quinta-feira, 10 de março de 2016

Santa Sé: o pensamento único mina a liberdade religiosa


A Santa Sé está alarmada com o aumento das violações da liberdade de religião e de credo em muitos países no mundo. 

Foi o que afirmou o encarregado ad interim de assuntos vaticanos no escritório da Onu em Genebra, na Suíça, Mons. Richard Gyhra, durante uma sessão dedicada à relação entre liberdade religiosa e liberdade de expressão.

Trata-se de uma tendência que “parece indicar uma falta de vontade política por parte das várias instituições da comunidade internacional de enfrentar as causas de tal violência”.

Liberdade religiosa e liberdade de expressão são interdependentes

Liberdade religiosa e de expressão “são interdependentes e unidas”: o perigo se apresenta “quando os direitos humanos são compreendidos segundo uma abordagem que considera a liberdade como licença ou autonomia completa” e “o exercício da própria liberdade sem alguma referência ao outro”, precisou o prelado.

O pensamento único

Mons. Gyhra recordou que “minimizar o papel essencial que a religião tem em todas as sociedade não é a resposta aos desafios atuais”. O mundo se mostra sempre mais sujeito à “globalização do paradigma tecnocrático”, que “aspira conscientemente a uma uniformidade unidimensional” almejando “eliminar todas as diferenças e as tradições numa busca superficial de unidade”.

Ao invés, observou, “um sadio pluralismo, que realmente respeite os outros e os valores como tais”, é um “aliado precioso no empenho a defender a dignidade humana”.

Por isso, enquanto essa tendência a tornar todos iguais “destrói a individualidade de toda pessoa”, a liberdade religiosa, “radicada no respeito pela liberdade de consciência”, por sua própria natureza transcende “a esfera privada dos indivíduos e das famílias e busca construir o bem comum de todas as pessoas”.

Tirania moderna que busca suprimir a liberdade religiosa

O representante pontifício cita o Papa Francisco, quando diz que, “num mundo onde as diferentes formas de tirania moderna buscam suprimir a liberdade religiosa ou buscam reduzi-la a uma subcultura sem direito de expressão na esfera pública, ou, ainda, buscam utilizar a religião como pretexto para o ódio e a brutalidade, é imperioso que os seguidores das diferentes tradições religiosas unam suas vozes para invocar a paz, a tolerância e o respeito à dignidade e aos direitos dos outros”.










Governo chinês rejeita atividades religiosas



Declarações dos governantes reforçam que a religião é incompatível com a ideologia do Estado.

De acordo com informações da agência de notícias Reuters, um dos departamentos do Partido Comunista da China declarou que até mesmo os funcionários aposentados pelo Estado e que são membros do partido, devem se abster de qualquer tipo de atividade religiosa.

“A declaração não é novidade, eles estão sempre reforçando que a religião é incompatível com a ideologia do governo. Eles já mencionaram que até mesmo os alunos que estudam fora do país, deverão receber uma ‘educação patriótica’ mais profunda”, comenta um dos analistas de perseguição.

O governo chinês demonstra claramente que está se esforçando para impor sua ideologia. “Se o que eles estão determinando, vai acontecer ou não, é outra história. Mas é curioso que, um dia depois da declaração, a Revista Foreig Policy (Política Estrangeira), publicou um artigo que mostrava estatisticamente como cresceu o número de estudantes chineses que vão para os Estados Unidos e se convertem ao cristianismo. Não penso que seja uma mera coincidência.”, diz o analista.

O 33º país da Classificação da Perseguição Religiosa 2016 é a China, onde o cristianismo alcançou o status de segunda maior religião entre os chineses, ficando atrás apenas do budismo. A opressão e perseguição aos cristãos segue um padrão dos procedimentos vindos do Partido Comunista da Província.

As campanhas feitas pelas autoridades são vistas em todos os locais, através da imprensa e de inúmeros comunicados. Os comunistas chineses levam muito a sério o que disse Karl Marx, o pai do comunismo, a respeito da religiosidade dos cidadãos: “a religião é o ópio das massas”.


Especialistas políticos explicam, porém, que para o governo chinês, nem o comunismo e nem o capitalismo são suficientes para governar o país, e que é necessário ter um fundamento filosófico, justificando as decisões dos líderes. Para os cristãos, a filosofia chinesa significa um ambiente cada vez mais hostil. 



Islamitas ameaçam com protestos se estatuto do Islão for alterado


Grupos islâmicos conservadores do Bangladesh ameaçaram hoje com protestos em larga escala se um tribunal decidir que o Islão não pode continuar a ser considerado a religião oficial do Estado de maioria muçulmana.

O Bangladesh é oficialmente secular, mas o Islão tem sido a religião oficial há quase três décadas. Mais de 90% da população é muçulmana, sendo os hindus e os budistas as principais minorias.

O Supremo Tribunal está a analisar uma petição apresentada por secularistas, que consideram que o estatuto do Islão como religião estatal contraria a Constituição secular e discrimina os não-muçulmanos.

"Qualquer ato para alterar o estatuto do Islão debilitará e difamará a religião", declarou o mufti (académico islâmico) Mohammad Faezullah, secretário-geral do partido islamita Islamic Oikya Jote (IOJ), adiantando que "os partidos islâmicos, pessoas em geral e clérigos resistirão realizando protestos".

A decisão do tribunal ameaça exacerbar as tensões entre os secularistas e os islamitas da linha dura na conservadora nação, que recentemente foi palco de uma onda de assassínios de 'bloggers' ateus, minorias religiosas e estrangeiros.






Liberdade de religião está cada vez mais comprometida


Os cristãos estão cada vez mais impossibilitados de se reunirem para adorar a Deus.

De acordo com informações da agência de notícias Associated Press, 86 pessoas foram mortas em ataques do Boko Haram, só no mês de janeiro, na Vila Dalori, e em alguns campos de refugiados no nordeste da Nigéria. Em um dos ataques, três mulheres-bomba estavam entre os militantes islâmicos.

O relatório indica que os militantes do Boko Haram estavam fortemente armados e resistiram às forças militares durante um bom tempo. Os sobreviventes disseram que a polícia demorou demais a chegar e agora temem novos ataques.

"Enquanto os militares nigerianos lutam contra o Boko Haram, nas principais cidades do norte do país, o grupo continua crescendo e se estabelecendo, tão perigoso e tão brutal como nunca. Eles têm os focos principais e determinam as regiões que vão atacar, então aumentam o número de homens-bomba e suicidas. O crescimento desse grupo extremista tem surpreendido os nigerianos e compromete seriamente a liberdade de religião nessas terras, especialmente porque o governo não consegue mais garantir a segurança dos cidadãos de forma geral. Eles parecem atacar à vontade. Os cristãos estão cada vez mais impossibilitados de se reunirem para adorar a Deus", explica um dos analistas de perseguição.

Nigéria está em 12º lugar na Classificação da Perseguição Religiosa deste ano e as principais fontes de perseguição são o extremismo islâmico e numa extensão menor: defesa tribal, corrupção organizada e a criminalidade.

A perseguição está focada em todos os tipos de cristianismo em muitos estados do norte. O nível de pressão sobre os cristãos na Nigéria é comparável ao do ano passado e a violência continua bem alta.






Um encontro histórico “para que as pessoas saibam que a religião é importante" – Por Filipe d'Avillez



Marcelo Rebelo de Sousa fez história ao visitar a Mesquita de Lisboa no dia da sua inauguração. Entre as 18 religiões presentes não houve dúvidas sobre a importância do evento, nem de que Portugal, neste campo, “é exemplar”.

Tiago Calaím tem oito anos e esta quarta-feira esteve na Mesquita Central de Lisboa, integrado num grupo de crianças de diferentes confissões religiosas, para saudar o novo Presidente da República na sua chegada ao encontro inter-religioso que teve lugar no dia em que foi empossado.

Para o jovem evangélico tratou-se de um evento significativo “para as pessoas saberem que isto é muito importante”. "Isto", entenda-se, é a religião.

No mesmo grupo que Tiago estavam crianças budistas, hindus, muçulmanas e sikhs. A maioria destas palavras ele nem as conhece, mas quando lhe perguntamos que outras religiões estavam representadas fala nos “muçulmanos e nos indianos”.

É certo que os indianos não são uma religião em si, mas não deixa de ser verdade que muitas das comunidades presentes na mesquita esta tarde têm as suas raízes na Índia. É o caso dos hindus, evidentemente, mas também dos sikhs e até dos muçulmanos, uma vez que a espinha dorsal da comunidade islâmica de Lisboa é oriunda da Índia, por via de Moçambique.

Se na Índia os episódios de violência inter-religiosa são infelizmente comuns, em Portugal a realidade é outra. “Nós trabalhamos em conjunto, ajudamo-nos uns aos outros. Aqui não há tensões, temos um bom relacionamento entre todas as comunidades”, diz Kantilal Vallabhdas, da comunidade hindu do Templo de Shiva, em Santo António de Cavaleiros.

O sorridente Palwinder Singh está ao seu lado, acompanhado de outros dois membros da comunidade sikh, impressionantes com as suas barbas e turbantes coloridos. Singh diz, num português esforçado, que este foi um encontro “muito bom” e que um dia gostariam que o novo Presidente visitasse o seu templo.

Ao lado de Palwinder Singh, o sacerdote da comunidade, com uma barba que chega até ao meio do peito, mostra-nos orgulhosamente o seu kirpan, a adaga cerimonial que todos os homens sikh devem usar em todas as alturas. 

O kirpan simboliza a prontidão para lutar pelo bem e contra o mal, mas representa também uma dor de cabeça para os protocolos de segurança em eventos inter-religiosos com figuras mundiais. 

Quando Bento XVI visitou os Estados Unidos, os sikhs não puderam participar num encontro inter-religioso na Casa Branca porque se recusaram a entrar sem esta arma.

Com este evento na mesquita a questão nem se pôs e a segurança à volta do evento estava claramente relaxada. Sinal claro, também, de que as comunidades religiosas em Portugal não são vistas como ameaça. 

“Costumo dizer que temos a felicidade de termos aqui uma grande harmonia religiosa e essa harmonia deriva da conjugação de duas variáveis, por um lado uma sociedade portuguesa que recebe bem os imigrantes”, diz Khalid Jamal, um jovem que faz parte da direcção da Comunidade Islâmica de Lisboa.

Para este jovem muçulmano a decisão de Marcelo Rebelo de Sousa de visitar a mesquita, logo neste dia tão importante, “representa um sinal claro de que a nossa classe política e o senhor Presidente da República vai, neste mandato, dar importância ao fenómeno religioso. Sendo muçulmano, é particularmente importante no sentido de evitar a radicalização de que tanto se tem falado, sobretudo ao nível europeu”, diz ainda.

Cristãos de “todas as cores”

Entre as 18 religiões representadas no encontro na mesquita encontravam-se várias confissões cristãs diferentes. Evangélicos, presbiterianos, anglicanos, ortodoxos e católicos, entre outros.

Da parte dos presbiterianos, D. Sifredo Teixeira realça “o reconhecimento oficial da importância da contribuição de cada uma das realidades religiosas" presentes em Portugal e revela que foi uma “grande alegria de poder participar neste tempo histórico em que é reconhecida a diversidade e também a sua riqueza”.

Com esta presença estará Marcelo Rebelo de Sousa a indicar que vai ter uma presidência mais atenta ao fenómeno religioso? “Essa é a nossa esperança, porque a contribuição religiosa ajudará muito e deve ser muito valorizada para o bem do país”, diz o líder presbiteriano.

Marcelo "será sempre um defensor da liberdade religiosa", disse o próprio. No seu discurso na mesquita, Marcelo afirmou que "Portugal foi grande" sempre que se abriu ao outro e a outras culturas, civilizações e religiões.

O sheikh David Munir, hoje a jogar em casa, faz um balanço muito positivo do evento. “Foi histórico, foi muito marcante e só demonstra que há pessoas que querem a paz, há pessoas que querem o diálogo e há pessoas que respeitam as outras confissões e as outras comunidades. No que diz respeito ao diálogo inter-religioso, Portugal foi sempre exemplar”, diz.

Ivone Felix, da comunidade baha'í, concorda. “É muito importante, porque isto é uma maneira de o senhor Presidente demonstrar que realmente está interessado em manter esta boa relação entre as religiões e as comunidades”.

Já à saída da mesquita um grupo de muçulmanas guineenses, vestidas com roupa e véus coloridos, não escondem a sua alegria por terem estado presentes, nem a sua admiração pelo Presidente. “É um Presidente social, comum, é por isso que estamos contentes. Por ele fazemos tudo, com chuva, frio ou de qualquer maneira”.