano. Para o homem comum da Idade Média, contudo, o calendário civil não importava: o tempo era marcado pelas atividades agrícolas e pelas festas religiosas, e o Ano-Novo não era relevante. O calendário gregoriano

O calendário juliano manteve-se por mais de mil e seiscentos anos. Todavia, neste tempo, foi-se perdendo a sincronicidade entre o calendário civil e o astronômico. Consequentemente, as festas religiosas móveis já não ocorriam nas datas esperadas, como a Páscoa que deveria ocorrer no primeiro domingo depois da lua cheia da primavera. Para trazer o equinócio para o dia 21 de Março, o Papa Gregório XIII convocou um grupo de estudiosos para “acertar” o calendário. A solução foi cortar 10 dias do calendário juliano.
Ao ser anunciado o novo calendário, em Outubro de 1582, o Papa ordenou que o dia imediato à quinta-feira, 4 de Outubro, fosse sexta-feira, 15 de Outubro. Manteve-se o dia da semana, mas eliminaram-se dez dias do mês.

O calendário gregoriano foi imediatamente adotado nos países católicos: Espanha, Itália, Portugal, Polônia e França. No resto da cristandade levou três séculos para ser aceito. A Grã-Bretanha e os países protestantes apenas adotaram o novo calendário no século XVIII, preferindo, segundo o astrônomo Johannes Kepler a “estar em desacordo como Sol a estar de acordo com o Papa”. Assim, o uso de diferentes calendários na Europa, entre os séculos XVI e XVIII torna complicado relacionar datas e fatos e, muito menos, falar sobre festejos comuns de Ano-Novo. A respeito dessa confusão, o pesquisador Whitrow cita um exemplo:

“Afirmou-se algumas vezes, por exemplo, que Cervantes morreu no mesmo dia que Shakespeare. Infelizmente essa notável coincidência não ocorreu. Cervantes morreu em Madri num sábado, 23 de abril de 1616, segundo o calendário gregoriano já em uso ali, ao passo que Shakespeare morreu em Stratford-upon-Avon numa terça-feira, 23 de abril de 1616, segundo o calendário juliano que vigorava no país. A data gregoriana correspondente a esta é terça-feira, 3 de maio de 1616. Assim, na verdade Shakespeare sobreviveu a Cervantes por dez dias”. (WHITROW, 1993, P. 137).

Nova confusão de calendários ocorreu quando, em 1792, a França introduziu um “calendário revolucionário”. Decretou-se que o Ano I começaria em 22 de Setembro de 1792, o dia da proclamação da República. Até 1806, quando esse calendário foi abolido por Napoleão, os franceses comemoraram o Ano-Novo no dia 22 de Setembro. Em 1806, o calendário gregoriano foi restabelecido na França.

Fora da Europa, o calendário gregoriano demorou ainda mais para ser aceito. O Japão aprovou-o em 1873 e a China, em 1912 seguindo-se, neste século, a Bulgária, a Rússia (após a Revolução de Outubro de 1917), a Romênia, a Grécia e a Turquia.  As igrejas ortodoxas do Oriente continuaram a usar o calendário juliano ainda hoje, mas de acordo com a reforma feita em 1923.

Na Etiópia, por exemplo, o Ano-Novo é festejado no dia 11 de Setembro. Certidão russa de casamento, de 1907, com duas datas.

Ano-Novo hoje

Atualmente, o dia 1º de Janeiro é festejado em quase todos os países como o primeiro dia do Ano-Novo, mas isso não é universal.

Budistas, muçulmanos, hinduístas, judeus e chineses, só para citar os exemplos mais conhecidos, têm outras datas de Ano-Novo. Em 1967, o Papa Paulo VI declarou o 1º de Janeiro como Dia Mundial da Paz. Desde então, os papas têm por costume escolher um tema e escrever uma mensagem para este dia.

A ONU reconhece esse dia como Dia da Confraternização Universal, dia do diálogo e da paz entre os povos. Dia reservado à reflexão de como queremos que o mundo seja no ano que se inicia e quando trocamos votos de paz, felicidade, saúde e prosperidade. No Brasil, o dia 1º de Janeiro é feriado nacional desde 1949, conforme lei assinada pelo então presidente Eurico Gaspar Dutra.

Fontes


BORNEQUE, Henri & MORNET, Daniel. Roma e os romanos. São Paulo: EPU, 1976. CHEVALIER, Jean & GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro, 1990. LE GOFF, Jacques. Tempo. In: LE GOFF, Jacques & SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário temático do Ocidente Medieval, v.2. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2002. LURKER, Manfred. Dicionário de Simbologia. São Paulo: Martins Fontes, 2003. SPALDING, Tassilo Orpheu. Dicionário da mitologia latina. São Paulo: Cultrix, 1993. WHITROW, Gerald James. O tempo na História. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.

Fonte: http://www.ensinarhistoriajoelza.com.br