domingo, 28 de fevereiro de 2016

Partido Comunista Chinês convertido aos 'benefícios' da religião


Combatidos outrora como elementos "contrarrevolucionários" e "superstições feudais", as crenças religiosas e o pensamento tradicional chinês reconquistam hoje o seu espaço na China, num fenómeno que Pequim incentiva e tenta usar a seu favor.

Entre a liderança do Partido Comunista Chinês (PCC), cuja base teórica marxista promove o ateísmo e "métodos científicos", existe mesmo um "interesse especial pelas antigas práticas chinesas", disse à Lusa o astrólogo Wang Haohua.

Wang, 43 anos, começou "desde criança" a estudar o 'feng shui', o milenar sistema originário da China que procura a harmonia com os elementos da natureza. Além de pesquisador, é um dos astrólogos mais requisitados pela imprensa estatal e professor convidado nas prestigiadas Universidades de Pequim e Qinghua.

Sobre as emblemáticas obras erguidas nos últimos anos na capital chinesa, Wang garante que "respeitam as regras do 'feng shui'", em contraste com os edifícios em estilo soviético construídos após a revolução de 1949. Segundo o mestre, o Presidente chinês, Xi Jinping, demonstrou já ser um crente naquele sistema, ao citar o filósofo taoista Lao Tse, em 2014, durante o discurso de abertura da cimeira da APEC (Cooperação Económica Ásia-Pacífico).

"O bem supremo é como a água; beneficia todos sem tentar competir com ninguém'", disse Xi, justificado assim a opção pelo Centro Aquático "Cubo de Água", em Pequim, para receber aquela cerimónia. "Foi a primeira vez que ouvi um líder chinês mencionar abertamente um princípio do 'feng shui'", notou Wang Haohua.

Durante a Revolução Cultural (1966-76), lançada pelo fundador da República Popular da China, Mao Zedong, aquela prática foi proibida e os seus adeptos perseguidos. Wang era então criticado na escola pela sua 'superstição', enquanto um dos maiores sábios da China Antiga, Confúcio (551-478 A.C.), foi rotulado de "pensador decadente e reacionário".

Hoje, no estúdio do mestre, situado nos subúrbios de Pequim, duas pequenas estátuas de Mao e Confúcio estão pousadas lado a lado. A "sociedade sem classes", preconizada por Mao até à sua morte em 1976, deu entretanto lugar à "sociedade harmoniosa", cuja construção terá mesmo nas crenças religiosas um pilar "importante".

"Existem documentos oficiais [do PCC] a reconhecer o papel positivo que as pessoas religiosas podem desempenhar na promoção de uma 'sociedade harmoniosa'", disse à Lusa o académico italiano Francesco Sisci. Aquele especialista nas relações entre a República Popular da China e a Santa Sé conduziu no mês passado uma entrevista histórica ao papa Francisco, dedicada unicamente ao país asiático.

"O mundo espera pela vossa sabedoria", assinalou o papa, dirigindo-se ao povo e ao Presidente chinês. A China e a Santa Sé não têm relações diplomáticas e a única igreja católica autorizada pelo Governo chinês é independente do Vaticano.

Um jornal oficial do PCC, o Global Times, reagiu às palavras do papa, lembrando que "a maior divergência entre a China e o Vaticano reside na nomeação dos bispos". "A China escolhe os seus bispos, mas o Vaticano acha que esse é um direito seu", apontou o Global Times em editorial.

Oficialmente, o número de cristãos na China continental rondará os 24 milhões, o que não chega a 2% da população. A Academia Chinesa de Ciências Sociais estima que haja cerca de 130 milhões de cristãos ligados às chamadas "igrejas clandestinas".

Para Francesco Sisci, que vive em Pequim há mais de 20 anos, "a fé cristã precisa de adotar [na China] uma linguagem que se adapte ao paradigma cultural chinês". "De certa forma, os primeiros jesuítas fizeram isso, recorreram a termos, frases e terminologia que facilitaram a compreensão do conteúdo cristão por parte dos chineses", conclui.






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