sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Quatro décadas depois, Woodstock e movimento hippie ainda influenciam - Por Manoel Affonso de Mello


“Uma vez declarada a guerra, é impossível deter os poetas. A rima ainda é o melhor tambor” defendia o dramaturgo e ensaísta francês Jean Giraudoux (1882 – 1944), que morreu no ano em que os invasores alemães foram expulsos de sua pátria.


Quando acabou a guerra e não começou a paz, ante às tensões da Guerra Fria, os tambores que, no passado, cadenciavam a marcha dos soldados imprimindo a força de ataque das infantarias foram substituídos pelas guitarras elétricas que passaram a acompanhar os movimentos de contestação dos anos 1960, sobretudo entre os hippies. Estes jovens norte-americanos inclinavam-se a formas bem humoradas, mas não menos contundentes, e pacíficas, mas não inocentes, de recusar e lutar contra o horror do momento histórico que os emoldurava.

Em maio de 1968, nas ruas de Paris, esse “horror”, (leia-se horror como establishment, ordem imposta) foi combatido pelas mobilizações estudantis com paralelepípedos e palavras. “A palavra é um coquetel molotov” gritava a juventude parisiense. Estava sendo modesta. As palavras permitiram os poetas e “os poetas são para a humanidade o que as palavras são para a voz”.

Com o movimento hippie, a contracultura escanteou os paralelepípedos e, no Festival de Woodstock, em agosto de 1969, transubstanciou palavras e música em hinos. Não há como a historiografia registrar o poder que a música imprime a um texto e até mesmo a uma sílaba. Os hippies escandalizariam as forças retrógradas e conservadoras da época e encantariam os demais vetores sociais, mesmo dentro das fileiras tradicionais às quais pacificamente se opunham.

Sob a força avassaladora das canções, dos solos espontâneos das guitarras e das percussões performáticas, a poesia e a música dessa geração puderam despertar nos ouvintes dimensões mais profundas do que era dito e que tantas vezes perdera-se no silêncio da leitura pura e simples. Ouvir a palavra cantada é permitir-se beber panoramas plurais do texto, é poder contemplar dimensões mais profundas, não apenas do que é dito, mas do que, percebido nas entrelinhas, reverbera entre a imaginação do poeta e a nossa opinião, preâmbulos dos diálogos que definem o que nos molda e o que nós mudamos. Sobretudo, é poder desnudar sua estrutura sonora, suas rimas, o substrato fônico e a cadência rítmica que pode arrancar do fundo do nosso peito o deleite da apreciação e da interpretação súbita, aquela que frutifica sob o fulgor de determinados instantes.


Woodstock assinala o momento em que um interessante viés da contracultura, num apaixonado rompante de poesia e liberdade, despiu-se dos limites hipócritas e decadentes do seu tempo e sob a inspiração de ideais pacifistas, permitiu-se empunhar a bandeira da Liberdade que, sob a ótica do italiano Ignásio Silone (1900 – 1978), escritor antifascista, “(...) é a possibilidade de duvidar, de cometer um erro, de procurar e experimentar, de dizer não a qualquer autoridade, literária, artística, filosófica, religiosa, social e também política”. Um texto sobre Woodstock, seja qual for, não pode deixar de registrar ao menos algumas das performances mais representativas do festival. Sabemos do quão injusto será omitir o nome de tantos músicos e bandas. Ali, à semelhança de Hendrix, que reinventou a guitarra para, em sua versão do hino norte-americano, transcender tanto a história do festival quanto a da própria música, muitos não apenas difundiram seus trabalhos, mas imprimiram ao rock e à juventude uma aura de gentileza e, com ela, a certeza de que esses “transgressores” armados de paz, música e amor poderiam subjugar o mundo. De verdade.

Mágico, este festival permitiu, em tempos tão intolerantes, por exemplo, que um jovem mexicano, desconhecido, não convidado, sem qualquer disco gravado subisse ao palco para configurar um dos mais brilhantes momentos de Woodstock. Ao se apresentar com o suporte de sua excepcional banda, Carlos Santana virou lenda. Outro exemplo encantador é o de Joe Cocker, um britânico desconhecido por muitos, que ali se transformou, por sua inefável apresentação, na encarnação do que de mais emocionante poderia brotar daquela geração considerada uma das mais criativas de todos os tempos, tornando-se um mito atemporal na história da música. Ao lançar, através de uma das mais brilhantes e vigorosas interpretações, perguntas e asserções que carregavam o drama e o poder de não possuírem respostas ou contra-argumentos, Cocker sintetizou a filosofia hippie: (...) I’ve got to get my friends (eu tenho que conseguir meus amigos )/ I’ve got to get my friends to Love (eu tenho que ter meus amigos para amar )/ Don’t you know? (vocês não sabem? )/ I’m standing for your rights ( eu estou representando seus direitos )/ I’ve got to get my friends together ( eu tenho que ter meus amigos juntos )/ ‘Cause all we gotta do is love (porque tudo que nós conseguimos fazer é amar)/ I’m gonna take them home with me now (eu vou levá-los para casa comigo agora) (…)”. Acrescentando este pequeno trecho ao final de “With a little help from my friends”, sucesso de Lennon e MacCartney, sob o fulgor daquele instante de celebração e súplica por novos valores e submetendo a interpretação dessa canção a uma completa reinvenção, Cocker tornou-se na opinião, hoje consagrada, de muitos, o “Rei de Woodstock”. Ali, naquela apresentação antológica, considerada por muitos dos mais belos momentos de todos os festivais, foi possível capturar o futuro sempre tão presente no tempo que passou. A chuva que caiu logo após a sua apresentação provocou apenas lama. O vendaval que ele produziu no palco inundou a contracultura de poder e poesia.

Ao final de sua arrebatadora interpretação, encarando meio milhão de pessoas em êxtase diante de sua insólita performance, Cocker talvez nem tenha percebido que, ao acrescentar este novo trecho à canção dos Beatles, estava sintetizando o cerne da ideologia hippie, no que ela mais se aproxima do epicurismo. Epicuro (341 a.C.- 271 a.C.), filósofo grego, defendia como propósito da vida o estado de felicidade, apenas atingido através da vida compartilhada entre amigos, sob o mesmo teto, e assim, livre da atmosfera competitiva das cidades e das ordens dos políticos, para se concentrar no prazer capturado das pequenas e essenciais coisas do dia a dia apenas percebidas pela reflexão filosófica. Dançando como se tocasse guitarra no ar, coreografia que ficou conhecida como “air guitar”, Cocker amplificou nesse evento que levou a filosofia hippie à sua expressão máxima, o som da busca atemporal do homem por ele mesmo, na medida em que anunciava ao mundo que a suposta “anarquia” e irresponsabilidade hippie estava impregnada de arte, de força, de beleza, de significados e, assim, de convites à reflexão.

O que Cocker fez com a voz e com a linguagem corporal, Jimi Hendrix já no amanhecer da segunda-feira, fez com a guitarra, instrumento que ele reinventou, redefiniu e mitificou. Para encerrar o festival, Hendrix, o maior guitarrista de todos os tempos, solou “Star-Spangled Banner”, o hino norte-americano, arrancando das cordas o ruído dos vôos rasantes de aviões em bombardeio. Não insultava os Estados Unidos, como alguns pensaram. Insultava a Guerra do Vietnã. Naquele instante lendário e belíssimo, este cidadão norte-americano que até pouco tempo não podia beber água no mesmo bebedouro de outros conterrâneos, sob o pretexto de possuir mais melanina na pele, fazia o hino de seu país ser conhecido e apreciado como expressão artística de um povo que, como todos os outros, era pleno de sonhos e ávido por compartilhar valores e somar vivências. A nação de Hendrix, formada por pessoas de todas as cores, de muitos credos e modelos de vida, não pode ser julgada unicamente pelas ações isoladas de seus equivocados líderes, à época.

Hendrix, Roger Daltrey (The Who), Sly Stone ( Sly and the Family Stone) e muitos outros ícones da música celebrizaram as roupas com franjas esvoaçantes, disseminando a defesa das minorias discriminadas – nesse caso específico, as culturas nativas norte-americanas. Tornaram-se porta-vozes eloqüentes da cultura hippie com valores sintetizados na famosa expressão “Make Love Not War” e pioneira no engajamento das questões ambientais (quase meio século antes do drama que estamos vivendo hoje), na emancipação sexual, na vida em comunhão com a natureza e com as pessoas. Todas as pessoas.  Este movimento que acreditava no Flower Power, fez da flor um dos seus símbolos mais importantes. Apostou na arte e na celebração da paz como estratégia de combate à guerra. Lembremos: “A flor é uma vitória contra o inverno”. O que não pôde um movimento assim, capaz de percepções tão sofisticadas? Só há pouco e aos poucos a história inclina-se a vislumbrar e a deslumbrar-se com a extensão dos significados de um conjunto de idéias – ao contrário do que se supunha – tão importantes.


Em depoimento para o escritor Pete Fornatale, o consagrado diretor de cinema Martin Scorcese sintetiza o festival como um momento de confluência dos ideais de repúdio à Guerra do Vietnã, ao governo, ao mundo que não permitia uma vida natural, vislumbrando ainda uma “Nação Woodstock” na medida em que congregava idealistas que comungavam com o sonho de uma sociedade separada das atrocidades da época: “(...) Quando olho para a segunda metade dos anos 60, percebo que foi o único período em que ouvi falar a sério sobre amor como uma força para combater a ambição, o ódio e a violência. Um símbolo de que as coisas podem acontecer ...” (FORNATALE, Pete. Woodstock, Quarenta Anos Depois. Rio de janeiro: Agir, 2009. p. 307).

Inspirados na Geração Beat, os hippies agregaram à força das contestações literárias e libertárias dos beatniks, o poder arrebatador, agregador e catalisador do rock’n’roll. Acoplaram ainda ao discurso da contracultura, padrões de comportamentos cujas raízes intelectuais remontam tanto à elevação espiritual dos ideais epicuristas quanto aos prolíficos debates acadêmicos dos anos 1960, particularmente em torno dos radicais posicionamentos do filósofo alemão Herbert Marcuse (1898 – 1979), notório contestador dos sistemas capitalistas avançados.

Conscientes dos fundamentos ideológicos do movimento hippie, não podemos, sem refletir, simplesmente comungar com o absurdo preconceito oriundo da maioria conservadora da sociedade norte-americana, ludibriada pela hábil propaganda da época, que atribuiu ao termo “hippie” uma conotação pejorativa, forte o suficiente para macular e enfraquecer – no mundo inteiro – uma das mais encantadoras estratégias de combate às criminosas formas de discriminação social, de contestação a todas as guerras e ao exacerbado materialismo como princípio e fim último de todos os planos. Cultos, os hippies, emergiram dos babyboomers, como foram chamados os filhos dos veteranos da Segunda Guerra Mundial. Ao contrário dos pais, cresceram com prosperidade, educação e sob as questionáveis, mas reais benesses da televisão. O hippie como um “vadio e sujo” foi uma distorção covarde do conservadorismo, que contribuiu para a consolidação de mais um dos tantos estereótipos que nublaram o entendimento dos propósitos tão contundentes do movimento.

Na segunda metade do século 20, a atuação dos jovens firmou-se como uma nova força no mundo. Impondo-se como um componente social respeitado pelas suas possibilidades, a juventude da época imprimiu à palavra protesto uma “marca registrada”. Em pequenos, grandes ou em grupos incalculáveis, esses jovens que comungavam em intenções, mas não em métodos, contestaram com veemência uma realidade internacional caduca e deteriorada por valores, concepções e comportamentos impostos por uma soma de incompetências políticas poucas vezes vistas na história. A partir dos anos 1960, dois grandes movimentos de repúdio ao establishment, o estudantil e o hippie, partiram dos Estados Unidos, alcançando em partes significativas do mundo uma receptividade fundamentada na inata, universal e atemporal característica humana de se insurgir contra tudo aquilo que não permite à vida plenitude.

O movimento estudantil eminentemente político, atingiu seu ponto culminante nas ruas de Paris, em maio de 1968, o “ano zero de uma nova era” ou “o ano em que os jovens aceleraram a história”, como foi descrito por alguns dos tantos epítetos da época. Apresentando como um dos seus componentes a possibilidade da luta armada, esse movimento estabelece então a grande distinção de métodos em relação ao hippie.

Para o premiado jornalista mineiro Zuenir Ventura, 1968 é “o ano que ainda não acabou” e assim, continua nos convidando a reflexões. Não há muita diferença entre o que Ventura sente e o que sentimos com relação a 1969 pós Woodstock. E somos muitos, incontáveis, como aquela platéia à espera de respostas que não poderiam ser arremessadas das barricadas como paralelepípedos. O que tomou vulto em Woodstock esboçou-se para atenuar algo de incompletude que insistia em permanecer após os arroubos estudantis. Faltava o Flower Pouwer, faltava vivenciar o que a poeta carioca Cecília Meireles (1901 – 1964) acreditava: “a primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la”. Com o festival de Woodstock, a contracultura muniu-se de flores e cores, de poesia e música. Por três dias, slogans que ainda lemos por aí e continuam atuais, brotaram das caminhonetes e Kombis que, enfeitadas de alegria e celebração, tentavam romper o quilométrico engarrafamento em direção àquele que, para o escritor, jornalista e humorista norte-americano Elliot Tiber, foi “o maior festival de música e arte da história da humanidade”.

“Faça amor, não faça guerra” – “Amor livre” – “Poder ao povo” – “Fim das roupas íntimas” – brincavam com seriedade os cartazes e pichações. Irônico, bem-humorado e pacífico em momento tão grave e adverso, Woodstock deve ser reverenciado como um daqueles instantes em que a arte torna-se “a mais bela forma do sonho perguntar a realidade, por que não?”.

Sim, esta juventude em busca, adepta e aberta às mudanças, começou a experimentar os efeitos das drogas que, com as ingênuas “promessas de libertação da mente” e “expansão da consciência” – defendidas inclusive por ilustres acadêmicos como o professor Timothy Leary, de Harvard, depois expulso por seu equívoco – contaminaram e poluíram parte considerável deste movimento impregnado de coerência e beleza. Não esqueçamos, entretanto, que boa parte do mundo vivenciava a revolução sexual, conseqüência do advento da pílula anticoncepcional, que libertou o amor da hipocrisia, mas que depois quase o assassinou. Em decorrência ao consumo de drogas, a liberdade sexual ainda mal assimilada, inclinou-se à promiscuidade, alimentando a percepção que atribuía uma conotação pejorativa e distorcida do movimento. Ambas, drogas e promiscuidade, fragilizaram parte da força latente dos ideais hippies. Aos detratores reacionários dessa orientação da contracultura, entretanto, aconselhamos lembrar que, absolutamente tudo que for analisado fora do contexto a que pertence chega-nos com os seus significados originais deformados. A revolução sexual não partiu deste movimento, embora tenha, como tudo associado à liberdade, com ele se identificado.

Constatar que para alguns fanáticos reacionários o estilo de vida dos hippies escandalizou mais do que as bombas atômicas e a bomba de Napalm é algo assustador e grave. Escândalo há no recuo conservador da juventude ocidental que, a partir de meados dos anos 1980, substituiu o poder da rebeldia pacífica e libertária pelo poder da aquisição do último modelo de uma bolsa de grife ou de coisa parecida. A característica humana à formação de grupos que lutam por uma causa, particularmente mais marcante nos jovens, é a mesma de sempre. Entretanto, a luta de muitos é hoje esvaziada por causa alguma ou, simplesmente, por um doente prazer sádico como assistimos em tantos casos de bullyng, em que crianças com média de idade de 12 anos são submetidas a assédios morais e violência física, que culminam, muitas vezes, com o assassinato ou posterior suicídio das vítimas, tamanho o grau de tortura a que são expostas. Razão? A diferença. A fragilidade. Sobretudo, razão alguma.

Hoje, o crack, lixo da cocaína que devasta o organismo, vicia menos que o “cristal”, uma metanfetamina que está na moda e é pior do que a heroína. A revista Veja (21/10/2009, p. 134), sob o título “Música, Sexo e Loucura”, alerta-nos para a perigosa tendência atual à potencialização do efeito das drogas como “o ecstasy e a cocaína associadas a anestésicos de uso veterinário indicados principalmente para cavalos”. Há outras opções para a formação desses coquetéis, todas desumanas. Naqueles anos de 1950 e 1960, a propaganda internacional habilmente manipulou a atenção das massas vazias e sem perspectiva – um perigo – desviando o foco dos corações e mentes rumo ao espaço. Na contramão desses interesses, a contracultura convidou o ser humano à compreensão de um mundo alternativo, mais livre, gentil e feliz porquanto, fundado no encontro e no encanto das coisas essenciais que sempre orbitarão ao redor de cada um dos homens.

Herdamos da corrida espacial, a um custo incalculável, as transmissões via satélite, as imagens do Hubble e a revolucionária sociedade da informática. Hoje, a internet, o smartphone, o GPS e demais avanços tecnológicos ampliam cada vez mais o alcance da nossa capacidade de comunicação. Em 2006, cerca de 800 satélites orbitavam a terra, sendo quase 500 deles comerciais. Como anda a distribuição de tantas informações acumuladas? O Google Wave está prometendo revolucionar a forma como nos comunicamos em rede. Uma evolução do e-mail. Mas e nós? Evoluímos? Estamos mais felizes e menos propensos a drogas e à promiscuidade que macularam parte daquela fantástica geração “aquariana”?

Um dos grandes exemplos que Woodstock nos proporcionou foi mostrar ao mundo que o mais solidário dos animais, se voltado para muitos, pode sim, pelo poder catalisador da música, da dança e dos irrefutáveis ideais de tolerância, compaixão e honra a cada um dos outros, evoluir senão às estrelas, à consciência de que “o destino de um ser humano está em suas mãos”, como nos alertou o filósofo inglês Francis Bacon (1561 – 1626).

“Quando o homem não tem mais aonde ir, caminha para dentro de si” ou em direção aos outros. Nas duas opções, encontra-se. A descoberta de que o outro é ele do lado de fora pode ter sido um dos grandes legados daquele evento incomum. Woodstock foi um desses momentos em que um conhecido fenômeno grupal humano se manifestou belamente: proteger e ser protegido em retorno. Ali, de alguma forma, os 300 espartíatas, que no século IV a.C. salvaram a democracia em formação de combate ombro a ombro, para que o escudo de um protegesse também parte do outro, voltavam sob a forma de 500.000 pacifistas, em busca de comunidades livres, auto-sustentáveis, onde todos estão em busca de todos. Eis a magia de Woodstock. Na efervescência daquele plasma histórico borbulhante, de desespero, mas também por isso de esperança, num dos mais prolíficos conflitos de gerações, por três dias e três noites a gentileza foi capaz de render as opiniões negativas sobre aquela “nação” que ansiava por paz, amor e música. Encantando as gerações subseqüentes e as imediatamente antecessoras, estes dias testemunhados por tantos e comprovados por documentos, de forma insólita, subjugaram todos os contrapontos e contratempos entre opositores, ao conseguirem mobilizar a união solidária entre o novo movimento de contracultura e a cultura estabelecida e contestada. Mesmo naqueles tempos conservadores, as forças reacionárias perceberam que a amplitude daquele evento não estava no tamanho do público ou na qualidade das bandas em apresentação, mas na grandeza dos ideais e na demonstração de centenas de gestos verdadeiramente fraternos.

Sob a forma de um quase intermitente temporal – não foi uma chuva comum – a lama e os engarrafamentos criaram uma total impossibilidade de se alimentar a maior multidão inesperadamente já reunida até então, em espaço tão confinado. O local do festival foi declarado área de calamidade pública. Este fato permitiu o que de mais fascinante, comovente, belo e, por tudo isso, o que de mais importante ocorreu em Woodstock: o comportamento da platéia. Entenda-se por esta, tanto a multidão de jovens espectadores, hippies, fãs do inebriante rock’n’roll, pacíficos e solidários representantes da contracultura, quanto os representantes da cultura então combatida. Podemos chamá-los todos de “heróis” que, munidos de compaixão, outorgaram ao evento social e cultural um significado sublime e assim inefável. Idosos, fazendeiros, bombeiros, policiais, soldados, médicos, encanadores, paramédicos, técnicos, reuniram-se para ajudar a alimentar e agasalhar aquela multidão faminta e orvalhada de anseios.

Policiais americanos, muitos dos quais, voluntários, prepararam cachorros-quentes para aqueles transgressores ansiosos por pão, paz e arte. Médicos do exército americano foram trazidos de Nova Iorque para atendê-los. Dezenas de enfermeiras revezavam-se nas tendas de atendimento (só houve, inacreditavelmente, uma morte por overdose). Helicópteros idênticos aos utilizados na guerra do Vietnã, principal contestação da rebeldia hippie, distribuíram mais de meia tonelada de comida enlatada, frutas e sanduíches. Outros lançaram chuvas de flores e roupas secas.

A Hog Farm, célebre comunidade hippie liderada pelo carismático Havy Gravy, que foi contratado para cuidar da segurança do festival, armou com seus amigos, que eram artistas circenses, tendas onde forneceram café da manhã à base de granola. Dezenas de panelas de arroz com cenoura e uvas-passas também foram distribuídas às 3:00 da madrugada pela Hog. A lendária Jean Baez serviu-se em uma dessas tendas, e, anos depois, relatou em seu livro: “And a Voice to Sing With” a experiência daqueles dias avassaladores nos quais a compaixão e a música remodelaram velhos conceitos acerca dos homens e suas possibilidades. Em algumas fontes lemos que o Grupo de Mulheres do Centro Comunitário Judaico de Monticello preparou milhares sanduíches que foram curiosamente distribuídos pelas Irmãs do Convento São Tomás. Este acontecimento, se analisado mais cuidadosamente, revela-se pleno de poder capaz de abalar fronteiras seculares. É uma ode à tolerância e à comunhão.

Olhando-se sob qualquer ponto de vista, aqueles milhares fizeram-se um só. Com suas roupas coloridas pela técnica “tie dye” (ainda em moda em feiras de artesanato em grande parte do mundo) que imprimia ao tingimento dos tecidos uma diversidade de cores, mas que em estampas indefinidas, fizeram-se expressões espontâneas e eloqüentes da idéia de que somos todos, porquanto, plurais, iguais. Ali, o gênero humano exibiu o que carregava de mais forte: unidade. Inteireza. “Sem integridade pode haver tamanho, mas jamais grandeza”.

O colapso de quase tudo de maldito que a contracultura dos anos 1950-1960 atacava, começou a tomar forma a partir desse evento ímpar. Assim, poderíamos afirmar com significativa margem de exatidão, que o rock’n’roll, os hippies, os intelectuais e os artistas, seus mais evidentes adeptos na época, definiram uma revolução pacífica cujos ingredientes determinantes foram a gentileza, a generosidade e a alegria. A celebração da vida solidária compartilhada ao redor dos palcos de música ou nas comunidades alternativas, onde se originaram os primeiros movimentos ecológicos e os ideais de sustentabilidade alteraram para sempre a percepção dos valores e crenças de todas as gerações subseqüentes.

Essa revolução continua sob diversas formas. Ainda que os jovens de hoje não se rebelem como naquelas décadas, continuam inquietos e continuarão. Correremos sempre o estimulante risco de que recaia sobre nós o acaso apropriado para que o instinto, a espontaneidade e a ânsia incontida de contravenção libertária instigue a nossa imaginação à transgressão criativa e à retomada do poder para que aplaquemos o que em nós continua dor, mesmo que “confortavelmente anestesiada”.  Inspirados por esse acontecimento impregnado de significados, poderíamos, parafraseando Bacon, afirmar: o destino de um homem está em suas próprias centenas de milhares de mãos.

Fonte: http://pe360graus.globo.com

Um comentário:

Anônimo disse...

Eu adorei o post :D