sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Partido político quer “judaizar” Jerusalém - Por Diogo Bercito

Como qualquer estudante de hebraico, passo os dias olhando para os lados, à procura de qualquer inscrição que eu possa, ou não, desvendar nas ruas de Jerusalém. 

É um bom exercício para treinar a leitura do sistema de escrita hebraico e também para adquirir vocabulário. O estudo da língua serve, ainda, para entender melhor o pensamento social e político de um determinado povo.

Tudo isso para dizer que li ontem, com surpresa e preocupação, um cartaz em hebraico a caminho de casa. “Leyahed et Yerushalaim”. É uma estrutura simples. “Leyahed” parece ser um verbo de tipo intensivo, no infinitivo, significando “tornar judeu”. “Et” é a partícula que indica o objeto de um verbo. “Yerushalaim” é o nome da cidade. Ou seja, “judaizar Jerusalém”.

Esse é o lema da lista de candidatos Jerusalém Unida, pela qual Arieh King irá concorrer ao conselho municipal nas eleições de 22 de outubro. King é o líder do Fundo para a Terra de Israel e ativista em defesa das comunidades judaicas que vivem em áreas de maioria árabe, como Sheikh Jarra. 

Não por acaso a lista Jerusalém Unida é encabeçada pelo rabino Yonatan Yosef, que entrevistei há alguns meses sobre o mesmo tema. Neto do ícone religioso Ovadia Yosef, ele lidera os colonos em bairros árabes. O cartaz segue, abaixo do slogan, com a frase “torne judaico com a construção e torne judaico com a Torá”. 

Anteriormente, o grupo político fez campanha em cima da imagem de homens árabes aterrorizando garotas judias em parques da cidade. A proposta do cartaz para as eleições municipais, porém, é tão inesperadamente agressiva e sincera, que mesmo a ala direita tem criticado a lista Jerusalém Unida. 

Reuven Rivlin, do partido governista Likud, pediu que a Promotoria investigue se o slogan (“uma desgraça”) constitui uma ofensa criminal. A informação está, em hebraico, no Facebook dele.

Para além de todos os entraves às negociações de paz, como fronteiras e segurança nacional, a disputa por Jerusalém é um obstáculo quase intransponível, conforme grupos religiosos, com a anuência do Estado, continuam a expulsar palestinos de áreas árabes da cidade. É a história de Sheikh Jarra, mas também de outras regiões jerosolimitas. 

Recentemente, um funcionário do governo admitiu que os projetos de um parque no monte Scopus tinham por objetivo impedir a expansão de bairros palestinos em Jerusalém Oriental.

A questão da judaização é polêmica. Envolve, para os críticos dessa prática, a expulsão de palestinos, a expansão de bairros judaicos, o estabelecimento de assentamentos na Cisjordânia e a mudança de nomes de cidades do árabe para o hebraico. O esforço demográfico parte do pressuposto de que o Estado de Israel é judaico, antes de ser israelense, que, é claro, desagrada a população árabe.


Os oponentes desse programa social vão notar, ainda, que o Estado é definido como “judaico” na Declaração de Independência, mas não “democrático”. Uma proposta de lei introduzida pela coalizão governista Likud-Beitenu pede que a identidade “judaica” tenha supremacia sobre a “democrática”, conforme nota uma reportagem do “Haaretz”.





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