segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Nigeriana cria 'Hijarbie' e faz sucesso em rede social


Jovem veste bonecas Barbie com o hijab, tradicional véu muçulmano. Criadora vê raízes em sua identidade cultural e religião.


Depois de ganhar da fabricante Mattel novos tipos de corpo e uma variedade de tons de pele, estilos de cabelo e roupa, a boneca mais famosa do mundo ganhou um novo acessório: o hijab, véu usado por muçulmanas que esconde os cabelos, as orelhas e o pescoço, e só deixa visível o rosto.


A "Hijarbie" é criação da jovem nigeriana Haneefah Adam, uma cientista médica que também é dona de uma pequena grife de moda para mulheres que gostam de se vestir de forma "modesta". O perfil criado por Haneefah para a boneca em uma rede social já tem 20 mil seguidores.

À rede de notícias norte-americana "CNN", Haneefah disse que nunca havia visto uma Barbie vestida com um hijab, e que achava importante que uma boneca se vestisse como ela se vestiria.

"Tem raízes na minha religião e identidade cultural. A forma como a Barbie se veste é muito reveladora, e não há nada errado com isso. (Mas) eu só queria dar outra opção para meninas muçulmanas como eu", afirmou ela à "CNN".





Europa: os nus e os mortos – Por José Jorge Letria


Será que, deste modo, o Ocidente está a evidenciar sinais de fraqueza que só fragilizarão a sua desejável capacidade negocial?

As capitais europeias que se vestiram de gala para receber Hassan Rouhani, o Presidente do Irão, e o seu séquito decidiram ocultar a nudez de obras referenciais e indiscutíveis do seu património cultural secular para evitar sobressaltos religiosos e metafísicos nos visitantes. O pudor táctico sobrepôs-se à nudez e a ocultação do génio evitou acentuar a diferença existente entre políticas e políticos, entre Estados, civilizações e culturas.

Miguel Ângelo, que não teve um feitio fácil, sentiu o peso desta nova Inquisição, como se ouvisse alguém segredar-lhe ao ouvido: “Se não cobrimos prudentemente o que deve ser coberto, lá irão menos aviões para Teerão e a liquidez dos nossos cofres será forçosamente afectada”. 

Na realidade, a arte esteve sempre na vizinhança dos beligerantes e muitas vezes serviu para apaziguar conflitos de proporções inquietantes. Mas, uma pergunta prevalece quando se lida com este tipo de opções. Será que, deste modo, o Ocidente está a evidenciar sinais de fraqueza que só fragilizarão a sua desejável capacidade negocial?

Poucas semanas antes desta visita do Presidente do Irão, o Ocidente assistiu à destruição de partes significativas da cidade de Palmira, símbolo da capacidade que os povos tiveram, há dois mil anos, de se juntarem pela via do comércio e do gosto e de abrirem novos caminhos. 

Palmira foi uma cidade singular e ainda hoje o muito que resta da sua pujante arquitectura é revelador da natureza dos homens e das mulheres que ali viveram e conviveram com a diferença e com o mundo. 

É certo que eram outros tempos e e os outros os modos. Mas não é menos certo que esses seres humanos eram, em quase tudo, semelhantes a nós, também no gosto e na forma de lidar com o complexo e sempre desafiante binómio guerra-paz.

O radicalismo islâmico que converte a religião em ideologia totalitária e que, em nome dela, destrói e apaga do mapa os vestígios de civilizações onde não imperava o seu complexo e intolerante sistema de valores também aproveita para fazer bom negócio com aquilo que ameaça destruir, pois sabe, como sempre soube, que há coleccionadores e traficantes que lidam bem, sem ponta de escrúpulo, com a vizinhança do sangue.

Assim, temos de um lado um Islão que não suporta a nudez masculina e feminina, que não dialoga com mulheres, sobretudo se não estiverem convenientemente cobertas, e de outro um Ocidente que, com uma nervosa agilidade, esconde tudo aquilo que lhe possa afectar o negócio. 

A “real politik” tem regras e tempos certos e não está aberta a debates académicos sobre assuntos que, à partida, já estão resolvidos, muito antes da aterragem dos aviões dos visitantes. Se a nudez pode estragar o negócio, então que agilmente se oculte a nudez e se peça desculpa aos interessados pelo facto comprometedor de ela ter chegado sequer a existir.

E ainda bem que esta política da ocultação do que é embaraçoso não se amplia. Se tal acontecesse, seria urgente apagar do mapa as fronteiras onde não resolve a situação dos refugiados-migrantes e também as capitais onde se decide expulsar os que chegam de longe em busca de pão e tecto e onde se decide cortar apoio humanitário e confiscar bens materiais. 

Recuando um pouco no tempo, talvez fosse até conveniente eliminar fisicamente o que resta dos campos de concentração nazis, de Auschwitz a Bergen-Belsen, onde morreu Anne Frank, pois nunca se sabe, com a radicalização à direita de países como a Hungria ou a Polónia, se estes “equipamentos” não poderão voltar a ter um trágico uso. 

Aqui, ficamos divididos entre os nus e os mortos, como no título do célebre romance de estreia do norte-americano Norman Mailer, com a memória trágica da guerra bem presente. Nesta Europa, de um lado estão os nus e do outro jazem os mortos, adultos, crianças e velhos que o Mediterrâneo não sabe nem quer poupar entre a Turquia e a Grécia.

Poderia até Bruxelas criar, como imperativo categórico, uma comissão para avaliar as políticas de ocultação e para determinar os níveis de risco das várias formas de nudez. Talvez os próprios iranianos, com mais ou menos aviões vindos de França, não conseguissem ocultar a surpresa e sobressalto com as conclusões. 

O problema é o que o génio dos criadores construiu e materializou e, por outro lado, a pequenez política dos negociadores de hoje, sem perspectiva de futuro e atormentados com o peso moral e civilizacional do passado.

Escritor, jornalista e presidente da Sociedade Portuguesa de Autores






Zika gera problema teológico para Igreja Católica - Por Jarbas Aragão



Vírus testa posição da Igreja sobre o controle da natalidade.

Além de um problema de saúde grave, a epidemia de zika que se espalha pela América Latina está gerando um embate teológico. Afinal, autoridades de países latinos, com maioria católica, têm aconselhado as mulheres a não engravidar nos próximos anos. Mas o Vaticano há muito proíbe quase todas as formas de controle de natalidade, permitindo apenas a polêmica “tabelinha”.

Isso representa um dilema teológico para a Igreja Católica Romana, de acordo com padres e especialistas. O padre John Paris, especializado em bioética e professor no Boston College, afirma que o assunto merece atenção. 

“Haverá uma série de problemas para os bispos resolverem”, enfatiza o professor da Universidade de Michigan, Daniel Ramirez. Ele é especialista em cultura religiosa da América Latina.

O fato é que os defeitos de nascença associados a transmissão do zika, como a microcefalia não podem ser ignorados. A ponto de a Organização das Nações Unidas (ONU) defender que países com surto do vírus zika autorizem o aborto em casos de infecção em gestantes.

O país mais atingido até o momento é o Brasil, que contabiliza 404 bebês nascidos com microcefalia, outros 3.670 casos estão sendo investigados. Em seguida, vem a Colômbia, que admite 500 casos de recém-nascidos com microcefalia, e mais 500 com a síndrome de Guillain-Barre.

Além do Brasil e da Colômbia, o governo de El Salvador recomenda que as mulheres evitem engravidar nos próximos anos.

Teologia x Prática

Caso a igreja católica não mude de opinião, os católicos praticantes precisarão se abster de sexo por um longo período. Isso parece improvável. Ainda assim, o Vaticano tem permanecido em silêncio sobre essas questões.

O ponto 2370 catecismo católico afirma que é “intrinsecamente má qualquer ação que, quer em previsão do ato conjugal, quer durante a sua realização, quer no desenrolar das suas consequências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação”.

No Brasil, o único a se manifestar claramente sobre o assunto foi Luciano Brito, porta-voz da Arquidiocese de Olinda e Recife. Ele assevera que os católicos devem evitar o uso de controle de natalidade, independentemente do zika.

James Bretzke, professor de teologia no Boston College, é categórico: “A abordagem tradicional, polêmica, que a contracepção é enganosa ou demoníaca na sua origem… não é a melhor abordagem pastoral”.

Para o especialista, é preciso se ponderar as consequências, que traria muito sofrimento para a família e especialmente para a criança com defeitos congênitos. Ele acredita que pode ocorrer alguma manifestação do Vaticano, especialmente por que o Papa Francisco vem mostrando uma posição mais ‘misericordiosa’ em questões como o aborto e a homossexualidade.

O mesmo pensa Ramirez, que lembra da exortação apostólica sobre a vida familiar que o Papa Francisco deve publicar no próximo mês.

O que pode ser um problema no ponto de vista teológico pode não ter grande influência na prática cotidiana. Segundo uma pesquisa realizada pela rede de TV de língua espanhola Univision, 88% dos mexicanos, 91% dos colombianos e 93% dos brasileiros apoiam o uso de contraceptivos.





Uma festa religiosa chamada Carnaval - Por Jarbas Aragão



Ligações com religião afro-brasileira ficam evidentes nas ruas.

Embora o nome remeta à “festa da carne”, o Carnaval (do latim: “carne vale”) é uma festa espiritual desde sua origem. Acredita-se que se originou na Grécia. Nas festas os gregos realizavam seus cultos em agradecimento aos deuses pela fertilidade do solo e pela produção.

Com a cristianização do mundo, a Igreja Católica “adotou” o evento no ano 590. Seu final, a “Quarta-feira de cinzas” deveria ser um dia de contrição e marca o início da QuaresmaO carnaval moderno tinha seu principal expoente durante o século XIX na cidade de Paris, de onde se espalhou por toda Europa. 

Mas foi no Brasil que se originaram os desfiles de escolas de samba. O carnaval do Rio de Janeiro está no Guinness Book como o maior carnaval do mundo. Em 1995, o Guinness declarou o Galo da Madrugada, da cidade do Recife, como o maior bloco de carnaval do mundo.

Em 2016, a atriz Viviane Araújo reacendeu uma discussão sobre a relação do Carnaval brasileiro e as religiões afro-brasileiras. Durante os ensaios da escola de samba Salgueiro, da qual ela é “rainha de bateria”, pareceu ter incorporado a Pomba-gira, entidade também chamada de Maria Padilha da umbanda. O enredo da Salgueiro este ano mostrará vários dos espíritos invocados no candomblé.

A atriz negou que tenha incorporado, mas justificou: “Eu respeito e admiro muito o espiritismo. Mas o que eu estava fazendo ali era apenas a interpretação de uma personagem. É claro que, por ser uma figura que é da umbanda ou do candomblé, que seja, as pessoas que são dessa religião vão se manifestar a favor e as que não são vão ser contra… Estamos falando de carnaval e não de religião ou intolerância, nada disso”.

Segundo reportagem da rede Band, este ano a escola de samba Estácio de Sá terá como enredo São Jorge. O presidente da escola, Leziário Nascimento, levou a ideia ao cardeal arcebispo dom Orani Tempesta.

Além do arcebispo, membros da Cúria visitaram o barracão da Estácio e disseram que está tudo “de acordo com as orientações da Arquidiocese”Essas orientações são duas: as imagens do santo deveriam estar estilizadas e nada de nudez. Sincretizações não foram vetadas. Ou seja, nenhum problema em dizer que São Jorge e Ogum são a mesma coisa.

No Recife, a abertura do Carnaval ocorreu na sexta (05/02). É quando o cortejo de maracatus faz uma procissão religiosa com os diversos grupos, chamados de nações, marchando (a maioria descalços).

Para Wanessa Paula Santos, presidente da nação Nação Cambinda Estrela, fundada em 1935, a questão religiosa está muito presente no maracatu. Conta que só os batizados nas religiões de matriz africana podem ocupar os cargos de alta patente, como a “Dama do Paço” e o “Rei”.

Nos desfiles deste sábado em São Paulo, a escola Águia de Ouro trouxe um enredo sobre a Virgem Maria. O desfile mostrou vários elementos religiosos, em especial as imagens da Nossa Senhora, tendo ainda uma encenação teatral do flagelo de Cristo. A atriz Nicete Bruno no papel da mãe de Jesus. Segundo os jornalistas que cobriram a primeira noite, “parecia uma procissão de fé”.