quarta-feira, 2 de março de 2016

Jovens dominicanos aliam a mística da fé com dimensão da ação – Por Jilwesley Almeida


A Ordem Dominicana celebra seus 800 anos de fundação no mundo neste ano de 2016. Para falar sobre a teologia praticada pelos frades dominicanos, a Adital entrevistou o Movimento Juvenil Dominicano (MJD).

Aproveitamos a oportunidade para saber também a importância doe Frei Tito de Alencar para o fortalecimento dos princípios dominicanos no Brasil. Para o MJD, lembrar de Frei Tito faz com que se tenha consciência de que a ditadura militar ainda não acabou por completo no Brasil. E que a sociedade precisa estar atenta e agir contra os casos de violência praticados pela polícia militarizada.

Confira a entrevista:

Adital - Como a teologia praticada pelos frades dominicanos é trabalhada na juventude atual?

Todo dominicano é chamado a ser testemunho e pregador da "Verdade” no ambiente em que está inserido. Também nós, do Movimento Juvenil Dominicano, somos impulsionados por este carisma, tal qual os dons que cada um possui para uma melhor pregação na realidade que vivemos, familiar, acadêmica e profissional.

O que acontece, naturalmente, é uma adaptação de linguagem e metodologia, visando à integração e aproximação com o universo do público jovem. Entretanto, são preservados os elementos essenciais dessa fé que liberta, e que pode ser praticada pela Igreja. 

Adital - Qual o diferencial da teologia praticada pelos dominicanos em relação às demais?

A Igreja é muito ampla e muito diversa, portanto, existem muitas formas de ser cristão. A maneira dominicana de seguir Jesus Cristo está baseada em alguns pilares, que são: vida de oração, pois não podemos falar de Deus sem conhecê-lo; vida de estudo, pois a razão e a ciência também nos ajuda a conhecer Deus, além de nos capacitar para uma melhor pregação; a vida comunitária, pois encontramos Deus no próximo e a comunidade é um espaço privilegiado para isto; e a compaixão, tudo para que a pregação ocorra da melhor forma possível, sendo voltada para o mundo, e não para nós mesmos.

Adital - Qual foi a importância de Frei Tito para o fortalecimento desse carisma no MJD Brasil?

Respondendo à sua vocação, Frei Tito foi uma pessoa inserida no mundo e nos conflitos da sua época, engajado na luta pela verdade e pela justiça. Ao olhar para sua história, o MJD tem um exemplo de compromisso, tanto com as questões da atualidade, quanto com o seguimento de Jesus Cristo. Ele nos inspira para a continuidade dessa luta por um mundo mais fraterno, onde a opção pela verdade e justiça guie nossas ações.

Fazer a memória de Tito é tomar consciência de que a ditadura ainda não acabou por completo, em nosso país. É trabalhar para abrir os olhos da sociedade com relação aos inúmeros casos de violência da nossa polícia militarizada, no trato com as periferias, com as comunidades indígenas, camponesas e quilombolas, com os manifestantes que preenchem as ruas, clamando por direitos sociais e políticas públicas. Reconhecer que o Estado e o empresariado opressor, que regem com maestria essa violência, precisam mudar a maneira de governar.

Adital - Como se trabalha a formação política e de direitos humanos dentro do movimento da juventude dominicana?

Dentro da visão da doutrina social da Igreja, como um meio e não como um fim. Como cristãos, acreditamos que a vida humana é a prioridade absoluta, portanto, desejamos um mundo onde os direitos humanos sejam refletidos em ações concretas. A ação política é o único meio de concretizar esses valores, portanto, ela é muito importante para o MJD, pois é um meio de alcançar muitos dos nossos sonhos comuns. Nossa essência é o seguimento a Jesus Cristo e não a um partido político, como tem mostrado, de maneira muito inteligente, o Papa Francisco.

Adital - Como se trabalha essa teologia fora do movimento dominicano?

Queremos ser presença de Deus na sociedade, não para "converter os infiéis”, mas para mostrar à sociedade que é possível ser cristão, ser politizado, estudar ciências, sem ser contraditório e ainda sendo feliz com essas escolhas. Aos que se aproximam e desejam conhecer, as portas estão sempre abertas, aos que têm objetivos em comum, como questões ligadas aos direitos humanos ou outras, estamos dispostos a trabalhar juntos e dialogar, mesmo com diferenças em relação à fé.

Adital - Que experiências o contato com a sociedade proporciona aos jovens dominicanos?

Os jovens do MJD já estão na sociedade, somos um movimento de leigos, os jovens estudam, trabalham, como quaisquer outros jovens. Enquanto MJD, temos oportunidade de conhecer realidades diferentes e trocar experiências.

Adital - Quais os efeitos do exercer dessa teologia na juventude?

Exercer este carisma nos leva a ter um olhar mais misericordioso sobre as diversas situações que acontecem na nossa sociedade. Ter uma fé relacionada ao mundo concreto nos coloca exatamente onde somos chamados a pregar, para a sociedade, fica o testemunho de que ser cristão, para nós jovens, o rosto de Cristo em cada pessoa que sofre com as injustiças e desigualdades do nosso mundo.

Adital - Quais foram os maiores desafios para a família dominicana durante a ditadura militar? E que obstáculos são enfrentados hoje?

Não temos propriedade para discorrer sobre a experiência de toda a família. O que conhecemos, porém, são as histórias de luta pela liberdade de alguns dos nossos irmãos dominicanos, como Frei Tito, Frei Oswaldo Rezende, Frei Betto, etc. Pessoas que doaram a própria vida - no caso de Tito até as últimas consequências - pelo bem comum, pelas outras vidas.

Um dos principais desafios que o MJD vive é o de integrar a dimensão mística da vida com a dimensão da ação. Somos um grupo de Igreja, ligada a uma ordem religiosa, que tem uma vida de oração, mas não queremos estar apenas dentro das igrejas, queremos sair, mas sem deixar de ser cristãos.

Adital - Como o movimento de juventude dominicana avalia a sociedade atual, quando se trata da busca por espiritualidade, fé e contato com o ambiente religioso?

Na sociedade atual, vivemos, como diz Bauman, tempos líquidos, na sua grande maioria, as pessoas buscam coisas que passam rapidamente diante delas, aproveitam ao máximo e depois a descartam; infelizmente, a sociedade também encara a busca pela espiritualidade, fé e ambiente religioso desta forma, dificilmente, encontramos algo profundo e sólido na realidade em que vivemos, este é mais um dos desafios que temos ao assumirmos um carisma, que tem a pregação como estilo de vida.







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