quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Fundamento e fundamentalismo – Por Alfredo J. Gonçalves

O fundamentalismo religioso, político, ideológico ou de qualquer outra natureza, constitui a negação de um verdadeiro fundamento. 

Toda religião, todo projeto político e toda espécie de ideologia têm como alicerce alguns princípios que os sustentam. Formam as balizas e a base de seu fundamento.

Tais princípios, porém, deixam de evoluir de acordo com o contexto histórico e os desafios do tempo, correm o risco de fossilizar-se, de cristalizar-se, tornando-se tão rígidos que não respondem mais às perguntas e inquietações das gerações novas. Novas perguntas e novas dúvidas exigem novas respostas. 

Paralisados diante da dinâmica sócio histórica, os fundamentos tendem a exacerbar-se, convertendo-se em seu exato contrário, isto é, no fundamentalismo fóssil. Este, ao longo dos séculos, tanto à direita quanto à esquerda, tanto do ponto de vista religioso quanto ateu, tem deixado um rastro macabro de perseguições, deportações, execuções, torturas, mortes, uma imensa multidão anônima de mutilados e de cadáveres.

Os exemplos históricos são os mais variados: vão desde a cristandade medieval ("fora da Igreja não há salvação”) com as repetidas cruzadas, o processo de inquisição e as fogueiras, até a guerra santa de alguns radicais muçulmanos com suas divisões intestinas e seus métodos terroristas, passando pelas experiências totalitárias do socialismo real, especialmente na ex-União Soviética, bem como do fascismo e nazismo que culminaram com a tragédia da Segunda Guerra Mundial e do holocausto. 

Toda espécie de totalitarismo tem como base alguma forma de fundamentalismo, seja ele de caráter político, ideológico ou religioso, quando não os três ao mesmo tempo. Ao absolutista um determinado programa ou uma determinada formação sócio-política, acaba-se por esquecer que tais construções são sempre situados no tempo e no espaço. O resultado é a exclusão de toda pessoa, grupo, povo, religião ou nação que não o seguem ou a ele não se adaptam. Questionar determinadas ideologias é ser "alienado”, "pecador”, "incrédulo”, o que pode levar à prisão e à morte.

A pretensão de possuir a verdade, e de a possuir em termos absolutos, conduz à expurgação pura e simples. Segue-se lhe o "dever” e até ao "direito” de eliminar o outro. Este pode ser o herege ou a feiticeira/bruxa da Idade Média, o louco ou cientista do Renascimento, o infiel ou ateu das "guerras santas”, o comunista ou capitalista da sociedade contemporânea... 

As consequências se tornam mais graves e trágicas quando tal pretensão da verdade se reveste de uma roupagem religiosa. De fato, a história registra as mais brutais barbaridades cometidas em nome de Deus. O raciocínio é simples e direto: 

"Se eu possuo a verdade e sigo a vontade de Deus e você se opõe, você deve morrer”! Quando recorremos a Deus para justificar certa posição ou certos critérios, qualquer argumento em contrário deve ser absolutamente banido.

Chega-se assim a um o conceito distorcido de identidade. Esta, em lugar de enriquecer-se no confronto e no diálogo com o outro, fecha-se completamente em si mesma, evitando todo e qualquer encontro ou questionamento. "O outro é o inferno”, dizia amargamente o filósofo existencialista J.P.Sartre, um perigo a ser evitado ou combatido. 

A verdade torna-se única e absoluta, a pluralidade um risco a ser eliminado pela raiz. Também pela raiz eliminam-se as sombras e ambiguidades, próprias da condição humana. Nessa perspectiva, vê-se somente o preto e o branco, tudo que é cinza converte-se em perigo. A verdade deve ter fronteiras precisas e perfeitamente determinadas. Nenhum espaço para interpretações diferentes, nada de interrogações incomodas  Interrogar é duvidar, duvidar é descrer...

Ora, sabemos que o ser humano é feito de luzes e sombras, e entre umas e outras, os limites se misturam e se confundem. Borram-se as fronteiras entre o certo e o errado. Nas relações humanas, a cor cinza, indeterminada, costuma ser mais frequente que a cor forte e fortemente definida. A identidade constrói-se em meio às contradições da existência, dilacerada por medos, traumas e dúvidas. Nas palavras do Evangelho, o joio e o trigo crescem juntos. 

A pressa em separá-los pode deitar a perder o trigo juntamente com o joio. "Na vida, tudo é muito misturado, lusco-fusco”, lamenta-se o personagem Tartarana da obra de Guimarães Rosa, Grande Sertão, Veredas. Os filósofos E. Lévinás e H. G. Gadamer, ao contrário de Sartre, afirmam respectivamente que "o outro é o caminho para chegar a mim mesmo” e que "o outro tem mais a dizer sobre mim mesmo que sobre ele”.

Em termos mais concretos e sintéticos, qualquer opinião, argumentação ou postura político-ideológica, bem como qualquer religião, deve ter sim seus fundamentos, sua identidade, sua forma étnica e ética. De acordo com uma intuição de Hans Kung, em sua clássica trilogia sobre Ebraísmo, Cristianismo e Islam, o fundamento não se confunde com o fanatismo cego e surdo, o qual, guiado por princípios rígidos e ossificados, a ponto de tornar-se a-histórico, devasta tudo e todos. Identidade não se confunde com o nacionalismo exclusivista, preconceituoso, xenófobo e discriminatório, que faz do outro/diferente um inimigo a ser varrido do mapa com todas as forças. 

A ética, feita de balizas e estrelas que nos orientam no comportamento diário, não se confunde com o moralismo petrificado no tempo e no espaço, o qual não tem lugar nos ouvidos e na alma dos jovens, por exemplo.

Numa palavra, fundamento, identidade e ética não podem constituir-se em dogmas cerrados sobre si mesmos. Ao contrário, devem permanecer abertos a um aprendizado contínuo, de acordo com as circunstâncias e os desafios que cotidianamente nos batem à porta. Isso não significa, evidentemente, pular para o outro extremo do cinismo, do relativismo e do niilismo, hoje em moda na sociedade pós-moderna. 

A "sociedade líquida” (Zygmunt Bauman) não é sinônimo de ausência de critérios ou princípios, e sim adaptação racional e consciente destes à realidade que nos cerca e que se encontra em constante metamorfose. Vale aqui o pensamento de J. B. Scalabrini, chamado "pai e apóstolo dos migrantes”: a história muda, avança, corre com velocidade cada vez maior, e nós não podemos ficar para trás. Por isso, dizia ele, "a novos desafios, novos métodos”.

Fundamento, identidade e ética, se e quando se mantêm abertos ao diálogo, instalam uma circularidade de crescimento recíproco com as interrogações levantadas pela história em movimento. Ao mesmo tempo que iluminam os projetos, caminhos e passos de determinadas pessoas, grupos ou nações, deixam-se iluminar pela "irrupção de Deus na carne do mundo”, para usar uma linguagem teológica cara ao teólogo italiano Bruno Forte. 

Ao invés de agarrar-se a um passado fossilizado ou a um presente cego e marcadamente hedonista, abrem a janela para as possibilidades do futuro, os "sinais dos tempos” escritos no pergaminho da história. Abrir-se aos riscos do "novo” é vencer um saudosismo doentio, mórbido que muitas vezes faz da vida um verdadeiro museu.


Roma, 25 de Setembro de 2013.

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