quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Nada menos que 100 milhões de cristãos são perseguidos hoje no mundo todo – Por Chiara Santomiero



Mais de 100 milhões de cristãos em todo o mundo são vítimas de discriminação, perseguição e violência: existe a intolerância do fanatismo religioso e ideológico, existem sistemas institucionais que não reconhecem a liberdade religiosa, existem estratégias políticas dos regimes totalitários.

Entre os dez países com maior registro de perseguição contra minorias e grupos étnico-religiosos, encontram-se dois do Oriente Médio (a Síria e o Iraque, onde o terrorismo do Estado Islâmico potencializou a barbárie até níveis estarrecedores), três da Ásia (o Afeganistão, o Paquistão e Mianmar, antiga Birmânia) e cinco da África (a Somália, o Sudão, a República do Congo, o Sudão do Sul e a República Centro-Africana). Merece triste destaque também a Coreia do Norte do ditador Kim Jong-un, onde de 50 a 70 mil cristãos estão confinados em campos de detenção.

Estima-se que de novembro de 2013 a 31 de outubro de 2014, no mínimo 4.344 cristãos foram assassinados no mundo unicamente por razões ligadas à sua fé. No mesmo período e pelo mesmo motivo, 1.062 igrejas cristãs foram atacadas.

O relatório da Caritas italiana ("Perseguitati. Cristiani e minoranze nella morsa tra terrorismo e migrazioni forzate", "Perseguidos: cristãos e minorias nas garras do terrorismo e da migração forçada", publicado no final de julho e disponível em: www.caritasitaliana.it) apresenta em dados concretos um fenômeno que o papa Francisco e os bispos do Oriente Médio vêm denunciando com ênfase, mas que parece ainda não ter sacudido a consciência do Ocidente cristão.

O paradoxo é que justamente a errônea identificação entre Ocidente e cristianismo é um dos motivos que transformam os cristãos em alvo de perseguição nesses países e em vários outros, como explicou à Aleteia um dos editores do relatório, Silvio Tessari, responsável pelos setores Norte da África e Oriente Médio da área internacional da Caritas italiana.

Aleteia: O relatório destaca dados impressionantes. A perseguição aos cristãos é um fenômeno subestimado no tempo ou está acontecendo uma escalada?

Tessari: Pior que subestimado. Este fenômeno tem sido praticamente ignorado. Houve certa tomada de consciência no ano passado, quando o Estado Islâmico foi conquistando territórios do Iraque e da Síria e forçando os cristãos a se converter ou fugir apenas com a roupa do corpo. Mas não é só o Estado Islâmico. A Europa continua se fazendo de surda e apontando no islamismo radical a principal razão das perseguições contra os cristãos no Oriente Médio e no mundo. Isto é só parcialmente verdadeiro. Por exemplo, em países da América Latina, como o México, os cristãos estão sendo alvo do narcotráfico porque defendem valores que arruinariam o mercado da droga. Em outros países, como a Índia, existem leis que não permitem conversões religiosas e, portanto, limitam a liberdade de consciência.

Aleteia: É um problema que também afeta muitas outras minorias étnicas e religiosas, não?

Tessari: Sem dúvida. Os cristãos estão sendo muito perseguidos no Oriente Médio, mas o mesmo acontece com os yazidis e com a violência sectária entre sunitas e xiitas, que são as duas principais confissões dentro do mundo muçulmano. Com a presença da Caritas em tantos países diferentes, nós percebemos que há um aumento da intolerância em todo o planeta em relação a quem é “diferente de mim”. Isso também é notável na própria Europa com a crescente intolerância às minorias, especialmente no Norte, em países como a Noruega, a Dinamarca, a Suécia, que eram reconhecidos pela abertura e pela democracia.

Aleteia: Quais são as causas?

Tessari: O relatório aponta que, muitas vezes, as chamadas "guerras religiosas" disfarçam, na realidade, muitos interesses políticos e econômicos bem específicos. Também é forte a questão da desigualdade: é inegável que, se os recursos fossem distribuídos de forma mais equitativa, se houvesse mais justiça social no mundo e dentro dos países, os conflitos teriam menos chances de explodir. As dificuldades das várias situações econômicas e sociais são como combustível jogado no fogo. E quando se procura um bode expiatório, o cristianismo é identificado em muitos países com o Ocidente, que é visto como rico e egoísta. Além do mais, é claro que é mais fácil culpar os cristãos que estão ali ao lado do que o Parlamento Europeu e a Casa Branca.

Aleteia: Diante do terrorismo de matriz islâmica também é fácil sucumbir à ideia do "choque de civilizações". Como evitar esse reducionismo?

Tessari: Temos de construir uma cultura contrária. É verossímil que possa explodir um conflito entre sistemas ideológicos e religiosos, mas também existem muitas razões para as pessoas escolherem a coexistência pacífica, fazendo o esforço de compreender o ponto de vista do outro. Neste processo, é necessário o respeito por todas as religiões, mas também leis que protejam os direitos fundamentais da pessoa. 

É um trabalho de construção de civilização para que todos se sintam cidadãos do mundo, com igual dignidade. Nesse trabalho de construção da civilização é possível ressaltar o rosto de paz das religiões, que já se evidencia com o trabalho da própria Caritas no Oriente Médio, por exemplo.






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