domingo, 6 de setembro de 2015

Convite


Mulheres e seu papel nas relações entre igreja e ecologia



O IV Encontro Amerindia Argentina, realizado em Agosto último, na cidade de Buenos Aires, discutiu o tema:

 "Mulher e ecologia, novas relações na sociedade e na Igreja”

Participaram do evento mulheres e homens, sacerdotes, religiosas, jovens, movimentos populares de Posadas, Santa Fe, Rosario, Catamarca, Mar del Plata, Merlo, San Miguel, Buenos Aires e Quilmes. 

Isabel Íñigues, Julia Basualdo e Rosa del Valle Aráoz compartilham sua experiência enquanto mulheres nessa jornada do feminino na fé e na ecologia.

Isabel Íñigues é membro da Amerindia, professora de Teologia e assessora do Ceforbiq (Centro de Formação Bíblica Diocesana de Quilmes). Ela se diz "muito cansada”, mas ainda com "fogo no coração”, devido à presença do Espírito que ajuda na construção do novo. 

Sobre o encontro, ela comenta que foi enriquecedora a construção de uma reflexão teórica sobre as mulheres na sociedade e na Igreja. Segundo Isabel, a formação de outra sociedade possível e desejável deve ser moldada em conjunto e a partir de todos os âmbitos, espaços e terrenos. 

"Foi gratificante sentir que podemos realizar a igualdade com dignidade e respeito mútuo pelas diferenças. Unir a base com o suporte dos intelectuais, a fé com a razão; a fé e a ciência, o popular e o acadêmico, o ecumênico e, com muita amplitude, a relação da fé com a cultura, o sociopolítico, com muita abertura da mente e do coração tecer o novo”.

Aos políticos, Isabel pede que exerçam o bem comum, que nas decisões ambientais escutem todos os envolvidos e que façam da política e da economia um serviço para a vida. Julia Basualdo é de Posadas, Misiones, e integra a Equipe Nacional das Comunidades Eclesiais de Base. 

Participando, pela primeira vez, de um encontro da Amerindia, ela se diz feliz em saber que muitas pessoas compartilham a ideia de que outro mundo é possível. Enquanto mulher e cristã, Julia comenta que há um compromisso na construção de uma nova estrutura social e eclesial nas comunidades. 

"Anima-nos modificar nosso estilo de vida, preocupar-nos e o buscarmos o bem comum, sentindo-nos como mulheres e homens em igual dignidade”.

Sobre o II Congresso Continental de Teologia, que será realizado em Belo Horizonte [Estado de Minas Gerais, Brasil], com o tema: "Igreja que caminha com o espírito e a partir dos pobres”, Julia conta que a ideia é continuar a mobilização em torno de um novo momento eclesial, que compreende uma reforma inadiável da Igreja, e uma necessidade de aprofundar raízes, conteúdos e sujeitos.

Rosa del Valle Aráoz vive em Catamarca, é animadora de comunidades eclesiais de base e participa da organização socioambiental coletivo Sumaj Kawsay (que em idioma quéchua significa Bem Viver, Bem Con-viver). Ela espera que os políticos também assumam a busca do bem comum e que reconheçam os direitos dos Povos Originários, historicamente massacrados e hoje confinados a territórios explorados pelo agronegócio e pela mineração.


"Sinto que de uma vez por todas devemos começar a exercer a função política a partir de uma postura da ecologia integral”, defende Rosa. Para ela, a construção do bem comum deve ser feita desde as pequenas comunidades, nas organizações e nas famílias, empreendendo caminhos de respeito mútuo, superando o machismo, autoritarismo e a degradação da Mãe Terra. 

"Somente assim, desde a base, poderemos gerar uma outra sociedade, possível e necessária, que dá luz a homens e mulheres capazes de assumir uma tarefa política sem denegri-la, sem convertê-la em mercadoria que se vende pelo melhor lance”.




Igrejas arrecadam R$ 20 bilhões no Brasil em um ano – Por Flávia Foreque



Em um país onde só 8% da população declaram não seguir uma religião, os templos dos mais variados cultos registraram uma arrecadação bilionária nos últimos anos.

Apenas em 2011, arrecadaram R$ 20,6 bilhões, valor superior ao orçamento de 15 dos 24 ministérios da Esplanada, ou 90% do disponível neste ano para o Bolsa Família.

A soma (que inclui igrejas católicas, evangélicas e demais) foi obtida pela Folha junto à Receita Federal por meio da Lei de Acesso à Informação. Ela equivale a metade do Orçamento da cidade de São Paulo e fica próxima da receita líquida de uma empresa como a TIM.

A maior parte da arrecadação tem como origem a fé dos brasileiros: R$ 39,1 milhões foram entregues diariamente às igrejas, totalizando R$ 14,2 bilhões no ano. Além do dinheiro recebido diretamente dos fiéis (dos quais R$ 3,47 bilhões por dízimo e R$ 10,8 bilhões por doações aleatórias), também estão entre as fontes de receita, por exemplo, a venda de bens e serviços (R$ 3 bilhões) e os rendimentos com ações e aplicações (R$ 460 milhões).

"A igreja não é uma empresa, que vende produtos para adquirir recursos. Vive sobretudo da doação espontânea, que decorre da consciência de cristão", diz dom Raymundo Damasceno, presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

Entre 2006 e 2011 (último dado disponível), a arrecadação anual dos templos apresentou um crescimento real de 11,9%, segundo informações declaradas à Receita e corrigidas pela inflação. 

A tendência de alta foi interrompida apenas em 2009, quando, na esteira da crise financeira internacional, a economia brasileira encolheu 0,3% e a entrega de doações pesou no bolso dos fiéis. Mas, desde então, a trajetória de crescimento foi retomada.

Impostos

Assim como partidos políticos e sindicatos, os templos têm imunidade tributária garantida pela Constituição. "O temor é de que por meio de impostos você impeça o livre exercício das religiões", explica Luís Eduardo Schoueri, professor de direito tributário na USP. "Mas essa imunidade não afasta o poder de fiscalização do Estado".

As igrejas precisam declarar anualmente a quantidade e a origem dos recursos à Receita (que mantém sob sigilo os dados de cada declarante; por isso não é possível saber números por religião).

Diferentemente de uma empresa, uma organização religiosa não precisa pagar impostos sobre os ganhos ligados à sua atividade. Isso vale não só para o espaço do templo, mas para bens da igreja (como carros) e imóveis associados a suas atividades.

Os recursos arrecadados são apresentados ao governo pelas igrejas identificadas como matrizes. Cada uma delas tem um CNPJ próprio e pode reunir diversas filiais. Em 2010, a Receita Federal recebeu a declaração de 41.753 matrizes ou pessoas jurídicas.

Pentecostais

Pelo Censo de 2010, 64,6% da população brasileira são católicos, enquanto 22,2% pertencem a religiões evangélicas. Esse segmento conquistou 16,1 milhões de fiéis em uma década. As que tiveram maior expansão foram as de origem pentecostal, como a Assembleia de Deus.

"Nunca deixei de ajudar a igreja, e Deus foi só abrindo as portas para mim", diz Lucilda da Veiga, 56, resumindo os mais de 30 anos de dízimo (10% de seu salário bruto) à Assembleia de Deus que frequenta, em Brasília. "Esse dinheiro não me pertence. Eu pratico o que a Bíblia manda", justifica. 






Tempo da Criação: Igreja lança mês para contemplação, oração e ação pela natureza e a humanidade



No Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, 1º de Setembro, foi lançado o chamado Tempo da Criação, período de um mês para contemplar, rezar e agir pela criação.

O cardeal Luis Antonio G. Tagle, arcebispo de Manila [Filipinas], conduziu as celebrações de abertura, nas Filipinas, com uma missa especial na Catedral de Manila e uma carta aos católicos locais, pedindo apoio para a campanha da Petição Católica pelo Clima. 

O Tempo da Criação, que termina no dia da Festa de São Francisco de Assis, 04 de Outubro, foi proposto pelos bispos das Filipinas, em 2003, seguindo o precedente de outras denominações cristãs.

O arcebispo de Manila enfatizou como o Tempo da Criação deste ano é particularmente significativo em uma carta circular, que enviou aos líderes da Igreja: "A celebração deste ano é guiada pela nova encíclica do Santo Padre Francisco, Laudato Si’, e sua declaração pelo Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, em 1º de setembro, o mesmo dia em que estamos lançando o Tempo da Criação”.

Milhares de católicos de todos os continentes, apoiados pelo Movimento Católico Global pelo Clima (MCGC), se juntarão a Igreja filipina para comemorar o Tempo da Criação. 

O MCGC criou recursos disponíveis no site: www.SeasonOfCreation.info/portugues/, que os participantes podem utilizar para organizarem grupos semanais de oração, promoverem a Petição Católica pelo Clima, colocarem breves reflexões em boletins da Igreja e rezarem juntos como comunidade, em família ou individualmente.

Com o lançamento da Petição Católica pelo Clima, em julho último, o cardeal Tagle reforçou o pedido para usar este tempo e mobilizar a frente de negociações sobre o clima, em Paris [França], no fim de Novembro e início de Dezembro deste ano:

"pedimos para comemorar o Tempo da Criação, com ênfase no aprofundamento e no compromisso de cuidar da nossa ‘casa comum’ e de apoiar a Petição Católica pelo Clima, movimento global que busca recolher 10 milhões de assinaturas para chamar os líderes mundiais a assinarem o compromisso de limitar o aumento da temperatura global abaixo de 1,5 grau centígrado”.

"Estamos muito gratos pelo grande apoio do cardeal Tagle nessa campanha da Petição Católica pelo Clima, para mobilizar a comunidade católica mundial e colocar a Laudato Si’ em ação, neste importante ano de negociações sobre o clima”, assinala o coordenador do Movimento, Tomás Insua. 

"Nossa rede global também se junta, ansiosamente, na celebração do Tempo da Criação para refletir sobre a criação como um dom de Deus e sobre efeito cascata da atividade humana em direção ao planeta”.

As assinaturas da petição Católica pelo Clima serão entregues na Cúpula do Clima de Paris. A campanha foi aprovada pelo Papa Francisco, em maio de 2015, e rapidamente seguida pelo apoio de outros líderes da igreja, como o cardeal Dom Cláudio Hummes [Brasil] e o cardeal Peter Turkson [Gana].

O Tempo da Criação começou como uma tradição na Igreja Luterana, em 2004, e foi aprovado pelo Conselho Mundial de Igrejas, em 2007. Em 2003, os bispos filipinos propuseram comemorar a criação neste espaço de tempo, com uma declaração pastoral, que diz:


"nós desejamos introduzir este período para os nossos fiéis católicos e reconhecer a "Criação”, um dom inestimável do Todo-Poderoso e amoroso Criador, que nos fez à sua imagem e semelhança”. A Arquidiocese de Manila institucionalizou o Tempo da criação, em 2013.




Documentário português retrata 'A Última Religião' no Brasil


Um jornalista português retratou em documentário as origens, o culto e a minoria seguidora da "Última Religião", a da Humanidade, com marca em símbolos nacionais do Brasil onde figura, aliás, um último reduto.

Documentário de estreia do jornalista português Hugo Pinto, de 35 anos, radicado em Macau, versa sobre Religião da Humanidade, sem Deus e dos Homens, concebida pelo filósofo francês Auguste Comte, no século XIX, que tem o único "templo" de portas abertas na cidade brasileira de Porto Alegre.

"O tema congrega quase todas as minhas áreas de interesse: a filosofia, a religião, a ciência e a História. Depois, sempre me fascinou o interesse que Auguste Comte tinha em criar uma ciência da organização da sociedade e a forma como pensou todos os seus elementos estruturantes", explicou Hugo Pinto.

O documentário foi filmado no Brasil, onde esteve aproximadamente um mês para conhecer a influência de uma religião, em cujos princípios Hugo Pinto vê atualidade: "Há ideias que fazem sentido, que se mantêm muito oportunas, como o altruísmo, um termo que o próprio cunhou".

A doutrina positivista de Comte influenciou inclusive a própria História do Brasil, onde tem hoje o último bastião. "Estiveram na Proclamação da República e até desenharam a bandeira nacional, no entanto, poucos conhecem a importância histórica dos positivistas", ignorando, por exemplo, que "a 'Ordem e Progresso' é um lema do positivismo".

"A doutrina, em voga na ala militar, cujo movimento levou à proclamação da República, teve em Miguel Lemos e em Raimundo Teixeira Mendes, dois intelectuais que foram estudar para Paris, então centro do mundo, os grandes promotores das ideias positivistas", importadas, portanto, pelas elites para um Brasil carente de reformas e ávido de mudança.

"Quando regressaram, primeiro criaram o apostolado positivista, mais tarde, a igreja positivista do Brasil, e esse foi o grande centro difusor. Imprimiram centenas de panfletos, explicando as ideias e abordando diversos temas, como a importância da laicidade, do respeito pelas populações indígenas, (...), das leis trabalhistas. Todas estas são conquistas que reclamam como grandes legados deixados pelos positivistas", observa.

Um dos aspectos que o surpreendeu foi o facto de ideais como a laicidade terem penetrado num país maioritariamente católico que tem, aliás, o Cristo Redentor como um dos principais símbolos. "Foi outro dos motivos pelos quais esta história me fascinou, porque é, de facto, um terreno imensamente fértil para as religiões, até para a da Humanidade".

Comte "acreditava que o mundo só poderia ser explicado pela ciência e que a Fé seria substituída pela Razão", rejeitava um Deus sobrenatural, mas reconhecia na religião "um papel importante de união em torno de uma ideia comum e uma ordem moral contra a anarquia do egoísmo".

Contudo, ressalva Hugo Pinto, o filósofo francês imaginou que pelo mundo fora seriam erigidos Templos da Humanidade, mas isso só aconteceu no Brasil e em duas cidades: Rio de Janeiro e Porto Alegre. Hoje, apenas os pilares de um se encontram de pé, frequentado por poucas dezenas de "fiéis".

"A Última Religião" dá a conhecer "as ideias e as pessoas que, hoje, ainda defendem e acreditam num mundo mais dominado pelo conhecimento e pelo altruísmo como formas de combater dois dos maiores problemas à escala global: o fundamentalismo religioso e os horizontes fechados do capitalismo", disse.

Hugo Pinto prepara-se agora para lançar a produção independente, que contou com a realizadora portuguesa Luísa Sequeira, no circuito dos festivais, sem esconder a natural preferência por salas do Brasil, Europa e Ásia.

Questionado se acabou por se render à doutrina, o jornalista responde: "Comte diz que todos somos positivistas, mas em graus diferentes".