quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

22 agentes pastorais da Igreja Católica assassinados em 2015



A agência Fides, do Vaticano, revelou hoje que 22 agentes pastorais da Igreja Católica foram assassinados em 2015, número que apresenta como a ‘ponta do icebergue’ de uma “perseguição global contra cristãos”.

“O Estado Islâmico, o Boko Haram, a discriminação nos vários países em que a religião é um assunto de Estado tornam árdua e heroica a situação dos cristãos, sujeitos a atentados e massacres”, refere o relatório anual, divulgado esta manhã.

Pelo sétimo ano consecutivo, o maior número de mortes aconteceu na América, onde houve oito assassinatos; a África registou cinco mortes, a Ásia sete e dois na Europa.

O elenco refere-se não só aos missionários, mas a todo o pessoal eclesiástico que faleceu de forma violenta ou que sacrificou a sua vida consciente do risco que corria. A agência de notícias sublinha que a maior parte das mortes aconteceu após “tentativas de assaltos” violentos.

Segundo os dados da agência do Vaticano para o mundo missionário, entre 2004 e 2015 morreram mais de 275 agentes pastorais da Igreja Católica, incluindo três bispos.







Os nossos extremistas são boas pessoas, os deles são demoníacos – Por Francisco Louçã



É onde imperar a miséria e a desesperança que poderão fundamentar-se as leituras mais radicais de textos religiosos para enraizar o ódio aos outros.

Lembrava o filósofo Alain Badiou como tantos intelectuais se renderam aos preconceitos de um racismo de salão que foi naturalizando as extremas-direitas, em particular em França.

Como muitas vezes acontece, esses intelectuais que Badiou critica trocaram a reflexão, ou o esforço para perceber as contradições da realidade, pela ideologia, ou simplesmente pelo conforto da facilidade. Ora, o mais fácil é classificar e seriar, para assim se protegerem da sombra do desconhecido. Ou seja, aceitaram a xenofobia como lei da terra e como a linguagem para a rejeição do desconhecido.

Há uma base ancestral para esse medo da diferença e dois jovens holandeses quiseram testar um dos seus limites, interrogando pessoas na rua acerca de frases da Bíblia, lidas de um livro em que colocaram na capa a palavra “Corão”.

A maioria dos transeuntes inquiridos terá encontrado a confirmação para o que já achava evidente: são textos que provam a radicalidade, o extremismo, a violência e o sectarismo do Islão (no youtube existe um resumo dessa experiência). Tudo ficava explicado para as pessoas entrevistadas, que depois reagiam com estupefação ao saberem que se tratava da Bíblia.

Não sei de todos textos que terão sido citados, mas este estava incluído no rol: “Se não me escutarem e não cumprirem todos estes mandamentos (…) enviarei contra vós terror, a fraqueza e a febre, que vos vão tirar a vista e consumir a vida. (…) Terão que comer a carne dos vossos próprios filhos” (Levítico 26).

Existem muitos outros trechos que são do mesmo tipo, no Antigo como no Novo Testamento. Para citar alguns exemplos muito diferentes entre si:

“Não pensem que vim estabelecer paz à terra. Não vim trazer a paz, mas a guerra. Vim de facto criar divisão entre filho e pai, filha e mãe, nora e sogra: os inimigos de uma pessoa serão os da sua própria família. Aquele que amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim; o que amar o filho ou a filha mais do que a mim, não é digno de mim. Aquele que não pegar na sua cruz e não me seguir, não é digno de mim”. (Mateus 10:34)

“Se um homem tiver relações homossexuais com outro homem, ambos fazem uma coisa abominável e devem ser mortos, porque são merecedores disso”. (Levítico 20)

“Quanto uma mulher tiver o seu período menstrual, ficará impura durante sete dias. Todo aquele que lhe tocar ficará impuro, durante todo aquele dia.” (Levítico 15, todos os trechos citados da tradução da Bíblia editada em 2009, em Lisboa, pela Sociedade Bíblica).

Frei Bento Domingues, sob o título: “Será a Bíblia blasfema?”, tratou por estes dias, aqui no Público, um tema próximo desta experiência dos jovens holandeses. Ele cita um estudioso que se interroga com angústia sobre esta frase de Moisés, no Antigo Testamento:

“Quando te aproximares duma cidade para combater contra ela (…), Iavé teu Deus a entregará nas tuas mãos e passarás a fio de espada todos os seus varões, as mulheres, as crianças, o gado; tudo o que houver na cidade, todos os seus despojos, o hás-de tomar como espólio (…).Quanto às cidades destes povos que Iavé teu Deus te dá em herança não deixarás nada com vida; consagrá-los-á ao extermínio: hititas, amorreus, cananeus, ferisitas, hivitas e jebuseus, como te mandou Iavé, teu Deus, para que não vos ensinem a imitar todas essas abominações que eles faziam em honra dos seus deuses: pecaríeis contra Iavé vosso Deus” (Deuteronómio 20: 10–18).

A tradução de que disponho é ligeiramente diferente:

“Quando te aproximares duma cidade para lhe dares batalha deves primeiro propor-lhe negociações de paz. Se os seus habitantes aceitam a paz e te abrem as portas, todos os que lá se encontram serão teus escravos, para trabalhos forçados. Mas, se não quiserem a paz contigo e oferecerem resistência, então pões cerco à cidade. O Senhor, teu Deus, coloca-a à tua disposição e deves passar todos os homens a fio de espada. Mas podes ficar com as mulheres, as crianças e os animais, e recolher todos os despojos que nela tiverem ficado. (…) Mas não deves deixar nada com vida nas cidades destes povos daqui, que o Senhor te vai dar em propriedade. Deves condená-los à destruição completa: os hititas, os amorreus, os cananeus, os perizeus, os heveus e os jebuseus tal como o Senhor, teu Deus, te ordenou”.

Na verdade, a diferença entre as duas traduções é sobre a ordem da carnificina e pouco mais. O que choca é o objetivo: matar ou escravizar. Explicam os exegetas citados por Frei Bento Domingues que há uma tensão entre a interpretação universalista da Bíblia e a outra interpretação nacionalista, com a linguagem de afirmação bélica de uma tribo, a de Israel, consagrada à destruição dos seus vizinhos por ambição territorial.

E conclui ele: “Eu tiro a minha conclusão: o iaveísmo histórico veicula uma teologia nacionalista, por vezes, de uma extrema violência. Coloca na boca de Deus os interesses de um povo contra os outros povos. Este nacionalismo religioso blasfema”.

Portanto, uma leitura deve excluir e até condenar a outra, mas ambas estão inscritas nos textos, onde se defrontarão o nacionalismo guerreiro e o universalismo humanista.

Voltemos então aos nossos jovens holandeses e à sua experiência de rua. Qualquer destes textos da Bíblia, lidos a partir de um livro cuja capa anunciasse o Corão, poderia servir para confirmar o preconceito de que os preceitos religiosos dos muçulmanos incentivam a violência ou até a mortandade dos opositores da sua fé ou de quem se comporta diferentemente das normas aí fixadas. No entanto, os textos citados são da Bíblia e apelam ao mesmo tipo de chacina.

Ora, como descobre Frei Bento Domingues, em muitos textos ancestrais e também na Bíblia podem encontrar-se justificações para ações de extermínio, revestindo de religião a ambição de domínio, de destruição e de guerra.

Portanto, não é no Corão que nasce o Califado; ele está presente em textos de todas as religiões monoteístas que surgiram no Médio Oriente, porventura sob outros nomes. Contra esse jogo de espelhos entre as religiões e os seus fanáticos, há duas considerações que surgirão necessariamente e acho que ambas são certas.

A primeira é que em nome da interpretação literal da Bíblia não se cometem hoje crimes desta natureza. Talvez seja verdade agora, mas não foi sempre. Em nome da unicidade da religião, a Igreja Católica incentivou no passado a violência sectária, ou outros poderes em seu nome geraram crimes abomináveis, exatamente reclamando uma leitura literal dos preceitos bíblicos (ou simplesmente invocando o poder de dominação a que aspiram). Isso seria o passado do presente que conhecemos.

A segunda é que a leitura dessas escrituras é, no caso do catolicismo, disciplinada por uma organização hierárquica rígida, a Igreja Católica, para o mal (Inquisição) e para superar esse tempo (o pós-Inquisição, ou até agora a abertura ecuménica do Papa Francisco, surpreendendo a Igreja).

Em contrapartida, no caso da religião muçulmana, não existe uma interpretação legitimada por um discurso e por uma organização única como fonte de poder centralizado. Portanto, podem surgir diversos discursos com novos enunciados, no limite até um projeto militar de ocupação territorial (o Califado), como o do Daesh.

Ambas as observações são fundamentadas em factos. Mas escapa-lhes o essencial, que é que o sucesso destas interpretações e chamamentos dependerá sempre do grau de desagregação de cada sociedade, ou da forma como nela se sentem as ameaças. 

Ou, por outras palavras, dependerá então de saber se se considera socialmente aceitável uma leitura literal de normas culturais construídas pela busca de sobrevivência ou poder de tribos do Médio Oriente de há cerca de 500 anos antes da nossa era, ou seja, de há mais de 2500 anos, num caso (a Bíblia), ou mais de mil anos, no outro caso (o Corão).

A raiz cultural do extremismo pode ser encontrada nas palavras de Moisés como em frases do Corão, bem como o seu contrário, e o que lemos hoje depende dos olhos de hoje. Mas é onde imperar a miséria e a desesperança que poderão fundamentar-se as leituras mais radicais de textos religiosos para enraizar o ódio aos outros.

O que porventura será mais assustador é que o mundo moderno não limita, antes parece incentivar, este extremismo e a sua fundamentação transcendente. No caso do mundo muçulmano, como dizia um estudioso do mundo árabe, Ziauddin Sardar, entrevistado pelo Público, essa literalização dos textos históricos já levou a um extremismo social desconexo do mundo, como o da Arábia Saudita, com o seu imenso poder do petróleo, dos dólares e das armas. Ou, nas palavras de Sardar, “o Estado Islâmico sempre existiu, é a Arábia Saudita”.

Ora, a Arábia Saudita é o principal ponto de apoio do poder imperial dos EUA na região, dos mesmos presidentes que em tom religioso terminam os seus discursos com “God bless America”, mesmo que não estejam a pensar no Deus do Corão. A política de uns e de outros alimentou, e muitas vezes deliberadamente, como no Iraque e na Síria, os monstros nascidos do sono da razão.

Os seus biombos justificativos escondem os tráficos de armas, de justificações e de políticas e mostram como os que consideramos serem os nossos homens de Estado, os moderados, são tão facilmente os criadores dos radicais iluminados por palavras incendiárias de textos que tantos consideram sagrados.

O mundo é, pois, mais complexo do que qualquer preconceito possa supor.

Sobre o/a autor(a): Francisco Louçã - Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.





Atos contra muçulmanos triplicaram em 2015 na França



Os atos contra os muçulmanos em razão de sua religião triplicaram neste ano na França ao superar a marca dos 400, frente aos 133 que tinham sido registrados oficialmente em 2014, publicou nesta quarta-feira o "Le Paresien".

Os dados da Delegação Interministerial de Luta contra o Racismo e o Anti-Semitismo (Dilcra), embora não sejam ainda definitivos, mostram "uma alta espetacular e muito inquietante que é explicada essencialmente pelo puxão dos atos que ocorreram depois dos atentados de janeiro", indicou teu responsável, Gilles Clavreul.

Segundo as conclusões deste organismo governamental citadas pelo jornal, outra tendência do ano que termina são os ataques a centros de reza muçulmanos, desde pinturas até incêndios e destruições passando por cabeças de porco deixadas como forma de provocação.

Assim, duas pessoas foram condenadas a seis meses de prisão por terem incendiado em 25 de abril uma mesquita em Mâcon.

Mais recentemente, uma concentração em apoio de bombeiros e policiais que tinham sido agredidos durante uma intervenção em um bairro conflituoso com uma grande população de origem imigrante do norte da África na cidade de Ajaccio degenerou no fim de semana passado em um ataque contra uma sala de reza muçulmana.

Além disso, segundo o Observatório contra a Islamofobia, 15% dos muçulmanos vítimas de atos contra essa comunidade não chegam a denunciá-los porque consideram que não serve para nada.

Os atentados jihadistas de janeiro em Paris contra jornalistas da revista satírica "Charlie Hebdo", quando oito profissionais foram assassinados por supostos jihadistas, e outros vários marcaram um ponto de inflexão neste tipo de ataques.





terça-feira, 29 de dezembro de 2015

‘Monges de aluguel’ na Amazon: Federação Budista do Japão reclama de comercialização de ato religioso


A Federação Budista do Japão pedirá formalmente que a Amazon pare de vender os serviços de monges budistas, para serviços de aniversários e qualquer cerimônia, acusando-a de “comercialização de um ato religioso”.



Em entrevista ao Jornal Asahi, no dia 25 de Dezembro, o presidente da JBF, Akisato Saito, expressou o descontentamento da Federação com a situação, comparando-a com as abordagens internacionais para serviços religiosos.

“Não podemos ajudar, mas sinto dúvida e decepção em relação a atitude da Amazon com a religião, pois eles estão comercializando um ato religioso”, disse ele. 

Enquanto isso, a Amazon Japão se recusou a comentar. A Federação planeja apresentar um pedido no início do próximo ano para a empresa norte americana, para que parem de vender o serviço.

A empresa Minrevi, começou a contratar monges budistas há cerca de dois anos, em torno de 400 monges se inscreveram para o serviço, que teve crescimento rápido. A empresa com sede em Tóquio diz que suas ‘encomendas’ em 2014 foram o triplo do ano anterior.

Com o objetivo de expandir o negócio, a Minrevi se juntou com a Amazon no dia 8 de dezembro, oferecendo um ‘monge de aluguel’ por ¥35.000. Depois de deduzida a parte da Minrevi e Amazon, o monge recebe o restante como uma ‘oferta’.






Agenor Duque: O autointitulado apóstolo com “vocação teatral” – Por Jarbas Aragão


Revista Época faz extensa reportagem sobre o líder que "anda de Porsche e voa de jatinho".

O apóstolo Agenor Duque, da Igreja Plenitude do Trono de Deus, segue a mesma fórmula da Igreja Universal do Reino de Deus e da Igreja Mundial do Poder de Deus. Tendo passado pelas duas, em Setembro de 2006, disse ter recebido uma visão de Deus para abrir seu próprio ministério.

Vendeu seu carro, um Astra, e usou os R$ 25 mil para comprar espaço nas madrugadas de rádios. Alugou um galpão na Avenida Celso Garcia, em São Paulo e em pouco tempo começou a multiplicar os templos de sua própria denominação.

Segundo reportagem extensa da revista Época desta semana, Duque é o mais novo fenômeno das igrejas neopentecostais. Hoje comanda pelo menos 20 templos, espalhados por São Paulo, Amazonas, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Goiás e Distrito Federal. Além disso, são dezenas de núcleos, galpões que, por não terem toda a documentação, não são considerados templos.

Nos últimos dois anos, a Plenitude do Trono de Deus saiu de quatro para 18 horas no canal de televisão RBI. Também ocupa mais de nove na Rede Brasil TV.  Ainda segundo a Época, seu crescimento “começa a incomodar as igrejas concorrentes”.

Acostumado a negociar produtos “ungidos” nos seus cultos, vários trechos de suas campanhas e ensinos não ortodoxos estão disponíveis na internet. Comumente ele sobe ao púlpito da igreja vestindo uma roupa que imita estopa, para imitar o que a Bíblia chama de “pano de saco”, que representaria a humildade.

Agenor Duque é ex-viciado em drogas. Tem 37 anos e vem de uma família pobre da Zona Leste de São Paulo.  Após sua conversão, passou a pregar a doutrina da prosperidade que atrai milhões aos cultos em diferentes igrejas no Brasil. Casado com a bispa Ingrid Duque, tem um filho adotivo, o pastor Allan.

Milionário, dirige um Porsche e um BMW. Posa fotos nas redes sociais com cordões, anéis e relógios dourados, bonés e tênis de marcas como Nike e Hugo Boss. Também faz uso de um jatinho Cessna Citation.

Para teólogos, como Paulo Romeiro, doutor em ciências da religião e autor de livros sobre o movimento neopentecostal. “A igreja neopentecostal brasileira é cega, infantilizada, cheia de picaretas e cambalacheiros”.

Já Rodrigo Franklin de Sousa, professor de pós-graduação em ciências da religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, “A religiosidade brasileira sempre foi muito sincrética. O brasileiro valoriza tudo o que o ajuda a se relacionar diretamente com o sagrado”.

O que Duque mostra em seus programas no rádio e na TV da Igreja Plenitude do Trono de Deus é quase sempre a mesma coisa. Embora a pregação da Bíblia seja quase inexistente, há vários milagres e libertações. Quase sempre como um prelúdio para se pedir dinheiro e ofertas “de sacrifício” como prova de fé.

A Época entrevistou um ex-obreiro da Igreja Plenitude do Trono de Deus, o qual afirma que as ações de Duque não passam de uma “trapaça”. Segundo ele, os pastores da denominação que arrecadam mais são recompensados e crescem. “Eles recebem até bônus, eles dizem que você tem de entrar na mente da pessoa, convencê-la a aceitar o que você diz”, conta.

Sinais e campanhas

Nos cultos de sua igreja, além das curas de doenças e vícios, Duque promete apagar o passado da mente dos fiéis. Em um dos vídeos mais conhecidos, ele trava (e vence) uma ‘batalha espiritual’ com um homem que diz ser pai-de-santo.

Seguindo a tradição de outras igrejas similares, ele constantemente promove campanhas temáticas com objetivos específicos. A mais recente, chamada de Vale de Elah, coloca no templo um boneco de isopor que procura reproduzir a figura de Golias, vestido como um guerreiro, com escudo e espada no altar da igreja.

Com um ‘grito de vitória’ dado pelo apóstolo o boneco (representando todas as lutas dos fiéis) cai ao chão e se quebra. Para 2016, já anunciou que irá lotar o Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, capacidade para 13 mil pessoas, e o estádio do Canindé, em São Paulo, que acomoda 21 mil pessoas. Para isso, trará o polêmico pastor Benny Hinn.






Pesquisa mundial contesta visão de que cientistas sejam todos ateus

     



Como alguns cientistas tornaram-se famosos não em seus campos de especialidade, mas vendendo livros criticando as religiões, criou-se uma suposição de que a maior parte dos cientistas são ateus ou pregadores do ateísmo.

Mas essa suposição foi mais uma vez contestada. E agora pela primeira vez por uma pesquisa em nível mundial, que analisou como os cientistas encaram a religião e como se relacionam com ela.

Pesquisadores da Universidade Rice (EUA) entrevistaram 9.422 cientistas em oito regiões do mundo: França, Hong Kong, Índia, Itália, Taiwan, Turquia, Reino Unido e EUA.

A equipe também viajou a estas regiões para realizar entrevistas em profundidade com 609 desses participantes, o que torna esta a maior pesquisa mundial já realizada sobre as relações entre fé e ciência do ponto de vista dos cientistas.

Mais religiosos que a média

"Mais da metade dos cientistas na Índia, Itália, Taiwan e Turquia se autoidentificam como religiosos," relata Elaine Howard Ecklund, principal autora da pesquisa.

"E é impressionante que existem aproximadamente o dobro de 'ateus convictos' na população em geral de Hong Kong, por exemplo (55%) do que na comunidade científica neste país (26%)," acrescentou.

Taiwan é outro exemplo, onde 54% dos cientistas identificam-se como religiosos, em comparação com 44% da população em geral.

Conflito, que conflito?

No geral, os resultados contestam a suposição tradicional sobre o caráter irreligioso dos cientistas de todo o mundo.

Quando perguntados sobre os termos de um eventual "conflito" entre religião e ciência, apenas uma minoria dos cientistas em cada contexto regional acredita que haja de fato um conflito entre ciência e religião.

No Reino Unido, um dos países mais seculares do mundo, menos de um terço (32%) dos cientistas caracterizaram a interface entre ciência e fé como sendo de conflito. Nos EUA, este número foi de apenas 29%. E 25% dos cientistas de Hong Kong, 27% dos cientistas indianos e 23% dos cientistas de Taiwan acreditam que a ciência e a religião podem coexistir e serem usadas uma para apoiar a outra.

Religião como apoio à Ética

Além dos resultados quantitativos, os pesquisadores descobriram nuances nas respostas dos cientistas durante as entrevistas. Por exemplo, numerosos cientistas expressam como a religião pode fornecer um "ponto de checagem" em áreas eticamente nebulosas.

"(A religião fornece uma) forma de verificação naquelas ocasiões em que você pode ser tentado a pegar um atalho porque você deseja que algo seja publicado e você pensa: 'Ah, essa experiência não foi boa o suficiente, mas se eu retratá-la desta forma, vai parecer que é'," comentou um professor de biologia do Reino Unido.

Finalmente, muitos cientistas mencionaram modos de acomodar as visões ou práticas religiosas, sejam dos alunos ou dos seus colegas.

"As questões religiosas (são) muito comuns aqui porque todo mundo fala a que templo vai, a qual igreja pertence. Assim, não é realmente um problema que escondemos: nós simplesmente falamos a respeito porque, em Taiwan, nós temos pessoas [de] diferentes religiões," disse um professor de biologia de Taiwan.






domingo, 27 de dezembro de 2015

A Vida de Brian: Pelos direitos humanos, contra a realidade - Por Léa Maria Aarão Reis*



No filme, religião e política se misturam. A religião é vista de maneira política e a política tratada como religião com seu elenco de verdades absoluta.

Brian Cohen nasceu no ano de 33, na província da Judéia, quando a Roma imperial ocupava a região através do seu preposto, o prefeito Pôncio Pilatos. Brian nasceu no canto de uma manjedoura, vizinho de outro bebê que também viera a este mundo na mesma hora: o menino chamado Jesus. 

Desde os primeiros momentos, a existência de Brian foi atribulada por sempre confundirem-no com o bebê do lado. Quando sua execrável mãe enxotou os três Reis Magos e deles tentou surrupiar o ouro que traziam destinado na verdade ao bebê vizinho, a cupidez humana se mostra entranhada na sua saga. 

Mais adiante, a ignorância, a alienação da massa histérica repetindo dogmas e mantras de forma cega e robotizada, e o cinismo do ambiente são a moldura da breve vida de Brian, morto crucificado aos 33 anos por ordem do juiz Pilatos sem qualquer culpa formada, exceto a de exalar carisma, motivar e mobilizar as massas, e entusiasmar os indivíduos humildes, aqueles que eram “o problema”, no dizer dos personagens dos burgueses ricos.

Uma sucessão inacreditável de mal entendidos e de lances do acaso, (o mesmo acaso do qual fala Woody Allen nos seus filmes), pontuam a vida de Brian. Esta sua trajetória é narrada no brilhante filme Life of Brian, de 1979, hoje um clássico do cinema  inglês, de autoria do cineasta Terry Jones, integrante do genial grupo Monty Python*. O mesmo grupo que sacudiu a forma de fazer humor, no mundo inteiro, nas décadas dos 70/80, inclusive no Brasil, inspirando o gênero batizado aqui de besteirol.

O filme de Jones, quando estreou, foi criticado ferozmente e dividiu opiniões apaixonadas. Houve e há ainda quem o veja como um filme antissemita. Os católicos viram nele uma blasfêmia. Mas outros o avaliam como uma genial e demolidora crítica à sociedade, até hoje atual; o que o filme na verdade é.

No ano 33, na Judéia, Brian vive uma vida paralela à de Jesus Cristo e sofre por ser confundido com ele. A confusão começa quando finge ser um pregador para fugir dos centuriões, mas tem suas pregações levadas a sério, arrastando atrás de si uma horda de seguidores. Para escapar da perseguição dos romanos, Brian se alia a uma coligação de grupo de oposição ao regime, a esquerda (ou a guerrilha) da época: a mais radical, a Frente do Povo Judeu; a Frente Judaica do Povo e a Frente Popular, esta representada por apenas um único homem velho, remanescente.

Por sua vez, pregam: “Jesus não percebe que abençoado é qualquer um bem vestido e à procura de status.”

As três organizações trabalham juntas “em defesa dos direitos humanos e contra a realidade”, em momentos específicos, por conveniência. Planejam sequestrar Pilatos. Na verdade, não se entendem e se detestam. Lutam por uma mesma causa, mas não conseguem conquistar uma vitória porque brigam e disputam todo o tempo entre si, nas intermináveis reuniões teóricas e até na violência física.

A farsa, para o Monty Python Terry Jones é permanente. Camelôs vendem pedras aos que se encaminham para assistir o espetáculo dos apedrejamentos. Algumas, pedras pontiagudas, outras achatadas, grandes ou pequenas, conforme o gosto do freguês. Alusão clara aos linchamentos da mídia e aos fetiches do consumo.

No filme, religião e política se misturam. A religião é vista de maneira política e a política tratada como religião com seu elenco de verdades absolutas. O Outro nunca conta, é claro.

Em uma das intermináveis reuniões dos grupos ‘guerrilheiros’ discutem-se quais os benefícios trazidos pelos romanos para os judeus. Para além dos aquedutos, das estradas, saneamento, irrigação, cultura vinícola, educação, casas de banho, medicina. “Mas e para nós? O que fizeram por nós?” eles se perguntam.

“Eu não sou o Messias,” berra Brian, tentando, desesperadamente, esclarecer a confusão de identidades. O povo insiste: “É, sim!” “Então vocês vão se f...”, responde Brian, desanimado e entregando os pontos. Mas a massa/zumbi insiste e pergunta: “E como devemos  nos f..?”

“Pensem pela sua cabeça porque vocês são independentes! Vocês devem cuidar de vocês mesmos! Não deixem que os outros mandem em vocês!” vocifera Brian, procurando se desvencilhar da horda.

O velho leproso, curado por um “maldito milagre”, se lamuria, num canto. Antes, como um leproso, era mais fácil para ele ganhar a vida pedindo esmolas.

Duas sequências de A Vida de Brian são particularmente empolgantes. Diálogos que manejam o virtuosismo da inteligência em alta voltagem. Uma, no palácio, com Pilatos, que sofre de um distúrbio da fala, a dislalia, e troca ‘rs’ pelos ‘ls’. O juiz que condenará Brian sem culpa formada, quanta atualidade aí para o espectador brasileiro, neste momento, interroga Brian e, ao mesmo tempo, submete seus guardas à tortura ao proibir os acessos de risos deles diante do ridículo das suas falas. Se os centuriões não conseguirem reprimir o riso, serão presos e executados.

Outra sequência magistral é a do grand finale com a crucificação. Dezenas de prisioneiros são encaminhados por um burocrata romano ao Gólgota. A fila e o controle social são bem organizados. Já pregados e amarrados nas cruzes, os castigados acabam cantando, em coro, como num musical de Hollywood, a bonita composição que se tornou célebre no mundo inteiro e se transformou na marca musical do Monty Python: ”Dê um sorriso e olhe sempre para o lado bom da vida. (Always look on the bright side of life).

O autor da canção é Eric Idle, ator, escritor, cantor, compositor e guitarrista, hoje com 72 anos. Foi um ativo membro do grupo britânico. Com essa sua célebre composição, Idle provoca no espectador, nesse final da vida de Brian, não gargalhadas, mas  sorrisos amarelos.

É que conviver com néscios é dureza. Só é suportável sorrindo.

*Jornalista

**Alusão ao general Bernard Montgomery, herói britânico da Segunda Guerra Mundial.





O dia de ano-novo nem sempre foi 1º de janeiro – Por Joelza Ester Domingues



27 de Dezembro de 2015 Réveillon significa, em francês, “véspera”, e vem do verbo réveiller, “acordar”, isto é, a “véspera do despertar do ano”.

A palavra surgiu no século XVII para denominar eventos populares entre os nobres franceses: jantares longos e chiques, que iam até depois da meia-noite, nas vésperas de datas importantes. Esses festejos gastronômicos noturnos eram realizados várias vezes ao ano, mas com o tempo foram se reduzindo até se limitarem a Ano-Novo mesmo.

No século XIX, o Réveillon virou moda nas colônias e áreas de influência da França, que eram muitas, já que ela era a superpotência cultural da época. No Brasil, os primeiros Réveillons foram realizados na corte de dom Pedro II, no Rio de Janeiro, e logo copiados pelas elites paulistas. Mas alguns detalhes foram incorporados depois, recheando o jantar francês com um sincretismo bem brasileiro. A comemoração do Ano-Novo é muito mais antiga e remonta à época dos romanos. Mas dessa época até nossos dias a data do Ano-Novo passou por muitas alterações.

Ano-Novo no Império Romano

Foi Júlio César, em 46 a.C., que fixou o 1º de Janeiro como o primeiro dia do Ano-Novo ao implantar um novo calendário. Até então, o Ano-Novo era celebrado no dia 1º de Março. No dia 1º de Janeiro, os romanos presenteavam-se: os clientes aos seus patrícios e os cidadãos ao Imperador. O calendário juliano estabelecia doze meses que somavam 365 dias distribuídos em uma sequência de 31, 30, 31, 30… de Januarius a Decembris, com exceção de Februarius que ficou com 29 dias (mas, a cada três anos, teria 30 dias).

Posteriormente, o imperador Otávio Augusto, em 8 a.C., determinou que os anos bissextos ocorressem de quatro em quatro anos e que Februarius tivesse 28 ou 29 dias. Janeiro, o primeiro mês, era dedicado a Jano um dos mais antigos deuses de Roma e sem equivalente na mitologia grega. Em sua honra, eram celebradas as januálias no começo de janeiro. Todo dia primeiro de cada mês era-lhe, também, dedicado. Banquete romano. Mosaico, séc. II. Jano, o deus de Janeiro. Jano presidia os começos: o início do ano, de uma empresa, negócio ou obra. Intervinha nas ações dos deuses e dos homens. Era o deus das decisões e das escolhas. 

Mas todo começo contêm, em si, o fim e por isso Jano era representado com duas faces contrapostas: uma envelhecida com barba e outra jovem. Elas simbolizavam, respectivamente, o passado e o futuro. Podia ser representado, também, com uma face masculina e outra feminina, provavelmente simbolizando o Sol e a Lua. Jano era o deus das transformações e das passagens, marcando a transição e a mudança de um estágio a outro. Dia 1º de Janeiro, “a porta que abre o ano”, continha o ano velho que se encerrou e o ano novo com todos segredos do futuro.

Jano era responsável por abrir as portas ao ano que se iniciava. Seu templo ficava aberto durante a guerra, a fim de que o deus pudesse sair e ajudar o exército romano, e fechado em tempo de paz, para impedir que ele abandonasse a cidade.

A dupla face de Jano simbolizava, também, a capacidade de avaliar os prós e os contra, a direita e a esquerda, aquilo que se mostra e aquilo que se esconde, o interior e o exterior, a frente e as costas.

Neste sentido, Jano é o senhor da sabedoria. É significativo lembrar que Freud, pai da psicanálise, possuía em seu escritório uma cabeça de Jano, de origem romana.

Uma analogia às duas faces do ser humano, atormentado pela dualidade entre o inconsciente e o consciente, suas forças interiores, intuitivas e instintivas e suas forças exteriores comandadas por crenças, valores e padrões sociais. Hoje, quando nos entusiasmamos com as novidades e o sucesso, Jano nos mostra que tudo tem duas faces e que nada é permanente e imutável.

O Ano-Novo na Idade Média

O calendário juliano continuou sendo usado na Idade Média, mas o tempo passou a ser marcado pelas grandes festas religiosas: Natal, Páscoa e Pentecostes. A comemoração do Ano-Novo, no dia 1º de Janeiro, foi considerada pagã pela Igreja que escolheu o de 25 de Março, dia da Anunciação, como o primeiro dia do ano.

A escolha, porém, não foi aceita por toda cristandade europeia e o início do ano civil teve outras datas, conforme o reino, a região ou a cidade: 1º de Março (em Veneza, por exemplo), 1º de Setembro (no Império Bizantino) ou 25 de Dezembro (na Inglaterra). Já os astrônomos mantiveram o 1º de Janeiro como início do ano. Para o homem comum da Idade Média, contudo, o calendário civil não importava: o tempo era marcado pelas atividades agrícolas e pelas festas religiosas, e o Ano-Novo não era relevante. O calendário gregoriano

O calendário juliano manteve-se por mais de mil e seiscentos anos. Todavia, neste tempo, foi-se perdendo a sincronicidade entre o calendário civil e o astronômico. Consequentemente, as festas religiosas móveis já não ocorriam nas datas esperadas, como a Páscoa que deveria ocorrer no primeiro domingo depois da lua cheia da primavera. Para trazer o equinócio para o dia 21 de Março, o Papa Gregório XIII convocou um grupo de estudiosos para “acertar” o calendário. A solução foi cortar 10 dias do calendário juliano.
Ao ser anunciado o novo calendário, em Outubro de 1582, o Papa ordenou que o dia imediato à quinta-feira, 4 de Outubro, fosse sexta-feira, 15 de Outubro. Manteve-se o dia da semana, mas eliminaram-se dez dias do mês.

O calendário gregoriano foi imediatamente adotado nos países católicos: Espanha, Itália, Portugal, Polônia e França. No resto da cristandade levou três séculos para ser aceito. A Grã-Bretanha e os países protestantes apenas adotaram o novo calendário no século XVIII, preferindo, segundo o astrônomo Johannes Kepler a “estar em desacordo como Sol a estar de acordo com o Papa”. Assim, o uso de diferentes calendários na Europa, entre os séculos XVI e XVIII torna complicado relacionar datas e fatos e, muito menos, falar sobre festejos comuns de Ano-Novo. A respeito dessa confusão, o pesquisador Whitrow cita um exemplo:

“Afirmou-se algumas vezes, por exemplo, que Cervantes morreu no mesmo dia que Shakespeare. Infelizmente essa notável coincidência não ocorreu. Cervantes morreu em Madri num sábado, 23 de abril de 1616, segundo o calendário gregoriano já em uso ali, ao passo que Shakespeare morreu em Stratford-upon-Avon numa terça-feira, 23 de abril de 1616, segundo o calendário juliano que vigorava no país. A data gregoriana correspondente a esta é terça-feira, 3 de maio de 1616. Assim, na verdade Shakespeare sobreviveu a Cervantes por dez dias”. (WHITROW, 1993, P. 137).

Nova confusão de calendários ocorreu quando, em 1792, a França introduziu um “calendário revolucionário”. Decretou-se que o Ano I começaria em 22 de Setembro de 1792, o dia da proclamação da República. Até 1806, quando esse calendário foi abolido por Napoleão, os franceses comemoraram o Ano-Novo no dia 22 de Setembro. Em 1806, o calendário gregoriano foi restabelecido na França.

Fora da Europa, o calendário gregoriano demorou ainda mais para ser aceito. O Japão aprovou-o em 1873 e a China, em 1912 seguindo-se, neste século, a Bulgária, a Rússia (após a Revolução de Outubro de 1917), a Romênia, a Grécia e a Turquia.  As igrejas ortodoxas do Oriente continuaram a usar o calendário juliano ainda hoje, mas de acordo com a reforma feita em 1923.

Na Etiópia, por exemplo, o Ano-Novo é festejado no dia 11 de Setembro. Certidão russa de casamento, de 1907, com duas datas.

Ano-Novo hoje

Atualmente, o dia 1º de Janeiro é festejado em quase todos os países como o primeiro dia do Ano-Novo, mas isso não é universal.

Budistas, muçulmanos, hinduístas, judeus e chineses, só para citar os exemplos mais conhecidos, têm outras datas de Ano-Novo. Em 1967, o Papa Paulo VI declarou o 1º de Janeiro como Dia Mundial da Paz. Desde então, os papas têm por costume escolher um tema e escrever uma mensagem para este dia.

A ONU reconhece esse dia como Dia da Confraternização Universal, dia do diálogo e da paz entre os povos. Dia reservado à reflexão de como queremos que o mundo seja no ano que se inicia e quando trocamos votos de paz, felicidade, saúde e prosperidade. No Brasil, o dia 1º de Janeiro é feriado nacional desde 1949, conforme lei assinada pelo então presidente Eurico Gaspar Dutra.

Fontes


BORNEQUE, Henri & MORNET, Daniel. Roma e os romanos. São Paulo: EPU, 1976. CHEVALIER, Jean & GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro, 1990. LE GOFF, Jacques. Tempo. In: LE GOFF, Jacques & SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário temático do Ocidente Medieval, v.2. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2002. LURKER, Manfred. Dicionário de Simbologia. São Paulo: Martins Fontes, 2003. SPALDING, Tassilo Orpheu. Dicionário da mitologia latina. São Paulo: Cultrix, 1993. WHITROW, Gerald James. O tempo na História. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.

Fonte: http://www.ensinarhistoriajoelza.com.br



sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Liberdade religiosa nos EUA – Por Robert Sherman*


A liberdade religiosa é um fator integral da vida norte-americana, e assim tem sido desde a fundação do nosso país. 

De facto, muitas das primeiras colónias na América eram constituídas por indivíduos e famílias vítimas de perseguição religiosa. Não é de estranhar que este direito fundamental seja a "primeira liberdade" consagrada na Carta de Direitos da nossa Constituição.

Um componente essencial da liberdade religiosa é o direito que as pessoas de todas as fés têm de participar plenamente na sociedade, sem serem discriminadas com base na sua religião. O pluralismo religioso é um valor e uma tradição norte-americana, que engloba não apenas a tolerância da diversidade religiosa, mas abraça-a como parte do nosso património nacional e uma oportunidade para criar pontes entre diferentes crenças.

Todos os dias, em diferentes estados da nossa união, diferentes grupos de cristãos, judeus, muçulmanos, hindus, budistas, sikhs e outros unem esforços enquanto americanos para combater a pobreza e a discriminação, bem como acolher e prestar serviços à refugiados que fogem de perseguições. O trabalho destas pessoas personifica o lema nacional consagrado na chancela dos Estados Unidos: e pluribus unum, a partir de muitos, um.

Como embaixador dos EUA em Portugal tenho a oportunidade de contar a história americana, incluindo muitas vezes esclarecer eventos recentes. Por exemplo, no seguimento de ataques terroristas de grupos como o Estado Islâmico (EI) ou a Al-Qaeda, muitas vezes apercebo-me de preocupações no que diz respeito aos direitos dos muçulmanos nos EUA. 

Permitam-me que seja claro: atos de violência ou discriminação contra muçulmanos são contrários aos princípios norte-americanos e não serão tolerados. Esta tem sido, e continuará a ser, a política do governo dos EUA.

Fico contente por também poder destacar o que se passa em Portugal, visto que o país merece reconhecimento pela sua tolerância, pluralismo e liberdade religiosa. Reconheço o valor do governo português e dos seus líderes religiosos pela pronta condenação dos ataques ao Charlie Hebdo em Janeiro e do massacre que teve lugar em Paris em novembro. 

Os líderes nacionais têm tido uma atitude proativa no fomento de um quadro de tolerância religiosa em Portugal. A lei aprovada no Parlamento que permite aos descendentes de judeus sefarditas expulsos obter cidadania portuguesa é um gesto importante. 

A reabertura da sinagoga Sahar Hassamain em Ponta Delgada, que foi testemunhada por um grupo de pessoas variado, incluindo muitos norte-americanos, foi uma demonstração coletiva de apoio à tolerância religiosa e cooperação interconfessional. 

Líderes religiosos de todos os credos têm-me manifestado o seu apreço pelo espírito de abertura que existe em Portugal, a sua pluralidade religiosa e liberdade de culto. De muitas maneiras, este país é um modelo para outros.

No seguimento do ataque terrorista em San Bernardino, na Califórnia, o presidente Obama disse claramente que o "EI não representa o islão. São criminosos e assassinos, que constituem uma seita de morte... [e], da mesma forma que os muçulmanos em todo o mundo têm a responsabilidade de acabar com as ideias erradas que levam à radicalização, os americanos de todas as fés têm a responsabilidade de rejeitar a discriminação. É da nossa responsabilidade rejeitar testes religiosos para definir quem é admitido neste país. E é da nossa responsabilidade rejeitar propostas para tratar os americanos muçulmanos de forma diferente".

Mas, sejamos claros, por mais importante que a liberdade religiosa tenha sido para o sucesso dos EUA enquanto nação, estes direitos não pertencem apenas aos norte-americanos. 

As liberdades de escolha de fé, mudar de fé, dissidir de uma religião, falar publicamente sobre as suas crenças, reunir em adoração, e ensinar a sua crença aos seus filhos, estão consagradas na Declaração Universal de Direitos Humanos e no Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos. 

De facto, é por darmos tanto valor à liberdade religiosa a nível nacional que o Congresso norte-americano determinou que a promoção da liberdade religiosa seja uma prioridade da política externa norte-americana.

É verdade que o fanatismo religioso existe nos EUA, tal como em todos os cantos do mundo. E, compreensivelmente, declarações de ódio recebem muita atenção. Mas esta é apenas uma pequena parte da história.

Uma visão mais correta dos EUA pode ser encontrada em histórias do dia-a-dia que muitas vezes não chegam aos jornais internacionais, em parte porque estas comuns interações de tolerância e respeito não são mediáticas. 

Isto inclui os vários representantes do governo, líderes religiosos e membros da sociedade civil que denunciam a discriminação e apoiam os seus concidadãos, tal como as centenas de igrejas cristãs que estão a angariar fundos para acolher os refugiados, os mil rabinos norte-americanos que assinaram uma carta a dar as boas-vindas aos refugiados sírios, a campanha de crowdfunding de muçulmanos norte-americanos que angariou mais de $200 000 para as vítimas de San Bernardino, e talvez a história mais reveladora seja a de um menino de 7 anos que doou todo o dinheiro do seu mealheiro para uma mesquita vandalizada no Texas. Esta é a verdadeira história dos EUA.

* Embaixador dos Estados Unidos




quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Especial de fim de ano traz temas ligados à religiosidade e espiritualidade


A Rádio Nacional apresenta, no dia de Natal, um programa especial com a participação de representantes e lideranças de diferentes religiões.

A jornalista Taís Ladeira conversa sobre compaixão, alteridade, espiritualidade, intolerância e outros temas com o Bispo Dom Leonardo Steiner; a Filha de Santo Marta Carvalho, do Templo Axé Oyá Bagan (Casa da Mãe Baiana); a Sacerdotisa Wiccaniana Mavesper Cy Ceridwen; e o Monge Budista Ademar Kyotoshi Sato.

A conversa propõe uma pausa para a reflexão em torno de temas muitas vezes secundarizados, como a diferença entre espiritualidade e religião, os pontos em comum entre religiões pagãs, orientais ou cristãs, ou ainda o desafio de denunciar e combater a intolerância religiosa.

O programa especial irá ao ar na sexta-feira, dia 25 de dezembro, das 8h às 10h, com reprise no dia 1º de janeiro de 2016, no mesmo horário, pelas Rádios Nacional de Brasília AM, Nacional FM, Nacional do Rio de Janeiro, Nacional da Amazônia e Nacional do Alto Solimões.





quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Natal é principal data religiosa para 91% dos marilienses – Por Marcelo Moriyama




Segundo historiadores, data celebrava o nascimento anual do Deus Sol, se tornando o dia do nascimento de Jesus pela Igreja Católica no século III.

O Natal no Brasil se tornou o período do ano em que mais se reúnem as famílias e amigos em torno de uma festividade. Se a data se confunde cada vez mais com a imagem comercial de Papai Noel, envolto à diversão e troca de presentes, na cidade esse dia ainda é considerado o mais importante do ano para as três principais religiões cristãs de Marília, a católica, as evangélicas e a espírita, que representam 91,8% da população da cidade.

Segundo historiadores, originalmente destinada a celebrar o nascimento anual do Deus Sol no solstício de inverno (natalis invicti Solis), a festividade foi ressignificada pela Igreja Católica no século III para estimular a conversão dos povos pagãos sob o domínio do Império Romano e então passou a comemorar o nascimento de Jesus de Nazaré.

Mas no Brasil o Natal ainda mantém forte simbolismo religioso, pois ainda é a maior nação católica do mundo, com 64,6% de fieis (já foi 91,8% em 1970). Os dados são do Censo de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Em Marília o número é um pouco menor, de 62,6% (135 mil) de católicos. Os evangélicos já são 25,3% (55 mil) e os espíritas 3,2% (7 mil). As três mais representativas religiões da cidade, que somadas formam a maioria cristã, de 91,1% dos marilienses. Os 9% de não cristãos em Marília não passam de 23 mil, entre budismo (1.743), islamismo (79), esoterismo (113), umbanda e candomblé (266) e com maioria sendo os sem religião (11.428). 

Para a católica fervorosa, legionária de Maria, o Natal é a mais importante data de sua religião, que celebra não só o nascimento de Jesus, como o fortalecimento da família. “Hoje tenho 82 anos e desde criança que rezo a novena de Natal, inclusive na véspera da ceia, todos os anos, junto de toda minha família. Tem ano que chega a reunir mais de 100 pessoas em torno da mesa, entre amigos e familiares”, Carmelita da Silva de Souza.

Celebrações envolvem 18 paróquias, 200 templos e 30 centros espíritas

Das duas maiores religiões, a maior, a católica, conta com 18 paróquias e cada uma oferece celebrações de missas é ritos em celebração ao Natal. Na Catedral de São Bento haverá missa às 19h30 do dia 24 e do dia 25. 

Depois vem a religião evangélica, com três subdivisões e 16 ramificações, se dividindo em mais de 200 templos. Cada uma oferece uma programação própria para celebrar o nascimento de Cristo. 

Já os espíritas kardecistas possuem 30 centros espalhados pela cidade e todos celebram o nascimento de Jesus, mas não com ritos e sim com estudos da bíblia.

O Bispo Dom Luiz Cipolino, líder católico local, ainda não proferiu sua mensagem de Natal deste ano. O Papa Francisco também não, mas em encontro com as famílias dos funcionários do Vaticano, no início da semana, já deu um pouco do mote do que deve enfatizar em seu segundo discurso natalino como pontífice. Segundo veiculado pela Rádio Vaticano: Papa Francisco destacou a importância do zelo familiar, incentivando a todos a zelar pelos maridos, esposas e filhos. 

O Papa afirmou que o matrimônio é como uma planta, uma planta que está viva e que precisa ser cuidada todos os dias. “Igualmente, a vida de um casal jamais deve ser dada por ‘óbvia’, em nenhuma fase...” e convidou a recordar que o dom mais precioso para os filhos não são as coisas, mas o amor dos pais, o amor entre eles em sua relação conjugal, “o que faz bem tanto a eles mesmos como a seus filhos”.

Já o presidente do Conselho dos Pastores de Marília, o Pastor Juliano Freire, o Juba, destaca que as diferentes denominações evangélicas interpretam de diferentes modos o Natal, uns celebrando mais, outros celebrando menos, mas todos em comum comemoram o dia do nascimento de Jesus Cristo.

“Para nós o Natal é como uma festa de aniversário e o aniversariante, o principal personagem da festa, é Jesus. Nessa época festejamos como todos os brasileiros, mas vemos a data como um grande dia para se glorificar a Deus e pedir paz na terra”.

A professora de espiritismo do centro Luz e Verdade, Silvia Shauer Valderramas, o espiritismo é uma filosofia e uma ciência que tem como base a religião cristã, o estudo dos ensinamentos de Cristo pela ótica mediúnica interpretada por Alan Kardec. "Para nós esta é também uma das datas mais importantes de nossa fé”.

Ela convida a todos para no dia 24 de Dezembro, às 20h, assistirem ao orador Jose Alfredo Santana, que apresentará a Palestra de Natal: Os Espíritas entenderam a missão de Jesus? “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao pai senão por mim”.





Aniversários dos nascimentos de Jesus Cristo e de Maomé celebrados quinta e sexta-feira


Os crentes das duas maiores religiões monoteístas do mundo celebram quinta e sexta-feira a festa do nascimento dos fundadores do islamismo e do cristianismo, uma proximidade de datas que não acontecia desde o século XVI.

Os cristãos seguem o calendário gregoriano que tem 25 de Dezembro como o dia do nascimento de Jesus Cristo enquanto os muçulmanos seguem o calendário islâmico, com 12 meses lunares e um ano de 354 ou 355 dias.

A festa islâmica, o Id Mawlid, aniversário do profeta, é celebrada no 12.º dia do terceiro mês do calendário muçulmano, cujo ano islâmico começa no Dia da Hégira, em que Maomé deu início à jornada de Meca a Medina, corria o ano de 622. (Notícia substituída porque as duas datas não são coincidentes)

Os meses muçulmanos seguem o calendário lunar, pelo que todos os anos se adiantam cerca de 10 dias ao solar, razão pela qual as principais datas do Islão, incluindo o Ramadão, são móveis e não coincidem com o calendário gregoriano.

Por seu lado, o mundo cristão celebra o nascimento de Jesus Cristo num dia fixo e a universalização das celebrações já permitiu que todas as festividades saltassem o Mar Mediterrâneo para os países do norte de África, de maioria muçulmana, e encontraram eco sobretudo em Marrocos.

Alguns consideram tratar-se de uma colonização cultural, enquanto outros falam da globalização do mercado e do consumo. Em Marrocos, segundo relata a agência e notícias espanhola EFE, há escolas que chegam a convidar um "Pai Natal" para os apresentar às crianças, à supermercados adornados com todo o tipo de produtos alusivos à época natalícia.

"Não que os muçulmanos celebrem uma data cristã, mas, de alguma maneira, o espírito natalício, pelo menos o mais comercial, também está nas ruas", escreve o autor do artigo, Javier Otazu.

São várias as lojas em várias cidades do país que vendem árvores de Natal, produto que, curiosamente, é maioritariamente comprado por clientes muçulmanos, que também compram disfarces de "Pai Natal".

Paradoxalmente, o aniversário do nascimento de Maomé passa quase despercebido nas ruas e cidades muçulmanas, uma festa invisível que se passa dentro de casa, contrastando com as grandes datas do calendário islâmico, como o Ramadão e Id Al Fitr, a Festa do Carneiro, que assinala o fim de jejum.

Na Medina de Rabat, um comerciante de produtos associados aos rituais islâmicos adiantou que, nestes dias, vende sobretudo pequenos incensários, destinados a queimar incenso ou sândalo para perfumar casas e mesquitas, mas o movimento na loja é igual a qualquer outro.

Nos últimos anos, tem ganhado peso a leitura salafista do Islão, com um rigor "importado" da Arábia Saudita, em que a celebração de festas é vista com "maus olhos" pelos que pretendem "limpar" a religião islâmica de "impurezas".

A veneração de Maomé, por exemplo, é considerada uma "bida", una inovação que se afasta da norma, e, embora não caia na categoria de "heresia" basta uma visita pelas páginas de sítios de cariz islâmico na Internet para se perceber os muitos que as condenam.

O salafismo, obcecado com o monoteísmo, opõe-se a qualquer culto ou veneração a Maomé, que é apenas um "mensageiro de Deus".

"Assim, as cidades islâmicas contam com um Natal certamente laico e comercia, enquanto as festividades do profeta Maomé ficam relegadas a uma velha tradição com cada vez menos partidários", conclui o autor do artigo.