Theodor Herzl o homem que fundou o sionismo Por Jordi Kuhs

As cidades de Viena e Budapeste lembraram no domingo (02/05) o 150º aniversário do nascimento do jornalista e escritor austro-húngaro Theodor Herzl, criador do sionismo político e “pai intelectual” do Estado de Israel. Herzl, que viveu até aos 17 anos em Budapeste e o resto da sua vida em Viena, ocupa um lugar de destaque na historiografia judaica. “(Herzl) é um dos maiores. É uma espécie de Moisés moderno. Mudou totalmente a auto-estima dos judeus”, declarou à Agência Efe em Viena o historiador e escritor Doron Rabinovici.
A teoria de Herzl era de que, com a existência de um Estado próprio, os judeus podiam ser fortes, algo “revolucionário” para um povo que sofreu violentas perseguições durante séculos. Com a chegada do sionismo, “os judeus transformaram-se em protagonistas da história e deixaram de ser indefesos. Esta foi a grande conquista de Herzl”, explica o autor austro-israelita. Para lembrar Herzl e a sua visão de um lar nacional para os judeus, as comunidades hebraicas de Viena e Budapeste realizaram actos nas suas respectivas sinagogas centrais no domingo.

Theodor Herzl nasceu a 2 de Maio de 1860. Fazia parte de uma família judaica de Budapeste que falava alemão em casa e apenas participava na vida religiosa da comunidade judaica local. Em 1877, Herzl mudou-se para Viena, onde estudou Direito e sentiu na pele o crescente anti-semitismo austríaco, não só religioso, mas político e racial. Apesar disso, nos seus anos de estudante, esteve ligado a sectores pangermanistas, foi um admirador fervoroso de personagens como Martinho Lutero, Otto von Bismarck e Richard Wagner, além de ser um convencido defensor da assimilação dos judeus. No entanto, ao terminar seus estudos universitários, viu que, como judeu, não poderia fazer carreira na administração pública, como desejava, e por isso decidiu se dedicar ao jornalismo.

Em 1891, aceitou a oferta de se mudar para Paris como correspondente do jornal “Neue Freie Presse”, de Viena, então um dos diários de maior prestígio da Europa. Na capital francesa, Herzl experimentou uma nova forma de anti-semitismo, mais subtil do que a de Viena, o que fez amadurecer nele a ideia de elaborar uma solução revolucionária para o que era chamado então de “questão judaica”. Um ponto de inflexão para o jornalista foi o processo em 1894 contra o militar judeu francês Alfred Dreyfus, acusado de espionagem e condenado com provas falsas e calúnias anti-semitas. Após o seu regresso a Viena, Herzl dedicou-se a elaborar a sua ideia do sionismo. Em 1896, publicou: “O Estado Judeu - Tentativa de uma Solução Moderna para a Questão Judaica”. A sua obra, de apenas 85 páginas, teve uma receptividade que oscilou entre o grande entusiasmo e a mais céptica rejeição.

Apesar das críticas, Herzl insistiu na sua visão de criar um Estado judeu, seja na América, África ou Palestina, e convocou para Agosto de 1897 o primeiro Congresso Sionista Mundial. Nesta reunião, realizada em Basileia (Suíça), Herzl apresentou pela primeira vez as suas ideias para um grande público. “Queremos lançar a pedra fundamental para uma casa que aloje a nação judaica”, afirmou na altura. A sua visão era a de um Estado moderno, secular e poliglota, que seria um modelo para o resto de mundo. “Ele era um nacionalista liberal e irritava-se com os nacionalistas que queriam erradicar a relação com os árabes”, explica o historiador húngaro Attila Novák, autor de uma biografia de Herzl. Após o sucesso do primeiro Congresso Sionista, passou a viajar pela Europa e a Palestina para tentar convencer políticos, comunidades judaicas e também os árabes das vantagens de um Estado judeu no Oriente Médio.

Nos seus últimos anos de vida, Herzl sofreu revezes como o de ver a sua ideia rejeitada pelo Império Otomano, então responsável pelo território da Palestina. A alternativa de um Estado judeu na Argentina ou no Uganda causou uma rebelião dentro do movimento sionista, que no final acabou por concentrar-se na Palestina como único lugar possível para satisfazer o nacionalismo judeu. Herzl continuou a ser o líder do movimento sionista, mas o seu intenso ritmo de trabalho acabou por contribuir para a sua morte precoce em 1904, aos 44 anos de idade, devido a problemas cardíacos.

A sua visão tornou-se realidade quase 50 anos depois do congresso de Basileia, quando a ONU decidiu dividir a Palestina num Estado judeu e outro árabe. E como tinha antecipado o próprio Herzl nas suas obras, os judeus tiveram que passar por um desastre maior para reconhecer a necessidade de criar seu próprio país. “O paradoxo do Estado de Israel é que, para a sua fundação, o Holocausto teve que acontecer primeiro”, assegurou Novak.

O impacto psicológico da mera existência de Israel é enorme para os judeus, apesar dos graves problemas do país, tanto internamente como na relação com os seus vizinhos árabes. “Se um judeu vive hoje em Nova Iorque, Paris ou Moscovo, já não está no exílio como antes. A diáspora deixou de ser um exílio. O exílio e a sua maldição terminaram”, conclui Rabinovici.

Fonte: http://jornaldeangola.sapo.ao

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