sexta-feira, 11 de abril de 2014

A imprensa e a Igreja estão sempre ao lado dos golpistas – Por Por Geraldo Galindo*

Como parte das análises sobre o Golpe de 1964 no Brasil, que completa 50 anos em 2014, o secretário estadual de Comunicação do PCdoB, Geraldo Galindo, traz uma reflexão sobre o posicionamento comum adotado pela Igreja Católica e pela imprensa diante de regimes autoritários. 

No artigo reproduzido abaixo, Galindo chama atenção para o fato de as duas instituições terem apoiado não só a experiência brasileira de ditadura militar, mas também a de outros países. Confira:

A passagem dos 50 anos do golpe militar de 1964 tem proporcionado importantes debates sobre o período sombrio de uma violenta ditadura que atormentou nosso povo por longos 20 anos. A população brasileira deve estar atenta para que nunca mais na nossa história tenhamos de sofrer com perseguições e falta de liberdade promovidas por aqueles que cometem atrocidades em nome da ordem, da segurança e da "democracia".

Depois das manifestações de junho, quando a Rede Globo foi alvo dos protestos ("a verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura”) a emissora produziu uma nota que seria uma autocrítica em relação ao apoio incondicional que deu ao golpe durante duas décadas. 

Quando nos deparamos com as justificativas da Família Marinho para o "erro editorial de apoio", vemos na verdade uma reafirmação de apoio aos que romperam com a legalidade democrática, se repetindo o surrado discurso das ameaças que haveriam contra o país, como o risco da instalação de uma "república sindical". 

Vale lembrar que, com raríssimas exceções e a nota da Globo é enfática ao reconhecer, quase todos os grandes jornais, os mesmos que não cansam de repetir exaustivamente a "defesa da liberdade de expressão", não só apoiaram o golpe, mas foram base de sustentação do regime que exilava, torturava e matava.

Se a Globo agora reconhece que foi um erro o "apoio editorial", mas mantém a cantilena do risco comunista para justificar a posição naquele momento, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, na figura de seu presidente, o cardeal D. Raymundo Damasceno, vem a público afirmar que foi um "erro histórico" o apoio à tomada do poder pelos militares, do qual "setores da igreja fizeram parte." 

Assim, a CNBB não reconhece o apoio oficial que prestou aos militares e que apenas setores o fizeram. Como estamos num momento de luta pela restabelecimento da verdade é bom ver a declaração formal da CNBB três meses depois do 1º de Abril: 

"Transborda dos corações o mesmo sentimento de gratidão a Deus , pelo êxito incruento de uma revolução armada. Ao rendermos graças a Deus, que atendeu às orações de milhões de brasileiros e nos livrou do perigo comunista, agradecemos aos militares, que com graves riscos de suas vidas, se levantaram em nome dos sagrados interesses da nação, e gratos somos a quantos concorreram para libertarem-na do abismo iminente”. 

Não só a CNBB, mas a própria autoridade máxima da Igreja Católica, o papa Paulo VI se manifestou em favor da ditadura. E segundo Frei Beto, em entrevista publicada no UOL no dia 20 de Março, a igreja recebeu financiamento da CIA para promover as "Marchas da Família com Deus pela Liberdade" e tinha em seus quadros os delatores, aqueles sinistros personagens que faziam o serviço sujo de entregar os "suspeitos" que iriam ser torturados e assassinados.

Então, tanto não faz sentido a Globo dizer que foi "erro editorial", na verdade a família Marinho teve papel ativo na conspiração que resultou num regime discricionário, como é uma agressão aos fatos a Igreja atribuir a apenas uma parte dela o apoio a uma tirania. 

Mas, ao contrário da Globo, que apoiou abertamente a ditadura praticamente até seu final, a Igreja católica, especialmente depois do AI-5, quando percebeu que as violações passaram a atingir indiscriminadamente os que resistiam ao terror, incluindo parte do clero, passou a ter uma postura crítica e se transformou num dos principais protagonistas de apoio aos presos políticos. 

Muitos padres e bispos foram presos e torturados pela cruel repressão gerada a partir de um golpe apoiado pela santa Igreja, que estava segura de aquele acontecimento fora um atendimento de deus às orações dos cristãos. "Com o passar do tempo, a igreja foi percebendo seus excessos , seus desvios (da ditadura), então a Igreja se opôs", diz D. Raymundo.

Uma reflexão que devemos fazer neste momento é por qual razão, em todos os golpes militares, a grande imprensa e a Igreja Católica estão sempre ao lado dos golpistas. As duas instituições apoiaram duas das ditaduras mais sanguinárias da história da humanidade, as do Chile e da Argentina, sempre com o mesmo discurso da ameaça comunista. Em 2002, na Venezuela, a grande mídia e a Igreja Católica se associaram para promover um fracassado golpe militar contra o presidente Hugo Chaves e a ameaça desta feita era o "populismo".

Sempre há um motivo para defender os privilégios dos ricos e a não extensão de direitos aos trabalhadores e ao povo. Não podemos esquecer que na guerra civil espanhola (de 1939 a 1945) a Igreja Católica funcionou como um braço do fascismo contra os republicanos e foi base de sustentação de uma ditadura tão cruel quando duradoura, tendo feito vistas grossas até mesmo ao assassinato de padres, em meio a centenas de milhares de assassinatos políticos.

Aqui temos um fenômeno paradoxal. A imprensa costuma afirmar com frequência que é defensora da liberdade de expressão, mas, quando necessário para atender seus interesses políticos e comerciais, não vacilam em apoiar e patrocinar golpes ditatoriais. A igreja católica, que não cansa de repetir sua a opção preferencial pelos pobres, em todas as polarizações políticas, quando estão em confronto as elites e o povo, ela fica sempre ao lado das classes dominantes. 

A propósito, o atual papa Francisco, contra o qual pesam acusações de ter sido omisso ou até mesmo de ter ajudado a ditadura argentina, se transformou na principal liderança da oposição no país quando lá foram tomadas medidas de reconstrução após a tragédia neoliberal imposta ao país pelos prepostos do FMI em conluio com a direita e imprensa argentinas.

Concluo deixando uma especulação. No Brasil, no Uruguai, na Bolívia, países vítimas da supressão das liberdades e de perseguições políticas em passado recente e onde experiências de governos populares e democráticos melhoram as condições de vida da turma debaixo da pirâmide social, não há ambiente para golpes militares na atualidade. E se condições houvessem, as elites desses países, associadas à grande imprensa e talvez ao clero, não já teriam feito o que fizeram em períodos anteriores em nome da "democracia, da família e liberdade"? 


(*) Geraldo Galindo é secretário estadual de Comunicação do PCdoB na Bahia





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