domingo, 23 de fevereiro de 2014

"O capitalismo como religião" - Por Fábio Py Murta de Almeida

O livro: “O capitalismo como religião” chega ao público brasileiro no ano de 2013 sendo uma obra de quatro mãos. 

Não que tenha sido escrito por mais de uma pessoa: seu responsável fôra o filósofo judeu-alemão Walter Benjamin. Contudo, na forma que o livro se encontra, é um esforço editorial do franco-brasileiro Michael Lowy, radicado em Paris como professor do École de Hautes Études en Sociences Sociales (EHESS)

Ele organiza a série de escritos avulsos de Benjamin, com o intuito de unir fragmentos de momentos diferentes da vida do filósofo, mas que em conjunto mostram o legado anti-capitalista do filósofo, até quando assumia o limiar místico.

No livro, Michael Lowy também nos brinda com uma introdução à vida e à obra do filósofo judeu alemão intitulada: “Walter Benjamin, crítico da civilização”, que, além de apresentar a vida, informa o lugar vivencial dos textos do filósofo, bem como se detém em cada fragmento com seus interesses. 

No exercício explicativo demonstra três eixos temáticos da trajetória intelectual de Benjamin: a questão da prática, o problema da modernidade individualista e a questão do novo romantismo. A fim de cumprir tal intuito, o livro separou dezessete fragmentos na seguinte ordem:

Religião cultural

O texto que abre a organização contém o título do livro: “O Capitalismo como Religião”, defendendo que o capitalismo é uma religião cultural, com uma celebração de um culto sem sonho, sem piedade.

Seu culto é baseado na culpa, transformando a culpa em universal, expressando até a ideia da deidade em torno da culpa. De forma simplificadora “o capitalismo é uma religião puramente de culto, desprovida de dogma”, percebendo que ele “se desenvolveu como parasita do cristianismo” (p. 23), não só demonstrado na base do calvinismo, mas nas tendências cristãs ortodoxas. O fragmento: “Romantismo” (1913, produzido por conta de um congresso da juventude) é voltado à comunidade, à juventude e contra o individualismo moderno. 

Benjamin conclama os jovens a desistirem do romantismo falso ligado ao indivíduo, pois, para ele, “nada há de verdadeira no que nos oferecem de dramas ou heróis da história, de vitórias da técnica e da ciência” (p.54). O verdadeiro romantismo (esquecido da juventude) é um indefinido, ligado à franqueza, aos nexos espirituais e da história do trabalho.

Arte

No “Drama Barroco e tragédia”, Benjamin compara dois estilos artísticos de época. Na tragédia, o herói morre símbolo de ironia, pois “a morte é a imortalidade irônica; esta é a origem da ironia trágica” quando “a morte constitui uma imortalidade irônica; irônica por sua determinante desmedida; a morte trágica (...) isso é a expressão propriamente dita da culpa do herói.” (p.61). 

Já, o tempo do drama barroco é finito, e em sua generalidade, não mística. Por outro lado, Benjamin retoma as comparações do drama barroco e da tragédia em seu: “O Significado da Linguagem no Drama Barroco e na tragédia” (1916), percebendo o trágico como legalidade do discurso oral dos homens a partir do original humano. Nela, “cada discurso é tragicamente decisivo, palavra por palavra é imediatamente trágica”. 

No drama barroco, o som impregna a obra com dois princípios que o ordenam metafisicamente, circularidade e a repetição, pois, a “música é o círculo do sentimento (...) que destrói a tranquilidade do anseio profundo que dissemina as tristezas da natureza”. O “mundo do drama barroco é um mundo especial que sustenta sua validade grandiosa e equivalente também frente à tragédia” (p.67).

Guerra

Na continuação, o fragmento: “As Armas do Futuro” (1925) é escrito em decorrência dos confrontos e dos ocorridos na I Guerra Mundial, quando utilizaram armas químicas (que ocasionaram as bombas químico-nucleares da II Guerra). 

Critica os métodos químicos destacando o estado das cidades europeias antes e depois de sua utilização; entende que antes nelas havia “cheiro parecido com o das violetas”, e com a utilização das armas químicas “logo em seguida, o ar se tornará sufocante”. 

Vislumbra o contrassenso do projeto armamentista das nações quando “a França possui hoje pelo menos 2.500 aeronaves no serviço ativo à paz” (p.70). Para ele, o capitalismo moderno do início do século XX constrói um dilema quando seu projeto de paz é armada, o que se amplia no uso de gazes nos confrontos armados: “o gás mostarda corroeu a carne e quando não acarreta diretamente na morte, produz queimaduras cuja cura demanda três meses” (p.71).

Depois, Benjamin dá espaço aos livros que mais marcaram sua vida até 1929. O que revela no texto: “Livros que permanecem vivos”; o primeiro livro é Spatromishe Kunstindustrie de Alois Riegl, no qual a partir do Império Romano Antigo percebe que toda descoberta científica desenrola numa revolução procedimental. 

O segundo é Eisenbauten de Alfred Gotthold, quando relaciona a fundição do ferro do século XIX com a história da construção das casas. O terceiro é Estrela da Redenção de Franz Rosenzweig que trás uma proposta sistemática de teologia judaica, a partir da intervenção da dialética hegeliana da obra de Herman Cohen. 

A última obra (e não menos importante) é a História e consciência de classe de Georg Lukács, obra filosófica coesa do marxismo, uma reunião crítica à filosofia e à luta de classes na direção da revolução concreta.

Literatura

Em 1929, escreve comentários aos livros de E. T. A. Hoffmann e Oskar Panizza. Autores que se preocupam com o social, o político e o religioso. Chama Panizza de teólogo, mesmo contabilizando ataques radicais à igreja e papado, com posição irreconciliável ao ofício teológico como E. T. A. Hoffmann que era artista e “despejava todo seu escárnio e toda sua raiva”. 

Hoffmann tinha afinidade com romances que giravam em torno do “catolicismo medieval e, sobretudo do seu complemento, as missas negras, a bruxaria e o satanismo” (p.136); assim, Benjamin se interessa por temas negros, de protesto frente às religiões oficiais. 

Ainda em 1929 escreve uma resenha de “Brion, Bartolomé de las Casas”, onde desponta elementos interessantes ao cristianismo da libertação quando, ao invés de o bispo manter o “domínio sobre a Índia", ele "em nome do catolicismo" (...) se contrapõe aos horrores cometidos em nome do catolicismo (p.172); no destaque, o filósofo critica a forma das estruturas das grandes religiões. Entre 1930 e 1931 escreve “Crítica Teológica. Sobre Willy Haas, Gestalten der Zeit” desenvolvendo traços de Kafka, Talmude, Kierkegaard, Tomás de Aquino, Pascal, Inácio de Loyola. 

Apropria-se de Kafka com direito a exegese da sua teologia da fuga, embasado no contexto de uma teologia no romance criminal. Na obra, a teologia tem um sentido pleno, levada pela arte com aspectos destrutivos, quando a iluminação teológica determina a política quanto da economia.

Os últimos quatro artigos na resenha são da década de 1930. O primeiro é do ano de 1931, “Um entusiasta da cátedra: Franz von Baader”; escreve sobre Baader e suas conexões com Schelling, caracterizando-o como "filósofo da natureza". Para Benjamin, Baader pensava em direção ao infinito com uma máquina elétrica, uns escolásticos e outros místicos. Ele penava pelo caminho dos românticos, passando pela vida interior com nova paisagem intelectual, sendo ligado ao espiritualismo extremo, chegando a estudar o montanhismo. 

No primeiro momento, apropriava-se das teorias físicas e industriais se aproveitando das teorias românticas da natureza, para, posteriormente, se envolver ao universalismo contraposto romântico da atuação congestionada de Goethe. Buscava com suas intervenções cumprir metas de conciliação das esferas cristãs com as ações místicas e politicamente estava à frente dos contemporâneos vislumbrando a “situação social das classes trabalhadoras” com seu romantismo da práxis.

Romantismo

Em 1937, escreve: “Béguin, L’âme romantique” quando enfatiza o romantismo alemão, como excelência de romantismo. No escrito busca não perceber as teorias românticas como corretas, mas, como as histórias que brotam de locais, espaços. Para ele, o romantismo completa um processo que havia sido iniciado nos oitocentos com a secularização da tradição mística, mesmo que Novallis seja uma afirmativa mística. 

Afirma que o período da secularização da tradição mística coincidiu com o desenvolvimento social e industrial que colocou “em cheque a experiência mística perdendo o legado sacramental” (p.144). No ano de 1938 produz dois textos “Instituto Alemão de Livre Pesquisa”, e “Crônica dos desempregados alemães”.

No texto sobre o instituto destaca seu legado interdisciplinar orientando os trabalhos na condição do desenvolvimento social e de sua teoria. O instituto lutou contra o positivismo, pois “considerava a sociedade burguesa como eterna e tratar suas contradições, tanto teóricas quanto práticas, como bagatela” (p.151). 

Também foi algo de Frankfurt o pragmatismo americano pela relação monolítica de teoria e práxis. Isso por que o instituto tinha a pretensão de avaliar criticamente na modernidade o conhecimento e a ciência. Agora, sobretudo nos trabalhos do instituto, se tecem críticas ao conjunto da consciência burguesa percebendo na figura de Robespierre a consistência de uma liderança burguesa, quando o “terror no fim das contas, adere esse fantástico e há um fantástico, e há um tipo de interiorização que é capaz de se manifestar como crueldade” (p.156).

No segundo texto de 1938, “Crônica dos desempregados alemães. Sobre o romance Die Rettung, de Anna Seghers”, reconhece que alguns romancistas feriam o privilégio burguês, entre eles, Hamsun que “deixou de lado as ‘pessoas simples’ (...) que os êxitos que obteve se deve em parte à natureza bastante complexa das suas pessoas humildes do campo” (p.159), num tempo difícil pela quantidade de pessoas desempregadas no país. 

A autora avista os proletários que pouco significavam à época, por que eram implicantes e tinham a iniciativa de viver como as outras pessoas. Por isso, se afastavam deles mesmos, o que ocorreu em Findlingen - povoado minerador. Sua esperança estava no jovem Lorentz, desempregado, que “deixou, no povoado cinzento, o rastro luminoso que Bentsch jamais esquecerá” (p.162). 

Essa centelha de esperança do relato de Anna Sehers faz dela, aos olhos de Benjamin, a "cronista dos desempregados alemães", cuja base é a fábula, o que fornece a seu livro um toque romanesco. Além disso, percebe que para se libertarem das amarras político-sociais a aposta de redenção seria nas crianças proletárias, pois não “serão esquecidas tão cedo por nenhum leitor” (p.166).

Trajetória

Portanto, como foi escrito acima, no livro: “O Capitalismo como religião” se percebe o esforço de se revisitar outras fontes da rica e trágica trajetória de Benjamin. Novamente, saúda-se o empenho de Michael Lowy em organizar um punhado de textos inacessíveis que auxiliam a revelar mais do filósofo rebelde, que, já maduro, uniu o marxismo com neo-romantismo (do drama, do trágico, da religião e da magia).

Como se vem dizendo desde a apresentação, Lowy dá liga a massa de textos salteados de Benjamin, afinando em mais sua compreensão. Com ela detalha-se com mais riqueza sua trajetória de formação romântica na década de 1910, sua guinada marxista heterodoxa em 1924, até sua súbita/trágica morte entre a Espanha e a França, em 1940. 

Enfim, se espera que com acesso a novos textos, artigos e resenhas de Benjamin, animem tanto o vetor da popularização de suas ideias no Brasil, quanto o vetor acadêmico. Pois, com novas fontes que se solidifiquem, surgem novas linhas de pesquisas nas disciplinas mais prováveis, como Filosofia, Sociologia e História; bem como também, ajude a depurar a atuação teórico/prática nos movimentos políticos alternativos (como movimentos sociais) e nos ramos embevecidos pelo cristianismo heterodoxo da Teologia da Libertação.






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