sábado, 22 de fevereiro de 2014

Pedra sob pedra – Por Alice Melo

Rondônia ganha seu segundo museu de arqueologia, cujo acervo pode ajudar a entender o povoamento da Amazônia.

Palco do primeiro ciclo de extração da borracha no norte do país, Ariquemes, cidade de Rondônia, guarda também no subsolo resquícios de populações que viveram à margem do rio Jamari entre os séculos XII e XVI. 

Até o fim deste ano, 5 mil peças retiradas de 28 sítios arqueológicos e históricos da região, capazes de explicar um pouco deste passado, ganharão uma nova casa: o Museu de Arqueologia de Ariquemes, que será abrigado no campus do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia (Ifro), custeado pela Canaã Geração de Energia, empresa que toca as obras da Pequena Central Hidrelétrica Santa Cruz. 

Em agosto passado, funcionários da Canaã desobedeceram a legislação federal de proteção ambiental e destruíram 5% de um dos sítios enquanto faziam escavações no terreno. Após firmar acordo compensatório com o Iphan, a empresa tem até dezembro para entregar o prédio.

 “O museu pode ser um dos polos de arqueologia da Amazônia”, antecipa Danilo Curado, superintendente substituto do Iphan/RO. Além da construção do prédio e compra de equipamentos e móveis, o acordo prevê a produção de mil unidades de livro sobre a arqueologia da região, um guia didático sobre educação patrimonial, assim como a realização de cursos de Formação Inicial e Continuada para funcionários. 

“É obrigação do empreendedor construir ou dar guarda ao acervo arqueológico retirado de sítios antes das obras. Como houve danos, há um ônus estipulado pelo Iphan”, explica Curado. Segundo ele, a estrutura do museu possibilita que a reserva técnica aumente ao longo dos anos, caso novos sítios sejam descobertos.

O arqueólogo Valdir Schwengber, que realizou a pesquisa de campo para avaliar a importância dos sítios encontrados, afirma que “compensar um dano é difícil, pois a perda é irreversível”, mas acredita que “promover a preservação do patrimônio através da qualificação de pessoal, bem como formar uma nova geração com consciência patrimonial” são opções viáveis depois que o estrago já foi feito. 

Ele relata que ainda não se sabe muitos detalhes sobre a vida e os hábitos dos povos pré-colombianos que viveram nesta parte da Floresta Amazônica no passado, mas que, a partir da análise do material encontrado, já se pode perceber que “havia um movimento ocupacional diferente daquele identificado no baixo curso do Jamari e nas margens do rio Madeira”. 

Portanto, a pesquisa deste acervo pode trazer à tona novas informações sobre as rotas de ocupação da Amazônia.

Se o projeto seguir o calendário estabelecido, o museu de Ariquemes será o segundo de arqueologia do estado, já que o da Universidade Federal de Rondônia, em Porto Velho, ainda não saiu do papel por problemas administrativos da instituição federal. Até o fechamento desta edição, a Electra Power, a administradora da Canaã Geração de Energia, não se manifestou sobre os danos ao sítio Jamari.






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