domingo, 24 de janeiro de 2016

Luteranos se desculpam com católicos por atos da Reforma - Por Jarbas Aragão



Durante séculos ocorreram embates violentos e mortes por causa da Reforma iniciada por Martinho Lutero.

A Igreja Evangélica na Alemanha (EKD) possui uma postura de ecumenismo e tem se aproximado do Vaticano nos últimos anos. Em um “diálogo teológico” convocado em Agosto e realizado na Academia de Missão da Universidade de Hamburgo, pediram desculpas aos católicos e ortodoxos por certos atos cometidos por luteranos durante a Reforma Protestante.

Perto de completar 500 anos (em 2017), os luteranos estão lamentando a destruição de imagens religiosas. Os teólogos da EKD deixaram isso claro na declaração da bispa para as relações ecumênicas Petra Bosse-Huber. Ela chefia a Comissão de Diálogo protestante.

Em nota, afirma que hoje se reconhece que as imagens sagradas, em suas mais variadas formas têm muito valor como expressão da espiritualidade. Diz ainda que a igreja protestante alemã “se opõe à destruição de imagens”.

Durante o período da Reforma, na tentativa de livrar as pessoas da idolatria, líderes protestantes removeram pinturas, esculturas e vitrais na Alemanha, na Suíça, na Inglaterra e na Holanda. Em muitos casos as imagens eram queimadas publicamente. As delegações do Patriarcado Ecumênico, da Igreja Ortodoxa, estiveram no encontro na Academia de Missão a convite do Conselho da EKD. Desde 1969, representantes de ortodoxos e protestantes têm mantido relações próximas.

Embora não tenha se manifestado publicamente sobre o assunto, o Vaticano também dá mostras de sua disposição em se aproximar dos luteranos. Em breve, Roma terá uma praça com o nome de Martinho Lutero, perto do Coliseu. Há cinco séculos, quando Lutero tentou fazer com que a Igreja Católica mudasse suas práticas, foi excomungado pelo papa. Durante séculos ocorreram embates violentos e mortes por causa da Reforma iniciada por Lutero.

Por isso, causa estranheza que o Vaticano apoie que a praça receba o nome do reformador. O Papa Francisco desde que começou seu pontificado, mostrou o desejo de ver uma maior unidade entre todos os cristãos. 

Com informações de Urban Christian News e Christian Headlines.






Podem as religiões ajudar a superar a crise ecológica? - Por Leonardo Boff


Pela primeira vez depois de anos, os 192 países se puseram de acordo na COP21 de Paris em fins de 2015, de que o aquecimento global é um fato e que todos, de forma diferenciada mas efetiva, devem dar a sua colaboração.

Cada saber, cada instituição e especialmente aquelas instâncias que mais movem a humanidade, as religiões, devem oferecer o que podem. Caso contrário, corremos o risco de chegarmos atrasados e de enfrentarmos catástrofes como nos tempos de Noé.

Abstraímos o fato de que cada religião ou igreja possuem suas patologias, seus momentos de fundamentalismo e de radicalização a ponto de haver cruéis guerras religiosas, como houve tantas entre muçulmanos e cristãos. Agora o que se pede, é ver de que forma, a partir de seu capital religioso positivo, estas religiões podem chegar a convergências para além das diferenças e ajudar a enfrentar a nova era do antropoceno (o ser humano como o meteoro rasante ameaçador) e a sexta extinção em massa que está já há muito tempo em curso e se acelera cada vez mais.

Tomemos como referência as três religiões abraâmicas por serem do espaço cultural. Primeiro, vejamos rapidissimamente a contribuição do judaísmo. A Bíblia hebraica é clara ao entender a Terra como um dom de Deus e que nós fomos colocados aqui para "cuidá-la e guardá-la”.

"A Terra é minha e vós sois hóspedes e agregados” (Lev 25,23). Não podemos como nenhum hóspede normal faria, sujá-la, quebrar seus móveis, danificar seu jardim e matar seus animais domésticos, mas nós o fizemos. Por isso há a tradição do Tikkum Olam, da “regeneração da Terra” como tarefa humana pelos danos que lhe temos provocado. 

Há também senso de responsabilidade face aos não humanos. Assim antes de comer, cada um deve alimentar seus animais. Não se pode tirar uma ave do ninho que está cuidando dos filhotes. O “dominar a Terra” (Gn 1,28) deve ser entendido à luz de “cuidar e guardar” (Gn 2,15) como quem administra uma herança recebida de Deus.

O Cristianismo herdou os valores do judaísmo. Mas acrescentou-lhe dados próprios: o Espírito Santo fixou morada em Maria e o Filho, em Jesus. Com isso assumiu de alguma forma todos os elementos da Terra e do universo.

A Terra é entregue à responsabilidade dos seres humanos, mas eles não possuem um direito absoluto sobre ela. São hóspedes e peregrinos e devem cuidar dela. São Francisco de Assis introduziu uma atitude de fraternidade universal e de respeito a cada um dos seres, até das ervas silvestres.

Pelo fato de o Deus cristão ser relacional, pois é Trindade de Pessoas, sempre relacionadas entre si, faz com que o próprio universo e a tudo o que existe seja também relacional, como o Papa Francisco tão bem expressou em sua encíclica.

O Islamismo está na esteira do judaísmo e do cristianismo. Também para ele a Terra e a natureza são criação de Deus, entregues à responsabilidade do ser humano. No Alcorão se diz que temos nossa morada aqui por um curto momento e apenas podemos desfrutar de seus bens (Sura, 2,36).

O Altíssimo e Misericordioso nos dá pela riqueza e a diversidade da natureza sinais que lembram constantemente de sua misericórdia com a qual dirige o mundo. (Sura 45,3). A entrega confiante a Alá (islam) e a própria jihad (luta pela santidade interior) implicam cuidar de sua criação. Hoje muitos muçulmanos despertaram para o ecológico e de Singapura a Manchester pintaram suas mesquitas todas de verde.

Há uns pontos convergentes nestas três religiões: entender a Terra como dom e herança e não como objeto a ser simplesmente usado a bel-prazer, como o entendeu a modernidade. O ser humano tem responsabilidade face ao que recebeu, cuidando e guardando (fazê-la frutificar e conferi-lhe sustentabilidade); ele não é dono mas guardião. A Terra com sua riqueza remete continuamente ao seu Criador.

Estes valores são fundamentais hoje, pois a tradição científico-técnica tem tratado a Terra como mero objeto de exploração, colocando-se fora e acima dela. Somos Terra (Gn 1,28). Por isso há um parentesco com ela, nossa sustentadora.

Ademais todas as religiões desenvolvem atitudes que são imprescindíveis atualmente: o respeito à Terra e a tudo o que nela contem, pois as coisas são muito anteriores a nós e possuem um valor em si mesmas; a veneração face ao Mistério do universo. Respeito e veneração não apenas ao Alcorão ou à hóstia consagrada, mas a todos os seres, pois são sacramentos de Deus.

Essas atitudes impõem limites ao poder dominador, hoje colocando o equilíbrio da Terra em risco e ameaçando a nossa subsistência. A tecnociência é fundamental para superar a crise ecológica. Mas somente ela é insuficiente, pois precisamos de uma nova forma de relação de sinergia e de respeito para com os ciclos e os ritmos da natureza. Há um tipo de tecnociência que chegou a ser irracional por ter criado um aparato militar que nos pode liquidar a todos. 

Como todo saber, ela também deve conhecer limites éticos, impostos pela própria viva que quer continuar a viver e a conviver com os demais seres da Casa Comum. Senão para onde iremos? Seguramente não à montanha das bem-aventuranças, mas ao vale de lágrimas.

Leonardo Boff é articulista do JB online e escreveu: A Terra na palma da mão: uma nova visão do planeta e da humanidade, Vozes, 2016.