segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Novo megatemplo acirra dispusta entre igrejas em São Paulo


Templo da Graça terá capacidade para dez mil pessoas sentadas.

Teve início em um terreno de 29 mil metros quadrados da Marginal Tietê, em São Paulo, a construção de mais um megatemplo religioso da capital paulista.

O Templo da Graça pertence à Igreja Internacional da Graça de Deus, terá capacidade para dez mil pessoas sentadas e recebeu, durante o lançamento de sua pedra fundamental, a presença de políticos como o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.

Será o quinto megatemplo no Estado de São Paulo, os outros são: Cidade dos Sonhos (Guarulhos), Basílica de Nossa Senhora Aparecida (Aparecida do Norte), Templo de Salomão (capital), Templo da Glória de Deus (capital) e Santuário Theotokos, Mãe de Deus (capital).

Professor de Ciências da Religião da PUC-SP, Jorge Claudio Ribeiro disse à BBC Brasil que a "febre" de imóveis desta natureza é o reflexo da disputa entre religiões.

"Um vai imitando o outro dentro desse campo religioso para não ser visto como uma liderança de segunda classe. Se uma religião tem um templo, a outra quer um também. O mesmo acontece se uma delas tem espaço na televisão, filme, novela, etc".

Rodrigo Franklin, professor de pós-graduação em Ciências da Religião no Mackenzie, disse à publicação que a construção de grandes templos é uma tendência mundial e uma forma de ostentar e demonstrar o poder das diferentes religiões.






domingo, 28 de fevereiro de 2016

Partido Comunista Chinês convertido aos 'benefícios' da religião


Combatidos outrora como elementos "contrarrevolucionários" e "superstições feudais", as crenças religiosas e o pensamento tradicional chinês reconquistam hoje o seu espaço na China, num fenómeno que Pequim incentiva e tenta usar a seu favor.

Entre a liderança do Partido Comunista Chinês (PCC), cuja base teórica marxista promove o ateísmo e "métodos científicos", existe mesmo um "interesse especial pelas antigas práticas chinesas", disse à Lusa o astrólogo Wang Haohua.

Wang, 43 anos, começou "desde criança" a estudar o 'feng shui', o milenar sistema originário da China que procura a harmonia com os elementos da natureza. Além de pesquisador, é um dos astrólogos mais requisitados pela imprensa estatal e professor convidado nas prestigiadas Universidades de Pequim e Qinghua.

Sobre as emblemáticas obras erguidas nos últimos anos na capital chinesa, Wang garante que "respeitam as regras do 'feng shui'", em contraste com os edifícios em estilo soviético construídos após a revolução de 1949. Segundo o mestre, o Presidente chinês, Xi Jinping, demonstrou já ser um crente naquele sistema, ao citar o filósofo taoista Lao Tse, em 2014, durante o discurso de abertura da cimeira da APEC (Cooperação Económica Ásia-Pacífico).

"O bem supremo é como a água; beneficia todos sem tentar competir com ninguém'", disse Xi, justificado assim a opção pelo Centro Aquático "Cubo de Água", em Pequim, para receber aquela cerimónia. "Foi a primeira vez que ouvi um líder chinês mencionar abertamente um princípio do 'feng shui'", notou Wang Haohua.

Durante a Revolução Cultural (1966-76), lançada pelo fundador da República Popular da China, Mao Zedong, aquela prática foi proibida e os seus adeptos perseguidos. Wang era então criticado na escola pela sua 'superstição', enquanto um dos maiores sábios da China Antiga, Confúcio (551-478 A.C.), foi rotulado de "pensador decadente e reacionário".

Hoje, no estúdio do mestre, situado nos subúrbios de Pequim, duas pequenas estátuas de Mao e Confúcio estão pousadas lado a lado. A "sociedade sem classes", preconizada por Mao até à sua morte em 1976, deu entretanto lugar à "sociedade harmoniosa", cuja construção terá mesmo nas crenças religiosas um pilar "importante".

"Existem documentos oficiais [do PCC] a reconhecer o papel positivo que as pessoas religiosas podem desempenhar na promoção de uma 'sociedade harmoniosa'", disse à Lusa o académico italiano Francesco Sisci. Aquele especialista nas relações entre a República Popular da China e a Santa Sé conduziu no mês passado uma entrevista histórica ao papa Francisco, dedicada unicamente ao país asiático.

"O mundo espera pela vossa sabedoria", assinalou o papa, dirigindo-se ao povo e ao Presidente chinês. A China e a Santa Sé não têm relações diplomáticas e a única igreja católica autorizada pelo Governo chinês é independente do Vaticano.

Um jornal oficial do PCC, o Global Times, reagiu às palavras do papa, lembrando que "a maior divergência entre a China e o Vaticano reside na nomeação dos bispos". "A China escolhe os seus bispos, mas o Vaticano acha que esse é um direito seu", apontou o Global Times em editorial.

Oficialmente, o número de cristãos na China continental rondará os 24 milhões, o que não chega a 2% da população. A Academia Chinesa de Ciências Sociais estima que haja cerca de 130 milhões de cristãos ligados às chamadas "igrejas clandestinas".

Para Francesco Sisci, que vive em Pequim há mais de 20 anos, "a fé cristã precisa de adotar [na China] uma linguagem que se adapte ao paradigma cultural chinês". "De certa forma, os primeiros jesuítas fizeram isso, recorreram a termos, frases e terminologia que facilitaram a compreensão do conteúdo cristão por parte dos chineses", conclui.






O que a interpretação jurídica pode aprender com a interpretação bíblica - Por Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy



A atuação do jurista é substancialmente interpretativa. 

A compreensão de textos constitucionais, legais e contratuais é precedida, informada e de algum modo concluída por juízos de interpretação. Essa é mais uma semelhança, entre tantas outras que há, entre Direito e Teologia, campos epistêmicos que carregam uma trajetória convergente. 

Harold J. Berman, em intrigante livro sobre a História do Direito, explorou essa relação, com foco nas fontes teológicas da tradição jurídica ocidental, no contexto do catolicismo; John Witte Jr. o fez também, na conjuntura das tradições reformadas, especialmente a luterana.

Essas percepções são extensivas a problemas de hierarquia (expressão que tem sentido originariamente teológico, implicando a ideia de sagrado, na etimologia grega), de fixação de textos canônicos (que também consiste em operação substancialmente teológica, pautada pela constatação de textos de autoridade), a par de arranjos institucionais orientados para a acomodação de conflitos e de angústias humanas. Paul Ricouer, referindo-se a Johannes Weiss e a Albert Schweitzer, a propósito, entre outros, do tema central do “kerygma”, aproximava o esforço da interpretação neotestamentária a um fundamento não escatológico de liberdade; como é também, afirmo eu, a liberdade o sentido e o limite da interpretação jurídica.

É nesse contexto que o estudo do livro de Augustus Nicodemus Lopes é também seminal para os que atuam e pensam no ambiente jurídico. O autor é Pastor presbiteriano, com mestrado na África do Sul, doutorado nos Estados Unidos, e ampla atuação como pastor e professor, no Recife, em São Paulo, em Goiânia, entre outros. Escrito sob um ponto de vista reformado esse belíssimo texto centra-se na demonstração de que o método gramático-histórico é o que melhor se adaptaria “ao caráter humano e divino das Escrituras”. O livro é construído com material de aulas sobre o tema, circunstância que comunica com clareza e objetividade pontos controvertidos dos vários modelos e fórmulas de interpretação bíblica.

O tópico dos distanciamentos (temporal, contextual, cultural, linguístico e autoral) das Escrituras é o ponto de partida do livro, revelando, humana e humildemente, os limites e os paradoxos de uma tentativa de exegese séria dos textos bíblicos. Há uma sistemática e bem elaborada síntese dos primeiros intérpretes do Antigo Testamento, a exemplo dos Rabinos do Antigo Israel, de Filo de Alexandria e de Flávio Josefo; nesse campo histórico há também extensa referência às comunidades do Mar Morto, cujos manuscritos, encontrados em 1947, são estudados por Augustus Nicodemus Lopes, menos como pontos de divergência ou de convergência com o Cânon, e mais porque “refletem as práticas hermenêuticas em vigor naquela época”. Isto é, o autor nos evidencia que cada época constrói sua exegese, sua Teologia, do mesmo modo, e agora a ilação é minha, que cada tempo constrói suas interpretações e suas verdades, também e substancialmente, quanto a seus arranjos jurídicos.

É ao mesmo tempo com muito rigor que Augustus Nicodemus Lopes explora os intérpretes alexandrinos (Orígenes e Atanásio) e antioquianos (Teófilo), os pais latinos da Igreja (Agostinho e Jerônimo), os intérpretes da Idade Média (Cassiano, Bernardo de Claraval), os reformadores (Lutero, Calvino), com estações ainda em Erasmo de Roterdã, humanista católico, sobre quem o autor observa que “(...) teve importante contribuição para a hermenêutica que se desenvolveu após a Reforma (...) Ele desejava alcançar o sentido simples e original do texto bíblico e torná-lo significante para as pessoas de sua época (...) Seu alvo era simplificar o Cristianismo, exaltar a razão e enfatizar a moralidade em vez do ritualismo que prevaleceu na Idade Média”.

Passando pela Idade Moderna, o autor alcança também os intérpretes contemporâneos, sob uma etiqueta de “pós-modernos”, com especificações no que denomina de “vertente teológico-psicológica” (Schleirmacher), “vertente exegética” (Bultmann), “vertente teológica” (Barth), “vertente-lingüística” (Saussure), e “vertente-filosófica” (Gadamer e Derrida), além, naturalmente, dos chamados estruturalistas, no contexto do que denomina de “estruturalismo bíblico”.

A referência a esses pensadores, especialmente Saussure, Gadamer e Derrida, suscita ambiência familiar para os estudiosos de hermenêutica jurídica; refiro-me, entre outros, ao tema dos preconceitos como condição da compreensão, um dos núcleos discursivos que se colhe em atenta leitura do “Verdade e Método”; cuja conexão com a experiência normativa é explicitada em autores de muito vigor intelectual, a exemplo de Inocêncio Mártires Coelho e de Lênio Streck. Para este último, Streck, com base em Gadamer, “o caráter da interpretação do direito é sempre produtivo (...) esse aporte produtivo forma parte inexoravelmente do sentido da compreensão (...) é impossível o intérprete colocar-se no lugar do outro”; para aquele primeiro, Inocêncio, a pré-compreensão “é prefigurada pela tradição em que vive o intérprete e que modela os seus preconceitos (...).

O tema da compreensão é recorrente nos juízos de interpretação jurídica, situação que também pretende se ajustar nos juízos de interpretação bíblica, para a qual Gadamer pretenderia qualificar também a chamada “fusão de horizontes”. Para Augustus Nicodemus Lopes, “apesar das contradições internas e das críticas, a filosofia hermenêutica de Gadamer ganhou grande aceitação no mundo acadêmico e contribuiu de forma decisiva para o surgimento de sistemas de interpretação da Bíblica centrados no leitor, inerentemente subjetivos (...)”.  Augusto Nicodemus Lopes, ao que consta, contesta a fórmula da fusão dos horizontes, forte na percepção de que a realidade mostra que o intérprete nem sempre estaria preso a seus preconceitos; é que, afirma, “se Gadamer estiver certo, o leitor sempre interpretaria o texto da mesma maneira”.

Miríade de problemas de interpretação jurídica possuem correlatos em problemas de interpretação bíblica. Ambos os campos podem mutuamente se socorrer, em busca do esclarecimento e da tomada de decisões. Quando afirmo que a interpretação jurídica tem a aprender com a interpretação bíblica refiro-me à necessidade de mais obras de hermenêutica jurídica de sistematização de várias correntes, ainda que contemos com belíssimo o livro de João Baptista Herkenhoff.

No limite, o Direito e a Teologia são, do ponto de vista epistêmico, experiências humanas, profundamente, inegavelmente humanas, que guardam semelhanças e dissemelhanças. O Direito se pauta pela construção de arranjos de convivência, práticos, e a Teologia busca na revelação, na intuição e na compreensão das limitações também humanas, uma fórmula de superação que se desdobra também no mistério da transcendência.

Nesse sentido, a leitura do livro de Augustus Nicodemus Lopes, a par de seus insuperáveis méritos intrínsecos, de rigor intelectual e de método, de riqueza de informações, de provocações intelectuais, de orientação pedagógica, é também uma recorrente lembrança de que os problemas de interpretação são universais, e que questões de exegese jurídica também são metodologicamente visitadas pela experiência Teológica.

1. Dedico esse pequeno ensaio-resenha a meu tio, Reverendo Antônio de Godoy Sobrinho, Pastor e educador, falecido, a quem devo estímulo pela especulação nos temas de hermenêutica bíblica e de língua grega.

2. Harold J. Berman, Law and Revolution- The Formation of the Western Legal Tradition, Cambridge, Massachusetts and London: Harvard University Press, 1983, pp. 165 e ss.
3. John Witte Jr., Law and Protestantism- The Legal Teachings of the Lutheran Reformation, Cambridge: Cambridge University Press, 2002.
4. Paul Ricouer, Ensaios sobre Interpretação Bíblica, São Paulo: Novo Século, 2004, pp. 149 e ss. Tradução de José Carlos Bento.
5. Cf. Carlos Maximiliano, Hermenêutica e Interpretação do Direito, Rio de Janeiro e São Paulo: Livraria Freitas Bastos, 1965, pp. 273 e ss.
6. Augustus Nicodemus Lopes, A Bíblia e seus Intérpretes, uma breve história da interpretação, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004.
7. Cf. Augustus Nicodemus Lopes, cit., p. 7.
8. Cf. Augustus Nicodemus Lopes, cit., p. 8.
9. Cf. Augustus Nicodemus Lopes, cit., p. 9.
10. Augustus Nicodemus Lopes, cit., p. 65.
11. Augustus Nicodemus Lopes, cit., p. 167.
12. Cf. Augustus Nicodemus Lopes, cit., p. 226 e ss.
13. Hans-Georg Gadamer, Verdade e Método, Traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica, Petrópolis: Vozes, 1999, pp. 416 e ss. Tradução de Flávio Paulo Meurer. Revisão de Ênio Paulo Meurer.
14. Lênio Luiz Streck, Jurisdição Constitucional e Hermenêutica, uma Nova Crítica do Direito, Rio de Janeiro: Forense, 2004, p. 6.
15. Inocêncio Mártires Coelho, Interpretação Constitucional, São Paulo: Saraiva, 2007, p. 6.
16. Augustus Nicodemus Lopes, cit., p. 220.
17. Augustus Nicodemus Lopes, cit., p. 219.
18. João Baptista Herkenhoff, Como aplicar o Direito, Rio de Janeiro: Forense, 1999.

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy é livre-docente em Teoria Geral do Estado pela Faculdade de Direito da USP, doutor e mestre em Filosofia do Direito e do Estado pela PUC-SP, professor e pesquisador visitante na Universidade da California (Berkeley) e no Instituto Max-Planck de História do Direito Europeu (Frankfurt).






Três religiões, uma casa: edifício faz dialogar islã, judaísmo e cristianismo – Por Fadel Senna


A Sputnik falou com um representante do Projeto «House of One», Kadir Sanci, que quer fazer "uma casa" para três religiões mundiais.

House of One será um lugar em que vão se encontrar as três religiões, cristianismo, islã e judaísmo. O edifício no centro de Berlim vai incluir uma igreja, uma mesquita e uma sinagoga. No meio do edifício haverá um espaço que vai unir as salas de oração das três religiões. 

“Para entrar na sinagoga, mesquita ou igreja será necessário passar por este espaço. Além disso, nesta sala vão realizar-se concertos, conferências e outros eventos. Será um lugar de encontros”, disse Kadir Sanci.

O representante destacou que os organizadores também querem preservar as diferenças: “Queremos mostrar deste modo que podemos ser amigos, apesar das nossas divergências, que elas podem nos unir”, salientou Kadir Sanci.

Tal edifício será o primeiro na Alemanha. Será construído em uma região de destaque, a Petriplatz, no coração de Berlim. No entanto, os ativistas ainda não escolheram o design para o exterior do edifício, já que são precisos os representantes das três partes.

Nadir Sanci expressou o desejo de desmentir todos os rumores de que o projeto visa unir as religiões e criar uma religião única: “Não queremos esconder as questões discutíveis ou propor respostas para elas… A ideia é a forma do diálogo”.

“Diria que na diversidade deste mundo há a vontade de Deus. Se Ele quisesse, teria feito todas as coisas iguais. Para quê destruir esta obra de arte, esta beleza? É preciso a apreciar, é preciso apreciar que o outro pode perceber e pensar de modo diferente”, disse Kadir Sanci.

Respondendo à pergunta sobre a crítica aos muçulmanos na Alemanha, o ativista disse que ele entende que é preciso tomar a sério esta crítica e iniciar o diálogo com estas pessoas. A organização tenta mostrar em são os muçulmanos na realidade e que não merecem ser receados.


Quanto ao financiamento, o representante disse que para o projeto são necessários 43,5 milhões de euros. O dinheiro está sendo coletado através de crowdfunding, assim, qualquer pessoa pode dar uma contribuição. Por enquanto, eles têm um milhão, mas já há apoio de políticos, patrocinadores. Os organizadores esperam iniciar a primeira etapa da construção dentro de dois anos.




sábado, 27 de fevereiro de 2016

Semtcas promove debate ecumênico no Teatro do Boi


O debate contribui para a superação da discriminação das religiões.

Foi realizado na manhã da sexta-feira (26/02) o Debate Ecumênico, organizado Centro de Referência em Direitos Humanos (CRDH), que é vinculado à Secretaria Municipal do Trabalho, Cidadania e de Assistência Social (SEMTCAS). A segunda edição do encontro ocorreu no Teatro do Boi, zona Norte de Teresina, e contou com a presença de representantes de religiões e denominações religiosas, bem como instituição que atuam na área, como OAB, Ministério Público, instituições de ensino superior, SASC, entre outros.


“Com essa importante ação, nós conseguimos promover e contribuir para a superação da intolerância e discriminação das religiões. Foram convidados representantes de várias denominações, com a presença de todas elas. Um momento de intenso respeito e compreensão das características de cada religião, a fim de contribuir com a diminuição dos índices de violência dita silenciosa, aquela que agride não fisicamente, mas, por atos, gestos, palavras discriminatórias, comportamentos que ferem o direito do outro”, pontuou Deusa Fernandes, coordenadora do CRDH.

No Debate a presença da Igreja Batista do Mafrense, da Igreja da Comunidade Metropolitana de Teresina, da Igreja Messiânica Mundial do Brasil, da Igreja Católica, da Federação Espírita, da Igreja Céu de Todos os Santos (Santo Daime), da Umbanda, do Candomblé e do Paganismo. O encontro foi mediado pela professora Francisca Verônica, que é doutora em Antropologia.

Durante o Debate foram exibidos dois vídeos, sendo um mini-documentário, mostrando os índices populacionais em todo o mundo e suas diferenças, seja por etnia, por cultura, por religião e por demais eixos.

“Com esse Debate oferecemos um meio para a construção de formas de convivência, que reconheçam as diferenças e assegurem o respeito à história, ao desenvolvimento, à identidade, à memória, à religiosidade e crença de cada pessoa, grupo social, povo, etnia e cultura. E isso se consegue por meio do diálogo, da troca de conhecimentos e da promoção dos direitos humanos”
, pontuou Deusa.




sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Convite


Turismo religioso ao serviço dos mais pobres – Por Francisco Pedro


Operadora turística das Filipinas considera fundamental que o turismo religioso crie programas que tenham em conta e ajudem as comunidades locais, em especial as mais desfavorecidas.

O turismo religioso “representa um grande negócio, está numa fase de crescimento brutal”, mas falta ainda colocá-lo “ao serviço das comunidades, especialmente as mais pobres”, como tem defendido o Papa Francisco, alertou esta sexta-feira, 26 de Fevereiro, a representante filipina da APP Tours, durante a sua intervenção no IV Workshop Internacional de Turismo Religioso, que decorre em Fátima.

“Não podemos cingir-nos apenas ao negócio, a pensar apenas no lucro e em quanto o turista gasta por dia ou por mês, temos que pensar também em criar programas que coloquem o turismo religioso ao serviço das comunidades”, promovendo, por exemplo, "visitas aos locais religiosos, mas também aos locais mais desfavorecidos", disse Guillermina Tapia Gabor.

Para a operadora filipina, “não pode haver sustentabilidade sem espiritualidade”, pois o resultado de uma viagem não são só as fotografias e os filmes, mas essencialmente “o que levamos dentro de nós quando regressamos a casa: a experiência emocional”.

Anne Breslin, da Great Experiences, que organiza peregrinações a partir dos Estados Unidos da América, não só partilhou desta opinião como a reforçou. 

“Um peregrino é uma pessoa que procura uma experiência espiritual, que pretende uma viagem emocional onde tenha a oportunidade de sentir e experimentar a compaixão de Deus”.


Segundo a empresária, o turismo religioso é “o melhor nicho de mercado” no setor do Turismo, e Portugal “é um exemplo extraordinário” disso mesmo, pela capacidade de oferta, não só para o turismo católico, mas também para o judaico ou islâmico. 

“Portugal tem uma tamanha riqueza religiosa, histórica e cultural, que pode atrair turistas de várias religiões e até abrir portas para os países mais próximos”, concluiu Anne Breslin.




Festa do Divino Espírito Santo


Museu de Arte Sacra traz, mais uma vez, uma apresentação da famosa "Festa do Divino Espírito Santo de Mogi das Cruzes", que virá sobre o tema:

 "Divino Espírito Santo, Derramai Sobre as Famílias a Graça da Misericórdia"

Quando: 
27/02 (sábado) 

Horário: 
10h às 15h

Local: 
Museu de Arte Sacra de São Paulo

Endereço: 
Av. Tiradentes, 676 - Luz | Metrô Tirandentes

Estacionamento gratuito: 
Rua Jorge Miranda, 43
Evento gratuito


Roteiro da apresentação

Período da manhã
Abertura às 10h
Apresentação do grupo folclórico
Folia – Orquestra da Viola
Apresentação de vídeos da festa

Período da tarde:

14h: exposição de peças do Museu do Divino Espirito Santo de Mogi das Cruzes, das 
Bandeiras dos Festeiros

Encerramento: 

levantamento do Mastro - Distribuição do RosaSol
Apresentação do grupo folclórico
Visita monitorada ao Museu

Durante o evento será oferecido, gratuitamente, o “café caipira”.

Festeiros: Sergio Braz e Mônica de Souza Mello
Capitães de Mastro: Ciro Fuji e Helena Kiolo Mori Fuji




quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Dá para ser budista e terrorista ao mesmo tempo? – Por Eduardo (Duda) Teixeira




Para justificar a violência, alguns já usaram o argumento da legítima defesa ou desumanizaram suas vítimas, comparando-as com animais. 

O primeiro e mais importante princípio de todo budista é abster-me de matar seres vivos. Muitos levam esse mandamento tão a sério que se tornam vegetarianos. Mas, em Mianmar, antiga Birmânia, o monge Ashin Wirathu, do grupo 969, prega abertamente a violência contra muçulmanos. 

Duas centenas de pessoas já morreram nos conflitos desde 2013. Como explicar que uma religião que prega a não-violência estimule a morte de indivíduos de outras crenças?

Ao longo dos séculos, pensadores budistas fizeram vários malabarismos intelectuais para justificar as agressões de seus colegas. Um dos mais recorrentes é usar o argumento da legítima defesa. Wirathu nunca manda seus seguidores atacarem muçulmanos. O que ele pede é para eles defenderem a raça, as pessoas e o país (Wirathu é um lesado. Segundo ele, uma maioria muçulmana quer destruir Mianmar com a ajuda dos países árabes. Na realidade, os muçulmanos são apenas 4% da população).

Outra prática comum é a de desumanizar os inimigos. Na crônica Mahavamsa, do século II, o rei budista Dutthagamani fez uma guerra santa contra invasores estrangeiros liderados pelo rei tamil Eara, atual Índia. Um monge o consolou dizendo que a morte de infiéis do mal não constituiria assassinato, uma vez que os guerreiros tamis não eram nem meritórios, nem budistas. A morte deles então não deveria carregar mais peso que a de animais.

Na definição mais básica, terrorismo é quando um grupo mata inocentes e espalha o medo em uma sociedade com o objetivo de alcançar um fim político. Os budistas radicais de Mianmar encaixam-se nessa categoria, embora não tenham algumas características normalmente ligadas ao terrorismo. Eles não fazem parte de uma minoria e contam com a proteção das autoridades locais.

“Muitas pessoas no Ocidente também têm dificuldade de pensar que budistas podem ser terroristas porque associam o budismo com meditação, tranquilidade e paz. Essas ideias estão em desacordo com o conceito ocidental de terrorismo”, diz o filósofo americano Michael Jerryson, autor dos livros: Buddhist Fury e Buddhist Warfare (sem tradução para o português).

A disparidade de visões dentro do budismo é uma consequência de sua evolução histórica. As vertentes praticadas no Sudeste Asiático são formadas principalmente por homens que nasceram budistas e que valorizam principalmente os rituais, a disciplina e a vida monástica. Na escola Theravada, a mais antiga, divagações metafísicas, filosóficas e éticas são menos relevantes. Já o budismo ocidental, que chegou à Europa e aos Estados Unidos no final do século XIX, é quase todo o oposto. 

Seus fiéis são, em sua maioria, pessoas que se converteram, incluindo muitas mulheres, que interpretaram as escolas budistas segundo valores próprios, como democracia, igualdade e justiça. Essa turma afastou o budismo das circunstâncias em que esse se desenvolveu e limpou todo o sangue de sua história.

Eduardo (Duda) Teixeira é jornalista e editor de internacional da revista Veja. É autor dos livros: O Calcanhar do Aquiles (Arquipélago), sobre a Grécia Antiga, e Guia Secreto de Buenos Aires (Record). Em 2011, publicou com Leandro Narloch o Guia Politicamente Incorreto da América Latina (Leya).






Religiões ● Leandro Karnal

Movimentos sociais e comunidades religiosas se compromotem com o combate ao Aedes aegypti


O combate ao Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, zika e chikungunya, conta agora com o apoio de movimentos sociais e fiéis das religiões de matriz africana, espíritas, católicos e evangélicos, que estão colocando a fé e o trabalho coletivo e individual a favor da saúde dos baianos.

Atendendo à convocação do governador Rui Costa, lideranças religiosas e representantes dos movimentos estão reunidos na manhã desta quarta-feira (24/02), no auditório da Secretaria do Planejamento do Estado (Seplan), para conhecer as ações que podem ser desenvolvidas em suas comunidades para evitar a a proliferação do inseto.

Na ocasião, Rui ressaltou a importância do envolvimento de cada cidadão na mobilização e no combate ao mosquito. “Cada entidade tem boletins, páginas nas redes sociais, carros de som, e eu acho que nós temos que nos engajar nisso. Se nós queremos preservar a vida e a saúde dos nossos fiéis, trabalhadores, moradores, temos que participar desse mutirão”.

O governador lembrou que o mosquito não se desloca mais de 200 metros do local onde nasceu e que 80% das pessoas que contraíram uma das três doenças foram contaminadas em sua própria residência.

“A contaminação vai vir da nossa casa ou da do vizinho. Então, cada um de nós tem que ter a tarefa de atuar no combate e na prevenção. O mosquito precisa de água limpa e calor para se reproduzir, portanto, o convite aqui é para que cada um, no seu segmento, na sua base social, entre na campanha”.

De acordo com Rui, o Estado está investindo em novas tecnologias para combater o Aedes, como a biofábrica Moscamed, em Juazeiro, que produz mosquitos modificados geneticamente e que, ao se reproduzirem, formam gerações estéreis.

“Nós já estamos fazendo testes com mosquitos em Jacobina e Juazeiro, com resultados positivos. Nos lugares onde eles foram soltos, a população de mosquito reduziu em até 80%. Agora estamos procurando apoio do governo federal para produzir este mosquito em larga escala e distribuí-lo pelos lugares onde há os principais focos”.






terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Harvard lança curso online e gratuito sobre religião - Por Filipa Barbosa



Com o novo curso, Harvard pretende lutar contra desentendimentos e preconceitos, contribuindo para uma maior literatura religiosa.

Desconhecimento ou mal-entendidos sobre religiões é um problema que afecta o mundo inteiro e tem estado na origem de vários conflitos nos últimos anos.

Harvard, uma das mais prestigiadas universidades dos Estados Unidos, quer diminuir estes problemas e decidiu, com o apoio de Diane Moore, directora do Religious Literacy Project da Harvard Divinity School e outros cinco professores, criar um curso online e de acesso gratuito para promover uma maior compreensão sobre as várias religiões existentes. 

O curso é composto por seis disciplinas diferentes, leccionadas por um período de quatro semanas. Moore é a professora da cadeira: “Alfabetização religiosa: Tradições e Escrituras” que começa já no próximo mês. As restantes cinco disciplinas vão abordar crenças mais específicas como cristianismo, budismo, islamismo, hinduísmo e judaísmo.

Os alunos vão ter a oportunidade de conhecer a história de cada religião e dos textos religiosos, muitas vezes considerados como “sagrados”As aulas vão ser transmitidas através de uma plataforma online denominada EDX, desenvolvida, em 2012, pela universidade em parceria com o Instituto de Tecnologia de Massachusett. 

Para Diana Moore, com este projecto prentende-se chegar a um entendimento que as religiões e suas tradições são bastante “diversificadas” e em “constante evolução”, desempenhando papeis “complexos” na vida das pessoas.


Estima-se que cerca de 50 mil pessoas se inscrevam no curso. Apesar de ser, maioritariamente, dedicado a educadores e membros de comunidades religiosas, o projeto encontra-se aberto a toda a comunidade.



Por que civilizações antigas não reconheciam a cor azul?


Nenhum dos textos sagrados gregos, hindus, islandeses, judaicos ou islâmicos menciona o azul, apesar da descrição do céu ser um dos seus temas favoritos.

Em sua investigação sobre como a linguagem afeta a maneira como vemos o mundo, o linguista Guy Deutscher dedicou-se a um tema específico: a ausência de referências à cor azul nos textos de diversas civilizações antigas.

O primeiro intelectual a notar essa curiosidade foi o britânico William Ewart Gladstone (1809-1898), que não apenas foi quatro vezes primeiro-ministro como também um apaixonado pela obra do poeta Homero.

Apesar das maravilhosas descrições feitas por ele nos relatos A Ilíada e A Odisseia, que incluíam frases como "a aurora com seus dedos rosados", em nenhum momento o autor pintava algo de celeste, índigo ou anil.

Gladstone repassou todo os dois textos, prestando atenção às cores mencionadas. Descobriu que, enquanto o branco era mencionado cem vezes e o preto, quase 200, as outras cores não tinham tanto destaque. O vermelho era citado menos de 15 vezes e o verde e o amarelo, menos de dez.

Ele leu, então, outros escritos gregos e confirmou que o azul nunca aparecia. Concluiu que a civilização grega não tinha à época um senso de cor desenvolvido e vivia em um mundo preto e branco, com algumas pinceladas de vermelho e de brilhos metálicos.

"Eles entendiam o azul com a mente, mas não com a alma", afirma o pesquisador. Em parte alguma Como descrever esta cena sem usar a palavra 'azul'? A pesquisa de Gladstone inspirou o filósofo e linguista alemão Lazarus Geiger, que se perguntou se o fenômeno se repetia em outras culturas.

Ele descobriu que sim: no Alcorão, em antigas histórias chinesas, em versões antigas da Bíblia em hebraico, nas sagas islandesas e até nas escrituras hindus, as Vedas. "Esses hinos de mais de dez mil linhas estão cheios de descrições do céu. Quase nenhum tema é tratado com tanta frequência. O sol e o início da madrugada, o dia e a noite, as nuvens e os relâmpagos, o ar e o éter, tudo isso é contado", afirma Geiger. "Mas uma coisa que ninguém poderia sabia por meio dessas canções é que o céu é azul."

Geiger também notou que houve uma sequência comum para o surgimento da descrição de cores nas línguas antigas. Primeiro, aparecem as palavras para preto e branco ou escuro e claro, do dia e da noite; logo, vem o vermelho, do sangue; depois, é a vez do amarelo e do verde e, só ao final, surge o azul.

Mas por que o azul não apareceu antes?

"E por que deveria?", questiona o psicólogo Jules Davidoff, diretor do Centro para Cognição, Computação e Cultura da Universidade de Londres. "Por que precisariam do azul para descrever algo? Quem disse que o mar e o céu são azuis? Por acaso, eles têm a mesma cor?"

Cognição

Além de não ser um objeto, o mar não é sempre azul, apesar de ser tradicionalmente representado assim. Davidoff dedica-se à neuropsicologia cognitiva e a investigar a forma como reconhecemos objetos, cores e nomes. Ele fez experimentos com uma tribo da Namíbia, na África, cuja linguagem não tem uma palavra para o azul, mas possui várias para diferentes tipos de verde.

Quando mostrou a integrantes da tribo 11 quadrados verdes e um azul, não puderam achar qual era diferente, mas, se em vez de azul, o quadrado fosse de um tom de verde levemente diferente e dificilmente notado pela maioria das pessoas, era destacado imediatamente.

Na verdade, poucas coisas na natureza são azuis: uma ou outra flor de orquídea, as asas de algumas borboleta, as plumas de certas aves, a safira e a pedra luz. No entanto, Homero estava na Grécia, um lugar que para muitos é mercado pelo azul do céu e do mar. Como podiam ignorar essa cor?

Em seus estudos, Deutscher recorreu à filha, Alma, que estava aprendendo a falar na época. Como qualquer outro pai, ele brincava com ela e a ensinava o nome de diferentes cores. Teve, então, uma ideia para verificar o quão natural é o azul na linguagem e entender como as civilizações antigas, especialmente as que viviam no Mar Mediterrâneo, não deram um nome para a cor do céu.

Ele ensinou a Alma todas as cores, inclusive azul, mas fez com que ninguém lhe dissesse de que cor era o céu. "Quando tive certeza de que sabia usar a palavra 'azul' para os objetos, sai com elas em dias de céu azul e perguntei qual era sua cor."

Por muito tempo, Alma não respondeu. "Ela respondia imediatamente a tudo mais, mas, com o céu, olhava e parecia não entender do que eu estava falando", conta Deutscher.

"Certa vez, quando já estava muito segura e confortável com todas as cores, ela me respondeu, dizendo primeiro 'branco'. Foi só depois de muito tempo e após ver cartões-postais em que o céu aparecia azul que usou essa cor para descrevê-lo."

Necessidade

Foi assim que sua filha ensinou a ele que nada é tão óbvio quanto pensamos. "Entendi com meu coração, observando uma pessoa, não lendo livros ou pensando em povos de um passado remoto", afirma o pesquisador.

"E Alma nem sequer estava na mesma situação dos povos antigos: ela conhecia a palavra azul e, no entanto, não a usou para o céu. Compreendi que não é uma necessidade de primeira ordem dar um nome para a cor do céu. Não se trata de um objeto."

O mesmo ocorre com o mar: assim como o céu, não tem sempre a mesma cor e, acima de tudo, não é um objeto, por isso não há motivo para "pintá-lo" com uma palavra.

"Nada mudou em nossa visão. Há séculos, somos capazes de ver diferentes tons, mas não temos as mesmas necessidades", afirma o especialista. "Era perfeitamente normal dizer que o mar era preto, porque, quando está azul escuro, parece preto, e isso é suficiente nesta época. Uma sociedade funciona bem com o preto, o branco e um pouco de vermelho."

Então, por que começamos a dizer que determinadas coisas são azuis?

"Conforme as sociedades avançam tecnologicamente, mais se desenvolve a gama de nomes para cores. Com uma maior capacidade de manipulá-las e com a disponibilidade de novos pigmentos, surge a necessidade de uma terminologia mais refinada", afirma Deutscher.

"A cor azul é a última, porque, além de não ser encontrada tão comumente na natureza, levou muito tempo para fazer este pigmento."

Os egípcios antigos tinham o pigmento azul e uma palavra para nomeá-lo, por exemplo, pois se tratava de uma "sociedade sofisticada". "O que importa não é tanto a época em que viveram, mas seu nível de progresso tecnológico. É aí que está a correlação com o volume do vocabulário para cores."

Mas não há no hebraico bíblico a palavra "kajol", que significa azul? "Sim, mas essa palavra significava 'preto'. Tem a mesma raiz da palavra álcool, e o 'kohol' era um cosmético em pó feito com antimônio que as mulheres usavam para pintar os olhos e era preto."

Pouco a pouco, o termo foi mudando até assumir o significado que tem hoje no hebraico moderno. E este não é único caso, segundo o especialista. "O mesmo aconteceu com a palavra 'kuanos' em grego. Homero a usa, mas significa preto ou escuro. Foi só depois que passou a significar 'azul'."






Trump, o Papa e o Cristianismo na Política - Por Rodrigo Franklin de Sousa




O Papa Francisco chamou a atenção mais uma vez nessa semana, ao sugerir que Donald Trump não seria verdadeiramente cristão. 

Como era de se esperar, Trump não ficou calado: sua reação foi dar uma das mais fortes declarações de um aspirante a Presidente dos EUA contra um Papa. Ao mesmo tempo, a resposta foi excepcionalmente comedida para os padrões que esperamos do polêmico político.

Como a imprensa norte-americana já aponta, sua reação foi cuidadosamente pensada, com o intuito de alcançar o maior ganho político possível junto à base eleitoral conservadora, tanto evangélica quanto católica. Muitos segmentos evangélicos já se opõem à igreja católica em princípio, e os católicos mais conservadores são incomodados com o Papa Francisco por sua postura considerada progressista, em muitos tópicos.

Com cuidado na análise, a discussão nos revela pontos importantes sobre a relação entre religião e política. Um dos argumentos de Trump apontou que Francisco não deveria se posicionar contra ele, diante da possibilidade de um ataque do Estado Islâmico ao Vaticano. Trump insistiu na afirmação que, sendo presidente dos EUA, ele eliminará completamente o EI.

Embora qualquer pessoa, com mínima boa vontade, sonhe com a eliminação do EI, as aspirações messiânicas e ufanistas da declaração só podem ser levadas a sério pelas mentes mais ingênuas ou megalomaníacas. Além disso, não está claro como ela serve de resposta ao desafio do Papa, a menos que alguém siga a lógica, que parece ser a de muitos conservadores americanos, de que combater o EI é um sinal ou prerrogativa do cristianismo.

Outro argumento foi o de que o Papa teria sido levado a crer em comentários maldosos que apresentam Trump em uma luz negativa quando, na realidade, ele é um cara muito legal (“a very nice guy”) e um Cristão muito bom (e orgulhoso disso, em suas próprias palavras). 

Trump aproveitou para afirmar que, como o bom cristão que é, ele não permitirá, em seu mandato, que o cristianismo seja atacado e enfraquecido, “como acontece sob o atual governo”. Mais uma vez, ele utilizou habilmente do discurso religioso para fortalecer seu discurso político.

Antes de mais nada, concordemos ou não, é bom lembrar que uma das prerrogativas de um líder religioso é, justamente, a de se pronunciar sobre o que é ou não ser cristão. Mas, o que nos interessa mesmo, é ver como nessa discussão estão em jogo diferentes noções de cristianismo.

Ao se declarar cristão, Trump tem alcançado grande popularidade entre católicos e evangélicos conservadores nos EUA. Mas é preciso compreender a que ele se refere quando faz esta afirmação. A religião que Trump tem em mente, parte de uma associação, marcante tanto nos EUA quanto no Brasil, entre cristianismo e simples conservadorismo político.

Nessa concepção, o que define a religiosidade é o compromisso com certos valores econômicos, com o militarismo e com um tipo específico de ordem social. Ainda, se pensarmos em termos dos elementos religiosos mais fundamentais da doutrina e fé cristã propriamente dita, a identificação de Trump com o cristianismo se torna mais problemática.

Não me refiro simplesmente a sua atitude arrogante e preconceituosa contra mulheres, minorias e estrangeiros, nem mesmo ao fato de, entre seus muitos empreendimentos, ele ser dono de uma boate de Strip-Tease, mas, acima de tudo, suas declarações recentes que sugerem um bom mocismo e que, por isso, nunca precisa pedir perdão a Deus! Entre todas as suas afirmações, talvez esta seja a que mais revele sua incompreensão do que significa ser cristão.

A discussão entre Trump e o Papa nos mostra que existe um abismo entre o conteúdo de fé e prática de uma religião (no caso o Cristianismo) e a forma como o discurso político se apropria de seus símbolos e termos para seus próprios fins. Acima de tudo, ela mostra que a religião é, e continuará sendo, um fator significativo e poderoso na discussão política.

Rodrigo Franklin - Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie em São Paulo.






sábado, 20 de fevereiro de 2016

Intolerância religiosa gera violação de direitos – Por Waldelúcio Barbosa



Divergências entre as religiões ainda geram preconceitos e conflitos.

O Brasil é constitucionalmente laico, sem religião e uma das nações que mais possuem diversidade de credos do mundo, mas esse cenário nem sempre foi assim. Até meados do século 20 o candomblé e a umbanda, com seus batuques e cantigas, eram proibidos em todo território brasileiro. 

Em outros países, as divergências entre as religiões têm intensificado o preconceito em relação aos muçulmanos, por exemplo, induzindo-se a crer que todo adepto da religião islâmica tem a responsabilidade por ataques terroristas causados por uma minoria radical.

A Constituição da República Federativa do Brasil traz que é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias, mas o respeito à religião do outro envolve o ser humano em sua mais pura essência.

De acordo com o doutor em Antropologia, Arnaldo Eugênio, os conflitos religiosos fazem parte do cenário de lutas pelo poder ou hegemonia espiritual entre os homens em diversas sociedades no mundo, cujo objetivo é impor uma ordem religiosa absoluta em determinado tempo e lugar. Para ele, tais conflitos influenciam a política, a economia e as relações sociais nas comunidades.

“Atualmente, se fala em 'mercado religioso', um espaço sociocultural de disputa por fiéis, onde cada denominação religiosa oferece ao ‘fiel cliente’ ou ‘cliente fiel’ uma promessa de salvação para a sua vida problemática. Nessa lógica de mercado, a procura é maior quando a oferta é mais tentadora, ou seja, imediatista”, pontuou.

Fanatismo religioso

A intolerância religiosa representa um dos problemas mais delicados do mundo, em que o fanatismo conduz uns a realizarem, contra os outros, verdadeiras guerras, em nome, supostamente, de sua religião, como se fosse possível estabelecer qual religião teria a “razão”. 

A falta de bom senso e de respeito mínimo à diversidade podem ser citados como fatores que criam e fortalecem as situações de caos e violência vistas em todo o planeta, inclusive no Brasil, decorrentes de divergências de crenças.

O professor universitário avalia que não se muda uma realidade de intolerância sem que estabeleçam práticas sociais de respeito aos diferentes, de conhecimento e de reconhecimento da diversidade cultural entre os homens, sem uma educação crítica e reflexiva capaz de instaurar a tolerância ao outro, rompendo os preconceitos. Para ele, ser diferente é uma condição humana e se achar superior a outrem é ser etnocêntrico.

“A violência não vem apenas do lado da religião. Nos últimos 100 anos, as principais religiões foram mais perseguidas do que em qualquer outro período histórico. Em geral, trata-se não de religião perseguindo religião, mas de ideologia perseguindo religião. Na medida em que umas religiões se recuperam da perseguição, outras reiniciam suas próprias perseguições”, completa.

Liberdade deve atingir todos os campos

Segundo Arnaldo Eugênio, é preciso conhecer os valores das outras religiões para reconhecer a importância para os seus praticantes e respeitar a sua existência. “A educação de qualidade, o diálogo e o reconhecimento da diversidade é um caminho para a tolerância entre os diferentes, independentemente de qualquer religião”, considera o antropólogo.

Aperfeiçoar a tolerância às diferenças é indispensável no regime democrático. A laicidade do Estado tem interface com diversos direitos humanos fundamentais, como a liberdade de expressão, a liberdade de crença e de não crença, a igualdade de gênero e os direitos da população LGBT, população esta que sofre forte discriminação em virtude de dogmas religiosos.

“Toda forma de intolerância, religiosa ou não, constitui violação e uma ameaça a uma sociedade livre. Na medida em que, especificamente, os meus valores religiosos não são respeitados socialmente nem protegidos pelo Estado, não faz sentido reconhecer a importância de outras religiões nem tão pouco admitir qualquer autoridade política do Estado que seja capaz de mediar os conflitos sociais”, avaliou.

Umbadistas buscam respeito e igualdade

A coordenadora estadual do Centro Nacional da Africanidade e Resistência Afro-Brasileira (Cenarab) em Teresina, Mãe Ruthinéa de Iansã, afirma que a umbanda é uma das religiões que mais sofrem discriminação no país, por isso o Cenarab nasceu, a partir de lideranças formada pelas minorias para combater a intolerância à comunidade umbandista. 

Ela lembra que em 1920, houve uma invasão em diversos terreiros, onde foi tudo destruído e houve perseguição aos praticantes da religião. Ela lembra que até hoje existem instrumentos característicos da religião sendo colocados como de magia negra.

“Nós estamos no movimento de busca e resgate desses materiais para devolver para nossa comunidade. No ano de 2015, nós registramos o incêndio criminoso em cerca de 15 terreiros em todo Brasil. Em Brasília, o terreiro da mãe de santo mais antigo foi incendiado. No Piauí, nós tivemos muitos pais de santos assassinados”, revelou.

Segundo Mãe Ruthinéa, isso acontece porque geralmente os pais e mães de santos representam a classe das minorias, que incluem mulheres, negros e homoafetivos. Por isso, ela acredita que a intolerância tem imperado nas pessoas de forma a impor uma crença, uma fé, esquecendo que a Legislação garante que cada cidadão tem direito a ter sua crença.

Ela ressalta ainda que existe uma resistência até mesmo no ambiente escolar, pois nenhum livro didático coloca a história da cultura africana, que são os responsáveis por estruturar o Brasil no que se refere a economia, culinária, saúde e principalmente religião.

A mãe de santo cita a Lei 10.639/03, alterada pela Lei 11.645/08, que prega a obrigatoriedade do ensino sobre a história e a cultura afro-brasileira e africana nas escolas públicas e particulares, do ensino fundamental ao ensino médio.

“Nossas crianças e adolescentes precisam ter conhecimento da história da cultura africana, porque existe uma história do negro sem o Brasil, mas não existe uma história do Brasil sem a presença do negro. Nós buscamos a valorização e qualidade de vida para os nossos terreiros”, acrescentou.

Sociedade capitalista

Segundo Mãe Ruthinéa de Iansã, a sociedade capitalista faz com que as pessoas vivam em religiões para economia e por isso existe um universo de denominações de igrejas com inúmeras subdivisões que brigam por capital e o dinheiro que são oriundos dos dízimos. “A Umbanda é da paz, do amor, da caridade. Nós somos uma mãe de braços abertos que abraça o católico, o evangélico, o saudável, o doente, o pobre e o rico”, disse.

De acordo com a coordenadora do Cenarab, a ganância capitalista do homem gera a intolerância porque os homens buscam o poder, enquanto a Umbanda está ligada à espiritualidade da natureza.

“Você vai a um terreiro e não vê ostentação, mas sim um pai de fé nas tronqueiras recebendo seu povo e fazendo um atendimento social e isso incomoda, porque quando o pequeno faz acontecer o grande se incomoda. A umbanda é pequena no sentido de não ter uma estrutura elitista, mas é grande na sua convicção, na sua fé, espiritualidade que carrega um povo que não está preocupado de quanto vai arrecadar das pessoas”, pontuou.

Católicos associam intolerância a falta de fé

Ataques e destruição de imagens santas, assim como atos de desrespeito aos dogmas religiosos pregados pela Igreja Católica também exemplificam o direito de religiosidade de cada cidadão. Para o vigário geral da Arquidiocese de Teresina, padre Tony Batista, a falta de conhecimento é o principal impulso para intolerância religiosa.

“A intolerância parte de uma má-formação, ausência de fé, porque quando você tem fé , você não pode ser intolerante à fé do outro. Deus não faz distinção de pessoas, Deus ama a todos, porque ele é Pai, o problema é que o ser humano cria esses preconceitos religiosos”, considerou.

Segundo ele, os católicos não fazem essa distinção e acolhem todos os filhos de Deus. De acordo com o padre, a ignorância intelectual e de fé de algumas pessoas é que levam para o desrespeito à crença do outro. O padre revela que sempre é muito triste os casos em que as imagens e representações dos santos são quebrados e crê em uma sociedade mais tolerante.

“O sentimento que fica é tristeza, pois o que nós vemos em outros países é que eles fazem o máximo para conservar as suas imagens e esculturas, mas um dia nós seremos mais civilizados. Eu creio nisso”, observou.

Igreja Evangélica não concorda com ato

De acordo com o pastor Marcos Sérgio, líder da Igreja Batista Nacional Filadélfia da Piçarra, as igrejas evangélicas não concordam e são contra o ato da intolerância religiosa e defendem a diversidade de pensamento e posicionamento, que dá o direito do outro em pensar diferente. Segundo ele, o intolerante é uma pessoa sem cultura e as pessoas que acusam os protestantes de serem intolerantes é porque não conhecem os seus verdadeiros líderes.

O religioso afirma que a igreja evangélica é bastante atacada com acusações de que discriminam os homoafetivos e para ele, isso não é verdade. “A igreja respeita os homossexuais, agora o meu direito de pensar diferente dele, não me faz ser intolerante. Eu sou a favor do respeito ao outro e não defendo a agressão física e moral”, pondera.

Ele considera o que acontece no Oriente Médio como fanatismo, loucura e exalta a característica do Brasil em dar o direito de cada pessoa ter sua crença. Ele diz que para combater a intolerância, os evangélicos trabalham os conceitos bíblicos, mostrando que Jesus nunca foi intolerante com ninguém e sempre respeitou as pessoas, dando aos homens o livre o arbítrio. “Deus não criou máquinas, ele criou homens que têm capacidade de seguir ou não aqueles preceitos”.

O pastor disse ainda que nos cultos, as pessoas não são orientadas e ensinadas a serem intolerantes, mas sim a respeitar, compreender o outro, mesmo que o seu pensamento seja diferente. “Nós não concordamos com a intolerância, isso não quer dizer que isso nos tira o direito ao pensamento contraditório”, destacou.