sexta-feira, 23 de outubro de 2015

convite


Jorge Silva Melo: ​“Gosto do Deus do amor e do perdão, não da culpa” – Por Ângela Roque


Jorge Silva Melo foi o primeiro convidado das “Conversas sobre Deus” que semanalmente, até 16 de Dezembro, a jornalista Maria João Avillez vai conduzir, na Capela do Rato, em Lisboa. Às quintas-feiras, das 22h00 às 22h30, pode ouvi-las na Renascença/Portugal.

A infância de Jorge Silva Melo marcou boa parte da primeira “Conversa sobre Deus” que encheu a Capela do Rato, em Lisboa. O cineasta contou como foi despertando para a fé católica. 

Numa família onde o pai “era o tradicional republicano, jacobino e mata-frades”, e a mãe mantinha “um catolicismo social, de baptizados, casamentos e festa”, acabou por ser influenciado pela rebeldia da irmã, 12 anos mais velha, e que era profundamente católica.

A passagem pelo colégio dos maristas, para onde foi com seis anos, não lhe deixou boas recordações, mas foi aí que ouviu pela primeira vez a história da transfiguração, que o marcou até hoje. “Deus fez-se homem, e há uma altura em que o homem vai revelar o seu esplendor divino”.

"É uma história que me encanta”, diz, e que também o fez amar o teatro: “Isto foi uma cena de teatro fantástica, lá no alto da montanha, Jesus chamou dois profetas, Moisés e Elias, ou seja, não só fez o teatro de si próprio, como fez o teatro histórico, trouxe as personagens históricas, aqueles que vieram antes dele, que O anunciaram”.

“Também é por causa desta história que a minha profissão nunca foi muito bem vista na Igreja, porque nós ousamos fazer aquilo que só Jesus pode, que é tranfigurarmo-nos”. E acrescentou: “Criador é só Deus e os artistas. Nós roubámos essa palavra, por isso nunca somos muitos bem vistos. Nós, os do teatro, somos sempre olhados um bocadinho de soslaio”.

O cineasta e encenador contou como também o marcou ter visto, ainda miúdo, o filme “Quo Vadis”: “Fiquei fascinado com aquele catolicismo primitivo, era uma religião que se opunha à religião dos poderosos que me era ensinada no colégio, castigadora, da culpa. Eu fiquei encantado com os pobrezinhos que estavam nas catacumbas”.

Houve também livros que considera fundamentais na sua vida, como as “Florinhas de São Francisco” e os de Simone Weil, que já lia em francês. “Percebi que era tudo muito diferente da religião que me era ditada, martirizada e crucificada no colégio”.

Os colegas ouviam Pink Floyd, ele queria “ser militantemente católico”. Jorge Silva Melo explicou que o que sempre o atraiu na fé católica “foi o amor e o perdão” e que nunca seria protestante: “Eu quero pertencer a uma comunidade que se centra no perdão e nunca na culpa, e no amor como fonte de criação”.

“A ideia de que é possível perdoar o mal que fazemos, e que fazemos todos os dias, é uma coisa que me transcende, acho isso absolutamente maravilhoso, voltarmos a partir do zero. A vida recomeça com o perdão e esse perdão é feito do amor. São princípios do catolicismo”.

Em 1968, Jorge Silva Melo foi bolseiro da Gulbenkian na London Film School: “Quando todos os meus colegas estavam a ouvir Pink Floyd, e nos êxtases extrasensoriais, eu queria ser militantemente católico”.

Gostava das idas à missa numa igreja onde não conhecia ninguém. Houve uma altura em que ia com o amigo Luis Miguel Cintra, que estava a estudar em Bristol. No regresso a Portugal, fundaram os dois, em 1973, o Teatro da Cornucópia. Foi “uma grande aventura” e um marco na sua vida: “A minha saída foi uma dor de que ainda não me refiz”.

Jorge Silva Melo está a trabalhar neste momento num filme autobiográfico, e vai levar a cena a “A Noite do Iguana”, de Tennessee Williams. Trabalhos criativos feitos “a meias com Deus”: “Vou fazer o Tennessee Williams com a Maria João Luis porque a amo e entendo-me bem com ela. São horas felizes de ambos e superamo-nos. Ela dá-me mais do que lhe dou e eu dou-lhe tranquilidade, e isso é Deus, é a tal história do perdão e do amor. Quando estou a trabalhar nos ensaios estou a dar atenção aos actores, que é o que Deus me pede. Isso é o amor”.

As "Conversas com Deus", conduzidas por Maria João Avillez, prosseguem na próxima terça-feira com Assunção Cristas. As restantes, até 16 de Dezembro, serão sempre à quarta-feira, às 21h30, e os convidados vão ser Marcelo Rebelo de Sousa, Maria de Belém, Fernando Santos, Pedro Mexia, Carminho, Henrique Monteiro, e João Taborda da Gama. Esta é uma iniciativa da Capela do Rato, com o patrocínio da Renascença.





"Não chore, não ria, mas compreenda", Espinosa



"Maldito ele seja de dia e maldito seja de noite. Maldito seja quando se deita e maldito seja ele quando se levantar. Maldito seja quando sair, e maldito seja quando regressa".

Com essas palavras iradas e algumas outras a mais, a Sinagoga de Amsterdã anunciou para quem quisesse ler a condenação do "herege", Baruch de Espinosa, em 27 de Julho de 1656.

Ser expulso da religião não foi sequer o maior problema de Espinosa por aqueles dias. Envergonhados com a situação, seus parentes o deserdaram e o impediram de tomar parte nos negócios da família. O filósofo havia questionado a forma como víamos Deus e subitamente se viu sem o amparo da comunidade judaica e de seu lar.

Para se sustentar, teve de arranjar emprego como lustrador de lentes, um trabalho que garantiu a renda, mas acabou debilitando sua saúde: Espinosa morreria aos 44 anos, provavelmente de uma silicose causada pelo pó de vidro que respirou em duas décadas de serviço. Não que tenham faltado oportunidades para tentar outra carreira.

A Holanda vivia uma efervescência econômica, e Espinosa sempre esteve cercado por contatos influentes. Recebeu até mesmo um convite para lecionar na prestigiada Universidade de Heidelberg, mas se viu forçado a recusá-lo por conta da orientação para que não ensinasse teorias contrárias à religião.

De onde vinha tanta convicção? Muitos tacharam Espinosa de ateu, e seus textos chegaram a entrar no famigerado Index, a lista de livros proibidos para católicos. O filósofo não negava a existência de Deus, mas O enxergava como uma figura muito mais impessoal. Para Espinosa, Deus e a Natureza eram dois nomes para a mesma "substância" que fazia o Universo, e a vontade divina se manifestava nas leis naturais. Um conceito inovador que, de certa forma, obrigava a buscar explicações racionais para tudo, negando milagres, por exemplo.

Em seu Tratado Teológico-Político, publicado em 1665 (sem assinatura, por medo de represálias), o filósofo dizia que o supersticioso era alguém incapaz de compreender essas leis do Universo e que precisava criar explicações simples para aquilo que não conseguia entender.

Seu exemplo fundamental: a ideia de um Deus raivoso, que precisava ser cultuado e agradado, não passaria de uma superstição. Espinosa defendia que essa imagem de Deus era conveniente para a Igreja, que podia prometer o perdão e, desta forma, ganhar poder.


Ou seja, a superstição ajudaria a criar regimes autoritários baseados na religião. Esse pensamento virou uma bandeira cada vez mais forte nos séculos seguintes: a separação entre a Igreja e o Estado. 



Papa Francisco promove audiência «inter-religiosa»


A próxima audiência geral de quarta-feira vai contar com a presença de representantes de várias religiões, no cinquentenário do decreto 'Nostra aetate', saído do Concílio Vaticano II.

“A audiência vai ser uma ocasião para agradecer a Deus pelos frutos já colhidos no caminho do diálogo percorrido nestes 50 anos e para invocar a bênção do Senhor sobre o caminho que ainda se deve fazer”, revela o diretor do jornal ‘L’Osservatore Romano’.

Giovanni Maria Vian assinala que “embora breve”, o decreto ‘Nostra aetate’ refletiu e reflete “o desejo da Igreja encontrar todos” e exortar os seus filhos a “entrar com amor num diálogo ativo com membros de outras religiões”. O jornal da Santa Sé explica que o Papa vai encontrar-se com “irmãos e irmãs de várias religiões” e com os participantes do congresso internacional realizado pelos 50 anos da declaração «Nostra Aetate» com o tema: ‘Educar para a paz’.

Este evento que se realiza, entre 26 e 28 de Outubro, em Roma, é organizado pelo Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso, em parceria com a Comissão para as Relações Religiosas com os Judeus e a Universidade Pontifícia GregorianaUm dos destaques do congresso internacional vai ser uma conferência do secretário de Estado do Vaticano, D. Pietro Parolin, subordinada ao tema: “Educar para a paz”.

O programa inclui também uma mesa redonda com o secretário-geral do Centro de Cultura Islâmica de Itália, Abdellah Redouane, e o diretor internacional para os assuntos inter-religiosos do Comité Judaico Americano, o rabi David Rosen, Dos oradores assinala-se também a participação do presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade entre os Cristãos, o cardeal Kurt Koch; e do presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso, o cardeal Jean-Louis Tauran.

Saída do Concilio Vaticano II e publicada a 28 de Outubro de 1965, a declaração “Nostra Aetate” mostrou o empenho da Igreja Católica em reconhecer e valorizar tudo aquilo que é positivo nas várias religiões. No documento pode ler-se que em todas essas religiões há “uma centelha daquela verdade que ilumina todos os homens” (Nostra aetate 2).




Líderes religiosos das duas Coreias se encontrarão no Norte – Por Jung Yeon-Je


A Conferência Coreana sobre Religião e Paz (KCRP), entidade que reúne representantes das sete maiores religiões sul-coreanas, anunciou nesta sexta-feira (23/10) que um grupo de líderes religiosos irá a Coreia do Norte para um encontro com seus homólogos além-fronteiras. 

O evento acontecerá nos dias 9 e 10 de Novembro, próximo ao Monte Kumgang. “Durante o evento, eles se reunirão com dezenas de representantes de ordens religiosas norte-coreanas para serviços de oração e diversos eventos para amizade, incluindo caminhadas na montanha”, destacou a KCRP em comunicado.

A expectativa é que 150 religiosos católicos, protestantes e budistas da Coreia do Sul participem do encontro na Coreia do Norte. A entidade vem trabalhando desde o início deste ano para que o evento aconteça como forma de oração conjunta pela paz e pela estabilidade da Península Coreana.


O encontro será o primeiro entre os líderes religiosos das duas Coréias desde 2011, quando foi realizada uma oração conjunta em Pyongyang. Segundo a KCRP, o evento ajudará na reconciliação intercoreana.




Convite


Teologia do futuro poderá unir religiões?


Embora pareça que as religiões tenham um "ingrediente secreto" que torna as pessoas felizes, as igrejas tradicionais estão perdendo espaço para o misticismo, que rompe com os grilhões das igrejas e das ciências.

"As teologias tradicionais não fornecem mais respostas suficientes para o crescente desafio da diversidade religiosa e dos conflitos que surgem entre as diversas confissões." 

A afirmação é do teólogo Perry Schmidt-Leukel, da Universidade de Munique (Alemanha), que está defendendo uma "teologia do futuro", que una os diversos aspectos da diversidade religiosa.

"Em vez de continuar a construir uma teologia específica para cada religião, devemos optar por uma teologia interreligiosa," defende Schmidt-Leukel.

Teologia ecumênica

Para se tornar a teologia do futuro, essa teologia interreligiosa deverá mostrar que religiões como o Cristianismo, o Islamismo e o Budismo assemelham-se muito mais do que se pensava anteriormente, mas tudo deverá ser feito com respeito à diversidade interna de cada crença.

"A teologia interreligiosa, em contraste com a filosofia intercultural, leva a dimensão confessional da religião a sério," prossegue o estudioso, destacando que as confissões de Maomé como "o Profeta", de Jesus como "o filho de Deus" e de Gautama como "Buda", partilham características básicas a respeito de suas motivações fundamentais.

Segundo ele, mesmo por trás de uma rejeição de outras crenças, muitas vezes há mais coisas em comum do que se espera, por exemplo, em rejeições que o outro realmente não defende da forma como o rejeitador se refere.

"O que distingue as religiões muitas vezes também pode ser encontrado, em forma diferente, como diferenças dentro da própria religião. Em vez de considerar outras religiões como uma ameaça, eles podem enriquecer a própria crença. Essa percepção permite que a teologia ecumênica seja alargada para formar a teologia interreligiosa," diz Schmidt-Leukel.

Teologia interreligiosa

Segundo a proposta, a teologia interreligiosa não se baseia somente nas escrituras sagradas de uma religião específica, mas também nas escrituras sagradas das outras: "Isso proporciona grandes oportunidades para lidar com a crescente diversidade religiosa em nossa sociedade."

Para Schmidt-Leukel, mais cedo ou mais tarde, as teologias tradicionais de todas as religiões irão se desenvolver rumo à teologia interreligiosa. Esta forma de buscar teologia e refletir sobre as crenças coloca as diferentes perspectivas religiosas e confessionais em uma troca permanente.

"A teologia interreligiosa tem como objetivo compreender as razões e os motivos de diferentes afirmações religiosas e, na medida do possível, de compartilhá-las," finaliza Schmidt-Leukel.