sábado, 22 de março de 2014

Papa denuncia 'dinheiro sangrento' e pede que mafiosos se convertam

O Papa Francisco denunciou nesta sexta-feira o "poder e o dinheiro sangrentos" dos mafiosos, pedindo que "mudem de vida, parem de fazer o mal e se convertam", durante uma cerimônia em memória das vítimas do crime organizado em Roma.

Dirigindo-se aos "homens e mulheres da máfia", o Papa criticou o "dinheiro sangrento, o poder sangrento", e advertiu: "Você não pode levar este poder sangrento com você na outra vida. Ainda há tempo para não acabar no inferno".

Esta declaração lembra o apelo de João Paulo II em Agrigento (Sicília), em 1993, quando o Papa polonês pediu aos mafiosos para se converterem. Na cerimônia, organizada pela Associação Católica anti-máfia Libera, uma lista de 842 nomes de vítimas da máfia italiana foi lida diante do Papa, que ouviu com expressão séria, de cabeça baixa.

Com sua presença na pequena igreja de San Gregorio VII, localizada do outro lado dos muros do Vaticano, o Papa quis mostrar como esta causa é das mais importantes para ele. Francisco confortou os participantes, vindos de toda a Itália, e agradeceu "por não se fecharem para o mundo e contarem suas histórias de sofrimento e de esperança".

"Cerca de 70% das famílias das vítimas não sabem a verdade ou só a conhecem em parte", lembrou Don Luigi Ciotti, fundador da Libera. Don Ciotti prestou homenagem às crianças entre as vítimas, ressaltando a presença de familiares de vítimas da América Latina. Ele citou as vítimas do "trabalho forçado", "das drogas", do "lixo tóxico", as vítimas abandonadas "no deserto e no mar" por traficantes.

Ele também citou todos "os mortos-vivos, que se esvaziam por dentro" pela chantagem da máfia. "Meus amigos, seus entes queridos estão vivos porque quem dá a vida pela justiça dá vida", exclamou. Elogiando o empenho de João Paulo II e Bento XVI, ele denunciou o "silêncio, as resistências, os excessos de cautela" de alguns homens da Igreja. Esta cerimônia antecede a XIX "Jornada da Memória e do Compromisso", organizada anualmente pela Libera.

A multidão aplaudiu calorosamente o Papa, quando ele chegou de carro à igreja. Don Ciotti, tomando-o pela mão, o conduziu para dentro da igreja. Alguns fiéis usavam camisetas com retratos das vítima; outros exibiam fotos e objetos que o Papa abençoou. A Libera luta ativamente contra organizações mafiosas e é especializada na conversão de bens confiscados.

A Igreja italiana tem duas faces: a do compromisso corajoso de muitos sacerdotes e fiéis contra a máfia, mas também a de ligações escusas, com vários líderes da máfia que frequentam igrejas e se gabam de suas benfeitorias. Fundos da máfia transitaram pelo Banco do Vaticano, o IOR, e investimentos duvidosos no mercado imobiliário do Vaticano são alvo de investigações.




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