quarta-feira, 20 de abril de 2016

AfD quer incluir posição anti-islã em seu programa partidário


Esboço de programa da Alternativa para a Alemanha traça imagem da religião como ameaça universal, aproveitando-se de temores difundidos contra o islã para angariar votos. Demais partidos e associação islâmica reagem.

Se dependesse do partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD), minaretes e muçulmanas cobertas de véus desapareceriam do país. Também o canto dos muezins, que, de qualquer forma, quase não se ouve em território alemão, deveria ser proibido.

"O islã não faz parte da Alemanha", consta no esboço para um novo programa de princípios partidários da AfD. A vice-presidente da legenda, Beatrix von Storch, vai ainda mais longe: "O islã, em si, é uma ideologia política incompatível com a Lei Fundamental [Constituição] alemã."

Na edição de domingo do Frankfurter Allgemeine Zeitung, ela e o segundo vice da AfD, Alexander Gauland, apresentaram o curso político do partido. Para Gauland, o islamismo seria um "corpo estranho" na República Federal da Alemanha, "sempre relacionado intelectualmente à tomada do Estado", acrescentou, sem apresentar provas para tal afirmativa.

O esboço de programa de duas páginas e meia será votado no início de maio em Stuttgart. Ele não apenas contém o rechaço a uma "sociedade paralela", com juízes norteados pela sharia (a lei islâmica) e ao salafismo de tendência violenta, como também propõe o fechamento das escolas corânicas. Igualmente descartada fica a equiparação legal de organizações islâmicas a igrejas.

Suposta ameaça universal

Numa entrevista à emissora DLF, o líder da AfD no estado da Renânia-Palatinado, Uwe Junge, reforçou: "O islã é uma religião política. Ele não tem essa reserva, que normalmente esperamos de uma religião, de se manter fora da política."

Seu partido não é contra todos os muçulmanos, ressalvou Junge: ele não se refere aos que "conquistaram seu lugar em nossa sociedade através da assimilação, da integração". Mas, afinal, existe também outro islã, voltado contra tudo o que compõe a ordem fundamental liberal-democrática, afirmou Junge. Esse islã seria intolerante, avesso à liberdade de opinião e à igualdade de homens e mulheres.

Em sua explanação, o político não se deu ao trabalho de esclarecer o que seria a regra e o que seria a exceção. Com isso, ele reforça a imagem de uma religião que supostamente constitui uma ameaça universal.

Partidos reagem

As afirmações do Alternativa para a Alemanha alarmaram os demais partidos do país. Falando ao diário Rhein-Neckar-Zeitung, Armin Laschet, vice-presidente da governista União Democrata Cristã (CDU), frisa que campanhas eleitorais voltadas contra religiões são um fenômeno novo, que "dividiria o país".

Também o vice-presidente da bancada parlamentar do Partido Verde, Konstantin von Notz, acusa a AfD de apostar intencionalmente numa divisão da sociedade, e de procurar atrair eleitores representando o islã como encarnação do inimigo.

Kerstin Griese, encarregada para assuntos religiosos do Partido Social-Democrata (SPD), também da coalizão governamental, rebate que bem mais de 90% dos muçulmanos no país respeitam os preceitos constitucionais. Portanto não se podem tirar conclusões sobre toda uma comunidade religiosa com base em uns poucos grupos extremistas, apela.

Generalizações como estratégia eleitoral

Não é a primeira vez que a AfD apela para generalizações com o fim de ganhar espaço. Nas últimas eleições, ele garantiu um maior apoio do eleitorado com sua crítica ao posicionamento do governo da chanceler federal Angela Merkel na questão dos refugiados. Alarmados pelo afluxo descontrolado de centenas de milhares de migrantes, muitos eleitores de fato escolheram a legenda que defende um isolamento rigoroso da Alemanha.

Nas eleições estaduais de março deste ano, os populistas de direita alcançaram 15% dos votos em Baden-Württemberg e quase 13% na Renânia-Palatinado. Na Saxônia-Anhalt, com 24%, a AfD consagrou-se até mesmo como segunda legenda mais forte.

No entanto, o número de refugiados vem caindo rapidamente, sobretudo graças a medidas polêmicas nos níveis nacional e da União Europeia. Junge refuta a acusação de que seu partido só teria "descoberto" o islamismo agora como tema central, pelo fato de a crise do euro e os refugiados ocuparem cada vez menos as manchetes. "O islã é um tema constante, que nós naturalmente tematizamos em conexão com a crise dos refugiados", alegou.

Islamofobia já existia

Para o presidente do Conselho Central dos Muçulmanos da Alemanha, Aiman Mazyek, a AfD simplesmente lança mão de reservas há muito difundidas. "Não é que esse partido tenha inventado essa islamofobia: ele só nada nessa onda que já existe na nossa sociedade", afirmou à emissora NDR.

"É a primeira vez, desde a Alemanha de Hitler, que um partido volta a desacreditar toda uma comunidade religiosa e a ameaçá-la em sua existência", condenou o representante islâmico, indiretamente traçando um paralelo com o partido nazista.

Por outro lado, Mazyek está convencido de que os estrategistas do grupo ultradireitista não visam os muçulmanos em primeira linha. "Estaríamos caindo na cilada do partido, se acreditássemos que o foco é realmente o islã." A intenção real da AfD seria, antes, minar a ordem liberal-democrática, ao atacar a liberdade de religião, assegura.

O presidente do Conselho Central dos Muçulmanos conclui invertendo a acusação dos populistas do Alternativa para a Alemanha: "Não é o islã que é inconstitucional, mas sim a AfD."





Fundo ligado ao Ministério da Justiça libera R$ 522 mil para pesquisa sobre ayahuasca – Por Juca Guimarães


Estudo será feito pela USP. Substância pode causar alucinação e delírios, diz especialista.

O Funad (Fundo Nacional Antidrogas), ligado ao Ministério da Justiça, aprovou o convênio que libera R$ 522 mil para o estudo dos efeitos da ayahuasca, produzida com as mesmas plantas do chá ritualístico do Centro Beneficente Espírita União do Vegetal, no combate ao vício em cocaína.

A União do Vegetal tem interesse na realização de pesquisas que mostrem aspectos positivos da ayahuasca. O ministro da Justiça Eugênio Aragão foi associado da União do Vegetal e é simpatizante do chá.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), por outro lado, mantém a dimetiltriptamina - DMT na lista de substâncias proibidas no país. A DMT está presente no chá da União do Vegetal, assim como no Santo Daime e em outras bebidas de seitas ayahusqueiras.

A exceção para o uso da ayahuasca em rituais, sem risco de prisão por porte de substância proscrita, no Brasil é garantida por uma resolução do Conad (Conselho Nacional de Políticas Sobre Drogas) de 2010. Ao consumir o chá, em doses de 50 ml, os associados entram em estado de transe que pode durar até três horas, com letargia e alterações motoras. 

Por isso, após consumir a bebida, os associados se sentam em espreguiçadeiras durante o transe. As sessões duram a noite toda. Por sessão, alguns associados tomam até quatro doses de chá. A bebida pode provocar também vômitos e diarreia, que são interpretados como um processo de purificação pelos religiosos.

O projeto de pesquisa "Canabidiol e ayahuasca no tratamento da farmacodependência à cocaína: possíveis intervenções terapêuticas?" é realizado pelo departamento de neurociência e comportamento da USP (Universidade de São Paulo), em Ribeirão Preto, sob o comando do professor Jaime Hallak. 

Além da ayahuasca, a pesquisa também vai analisar os efeitos da substância canabidiol (encontrada na maconha) no tratamento da dependência em cocaína. A expectativa da União do Vegetal é que o resultado da pesquisa, previsto para ser divulgado em 2019, confirme algum efeito terapêutico do chá.

Restrições

O Conad proíbe a comercialização do chá pelas seitas. Os membros podem fazer doações e pagar mensalidades para a manutenção das seitas. Também é proibido o chamado "turismo religioso", expedições organizadas para centros ou florestas com distribuição do chá para não-membros. Outra determinação do conselho para evitar o uso do chá como entorpecente é o cadastro das seitas e seus membros. 

Em 1991, as religiões que fazem uso do chá, publicaram uma carta de princípios definindo três diretrizes: não fazer propaganda do chá, não adicionar álcool ou outras substâncias ao chá e não comercializar a bebida.

A psiquiatra e presidente da ABEAD (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas), Ana Cecília Marquês, fez uma análise sobre o uso da ayahuasca em pesquisas científicas. 

R7: Os estudos sobre os efeitos da ayahuasca no tratamento de dependentes de cocaína são promissores?

Ana Cecília Marquês: Todo estudo com substâncias que podem causar consequências para o cérebro são importantes e requerem uma metodologia rigorosa. Se o resultado pode ser promissor, ainda não tenho uma opinião formada, pois a literatura mostra que o modelo da terapia de substituição, isto é, administrar uma droga da mesma classe farmacológica, com as mesmas propriedades, inclusive capazes de causar dependência durante o tratamento, tem várias complicações e eficácia moderada para alguns efeitos e baixa para outros. Um exemplo disso é a heroína sendo substituída pela metadona.

R7: A DMT presente no chá ritualístico é um entorpecente perigoso?

Ana Cecília Marquês:  É um estimulante do sistema nervoso central que pode causar alucinações, delírios, despersonalização, desrealização, deterioração do pensamento, do funcionamento social, laboral e etc. E causar uma psicose.

R7: A religiões que usam o chá alertam para o perigo da mistura com entorpecentes e álcool. Eu queria saber se o uso prolongado apenas do chá também não é arriscado?

Ana Cecília Marquês: Sim, pode ser. Isto é, ainda não temos o acompanhamento do uso crônico para dizer que não é arriscado. Não estamos avaliando alface, mas sim uma droga psicotrópica.

R7: A União do Vegetal  diz que o chá é inofensivo e pode ser usado por crianças. A doutora acha que o chá pode ser usado por crianças e mulheres grávidas?

Ana Cecília Marquês: Não. Pois já temos conhecimento científico do impacto do uso de drogas psicotrópicas durante a gravidez no feto. Tanto na formação do cérebro como no organismo como um todo. Assim como no cérebro da criança, que também está em formação e pode apresentar uma vulnerabilidade para tal comportamento ou hábito.