sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Como a religião de Jesus transformou a história – Por Omar Ebrahime

Apesar da difusão cada vez maior dos estudos de autores fundamentais no tema, como Christopher Dawson, a relação histórica entre o cristianismo e o progresso, comumente entendido, continua sendo considerada um assunto controverso e polêmico. 

Para muitos, inclusive especialistas acadêmicos, as duas realidades simplesmente seriam incompatíveis a longo prazo: a vivência histórica da humanidade demonstraria precisamente que a fé sempre obstaculizou o progresso.

A isso (e a muito mais) responde agora o último livro do sociólogo americano Rodney Stark, professor de ciências sociais na Baylor University (Texas, EUA). Stark tem a vantagem de levar a cabo análises sobre o fenômeno religioso conjugando os instrumentos da análise sociológica moderna com a mais antiga pesquisa histórica, sem a intenção de recorrer a priori a nenhuma tese partidista.
 



O fato de o autor não ser católico aumenta ainda mais o valor das numerosas avaliações positivas que ele faz da história da Igreja, continuamente assediada por lugares comuns e lendas negras infamantes, sem que ninguém se incomode em refutá-las.

A obra, dividida em seis capítulos, abrange um período muito extenso, que vai da fundação da Igreja primitiva e as primeiras missões do apóstolo Paulo, ao alvorecer do Iluminismo, que marca o início de uma nova época, fundamentalmente de divisão, na relação harmônica entre fé e razão, que até então havia caracterizado a história do Ocidente.

Ao desatar os numerosos nós críticos, entrelaçados por uma historiografia muitas vezes prejudicialmente hostil ao fato religioso, o autor dedica muitas páginas à interpretação do cristianismo como “religião dos pobres e oprimidos”, que durante séculos gozou de grande êxito.

Não foi por acaso que o Manifesto Comunista pôde publicar, sem ser refutado, frases como: “A história do primeiro cristianismo tem notáveis pontos de semelhança com o movimento da classe operária moderna. Como esta última, o cristianismo era, em sua origem, um movimento de pessoas oprimidas”.

Partindo desta premissa, Karl Kautksky, editor alemão das obras de Marx, defendeu a tese de que Jesus poderia ter sido um dos primeiros socialistas, e que os primeiros cristãos viveram, durante um breve tempo, o verdadeiro comunismo.

Na verdade, as fontes mais próximas dos fatos contam o contrário: o maior número de seguidores do cristianismo primitivo era constituído por “mulheres das classes altas” e os estudos de Adolf von Harnack (1851-1930) e William M. Ramsay (1851-1939) acrescentam que ele “se difundiu em primeiro lugar entre as pessoas instruídas. (...) Em nenhum outro lugar conseguiu se instalar mais tenazmente que entre os nobres e na corte do imperador”.

Certamente, é verdade que o cristianismo também atraía as classes mais pobres, mas não no sentido de que se restringia a elas. De fato, se “o ponto central é que a fé cristã oferece um sedativo para os sofrimentos desta vida, prometendo que seremos plenamente recompensados na próxima”, também é verdade que “o cristianismo torna a vida melhor aqui e agora. Não apenas em termos psicológicos, como pode fazer qualquer fé em uma atraente vida depois da morte, mas em termos de benefícios concretos mundanos. É preciso levar em consideração que um estudo baseado nas antigas lápides demonstrou que os primeiros cristãos viviam mais tempo que seus contemporâneos pagãos. Os cristãos tinham uma qualidade de vida melhor”.

O motivo poderia ser buscado nas obras de misericórdia e de ajuda mútua que a comunidade cristã soube difundir por todo o império: 

“Em meio à necessidade, miséria, doença e anonimato das antigas cidades, o cristianismo criou uma ilha de misericórdia e segurança. (...) No entanto, no mundo pagão, sobretudo entre os filósofos, a misericórdia era considerada um defeito de caráter, e a piedade, uma emoção patológica: dado que a misericórdia inclui o dom de uma ajuda ou de um alívio imerecido, ela era considerada como contrária à justiça”.

O resultado foi que, como destacaram historiadores importantes, “os cristãos geriam um estado social em miniatura dentro de um império que, em grande parte, estava privado de serviços sociais”. Mas isso foi possível somente porque “o cristianismo criou as congregações, verdadeiras e próprias comunidades de crentes que organizavam suas vidas baseados em sua afiliação religiosa”.

Em outras palavras, e ainda que isso possa parecer politicamente incorreto hoje: o mundo antigo progrediu na medida em que permitiu que o cristianismo se difundisse publicamente, do Oriente ao Ocidente. Verdadeiramente, ter mais religião supôs, muito pragmaticamente, mais progresso e bem-estar, em sentido literal. Com isso, demonstra-se que a maneira de conceber Deus não é estranha ao desenvolvimento de uma civilização.

Se os doentes, idosos ou incuráveis, por exemplo, começaram a ver sua dignidade reconhecida, isso se deve aos cristãos. Os cuidados oferecidos por eles reduziram a mortalidade em pelo menos 66%. 

Também as mulheres, socialmente desvalorizadas, “sentiam-se atraídas pelo cristianismo, porque este lhes oferecia uma vida enormemente superior à que levavam. (...) Em nenhum grupo social, as mulheres eram iguais aos homens, mas havia desigualdades notáveis no mundo greco-romano. As mulheres das primeiras comunidades cristãs viviam muito melhor que suas homólogas pagãs e judias”, também porque os cristãos rejeitavam a ideia de abortar ou deixar morrer uma recém-nascida somente pelo fato de ser mulher.

Mas as páginas mais interessantes, e hoje esquecidas, são as dedicadas aos chamados “séculos obscuros”, a época em que “a Europa deu um grande salto para frente, nos âmbitos teológico e intelectual, o que a colocou no topo do resto do mundo, com várias revoluções na agricultura, nos armamentos e nas técnicas de guerra, nas fontes de energia e nos transportes, nas manufaturas e no comércio, que passaram inadvertidas”. 

Isso sem falar na abolição da escravatura ou dos progressos radicais na música, arte, literatura, educação (com a fundação das primeiras universidades, literalmente “inventadas” pela filosofia escolástica) e na ciência.

Em resumo, por amor à verdade histórica, não por polêmica, é preciso reafirmar, uma vez por todas, que “a tese de que a Europa havia caído nos séculos obscuros foi em boa parte uma fraude perpetrada por intelectuais fortemente antirreligiosos, como Voltaire e Gibbon, com a intenção de afirmar que a sua era uma época de ‘Iluminismo’”.

Se houver alguém que ainda não se convenceu, será oportuno responder com a autoridade do professor Walter Hollister (1930-1997), insigne medievalista: “A meu ver, quem achar que a época que viu a construção da catedral de Chartres e a invenção do parlamento e da universidade foi ‘obscura’, deve ser mentalmente retardado ou, no melhor dos casos, muito, muito ignorante”.





Nenhum comentário: