terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Religiões de matriz africana em meio a disputa política e religiosa no Rio de Janeiro – Por Magali do Nascimento Cunha

O Rio de Janeiro é um estado com significativa dinâmica religiosa, já que, segundo o censo 2010 do IBGE, é o décimo com maior concentração de evangélicos do País, com de 29,4%; o que tem maior concentração de espíritas kardecistas, com 4%; concentra o maior número de fiéis do Candomblé e da Umbanda com 9%. 

É ainda o estado que tem o maior número de pessoas que se declaram sem religião:14, 6%. No meio deste caldeirão religioso é forte a disputa na relação religião-política, o que tem sido acompanhado pelas mídias. Afinal, dois evangélicos disputam o governo do estado: Anthony Garotinho, deputado federal pelo PR, e Marcelo Crivella, eleito senador pelo PRB mas atual Ministro da Pesca, respectivamente, das igrejas Presbiteriana do Brasil e Universal do Reino de Deus. 

No acirramento da disputa com tempero religioso, o senador Lindbergh Farias, do PT, que nunca se apresentou com esta identidade vem, desde 2013, buscando aproximação e apoio dos evangélicos, identificados como força eleitoral no estado. 

Lindbergh conta, em especial, com uma parceria com o presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo pastor Silas Malafaia, que indicou o como assessor para relacionamento do candidato com evangélicos o pastor de sua igreja Sóstenes Cavalcante. 

Desde 2013 Garotinho e Lindbergh têm-se envolvido com processos por propaganda eleitoral indevida por conta de campanhas e participações envolvendo igrejas e seus fiéis.

Agora, esta medição de força política está envolvendo fiéis do Candomblé e da Umbanda. O novo secretário de Ambiente do atual governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral, Indio da Costa (PSD) vai cancelar um projeto de seu antecessor Carlos Minc (PT), conforme informação divulgada no Radar On-Line (Veja). 

Minc havia desenvolvido o projeto de criação do Decálogo das Oferendas, um espaço para a realização de rituais de umbanda e candomblé, no Alto da Boa Vista, que ganhou o apelido pejorativo de ‘macumbódromo’. Um espaço de 4.500 metros quadrados já estava escolhido para a obra.

Em nota enviada através de assessoria, Indio da Costa afirmou que apenas vai se aprofundar no assunto, nas especificações técnicas “e, se for o caso, ouvir os interessados.” 

Fato é que o PSD, partido de Indio, tem dois evangélicos "de peso" como líderes, o pastor Samuel Malafaia, irmão de Silas Malafaia, e Arolde de Oliveira, dono da maior gravadora gospel do Brasil. 

Portanto, o secretario teria fortes estímulos para arquivar a ideia de Minc. Após a saída do PT do governo estadual, a escolha de Indio da Costa foi uma decisão política de Sérgio Cabral, que queria acomodar o PSD no primeiro escalão.

Para Minc, que reassumiu o cargo de deputado estadual, voltar atrás no projeto já decidido é um retrocesso. Segundo o deputado, o novo secretário teria lhe dito que cancelaria o projeto devido à pressão de pastores evangélicos da bancada de seu partido, mas decidiu repensar depois da conversa entre os dois: 

“Ele concordou em abrir o diálogo. Houve uma incompreensão do projeto, até porque a religião vai continuar existindo. O que vai ser feito é um trabalho de educação ambiental, já que as oferendas ficariam concentradas naquela área”. 

Para o interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, Ivanir dos Santos, a elaboração do Decálogo em um espaço público não pode ser proibido porque o estado é laico: 

“O governo não vai deixar um retrocesso acontecer em uma política que apoia o combate a intolerância religiosa”.





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