domingo, 28 de junho de 2015

Religião, pólvora das revoluções e até tiranicídios – por Aline Moura



Filósofo defende a liberdade de crer e de não crer e aposta em amadurecimento da sociedade.

Apesar do radicalismo e do clima de intolerância que paira no Brasil, a medida que a bancada evangélica ganha espaço no Legislativo e polariza com um discurso contra o segmento LGBT, o filósofo e professor de Ética da Mackenzie Campinas, Gerson Leite de Moraes explica não ser incomum que a religião seja a pólvora de grandes disputas de poder. 

Segundo ele, mudanças em quase todos os países passaram por embates religiosos, que também se fortalecem por conta da falta de articulação dos que se sentem desconfortáveis. 

"Mas acredito que a visibilidade ao embate poderá fazer uma pressão por leis mais severas que punam a intolerância e consagrem definitivamente a liberdade individual, de crer de não crer e, de se viver sem nenhum tipo de pressão, religiosa ou ideológica". Veja entrevista concedida ao Diário por e-mail.

Esse tipo de radicalismo religioso já existiu no Brasil? Podemos comparar essa força da bancada evangélica a algo que está acontecendo em outra parte do mundo?

A relação entre religião e política é algo que está na base da formação do Estado Moderno. Basta observar os desdobramentos das reformas protestantes, na França, com os chamados monarcômacos e a possibilidade do tiranicídio no contexto das guerras de religião naquele país e, também em toda a Europa. Pode-se pensar, ainda, no caso da Inglaterra, com a Revolução Puritana no século XVII e, se quisermos ir além, podemos adentrar no século XVIII, no contexto das Revolução Francesa e Americana. Todas as teorias que embasam a existência do Estado Moderno (contratualismo, governo constitucional, governo representativo, teoria da resistência, governo democrático) são fruto da relação tensa entre religião e política, que eu chamo, apoiado em outros autores, de teologia política. 

No caso do Brasil, a relação entre religião e política sempre existiu, observe-se por exemplo, só para mencionarmos o estado de Pernambuco, as insurreições, revoltas e revoluções, tanto no Brasil Colônia quanto no Brasil Monárquico, a quantidade de sacerdotes e fiéis praticantes, protestantes ou católicos envolvidos nos conflitos. 

Não podemos nos esquecer de que, no Brasil Monárquico, vigorou, até 1889, o regime de padroado e, apesar da República nascer laica, os grupos religiosos sempre se articularam politicamente. Portanto, religião e política sempre se relacionaram, em maior ou menor medida no contexto brasileiro. Recentemente, o que ocorreu no Brasil foi um crescimento avassalador dos grupos pentecostais que, ávidos por concessões midiáticas, tentaram introduzir, principalmente no Legislativo, seus representantes. Isso se deve ao fato, que desde 1988, as concessões midiáticas se fizeram na esfera legislativa, até aquele momento, a prerrogativa era do Executivo.

Para ampliarem o capital religioso, os grupos pentecostais necessitavam de representação política que redundasse em ampliação do capital midiático. Só que estes grupos religiosos perceberam que precisavam dar respostas aos seus fiéis e a defesa dos valores ligados à família tornou-se a bandeira preferida destes grupos. Já em relação a outras partes do mundo, as relações políticas e religiosas dentro de democracias seguem, mais ou menos, a mesma configuração que vemos no Brasil, ora os grupos religiosos possuem mais força, ora menos força. Não se pode jamais, querer comparar o que ocorre no Brasil com o que ocorre, por exemplo, em áreas dominadas por grupos islâmicos fundamentalistas.  

Quais os riscos de termos bancadas evangélicas tão fortes, quando deveríamos viver num estado laico? Os deputados têm poder de interferir cada vez mais na vida privada dos cidadãos?

Não podemos nos esquecer que vivemos num país democrático com o governo representativo e, neste jogo político, os grupos necessitam se articular. O campo político é um espaço de conflito entre os vários grupos que o habitam. As bancadas evangélicas são fortes porque existem eleitores que, presume-se, querem a defesa dos valores assumidos por tais bancadas. O que os grupos descontentes necessitam fazer, é articularem-se politicamente e tentarem lutar dentro das regras democráticas existentes, por seus valores. Estado laico não significa estado ateu, significa sim, que a religião, seja ela qual for, necessita ser vivida na esfera privada. O Estado necessita resguardar o direito à crença e a não crença, punindo os intolerantes de ambos os lados, pois o fundamentalismo religioso e antirreligioso, ambos são nocivos à democracia.

Houve uma audiência realizada na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados para se ouvir testemunhos de ex-gays. Isso é uma forma de chamar mídia para o assunto, de ganhar os holofotes?

Você tem toda razão. Aliás, assumir bandeiras pró ou contra o movimento LGBT é uma forma de perpetuar-se na esfera política. Alguns políticos encontraram as razões de suas existências assumindo estas bandeiras. E isto não é errado, faz parte do jogo democrático e, neste campo, a vitória caberá aqueles que souberem responder às suas bases usando a mídia como ferramenta para tal. Por isso, os eleitores necessitam participar cada vez mais de forma ativa da vida política para não se tornarem meras marionetes nas mãos de grupos  inescrupulosos.

O que pode acontecer se essa radicalização entre evangélicos e o movimento LGBT acontecer?


Num primeiro momento, minha percepção é pessimista, pois acredito que haverá um retrocesso em termos diálogo e de convivência, pois ambos os lados se radicalizaram, mas, num segundo momento, minha expectativa é otimista, pois acredito que a visibilidade dada pela mídia ao embate poderá fazer uma pressão por leis mais severas que punam a intolerância e consagrem definitivamente a liberdade individual, de crer de não crer e, de se viver sem nenhum tipo de pressão, religiosa ou ideológica.



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